domingo, 26 de junho de 2011

OSVALDO VIANA 23-JUNHO-1909///25-JUNHO-2011


Capítulo 1










São Paulo/SP - Segunda-feira, 23 de maio de 1932

O povo de São Paulo, contente e motivado pelo fato de o interventor do Estado de São Paulo, Pedro Manuel de Toledo, ter nomeado seus próprios secretários sem a aprovação de Getúlio Vargas, iniciou uma marcha, em protesto cívico, rumo ao centro da cidade.

À multidão juntavam-se centenas de pessoas que exigiam, através do manifesto, a formação de um Estado de direito. O povo se São Paulo se sentia enganado e ultrajado pelo governo provisório, que já completava dois anos e não tinha promulgado uma Constituição Federal para o Brasil.

A manifestação seguiu até a rua Barão de Itapetininga, onde ficava situada, na esquina, a sede do Partido Popular Paulista (PPP), uma organização getulista criada a partir da fusão da “Legião Revolucionária” com o Partido Três de Outubro, que ajudaram Getúlio Vargas a assumir a Presidência da República na Revolução de 1930.

A reivindicação paulista, naquele protesto, era clara: Que Getúlio renunciasse e fosse promulgada uma Constituição.

A Força Pública de São Paulo policiava o acontecimento para garantir a ordem e a paz. No entanto, o tom áspero do vozerio da aglomeração de manifestantes utilizado contra os representantes da ditadura no Estado foi a gota d’água para que a situação entre os paulistas e a ditadura se tornasse, finalmente, insustentável.

Quando os manifestantes posicionaram uma escada na parede do edifício getulista para subir aos andares superiores, rajadas de metralhadora disparadas de dentro da sede do PPP atingiram as pessoas que tentavam escalar o prédio.

Em seguida, uma chuva de balas caiu sobre os manifestantes, que entraram em desespero. Ao todo, onze pessoas foram feridas, mas, entre elas, destacaram-se Euclides Bueno Miragaia, de 31 anos; Dráusio Marcondes de Souza, de 14 anos; e Antônio Américo Camargo de Andrade, de 30 anos; que morreram na hora, atingidos pelo tiroteio. Mário Martins de Almeida, de 31 anos, também foi gravemente ferido e faleceu ao ser encaminhado para o pronto-socorro da polícia central. Orlando de Oliveira Alvarenga, outro que fora baleado, morreria 81 dias depois, em 12 de agosto.

Era o início da saga Constitucionalista em São Paulo, cujo lábaro se tornaria as iniciais M.M.D.C., representando os nomes de Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo, os mártires da causa de redemocratização do Brasil.



Um herói da Força Pública

A Força Pública, que na época contava com 14 mil homens e fora instruída, no início de sua vida, pela Missão Militar Francesa, havia sido responsabilizada por algumas pessoas por abrir fogo contra a multidão. No entanto, para Oswaldo Diana, que era soldado da Força Pública de São Paulo em 1932 e completaria 23 anos no dia 23 de junho daquele ano, a história foi bem diferente.

Ele estava de sentinela na guarda do Batalhão Tobias de Aguiar, quartel-general da Força Pública, localizado no bairro da Luz, quando a notícia do tiroteio na Praça da República chegou aos seus ouvidos. “A Força Pública era uma corporação preparada para o policiamento e para a guerra, e eu estava na 1ª Companhia do Batalhão Tobias de Aguiar, o batalhão de elite, que era o que é a ROTA da Polícia Militar hoje em dia”, conta Oswaldo, com 99 anos de idade completos em 2008, após 76 anos do acontecimento. “A notícia veio envolvendo a Força Pública, mas, não foi a ela que abriu fogo contra a multidão. A corporação foi para policiar o manifesto. Depois, com investigações, ficamos sabendo que foi de dentro do prédio do PPP que surgiu o fogo. A Força Pública apenas revidou, e assim, os quatro rapazes, Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo, morreram.”

Oswaldo Diana tem três irmãos: Rafael Erasmo Diana, Antônio Diana e João Batista Diana. Eles são frutos do casamento do linotipista Laurindo Diana com Argentina Suplicy.

Oswaldo também teve dois filhos: Orivalda Argentina Diana e Paulo Arlindo Diana, frutos de seu único matrimônio com Oralda de Oliveira, com quem se casou em 1937. “Eu dizia para minha esposa que ela possuía três personalidades: ser minha companheira, minha esposa e minha mulher. Ela ficava toda orgulhosa”, brinca o veterano de 1932.

Ele nasceu no dia 23 de junho de 1909, na rua Tamandaré, nº 31, no bairro da Liberdade, na cidade de São Paulo. O ex-combatente também foi, até 2008, comandante do simbólico Exército Constitucionalista, que desfila nas paradas de 9 de julho na capital paulista.

Apesar de ser neto de italianos, Oswaldo também tem sangue árabe nas veias. “Meu avô veio para o Brasil, mas meu pai já era brasileiro e falava bem o português. Meu avô era descendente de sarracenos, porque a Península Itálica não era a Itália ainda quando foi invadida pelos árabes, então meu sangue tem um ‘bocadinho’ de sarraceno. Essas coisas a gente aprende depois de estudar”, diz ele com sobriedade, uma de suas características mais marcantes. “Naquela época havia muita discriminação contra o imigrante, principalmente o italiano, que era chamado de ‘carcamano’.”

Foi no Grupo Escolar São Joaquim, na Liberdade, que Oswaldo fez o curso primário. “Tive um curso primário muito adequado. Nós cantávamos, num pátio enorme, canções como hino à bandeira, hino às árvores, todos os tipos de hino, que a gente não vê hoje”, lamenta o veterano, que tinha um comportamento “barulhento” na escola, como ele mesmo define.

Ele lembra, com bom humor, da maneira com que a professora de português do curso primário, Amélia Perestrina da Silva, torcia sua orelha. “Aquela professora eu vou te falar...”, hesita Oswaldo. “Eu fui reprovado no 4º ano primário porque fazia graça e desvirtuava tudo. O comportamento pesava nas notas, e as minhas, como resultado, deram menos de zero”, relembra.

“Meu pai disse para minha mãe me matricular no 1º ano do ginásio (atual 5ª série) na escola dos irmãos Marista, na rua do Carmo. Lá, perguntaram se eu tinha o diploma do 4º ano do primário, mas não tinha, por isso, não me deixaram entrar. Mas, disseram para minha mãe me matricular na segunda época, e se eu fosse aprovado, iria direto para o 1º ginasial. O exame de segunda época era na marra. Ou você fazia direito, ou não fazia. Eu fui aprovado para o 1º ginasial sem diploma do 4º ano primário.”

Oswaldo era projetista mecânico e eletricista, e se aposentou em 1975. Apesar disso, estuda até hoje os livros sobre o tema. “Meu forte sempre foi português e matemática. Desfrutei do que eu me fiz”, brinca.



A carreira militar

Antes de seguir o caminho na Força Pública, Oswaldo trabalhou durante dois anos e meio no Consulado de Portugal em São Paulo. O cônsul, antes de estourar a Revolução Constitucionalista de 1932, era José Augusto de Magalhães. “Um diplomata e amigo dos funcionários. Ele foi como um segundo pai para mim”, acrescenta o veterano.

Órfão desde 1925, Oswaldo se alistou em 20 de fevereiro de 1932 na Força Pública de São Paulo e ingressou na carreira militar. No entanto, não foi tão simples. Pelos trâmites legais, ele teria de esperar três meses para poder ser admitido.

– Vá pedir uma indicação do doutor Magalhães para ser aceito antes – disse a Oswaldo um amigo, ao saber do desejo dele de se alistar e da burocracia existente para que pudesse fazer isto.

– Tenho vergonha de deixar o meu emprego assim – reagiu Oswaldo com timidez.

– Mas você consegue, fecha a cara e vai pedir o favor para ele! – a réplica foi insistente.

Oswaldo decidiu seguir o conselho.

No gabinete do Consulado, ele conversou com José Augusto Magalhães.

– Doutor Magalhães, o senhor poderia me recomendar ao general Miguel Costa (comandante geral e general honorário do Exército, que participou da Revolução de 1924 em São Paulo) para entrar na Força Pública?

– Eu tenho como amigo o Campos Castro, chefe do Estado-Maior – a resposta do cônsul foi otimista.

Com isso, escreveu o cônsul:



Caro amigo, coronel Campos Castro,



O portador deste, meu ex-empregado, está disposto a se filiar à Força Pública, na qual poderá se tornar grande elemento.



O jovem Oswaldo foi ao quartel-general e aguardou o atendimento. Já era um horário tardio quando um tenente entrou na sala de espera.

– Olha, garoto, volte aqui amanhã cedo – disse o oficial.

– Mas, senhor tenente, eu tenho uma carta com recomendação do cônsul” – insistiu Oswaldo.

– Venha amanhã cedo – ordenou o militar.

No dia seguinte, Oswaldo Diana foi recrutado na 1ª Companhia do Batalhão Tobias de Aguiar, a elite da Força Pública, e, em três dias, já estava fardado.

No final dos anos 1920 e no início da década de 1930, a cidade de São Paulo possuía uma população de cerca de 1 milhão de pessoas, portanto, era totalmente diferente da São Paulo dos tempos atuais, que conta com quase 20 milhões de habitantes e muita violência nas ruas. “Não utilizávamos armas para fazer policiamento naquele tempo”, conta Oswaldo, cujo primeiro serviço na Força Pública foi prender um homem louco.

“Estávamos em três elementos, dois recrutas – eu e mais um – e outro que já era praça antigo”, rememora o ex-soldado. “Entramos numa casa e perguntei para uma senhora onde estava o louco, ela disse que ele estava dentro de um dos quartos. Nós levávamos apenas a camisa de força e vestíamos os nossos arreios para mostrar que estávamos de serviço.”

– Deixa comigo! – exclamou o policial mais experiente do grupo, que escancarou a porta do quarto com um chute. Contudo, ao ver os olhos esbugalhados do insano que lá se escondia, o praça hesitou em prendê-lo.

– Você disse que podia deixar. Agora vai buscar o homem – disse Oswaldo ao companheiro. – Você começou tudo isso e agora não tem peito de fazer o serviço?

– Você não viu a cara dele? – respondeu o outro, assustado.

– Então deixa eu fazer – disse Oswaldo com firmeza.

Como ainda fumava, Oswaldo se aproximou do fora-da-lei e tentou acalmá-lo.

– Oi, batuta, como é que está o negócio?

– Ah, tudo bem – respondeu o louco.

– Você não quer um cigarrinho?

– Opa! Faz tanto tempo que eu não fumo.

Os dois começaram a conversar normalmente.

– Eu não sou louco – disse o homem.

– Pode vir conosco, ninguém vai te machucar e vamos sair daqui, porque a gente sabe que você não é louco – blefou.

“Nós tínhamos provas que ele tinha problemas mentais”, afirma Oswaldo.

Em pouco tempo, a questão foi resolvida. O acusado de insanidade fora conduzido à Delegacia Central, localizada no Pátio do Colégio. ”No quartel-general, nós avisamos na carceragem que chegaria o ‘fulano de tal’, que ‘não estava louco’, mas claro que já estava tudo combinado”, rememora Oswaldo.

O ex-combatente guarda até hoje a foto de sua turma de recrutas, que possuía elementos de vários batalhões, incluindo membros do Corpo de Bombeiros e da Força Pública de outros Estados.

Na mesma tropa havia um soldado da Força Pública do Paraná, que, segundo o veterano, veio para São Paulo para comer, beber e fazer arruaça, e o responsável pelo restaurante no qual os soldados comiam foi se queixar deste fato para o comandante. Foi então que o tenente deu uma ordem expressa para que Oswaldo e mais dois soldados levassem o paranaense até ele.

Assim que capturaram o bagunceiro, Oswaldo e seus companheiros tiveram que aprisioná-lo. “O paranaense não quis entrar no camburão e ficou dizendo que era covardia três homens agarrarem um só. Com isso, um companheiro nosso, que era alto e fumava um cachimbo e foi apelidado de ‘cachimbinho’, pegou o soldado do Paraná pelo cangote e pela calça e atirou ele feito um pacote dentro da caçamba”, sorri o veterano com a lembrança dos tempos de academia.

“Nos treinamentos, nós éramos ensinados a utilizar baioneta, fazíamos escaramuças no mato e trincheiras num grande terreno. Como eu já era reservista do Exército, já tinha noção de tiro de guerra e toda a instrução de campo”, explica ele. “Depois de três ou quatro meses de treinamento, nós estávamos formados como membros da Força Pública.”

Oswaldo jamais imaginou que, poucos meses depois, teria que utilizar todo o conhecimento e treinamento que adquirira no Exército e na polícia numa guerra em seu próprio país.



Na campanha Constitucionalista

São Paulo/SP – Domingo, 10 de julho de 1932

As tropas paulistas do Exército revoltoso da 2ª Região Militar, da Força Pública e dos Patriotas (voluntários estudantes universitários) desfilavam em marcha pelas ruas da capital do Estado em glória.

A população saudava os soldados constitucionalistas com entusiasmo, jogando flores das calçadas, janelas e sacadas de cada casa e rua por onde passavam os combatentes paulistas, que partiam para lutar pelo direito dos brasileiros contra a ditadura de Getúlio Vargas.

Na estação da Luz, os soldados se enfileiravam para aguardar o trem que os levaria para as diversas frentes nas fronteiras do Estado. Entre os combatentes estava Oswaldo Diana, já com 23 anos de idade, utilizando, como todos os outros, uniforme de cor parda, botas de cano longo pretas, portando um capacete de aço modelo italiano e fuzil com baioneta modelo 1908 brasileiro, mas de fabricação alemã.

Enquanto aguardava a definição de seu destino, Oswaldo ouviu o discurso emocionado de um dos capitães do movimento Constitucionalista.

– Ontem nós éramos regalistas (pessoa que tem regalias ou que as defende), hoje somos revolucionários! – exaltou-se o oficial. – Carreguem o trem! O destino vocês já sabem qual é!

Com entusiasmo, os soldados começaram a colocar suprimentos e equipamentos dentro dos vagões enquanto entoavam uma alegre cantiga de batalha, que também era empregada nas rodas mais rumorosas do folclore infantil da época. A “Quebra, quebra, Gabiroba”.



Quebra, quebra,

Gabiroba,

Eu quero ver quebrar,

Quebra lá,

Quebra cá,

Quero ver quebrar!



Antes de sair da casa da família, o irmão de Oswaldo ficou preocupado com o eclodir da Revolução.

– O que você vai fazer agora, Oswaldo? – perguntou Rafael Diana, o “Filito”, apelido pelo qual era tratado pelo irmão.

– Olha, Filito, você fica responsável pelo meu dinheiro. Eu te dou a procuração, você pega o dinheiro e aplica na Caixa Econômica. Se eu morrer, o dinheiro é seu e acabou – respondeu o veterano.



Oswaldo, que já era militar, tinha direito a um soldo da Força Pública, mas não podia recebê-lo em campanha. “Minha família percebeu que eu estava fardado, ia lutar e acabou”, diz Oswaldo com convicção. “A minha fé era mental. Seja o que Deus quiser! Eu tinha um compromisso. Isso é formação do meu caráter. Eu não queria ser um valente, queria defender São Paulo. Tem que ter peito para enfrentar a bala.”

São Paulo se encontrava em frágil situação econômica em razão do crack da bolsa de valores de Nova York em 1929, que arruinou a base das finanças do Estado: a indústria do café. No entanto, segundo o veterano, esta dificuldade não impedia os paulistas de se levantar contra a ditadura. “Getúlio mandou queimar montanhas de café, mas não estávamos vivendo um período de miséria. São Paulo era chamado de ‘locomotiva que puxava 20 vagões vazios’, porque todas as indústrias estavam em território paulista. Apesar de ter sido uma fase difícil, existia serviço para todo mundo. Talvez fosse um período de renovação, porque para encontrar pessoal habilitado para as novas profissões era muito complicado.”

“Getúlio Vargas me decepcionou. Na Revolução de 1930 nós saímos às ruas gritando o nome dele, e depois ele falseou com São Paulo”, lamenta Oswaldo. “Ele também mandou queimar a bandeira paulista, mas, para não ser falado, queimou primeiro a do Rio Grande do Sul, a terra dele.”

O batalhão de Oswaldo deixou a capital de trem na manhã de 10 de julho e foi designado para a frente leste da batalha, no Vale do Paraíba. A 1ª Companhia do Batalhão Tobias de Aguiar desembarcou em Mogi das Cruzes, onde ficou acantonada durante dois dias, inclusive passando uma noite ao relento, sem fazer trincheira. “Na minha opinião, só perdemos tempo lá”, diz Oswaldo. Em seguida, o pelotão seguiu para Cachoeira Paulista pela antiga estrada de ferro Central do Brasil, e então avançou pela estrada São Paulo-Rio. “Naquele tempo, ela era toda de terra”, conta o ex-combatente.

O grupo passou uma noite na estrada, no entanto, ninguém possuía barraca e o tempo estava ruim. “De noite caiu uma ‘senhora’ chuva”, afirma Oswaldo. “Eu acabei dormindo com toda a roupa molhada e sentado sobre um caixote de munição. O uniforme que estava na mochila também ficou todo molhado, mas, no dia seguinte, o sol veio e aproveitamos para enxugar nossa roupa e espremê-la.”

Seguindo pela estrada, a 1ª Companhia chegou à cidade de Areias, onde passou outra noite. Enquanto isso, a coluna de Oswaldo Aranha, enviado especial de Getúlio Vargas para impedir a Revolução, atacava a guarnição paulista na cidade de Cunha. No entanto, os constitucionalistas, que possuíam, entre outros comandantes, o tenente Nabor, resistiram numa batalha de metralhadora e não permitiram que as forças ditatoriais entrassem em Cunha. Depois de ajudar a vencer o inimigo, o tenente Nabor foi transferido para ser o comandante do batalhão de Oswaldo Diana.

Após deixar Areias, o grupo de Oswaldo chegou ao alto do Morro do Passa Vinte, onde armou, durante a noite, um acampamento próximo à estação ferroviária de Engenheiro Bianor. O tenente se dirigiu a Oswaldo, que ficaria de sentinela naquela noite, enquanto a tropa descansaria.

– Você vai começar a vigília às 23 horas, Diana – disse o comandante. – Na nossa frente só tem o inimigo, de modo que qualquer um que surgir você passe fogo!

Assim que o batalhão adormeceu, por volta das 23:30 horas, uma silhueta surgiu subindo a montanha. Oswaldo deu um salto de prontidão e apontou o fuzil para o estranho.

– Se você abrir a boca, eu te passo fogo! Quem é você? – perguntou o veterano com firmeza.

– Não atire! – respondeu o intruso. – Eu sou o sargento Teixeira!

– Não, não venha com essa não! O sargento Teixeira está à nossa frente.

– Mas nós acabamos de recuar para cá!

Oswaldo percebeu que realmente se tratava de um soldado paulista. “Se eu tivesse cumprido rigorosamente a ordem do tenente, acabaria matando o camarada”, revela o veterano. “Cada um tem um temperamento.”

Foi no dia seguinte que, após escavar a trincheira, a Companhia da Força Pública entrou pela primeira vez em combate. “Nós estávamos numa montanha, e lá no vale ficava a estação ferroviária de Engenheiro Bianor, onde tivemos o nosso batismo de fogo”, diz o veterano. “Nós atirávamos e o inimigo respondia. Era possível ouvir o zumbido das balas passando bem perto. Chegamos a lutar a 100 metros de distância e não se via nada dos ‘cabeças chatas’.”

Durante a Revolução, muitos batalhões do Exército ditatorial eram compostos por nordestinos, principalmente da Força Pública, que eram chamados pelos paulistas de “cabeças chatas”. “Eles vieram lutar contra São Paulo dizendo que a ‘italianada’ se revoltou e que nós queríamos ficar independentes do Brasil. Nada disso! Paulista de coração é paulista de coração. Acontece que não existe conjunto melhor do que o nosso”, ressalta Oswaldo.

Depois de sofrer com o primeiro ataque, a tropa analisou os danos que sofrera. Nenhum homem fora ferido, contudo, a cozinha improvisada da trincheira havia sido atingida pela artilharia inimiga. Com isso, Oswaldo foi encarregado de buscar a “bóia” do batalhão. “Eu desci da montanha e peguei um monte de carne, arroz, feijão e uma mistura. Todo mundo comeu, menos eu, porque a comida estava muito engordurada e eu não gosto disso. Deixei o prato secando durante a noite e dormi. Quando acordei, os ossos do frango estavam aparecendo e a marmita estava cheia de formigas.”

Os dias turbulentos da Revolução passavam e o batalhão da Força Pública se deslocava incessantemente. Ele marchou até Queluz, (um dos fronts mais atacados pelo Exército do Rio de Janeiro), onde, de acordo com o veterano, não entrou em combate por ter chegado atrasado. “Do alto da montanha a gente via os federais de baioneta calada. Aí já não podíamos fazer mais nada.”

Na seqüência, a tropa recuou para Vila Queimada, onde entraria em combate novamente, mas, dessa vez, com baixas na esquadra. “Morreu o cabo Tapia, o Nelsão, que era fuzileiro e o sargento Capistrano, que tinha sido meu instrutor na escola de recrutas. O ‘Gaúcho’ levou um tiro na nuca quando o distraíram e ele se virou para perguntar ‘como é?’, mas felizmente não morreu”, narra Oswaldo consternado. “Depois eu perguntei para o ‘Gaúcho’, na Cruz Vermelha, o que havia sentido. Ele me disse que foi como tomar um soco na nuca.”

Após a batalha, o grupo marchou durante a noite inteira para o Morro dos Carrapatos, ainda em Vila Queimada. Além de abalados psicologicamente pela perda dos amigos naquele dia, Oswaldo e seus companheiros tiveram que inutilizar um canhão de 75 milímetros por falta de munição. “Tínhamos uma união tremenda. O que acontecia para um, também acontecia para o outro”, lembra emocionado o ex-combatente.

No Morro dos Carrapatos, que levava este nome devido à praga que proliferava com facilidade no matagal, um soldado ajudava o outro arrancando os insetos do corpo. Durante a madrugada, o tenente ordenou que fosse feita uma fogueira, que depois de um bom tempo apagou e o batalhão adormeceu, exceto Oswaldo, que percebeu uma luz piscando vinda da escuridão dos arredores. “Era uma lanterna transmitindo sinais em código Morse e, para a minha surpresa, havia duas delas, uma de cada lado do nosso acampamento, se comunicando. Ficamos entre dois fronts. Começamos a tomar tiro de metralhadora de todos os lados”, expõe o veterano. “Nós tivemos que sair rastejando, como jacarés, com os fuzis nas costas, conforme orientou o sargento, porque se alguém ficasse de pé levava bala. Eram instruções para recrutas.”

A Companhia de Oswaldo continuou por mais tempo em Vila Queimada e marchou até encontrar a estação ferroviária local que, àquela altura, já não recebia mais trens e estava deserta. Inesperadamente, o grupo escutou o barulho de aviões rasgando o céu e soube, no mesmo instante, que se tratava do inimigo, uma vez que não podia ser a aviação paulista, que contava com uma esquadrilha mínima depois que grande parte dos aviões foram destruídos ainda em terra, no Campo de Marte, na capital do Estado.

No porão da estação de Vila Queimada os constitucionalistas se esconderam de um bombardeio. “O lugar tinha, mais ou menos, uns 70 centímetros de altura, e a gente se escondia lá quando precisava. Teve um soldado que me viu abrigado e falou ‘não sabia que a Força Pública era tão corajosa’. Numa outra tarde eu encontrei o mesmo sujeito agachado no porão. Ele ironizou a Força Pública, mas depois fez o mesmo que eu”, ri o ex-combatente com a situação constrangedora.

“Havia um avião do Rio de Janeiro todo pintado de verde, que soltava três bombas de cerca de 75 quilos de cada vez”, Oswaldo rememora o bombardeio. “Ah, quando elas vinham chiando você tinha que se jogar no chão aonde quer que estivesse, porque não sabia em qual lugar cairiam.”

Quando os aviões inimigos deram uma trégua nos ataques, os soldados recuaram para Lavrinhas, outro município do Vale do Paraíba, no leste do Estado de São Paulo. “De acordo com a movimentação da tropa a gente sabia que São Paulo estava perdendo a guerra. As informações chegavam por telégrafo, então o telegrafista transmitia as informações para o comandante da tropa. Por isso, algumas coisas íntimas sobre a Revolução a gente nem ficava sabendo”, diz Oswaldo.

Na chegada à Lavrinhas, a tropa se deparou com um rio, cujo leito era forrado por pedras, sendo que algumas maiores se sobressaíam e ficavam acima do nível da água, o que permitia que os constitucionalistas as usassem como caminho para atravessar para o outro lado.

– Nós vamos atravessar o rio na frente e mostrar o caminho para que vocês nos sigam – disse o sargento Mendes ao resto da Companhia.

De um e um, os soldados pulavam de pedra em pedra e chegavam secos ao outro lado. À frente de Oswaldo, o soldado Barreto, seu grande amigo, estava atravessando o rio quando pulou em falso, escorregou e caiu dentro da água bravia. O recruta já estava com mais de meio corpo dentro do rio no momento em que Oswaldo se aproximou.

– Barreto, segure-se que eu vou te ajudar! – disse o veterano.

– Pelo amor de Deus! – exclamou o soldado engolindo água.

Oswaldo pulou na pedra na qual Barreto havia escorregado e estendeu o braço para o amigo. “O rio tinha três ou quatro metros de profundidade e o Barreto estava carregando uma muamba tremenda, puxa vida!”, afirma o ex-soldado. “Mesmo com todo o meu armamento, eu o segurei e o puxei de volta. Depois o Barreto saiu pregando para todo mundo que eu salvei a vida dele.”

Após o incidente, o pelotão permaneceu em Lavrinhas e fez a trincheira. Pela manhã, os soldados foram tomar banho no Ribeirão Vermelho e um pequeno contingente de sentinelas ficou de prontidão para evitar uma eventual surpresa do inimigo. O recruta Giffoni, que ficara de vigia à frente do grupo, começou a fazer sinais de alerta para os que se banhavam no rio, mas ninguém lhe deu atenção, exceto Oswaldo.

– Sargento Mendes, inimigo à vista! – gritou o veterano.

No mesmo instante, todos saíram do ribeirão e entraram nus na trincheira quando começou um ataque inimigo. Mesmo pelados, os paulistas resistiram ao assalto. “O combate foi difícil, porque a gente tinha que atirar numa frente móvel, sem saber a distância exata do inimigo e o que estava acontecendo com os outros pelotões”, revela o Oswaldo. “Graças a Deus, nunca vi se abati algum homem, porque se fica impressionado.”

Mais de dois meses já tinham passado quando o batalhão de Oswaldo foi obrigado a recuar novamente. Desta vez, eles pegaram o trem para Guaratinguetá, deixando Lavrinhas.

Dentro do vagão, todos os soldados observavam das janelas as montanhas do Vale do Paraíba com uma expressão desoladora. Entretanto, um combatente, claramente perturbado, permaneceu com os olhos fixos, sem piscar, na boca do recruta Giffoni, que chupava uma bala.

– Me dá uma bala – disse o combatente.

Giffoni percebera que o companheiro perdera a sanidade devido ao que vira durante dois meses no campo de batalha.

– Não tenho mais, eu só tinha essa – rebateu Giffoni.

– Ou você me dá uma bala, ou eu te dou uma bala! – vociferou o soldado que ficara louco, antes de puxar uma pistola e apertar o gatilho contra o colega.

O disparo do projétil quebrou o silêncio reinante no vagão e, depois de atingir a clavícula do cabo Tavares, acertou a testa de Giffoni, que morreu na hora. No mesmo instante, vários constitucionalistas pularam sobre o agressor e retiraram sua arma. Porém, tarde demais. “Foi a única baixa do nosso pelotão na retirada”, rememora Oswaldo.

No desembarque em Guaratinguetá, os murmúrios entre os oficiais davam a entender que a situação para os paulistas era irreversível. “Em Guaratinguetá a gente já considerava a batalha perdida. A notícia corre logo. A conversa entre os sargentos e tenentes dava a entender tudo”, afirma Oswaldo.

Foi também em Guaratinguetá que o veterano teve seu capacete de aço roubado. Contudo, foi naquela cidade que Oswaldo tirou uma foto, coisa rara na época, ao lado de seu amigo Marcondes, no dia 15 de setembro de 1932. “Lá me chamavam pelo sobrenome, então meu amigo perguntou: ‘Diana, vamos tirar uma fotografia de lembrança?’. Nós tiramos a primeira fotografia de barba, mas, no dia seguinte, fomos ao barbeiro e a raspamos Depois tiramos outra fotografia.”

Com a situação cada vez pior para os paulistas, os batalhões não paravam de ser deslocados para reforçar as linhas que haviam tido as maiores baixas. Foi então que o grupo de Oswaldo retornou à capital do Estado para que pudesse ser transferido para outro front.

Pressentindo o pior, o veterano voltou para casa ao chegar a São Paulo e deu uma pistola para o irmão.

– Filito, agora nós vamos para outra frente e não sei o que vai acontecer. Se houver qualquer “porcaria” aqui na cidade, você fica com essa arma e luta! – disse Oswaldo a Rafael.

“Minha família sabia que eu era disciplinado e não ia desertar. De jeito nenhum! Um desertor em tempo de guerra pode sofrer muito, e o meu pelotão, modéstia parte, era de homens mesmo, que sabiam o que ia fazer. Ninguém pensava em desertar”, ressalta o ex-constitucionalista. “Numa tropa é preciso ter disciplina, e muita gente não sabe o que é isso.”

Foi assim que o veterano foi deslocado para a fronteira oeste do Estado de São Paulo, na região de Campinas, entre Amparo, Itatiba e Morungaba. Os boatos sobre uma rendição paulista circulavam entre os próprios soldados, que já sabiam o que estava para acontecer àquela altura.

No oeste do estado, Oswaldo ficou acantonado na Fazenda do Brumado, pois as tropas da ditadura já haviam queimado a ponte de madeira do rio Jaguari. “Ficamos sobre uma montanha e a sede da fazenda era na planície”, conta o veterano. “A Revolução tinha praticamente acabado, mas nós tínhamos que enfrentar o exército inimigo, porque ele continuava ali e nós poderíamos ser aprisionados de qualquer maneira.”

Na fazenda, os paulistas se surpreenderam com a munição fornecida pelo Governo do Estado. Depois de o sargento distribuir os “cunhetes” (caixotes de munição), Oswaldo colocou o cartucho no fuzil, mas, na hora de puxar a trava da arma para carregá-la, o diâmetro da bala era maior do que devia, o que fez o rifle encrencar. Logo, todos os soldados perceberam que haviam recebido munição com diâmetro maior do que o do cano das armas.

A partir daí, eles teriam que se virar apenas com a baioneta, o que para o alívio de todos, não chegou a acontecer. “Não lutamos com baioneta, graças a Deus, porque ou você vai morrer, ou vai se tornar um assassino”, agradece Oswaldo. “Em Campinas não tivemos combates, apenas localização.”

No dia 2 de outubro de 1932, o Estado de São Paulo assinou o armistício com o Governo Federal e colocou um fim aos quase três meses da Revolução Constitucionalista. Segundo Oswaldo, os paulistas não perderam a Revolução. “Existe uma diferença enorme entre derrota e armistício. São Paulo assinou um acordo e as tropas voltaram tranqüilamente com todo os armamentos para suas unidades.”

Após o fim da jornada Constitucionalista, Oswaldo analisa com calma o resultado da empreitada paulista em 1932. “Emocionadamente, São Paulo se levantou em 1932, e depois de tudo, eu fiquei mais paulista do que já era. Eu sempre vi muito entusiasmo dos paulistas, sempre”, reitera.

“Intimamente, eu penso que Getúlio foi morto em 1954, porque ele tinha problemas com o tal de Carlos Lacerda (jornalista que teria sido o “pivô” do suposto suicídio de Vargas)”, continua o ex-soldado. “Getúlio se assustou com o civismo dos paulistas. Naturalmente isso mexeu com a cabeça dele, porque se São Paulo se revoltou em 1924 e em 1932, poderia se revoltar de novo, então a promulgação da Constituição de 1934 foi forçada pela campanha paulista. Por isso, São Paulo foi vitorioso.”



Depois da Revolução

Após a assinatura do armistício, Getúlio Vargas colocou um interventor do Exército para controlar a Força Pública de São Paulo. Oswaldo Diana continuou na corporação, mas como escrivão. “Modéstia parte, eu era uma ‘metralhadora’ como datilógrafo.”

Com o final da Revolução Constitucionalista, muitos membros da Força Pública morreram e deixaram o cargo livre, como foi o caso de um dos amanuenses (escrivão) do departamento. Dessa maneira, “Luizinho”, um dos amigos de Oswaldo, recomendou que ele se matriculasse no próximo concurso para escrivão. No entanto, a Força Pública requisitava candidatos que fossem sargentos, por isso, o concurso fracassou, uma vez que não previa aumento de salário.

Por outro lado, também surgiu a possibilidade de Oswaldo fazer o boletim diário na secretaria do batalhão, onde o sargento responsável pelo trabalho, ou morreu, ou foi transferido.

Recomendado por “Luizinho”, Oswaldo Diana começou a escriturar livros no batalhão. Na época, ele estava no 1º ano do que seria o ensino médio atual.

Outra oportunidade surgiu quando o datilógrafo do tenente Carneiro, do mesmo batalhão, foi para o interior. Oswaldo, que estava na 3ª Companhia, foi ser o novo escrivão do oficial, apesar de ser soldado raso e todos os amanuenses serem, obrigatoriamente, 3º, 2º ou 1º sargentos. “Eu tinha a intenção de fazer carreira, então todos os sargentos falaram para o tenente me escalar como datilógrafo, e ele aceitou”, diz Oswaldo.

Depois de ser transferido para o quartel-general, na primeira sessão do Estado-Maior, o veterano prestou concurso na escola de radiotelegrafistas e foi aprovado em 6º lugar. “Quem me substituiu no batalhão foi um tenente chamado René da Silva Velho.”

Os anos passaram e Oswaldo reencontrou o recruta Marcondes, ao lado de quem tirara a foto em Guaratinguetá, durante a Revolução. O amigo apresentou uma de suas irmãs a ele, Lourdes, filha do doutor Rangel Marcondes. Oswaldo passou a compor algumas músicas com a garota, já que ela tocava piano e ele cantava. “Eu cantava muito bem, abria o peito, e todas as músicas novas eu levava para ela conhecer”, conta o ex-combatente. “Com isso, cresceu um ‘bichinho que rói o coração’, mas ela não tinha interesse em mim. Achei que era porque eu era soldado.”

Aproveitando-se do fato de possuir dois empregos, Oswaldo pediu baixa do serviço militar e foi pedir a mão de Lourdes em casamento. “Mas, ela já estava comprometida. Perdi o emprego e a mulher”, revela. “As coisas não são como nós queremos, mas sim como devem ser. No final das contas, a Lourdes casou-se em 1936 e eu, em 1937.”

Marcondes, o amigo de Oswaldo, se casou com uma outra mulher com o mesmo sobrenome, porém, de outra família. “Marcondes” era um dos mais importantes sobrenomes em Guaratinguetá.

A partir daí, Oswaldo passou a viver do conceito de rádio. Ele também trabalhou na São Paulo Railway, uma das maiores empresas de estradas de ferro do Estado.

Já no final dos anos 1990, Oswaldo, que precisava comprar material de construção para uma casa que possuía em Ubatuba, decidiu buscar em Taubaté os acessórios para a reforma, uma vez que não os encontrou na cidade em que morava.

Ao consultar a lista telefônica enquanto fazia uma pesquisa de lojas de material de construção, o ex-combatente achou, por acidente, o telefone e o endereço do tenente Nabor, o mesmo que havia sido seu comandante e havia derrotado Oswaldo Aranha na batalha em Cunha. “Decidi fazer-lhe uma visita.”

Ao chegar ao endereço encontrado, o veterano foi atendido por uma mulher, que chamou, em seguida, o ex-comandante constitucionalista, tenente Nabor.

– Senhor comandante, eu vim a Taubaté para comprar material de construção e aproveitei para vir aqui depois de achar o seu nome numa lista telefônica – disse Oswaldo contente ao oficial reformado.

Os dois amigos passaram a tarde inteira recordando passagens da época da Revolução. No entanto, Nabor se mostrou desconfiado com a presença do companheiro dos tempos de trincheira.

– Afinal de contas, qual é o seu objetivo ao vir aqui? – perguntou Nabor estranhamente.

– Comandante, meu objetivo é te dar um abraço. O senhor foi meu tenente naquele grupo que esteve em Queluz. Nós saímos de Queluz, o nosso vagão ficou parado, o senhor não deu licença para o trem partir. Depois houve aquele problema do camarada que ficou louco e matou o Giffoni.

– Puxa vida – Nabor percebeu que cometera uma injustiça. – O senhor é o único que vem aqui para me dar um abraço. Todo mundo que aparece na minha porta é para buscar “qualquer coisa”, para pedir favor.

– Cada um tem a sua formação moral, comandante. Eu não sou assim – sorriu Oswaldo.



Mediunidade

Oswaldo Diana é espírita e possui mediunidade há mais de 70 anos. Ele estudou o evangelho dentro do Kardecismo (de Allan Kardec) e, desde 1957, estuda o esoterismo. “No esoterismo se procura desenvolver a mente. Eu trabalhava num centro espírita, e de manhã sentia as minhas vibrações, então eu mandei proteção para todos os meus conhecidos que já faleceram”, narra Oswaldo com temperança. “À noite dormi no centro e um companheiro veio a mim para dizer que eu havia mandado um grande presente para ele. Ele estava orando quando recebeu a minha ‘transmissão’ de pensamento.”

Contudo, segundo o ex-soldado, um outro amigo não foi capaz de receber a mensagem mediúnica. “Não recebeu porque ele é como um ‘rádio desligado’. A onda passou, mas ele não estava sintonizado”, diz. “Se eu mandar um telegrama mental para alguém e esse alguém estiver ‘sintonizado’, eu recebo.”

Hoje, com quase um século de vida, Oswaldo sabe que existe um porquê de ele ainda estar vivo. “É na hora certa que se vai descobrir tudo isto. Graças a Deus aconteceram muitas coisas boas pelas minhas mãos, e não é com vaidade que eu faço isto, mas sim com glória, porque é uma alegria poder ajudar um indivíduo que precisa, fornecendo o medicamento e depois saber que você cumpriu a sua missão”, afirma. “Não é para dizer ‘eu fiz isso, eu fiz aquilo’, porque o médium não é ninguém, ele é o sifão. A ordem do espaço vem, passa pelo sifão e vai embora, por isso o nome é ‘médium’, ele é o intermediário.”

De acordo com o veterano, a Terra é um planeta de expiação. “A Terra é milhares de vezes menor do que Júpiter, então imagine o nosso tamanho. Nós não somos nada.”

Oswaldo também acredita na reencarnação. “O Pai maior diz para a pessoa: ‘Você vai reencarnar agora’, e o sujeito pergunta: ‘Eu, sozinho?’. E Ele responde: ‘Sim, você sozinho, mas terá ajuda externa de todo o jeito. Para ajudar, leve com você este talão de cheques e use-o como quiser’”, narra o ex-combatente. “Aqueles que não sabem usá-lo voltam para Deus e falam: ‘Pai, o talão acabou, você pode me dar outro?’. Se você não o usou como devia, então deve se arrepender.”



Hino da Força Pública do Estado de São Paulo (atual Polícia Militar)

Letra: Guilherme de Almeida

Música: Maj Músico PM

Alcides Jácomo Degobbi

Sentido! Frente, ordinário, marcha!

Feijó conclama, Tobias manda

E, na distância, desfila a marcha

- Nova cruzada, nova demanda:

Um só por todos, todos por um

Dos cento e trinta de trinta e um:

Legião de idealistas

Feijó e Tobias

Legaram-na aos seus,

Tornando-os vigias

Da Lei, e Paulistas:

"Por mercê de Deus"

Hel los que parte, na paz, na guerra

- Brasil Império, Brasil República -

Seus passos deixam, fundo na terra

Rastros e raízes, é a Força Pública

Multiplicando por mil e um

Os cento e trinta de trinta e um

Legião de idealistas

Feijó e Tobias

Legaram-na aos seus,

Tornando-os vigias

Da Lei, e Paulistas:

"Por mercê de Deus"

Missão cumprida em Campos das Palmas

Laguna, heroísmo na "retirada"

Glórias em Canudos, e de armas em almas,

Ao nosso Julho da clarinada

Sobre as arcadas vêm um a um

Os cento e trinta de trinta e um

Legião de Idealistas

Feijó e Tobias

Legaram-na aos seus,

Tornando-os vigias

Da Lei, e Paulistas

"Por mercê de Deus"


Nome completo?


Oswaldo Diana: Oswaldo Diana.



Data de nascimento?

Oswaldo: Eu sou neto de italianos, nasci em São Paulo. Meu avô é que veio para cá da Itália, e meu pai já era brasileiro. Eu nasci no dia 23 de junho de 1909. Vou completar 99 anos no mês que vem.



Como o senhor se envolveu com a Revolução?

Oswaldo: Bom, eu me envolvi com a Revolução porque eu me alistei no dia 20 de fevereiro de 1932 com a intenção de seguir carreira militar e a Revolução se deu no dia 9 de julho, cinco depois e eu já estava alistado na Força Pública, no Batalhão Tobias de Aguiar, na 1ª Companhia, nº 161.



Em qual frente você lutou?

Oswaldo: Começamos no Vale do Paraíba, agora se você quiser eu te digo todas as posições, eu te digo quando a gente saiu do quartel. A Revolução arrebentou no dia 9 de julho e o Batalhão partiu no dia 10. Nós partimos para a frente pela manhã, quando desembarcamos. Fomos para Mogi das Cruzes. Lá ficamos acantonados durante dois dias, na minha opinião, perdendo tempo. Depois nós deixamos Mogi das Cruzes de trem e partimos para Cachoeira Paulista, na antiga estrada de ferro Central do Brasil. Aí entramos para o caminho São Paulo-Rio, naquele tempo era tudo de terra né. Paramos na cidade de Areias, que fica bem na estrada, ali perdemos mais um dia, dormimos em Areias. Aí, no dia seguinte nós fomos para o mato. No mato fizemos a trincheira e à noite foi que nós fomos ter um combate. Nós estávamos numa montanha e lá no vale era a estação Ferroviária de Engenheiro Bianor. Engenheiro Bianor foi o primeiro combate, na minha opinião foi um batismo de fogo. Você fica atirando e o inimigo responde, você ouve o zumbido da bala “Tzum”, “Tzum”, “Tzum”. Do nosso grupo, morreu um que depois eu vou lhe contar como ele morreu.

Do jeito que nós estávamos lutando eu tenho a impressão que o comandante nosso fez do nosso pelotão um “volante”. Onde a coisa estava mais segura “Vão vocês para lá”, e a gente saía dali e ia para outra posição e assim foi. Agora na chegada em Areias depois desse combate nós fomos para o Morro de Passa Vinte, uma montanha fechada no leste e depois a outra que ia ser... onde foi... Vila Queimada! Já tínhamos nos retirado de Areias e demos uma recuada para Vila Queimada. Depois de Vila Queimada nós fomos para Lavrinhas, numa estação mais próxima. De Lavrinhas viemos para Guaratinguetá. Nessa conversa já se passaram dois meses e tanto. Em Guaratinguetá a gente já considerava perdida a batalha. Quando chegamos em São Paulo nós fomos destacados para a frente Oeste, na região de Campinas, mas entre Amparo, Itatiba, Morungaba e ficamos acantonados na fazenda de... puxa vida, tem horas que me foge a memória... Fazenda do Brumado, ficamos sobre a montanha lá em cima. A sede da fazenda era embaixo. Aí já estava no fim.



De que estado era o seu batalhão inimigo?

Oswaldo: Do inimigo? Ah, não sei, filho.





Foi na frente do Rio de Janeiro no Vale do Paraíba?

Oswaldo: É, mas ali... Eu fiquei sabendo... A nossa tropa ficou sabendo de outros batalhões, porque tinham elementos no nosso batalhão que já eram Major ou Tenente-Coronel, o Virgílio. Eu tinha amigos da coluna de Osvaldo Aranha, ele queria entrar pela cidade de Cunha, então ali ficou uma briga de metralhadora. E quem comandava a nossa força na região de Cunha foi um oficial que depois veio a ser o meu comandante, da nossa coluna. Então ali estava Osvaldo Aranha e o tenente Nabor que enfrentou Osvaldo Aranha e não permitiu que ele entrasse em Cunha. Aí viram que Osvaldo Aranha fracassou, o comando tirou o tenente Nabor de seu lugar e então ele veio lutar e comandar o nosso batalhão. Agora o nosso batalhão depois de Areias foi para Queluz, mas não entramos em Combate em Queluz, porque chegamos atrasados, o pelotão chegou atrasado. Do alto da montanha a gente via os federais de baioneta calada. Aí você vai fazer o quê contra baioneta calada? Agora um que morreu em Vila Queimada era do nosso pelotão. Morreu o cabo Tapia, morreu o Nelsão que era o fuzileiro, o Gaúcho levou um tiro na nuca, porque desviaram a atenção dele, e ele disse “Como é?”, quando ele virou a cabeça a bala veio, pegou só a pele. Eu conversei com ele na Cruz Vermelha e perguntei: “Gaúcho, o que você sentiu?”, ele respondeu: “O que eu senti? É como se eu tivesse levado um soco na nuca”.

Ah! E o que morreu, o Giffoni, ele morreu dentro do vagão de retirada, porque um dos nossos colegas ficou maluco, perdeu a noção e o Giffoni estava chupando uma bala e o maluco disse: “Ô me dá uma bala!”, aí o Giffoni disse: “Não tenho, é só essa”, aí o maluco: “Ou você me dá uma bala, ou eu te dou uma bala!” e “PAM!”, pegou o tiro na clavícula do cabo Tavares e foi pegar a testa do Giffoni. Foi a única baixa do nosso pelotão.

Em Campinas não tivemos combate, só localização. Na fazenda do Brumado... Agora se você quiser os pormenores do que eu assisti, eu posso lhe dizer... Se eu fosse um indivíduo medroso eu teria matado um companheiro... Nós estávamos no alto da montanha e o nosso pelotão era o único que estava na frente... veio o tenente e disse que eu ia ser o sentinela, eu ia entrar às 11 horas da noite. Aí ele disse: “Escuta, na frente só tem o inimigo, de modo que quem surgir você passa fogo!”. Eu fiquei de sentinela lá à noite. Nisso, de repente, lá pelas 23:30h, meia-noite, veio subindo um indivíduo. Aí eu dei um salto, como se diz “de tigre” (encenando com as mãos com firmeza) e coloquei o fuzil na cara dele. Eu disse: “Se você abrir a boca eu te passo fogo! Quem é você?”, eu estava com medo, de repente assim, no escuro, numa montanha. Ele respondeu: “Não, eu sou o sargento Teixeira!”, eu falei: “Não, não vem com essa não, o sargento Teixeira está na frente!”, ele disse: “Não, mas nós já recuamos para cá!”, e eu não sabia disso. Se eu cumprisse rigorosamente a ordem do tenente eu matava o camarada. Cada um tem um temperamento.

Agora, de lá nós descemos e foi quando nós fomos para Queluz. De Queluz viemos vindo... Eu era soldado, não podia conhecer muita coisa de estratégia e ... (barulho da rua fica insuportável)... Em Vila Queimada nós marchamos a noite inteirinha, o nosso pelotão marchou a noite inteirinha para chegar ao ponto exato. Era o Morro dos Carrapatos, lá tinha carrapato que eu vou te contar, então a gente catava os carrapatos do companheiro e o companheiro catava os da gente. Bom, nesse morro nós ficamos numa posição já de madrugada. E no vale havia uma casinha feita de barro, aí o tenente mandou fazer fogo. Quando escureceu eu vi uma lanterna piscando, código Morse, eu não tinha visto a lanterna, e perguntei: “O que é aquilo ali?”, me falaram que eram sinais Morse, aí eu olhei para o outro lado e vi uma outra lanterna respondendo. Ficamos entre dois fronts, íamos levar tiro de todos os lados. Eu disse para um amigo: “Repara ali naquela escuridão tem uma lanterna piscando”, aí eu digo: “Agora tem outra ali piscando, são duas”, nós tivemos que sair engatinhando. Aí depois daquela fazenda só fomos para Vila Queimada mesmo, ali sofremos um ataque de aviação né. Havia um avião do Rio de Janeiro todo pintado de verde, era o “vermelhinho” (modo como eram chamados todos os aviões de guerra na época, independente da cor), eles soltavam três bombas de cada vez, cada uma pesava uns 75 quilos. Na hora que vinha ela vinha chiando “FZZZzzz”. Ah! Onde você estava você tinha que se afundar porque a gente não sabia onde a bala ia cair. E fora a bala de 75 quilos ele vinha com a metralhadora e eu estava naquela ocasião de guarda na estação da Vila Queimada, e o que nós fazíamos? Quando o avião passava para cá a gente ficava atrás da parede da estação, agora quando ele soltava a bomba de aviação, ah! Onde você estivesse você se jogava porque você não sabe onde ela vai cair.

A estação tinha um porão. O porão tinha, mais ou menos, uns 70 centímetros de altura, em que a gente se escondia quando precisava... Teve um soldado que me falou: “Ah! Você é da Força Pública, eu não sabia que a Força Pública era tão corajosa”. Bom, numa outra tarde, quando eu fui entrar no porão estava ele lá. Ele falou da Força Pública, e agora, o quê você me diz? (risos).

Agora, vamos dizer, emocionadamente, São Paulo se levantou... Analisando depois de tudo que aconteceu, olha, eu fiquei mais paulista do que já era, porque o entusiasmo... Se você quiser eu vou cantar um pouco a nossa, vamos dizer, “cantiga de batalha”. Quando vinha o comandante: “Carrega o caminhão! O destino você já sabe qual é”. Então eu começo: “Quebra, quebra, Gabiroba, eu quero ver quebrar, quebra lá, quebra cá, quero ver quebrar” (É o "Quebra, quebra, Gabiroba" uma das rodas mais alegres e rumorosas do nosso folclore infantil. Muito querida pelas crianças capixabas, não falta ela, em regra, nos folguedos de ronda. Cantam-na muito. Ver: http://www.estacaocapixaba.com.br/textos/folclore/gsn/roda/gabiroba.html).

Pergunta agora o que você deseja, filho.



Onde você estava no dia 23 de maio de 1932?

Oswaldo: No dia 23 de maio eu estava de sentinela, policiando a guarda do batalhão, de sentinela das armas. Então a notícia veio envolvendo a Força Pública. A Força Pública era uma tropa preparada para a guerra e preparada para policiamento. O que é a PM hoje, naquele tempo a gente tinha a parte de guerra. A Força Pública foi instruída no começo da sua vida pela Missão Militar Francesa. Sabia disso?

Então, o Exército Francês, um regime duro, como são os franceses, alemães, ingleses, enfim, os europeus estão acostumados com a guerra, porque vira e mexe tem guerra lá... Então, tivemos a instrução francesa e muitos estrangeiros eram sargentos e depois seguiram a carreira. Um dele foi o Tenente-Coronel Alfieri, Júlio Cezar Alfieri (provavelmente Francisco Júlio Cezar Alfieri, eleito prefeito do Município de Santana de Parnaíba ainda com status de Major, em 16/01/1931. Ver: http://www.santanadeparnaiba.sp.gov.br/gal_prefeitos/prefeitos.htm), ele, como era italiano foi convocado para ir à guerra de 1918 e não morreu. No exército italiano ele conseguiu uma promoção para oficial mesmo, e ele veio para cá como oficial da infantaria italiana. Júlio Cezar Alfieri.

Uma coisa que ninguém pensou: A Força Pública e o Exército da 2ª Região, ninguém pensou na arma mais perigosa, a 5ª Coluna na retaguarda. A Força Pública tinha 14 mil homens e assim todo mundo brigou direito. O sargento que foi meu instrutor na escola de recrutas morreu, era o sargento Capistrano.

E assim, no dia 23 de maio então foi assim: Sai uma turma de estudantes da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, porque você sabe, o povo quer barulho. Agora, precisamente eu não sei quantos eram, eles estavam pregando sobre a Constituição. Entraram pela rua. Aquele povaréu ali engrossa a coluna. Obviamente depois entraram Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo. Não foi a Força Pública que abriu fogo contra eles, a Força Pública foi para policiar o manifesto. Depois, com investigações, ficamos sabendo que, de um prédio no Largo do Arouche, foi de onde surgiu o fogo, e a Força Pública revidou, e assim os quatro rapazes morreram.

Foi assim, porque eu dei policiamento. O meu primeiro serviço na Força Pública foi prendes um louco furioso. Nós éramos três elementos: dois recrutas - eu e mais um outro, e um que já era Praça antigo. Aí eu perguntei para uma senhora: “Onde está o louco?”, ela disse: “Está nesse quarto aí”. Então o Praça antigo disse: “Deixa comigo!”, aí ele meteu o pé na porta e escancarou ela. Aí eu disse: “Agora você vai buscar o homem”, o louco estava com os olhos arregalados, enormes. Eu disse: “Você disse que podia deixar, então agora vai buscar o homem”. Nós não tínhamos armamento. Só levávamos a camisa de força e vestíamos os nossos arreios para mostrar que estávamos de serviço. Eu disse: “Você começou tudo isso e agora não tem peito de fazer o serviço?”, ele disse: “Não, você não viu a cara dele?”, aí eu falei: “Então você deixa pra mim”. Naquele tempo eu fumava, então eu fui falar com o louco. “Oi batuta, como é que vai o negócio?”, ele falou: “Ah, tudo bem”. Eu continuei: “Escuta, você não quer um cigarrinho?”, ele falou: “Opa, faz tanto tempo que eu não fumo”. Conversamos normalmente e começamos a fumar um cigarrinho. Ele disse: “Eu não sou louco”, mas nós tínhamos provas que ele tinha problemas mentais, então eu disse: “Você vem conosco, ninguém vai machucar você e vamos sair daqui porque a gente sabe que você não é louco”. Nós saímos de braços dados, aí ele entrou num camburão do lado do Palácio, que naquele tempo era a Delegacia Central no Pátio do Colégio. No carro o cigarro acabou. Eu falei: “Você vai estragar a sua liberdade? Vamos, ninguém vai te maltratar”, já estava tudo combinado. Entramos na Delegacia e dissemos: “Doutor, aqui está o homem, mas na minha opinião ele não está louco, ele conversou comigo normalmente”. “Nós sabemos disso, não se incomode”, aí nós avisamos na carceragem: “Olha, aí vai chegar o ‘fulano de tal’, mas ele não está louco”.

(...) O nosso quartel general foi queimado, muitos documentos se perderam, mas é isso, o que mais você quer saber?



Quando você partiu para a Revolução, o que a sua família pensou?

Oswaldo: Eu sou órfão de pai e mãe desde 1925, e eu estava então na casa da família. Eu já era militar, e me perguntaram: “E você Oswaldo? O que vai fazer agora?”, bom, eu não ia receber o meu soldo em campanha, era um regime assim naquela época, então eu nomeei o meu irmão Rafael, era o Filito, eu disse: “Olha, Filito, você fica responsável pelo meu dinheiro, eu te dou a procuração, você pega o dinheiro e aplica na Caixa Econômica. Se eu morrer, o dinheiro é seu e acabou”. Então, minha família percebeu “bom, o Oswaldo está fardado ele vai mesmo e acabou”.

Olha, nós quando chegamos na estrada, que tinha que levantar barraca nós não tínhamos barraca e o tempo estava ruim. Então, à noite, eu não tinha nem barraca para dormir e veio uma chuva, mas uma senhora chuva. Aconteceu que eu dormi sentado sobre a munição, com toda a roupa molhada, a roupa que estava na mochila também ficou toda molhada. No dia seguinte apareceu o sol e aproveitamos para enxugar a nossa roupa, espremê-la.

Ali também houve um combate pequeno, porque foi uma patrulha que vinha ao nosso lado, aí “descascando” fogo. Eles “descascaram”, mas correndo. Então, na primeira noite nós dormimos na serra, não tínhamos feito a trincheira, ficamos ao relento. E a família vai fazer o quê? “Oswaldo é disciplinado”, eu não ia desertar, de jeito nenhum! Muita gente não sabe o que é disciplina e os políticos que forjaram a Revolução... Civil não faz revolução, não conhece nada de estratégia. Eu se fosse oficial, comandante, não deixava a tropa sair daqui do quartel. Porque fica dois dias em Mogi, mais dois dias em Areias, o inimigo se posiciona, quando você chega lá... fizemos combates a 100 metros de distância. Olha, eu vou falar o que se via dos “cabeças chata”, porque eles vieram contra São Paulo dizendo que a “italianada” se revoltou, a “italianada” se levantou. “São Paulo quer ficar independente”, nada disso! Paulista de coração é paulista de coração. Agora, quem é melhor do que o nosso conjunto? Ninguém. Eu sou mestiço de italiano, brasileiro e francês, o “outro” é mistura de americano com português com alemão. Nós não temos uma raça definida. Todo mundo é mestiço. Agora, surgirá a raça brasileira não se sabe quando. Temos que analisar aí através de um outro estudo. Por que será que o nosso índio, o boliviano, o chileno tem os olhinhos um bocadinho puxados? Precisa estudar, ver como é. O que é que separa a Ásia da América?



(Fim do lado A da primeira fita)



Você sabia por qual ideal estava lutando na Revolução?

Oswaldo: Bom, eu sabia: Desapossar Getúlio Vargas. Muitos dos meus colegas antigos apoiaram a Revolução de 1930 e antes dela a de 1924. Agora a de 1932, nós tínhamos uma disciplina: Você não vai desertar, porque um desertor de guerra pode sofrer muito. Ninguém pensava em abandonar a tropa! Aquele pelotão, modéstia parte, era um pelotão de homens mesmo, que sabiam o que iam fazer. Agora, eu acho que em toda estratégia de guerra existe uma falha. Por exemplo, na 2ª Guerra Mundial quando a Alemanha invadiu a França... Você sabe porquê? Na fronteira tem minas de carvão e todo mundo quer aquela região, que é entre Luxemburgo, aí alguém projetou a Linha Magineau, mas não fechou a Linha Magineau, porque a Bélgica sempre esteve fora das guerras. Então o Alemão passou por ali para entrar na França.



Como você foi treinado para participar da Revolução?

Oswaldo: Eu tenho uma fotografia do tempo de recruta, quando eu terminei o curso de recruta. Se você desejar, eu mando para você uma ampliação da foto do nosso pelotão de recrutas. O pelotão de recrutas tinha os elementos de cada batalhão. Eu era do 1º Batalhão Tobias de Aguiar, mas vieram também bombeiros, do 2º Batalhão... Ali era o Quartel Centro C.I.M., Centro de Infantaria... Não me lembro, mas era um posto de recruta, e eles ficavam prontos de 3 a 4 meses.

Junto com a nossa tropa naquela época tinha um soldado da Força Pública do Paraná. Ele veio para São Paulo para comer, beber, fazer arruaça e não tinha conversa. E o dono do restaurante em que nós comíamos foi se queixar para o comandante: “Temos aqui um soldado que é do Paraná, ele come, bebe, faz arruaça, não paga”, e eu estava de guarda. O tenente disse: “Você, você e você, me tragam aquele homem”. Era uma ordem expressa. Então eu disse para nós irmos numa boa. “Vamos conversar com ele, a hora que ele piscar o olho nós agarramos ele”. Aí nós fomos até ele, eu o derrubei agarrando pelas pernas, meus outros dois companheiros o agarraram no braço e no tronco e levamos ele embora.

Nós tínhamos um companheiro que era alto e fumava um cachimbinho, ficou o apelido “cachimbinho”, aí ficou o soldado do Paraná chorando dizendo: “Poxa, três homens agarrarem um só é covardia”, o “cachimbinho” só ouvindo ficou quieto, e o paranaense não queria entrar no camburão. O “cachimbinho” passou a mão no cangote dele, na bunda e atirou ele feito um pacote dentro do camburão.



Como você se alimentava na trincheira?

Oswaldo: Como eu me alimentava na trincheira... A artilharia inimiga atirava e pegava justamente na cozinha, pô. Então me mandaram buscar a bóia, a marmita. Eu desci da montanha e fui buscar... Estava esculhambada a nossa cozinha. Falaram: “Coloca o que tem aí e vamos comer”, pegaram um monte de carne, arroz e feijão, uma mistura... E naquela escuridão no alto da montanha, na trincheira, você vai ver o quê? Você não consegue ver nada. E eu não gosto de gordura, então eu pensei: “Vou deixar aqui a bóia e amanhã eu como” e dormimos ao relento. De manhã eu fui abrir a marmita e só tinha formiga. Só estavam aparecendo os ossos.



Você chegou a ser ferido alguma vez?

Oswaldo: Não, eu dou graças a Deus, eu não sei como aconteceu. Nunca fui ferido. Nem na instrução, porque às vezes acontece de cair e rolar. A Força Pública, a Polícia Militar também tem, é uma área enorme a Academia do Barro Branco, ali a gente fazia como se fosse uma escaramuça no mato e fazia trincheira e tudo mais. Eu nunca fui ferido. Eu já tinha feito tiro de guerra 546, quer dizer, quando eu fui para a Força Pública eu já era reservista do Exército. Toda a instrução de campo eu já sabia.



Qual o tipo de armas que vocês usavam?

Oswaldo: A esquadra era formada de sete homens e um fuzileiro. O fuzileiro era encarregado do fuzil e da metralhadora, e nós tínhamos o nosso equipamento. Era um fuzil modelo brasileiro, mas de fabricação alemã 1908 ou ele deve ter sido modernizado. Nós tínhamos instrução para utilizar a baioneta também (encenando movimentos uniformes e seqüenciais utilizados no treinamento com a baioneta). Era à francesa o golpe de baioneta. Nunca aconteceu, porque aí você não vai dar tiro, você vai utilizar uma faca de 40 centímetros.



Você chegou a fazer amigos na Revolução?

Oswaldo: Na tropa sim. Ali o que acontecia para um acontecia para o outro também. Era uma união tremenda. Eu salvei o meu companheiro Barreto de cair num poço no leito do rio em Lavrinhas. O leito daquele rio era só pedras. Você saltando de pedra em pedra atravessava o rio e chegava seco ao outro lado. Quando eu fui à noite o sargento disse: “Nós vamos atravessar o rio. Nós vamos atravessar na frente e mostrar o caminho como é”, porque o leito do rio era pedregoso, mas formava uns poços enormes de 3 a 4 metros de profundidade e o Barreto estava com uma muamba tremenda, puxa vida! Ele foi pulando de pedra em pedra na minha frente e eu era o segundo. De repente ele pulou na pedra e escorregou e já ficou com meio corpo dentro da água. O Barreto começou a gritar: “Pelo amor de Deus!”, eu disse: “Barreto, segura-se que eu vou pular”, eu pulei na pedra na qual ele falhou e o segurei e o puxei, mesmo com todo o meu armamento. Ele andou pregando pra meio mundo que fui eu quem salvou a vida dele... Eu conversei com o coronel depois de reformado, isso recentemente pouco antes do ano 2000. Eu fui comprar material de construção, porque eu tinha uma casa em Ubatuba e ia reformá-la, e fui pra Taubaté, porque em Ubatuba não tinha aquilo que eu queria. Chego lá na lista telefônica, o coronel Nabor, ele tinha sido meu primeiro tenente, falei: “Vou-lhe fazer uma visita”. Cheguei na rua, toquei a campainha, atendeu uma senhora, eu disse: “Bom dia, gostaria de falar com o comandante Nabor”, ela disse: “Só um minutinho”. Ele apareceu. Eu falei: “Ô senhor comandante, eu vim comprar uns materiais e aproveitando, numa lista telefônica eu vi o seu nome”, e ficamos recordando nossas passagens. Passado um tempo ele disse: “Qual é o seu objetivo?”, eu disse: “Comandante, meu objetivo é te dar um abraço, o senhor foi meu tenente naquele grupo que lutou em Queluz”. Ele disse: “Puxa vida, o senhor é o único que vem aqui me dar um abraço, todo mundo que aparece na minha porta é para vir buscar ‘qualquer coisa’, para pedir favor”. Eu disse: “Bom, cada um tem a sua formação moral. Nós saímos de Queluz, o nosso vagão ficou parado, o senhor não deu licença para o trem partir, e houve aquele problema do camarada que ficou louco e matou o Giffoni”. Então, a união é tremenda.



Você acha que a formação educacional das pessoas era muito mais sólida antigamente?

Oswaldo: Eu para entrar na Força Pública, primeiro pedi um cartucho para o meu ex-patrão, eu trabalhei dois anos e meio no Consulado de Portugal, e o cônsul, dr. José Augusto de Magalhães era um diplomata, mas era um diplomata amigo dos funcionários compreendeu? Ele para mim foi como um segundo pai e pelos trâmites legais eu tinha que esperar três meses para vestir a farda, então eu fiquei esperando o ajudante de ordem do comandante. Aí meu amigo aqui da serra disse: “Escuta, vai pedir para o dr. Magalhães!”, eu disse: “Eu tenho vergonha, eu larguei o emprego assim...”, ele falou: “Mas dá, fecha a cara e vai pedir favor para ele!”, e eu fui. Naquele tempo o comandante geral era o Miguel Costa, general honorário do Exército, que participou da Revolução de 1924 em São Paulo. Então eu disse: “Dr. Magalhães, eu conheço o general Miguel Costa”. O dr. Magalhães disse: “Também é meu amigo o Campos Castro”, que era chefe do Estado-Maior.

E foi: “Caro amigo coronel Campos Castro, o portador deste, meu ex-empregado está disposto a se filiar à Força Pública, na qual poderá se tornar grande elemento”. Quando eu entrei no quartel-general, entra o tenente já não sei a que horas da noite: “Olha, agora é só amanhã cedo”, eu disse: “Mas, senhor tenente, eu tenho aqui um cartão do cônsul”. O tenente era filho de portugueses (risos). Então ele viu o cartão e disse: “Vem amanhã cedo”, no dia seguinte eu fui.

Primeiro batalhão. Era o batalhão de elite da Força Pública, o que é o GARRA hoje em dia. Então em três dias eu já estava fardado. Fala...



Como era o seu dia-a-dia na trincheira?

Oswaldo: Meu dia-a-dia? Dentro da Revolução ou na Polícia fora da Revolução?



Dentro...

Oswaldo: Aí o comandante diz: “Está tudo calmo”, então nós deixamos lá as sentinelas e o restante fica de prontidão na trincheira. Agora nesse último combate que nós tivemos na região de Lavrinhas, o Giffoni estava vivo, ele estava de sentinela lá na frente, mas ele não podia gritar, porque uma patrulha estava passando ali, então ele começou a fazer sinais e responderam para ele: “Ah, olha para frente!”. O pessoal nosso estava tomando banho no Ribeirão Vermelho, estava todo mundo pelado, então eu gritei: “Sargento Mendes, inimigo à vista!”, todo mundo saiu do rio, entrou na trincheira pelado mesmo e começaram a atirar, parece até brincadeira... Era um ribeirão, tinha quase um metro de profundidade. Eu já tinha me lavado... O soldado numa tropa tem que obedecer ordens e ter disciplina. Quando nós pegamos a estrada para chegar ao Morro dos Carrapatos, quando voltamos, o nosso canhão de 75 mm, atiraram na caixa de munição. Acabou, agora íamos ficar com o quê? Só o cano? Não tinha tropa, mas tava a artilharia ali, então inutilizaram o canhão.



Você tinha algum tipo de amuleto para dar sorte?

Oswaldo: A minha fé era mental. Seja o que Deus quiser! Eu tinha um compromisso. Agora, houve um combate que nós tivemos que sair rastejando, porque a metralhadora comia de lá pra cá, se você ficasse de pé levava bala. Então o sargento orientou a rastejar, com o fuzil preso às costas, até chegar a um lugar em que possa ficar de pé. Essas instruções eram para os recrutas. Nesse combate nós tivemos que sair arrastados.



Em algum momento você sentiu que São Paulo sairia derrotado?

Oswaldo: Aí sim, de acordo com o movimento da tropa, quando eu cheguei em São Paulo eu tinha uma arma, uma pistola, e deixei para o meu irmão. “Felipe, agora nós vamos para outra frente, eu não sei o que vai acontecer. Se houver qualquer porcaria aqui dentro, na cidade, você fica com essa pistola e luta”. Mas, quando eu cheguei a São Paulo nós perdemos a Revolução. Mas, São Paulo não perdeu a Revolução, porque existe uma coisa que o civil desconhece. Por exemplo, entre derrota e armistício existe uma diferença enorme. Armistício: A tropa volta com todo o armamento tranqüilamente para sua unidade, é um acordo: “Vamos parar de fazer meleca e acabou e tudo mais”.



Há quem diga que os paulistas já não tinham mais munição...

Oswaldo: Bom, me deram na nossa trincheira um cunhete de munição. “Cunhete” é o caixote de munição, então o sargento deu “tantos” cartuchos de munição para cada um. Eu já pus na cartucheira e fui pôr a bala no fuzil, mas ela não entrava. Toda a munição tinha um diâmetro um pouco maior do que devia ser. Eu pus ali, quando eu puxei, a bala ficou e o cartucho saiu. Nós tínhamos armamento de guerra, mas não era com tanta facilidade assim. Nós tínhamos acesso a material bélico. E tem mais uma coisa importante, alguém da Força Pública projetou a bombarda, já ouviu falar na bombarda? Ela foi experimentada aqui em São Paulo, em Santo Amaro, mas houve alguma falha com certeza. Nessa experiência explodiu a bomba antes do tempo, pegou o comandante Salgado e ele morreu. O comandante Moia também foi machucado. A bombarda serviu, isso fica entre nós dois hein, uma firma estrangeira aproveitou-se e com o cálculo da bombarda fizeram a bazuca, uma arma semelhante que o soldado coloca no ombro e dispara o foguete. Eles copiaram e aperfeiçoaram o sistema. Os paulistas inventaram a bombarda e a partir dela, com olho de gato, fizeram a bazuca. Eu tenho um ditado para essas condições: “Eu prefiro comer banana no meu país a comer peru na terra dos outros”.



Qual era o seu sentimento em combate?

Oswaldo: O combate foi duro, mas o meu sentimento, vamos dizer, que entre uma frente e outra eu não sei a distância entre elas, por isso a gente ficava sem saber o que estava acontecendo com o outro pelotão. Puxa vida, mas aí você tem duas coisas: A causa que nos levou para a frente de combate e mais a nossa inteligência, porque também se a pessoa não se pode comandar e não presta para coisa algum é melhor que morra. Então São Paulo estava perdendo, e eu não sabia da história. Nós tivemos combates de 100 metros entre uma trincheira e outra e não dá tempo nem de respirar.



Você chegou a lutar com a baioneta?

Oswaldo: Não, graças a Deus não, porque ou você vai morrer, ou vai se tornar assassino. Graças a Deus não aconteceu, porque depois que você está no meio do barulho ou você mata, ou morre. Mas, tem o valente que diz de outra forma: “Comigo não, comigo ou eu matou, ou morro”. Mas, como assim? “Ou fujo pro matou, ou fujo pro morro” (risos).



Era muito difícil receber informações sobre o que estava acontecendo em outros lugares?

Oswaldo: Naquele tempo era telégrafo. Eu fiquei de sentinela num lugar em que não havia estação, então escavaram um buraco para instalar o telégrafo ali. O telegrafista é que recebia e transmitia as informações, mas houve um caso de interferência estranha num telefonema do coronel Júlio Cezar Alfieri conversando com a linha da frente do Paraná: “Você tem que fazer isso, aquilo, aquele outro e tal”, e de repente uma voz interrompe: “Mas, coronel, não é possível fazer isto...”, o coronel perguntou: “Quem é você?”, responderam: “Não interessa”, era a 5ª Coluna falando. Então você tem que trabalhar ou na frente de combate, ou na retaguarda. Entre um posto e outro havia um comando que recebia ordens.



E vocês ficavam sabendo das notícias através do que era repassado por eles?

Oswaldo: Sim, e certas coisas íntimas nós não ficávamos sabendo...



(Fim do lado B da primeira fita)



O senhor chegou a abater algum inimigo?

Oswaldo: Que eu visse não, graças a Deus, porque a gente fica impressionado, porque você vai atirar, a frente é móvel. Porque você pode sair de dentro da trincheira, sai dessa posição, fica na outra, você tem que enxergar uma coisa que “não existe”, como você vai agir sozinho? E você atira, mas para acertar, vamos dizer, numa peça móvel, com uma metralhadora, você erra muito, mas algumas acertam no alvo.



O senhor ainda tem a farda da Força Pública?

Oswaldo: Não, não tenho... São 76 anos... Vou guardar o quê? Roubaram meu capacete em Guaratinguetá. O capacete de aço modelo italiano.



(Oswaldo pega a foto que trouxe)



Oswaldo: Este era um grande amigo meu (na foto, o homem da esquerda), já é falecido. A família dele toda era de Guaratinguetá. Lá me chamavam pelo sobrenome, falaram: “Diana, vamos tirar uma fotografia de lembrança?”. Nós estávamos de barba, isso no dia 15 de setembro, mas no dia seguinte fomos ao barbeiro e fizemos a barba. Agora se você precisar, eu posso lhe dar... eu imaginei fazer uma ampliação de todo o pessoal do curso de recruta. Aí eu vou tirar do quadro, mando fazer uma ampliação e mando assinalar as pessoas. Eu fui da escola de radiotelegrafistas... Agora, se você quiser que eu diga o que aconteceu depois da chegada do pessoal, eu tive uma vida completamente diferente da que eu tinha na tropa. Eu era datilógrafo, modéstia parte eu era uma “metralhadora” como datilógrafo, então quem me conhecia mais ou menos era o sargento Luizinho, que era um dos meus companheiros. Porque morreu muita gente, inclusive o amanuense, “amanuense” quer dizer “escrivão” na língua militar, então ficava o Luizinho a me instruir para continuar o trabalho do que morreu. Então o Luizinho disse: “Diana, se matricula nesse concurso que vem, porque você vai se sair bem”, aí eu fui saber o que era. Eles pediram sargentos que deviam prestar exame. Um sargento da tropa disse: “Mas, eu já sou sargento, eles não me dão aumento, não me mudam de posto, não quero não” e o concurso fracassou. Aí, naquele tempo já estava com o comando fora da Força Pública. Era do Exército. Havia um interventor na Força Pública. Então o Luizinho me mandou para fazer o boletim diário, mas na secretaria do batalhão faltou o sargento, porque também ou foi transferido, ou morreu, não sei, com isso, eu fui para a secretaria e fiquei escriturando os livros, eu estava no 1º ano do ginasial naquela época e geralmente o formando é primário, eu já estava no primeiro ginasial.

O datilógrafo do tenente Carneiro também saiu e foi para o interior. Aí o tenente ficou sem datilógrafo. Eu estava na 3ª Companhia depois fui ser o datilógrafo do tenente Carneiro e todos os amanuenses eram 3º sargento, 2º sargento, 1º sargento, não tinham soldados. Eu tinha a intenção de fazer carreira, então todos os sargento foram falar com o tenente: “Senhor tenente, porque você não escala o Diana para ser datilógrafo?”, ele disse: “Porque ele é soldado”, “Ele é soldado, mas faz o serviço de sargento”, “Está bom”. Passaram três ou quatro dias, o boletim: “Oficial de dia: tenente Fulano de Tal; Sargento de dia: soldado Oswaldo Diana”. Pô, isso não existe em tropa nenhuma do mundo (risos). Dali me transferiram para o quartel-general, na primeira sessão do Estado-Maior, aí eu peguei transferência para a escola de radiotelegrafistas. Você nem imagina quem veio me substituir. Isso também não acontece em tropa nenhuma do mundo. O capitão me disse: “Você não vai sair daqui não”, eu disse: “Vou sim capitão, eu vou prestar concurso”. Prestei concurso e fui aprovado em 6º lugar na escola de radiotelegrafistas. Então precisava arrumar um substituto para mim. Abriu a porta da sala um primeiro e um segundo tenente. René da Silva Velho chegou na sala e perguntou: “Quem é o Diana?”, ele veio me substituir.



(...)



Oswaldo: Muita gente diz que “pego” é do verbo “pegar”, mas procure no dicionário o significado. “Pego” é o leito profundo de um rio ou de um lago e já introduziram na língua uma palavra que não existe...



Então como fica o verbo “pegar” no passado? É “pegado?”

Oswaldo: Pegado, pilhado, que é sinônimo. Ih, eu tive uma professora de português que eu vou te falar. Dona Amélia Perestrina da Silva (Oswaldo encena torcendo sua própria orelha, em alusão ao que fazia com ele sua professora). Eu fui reprovado no 4º ano primário porque o meu comportamento era barulhento. Eu fazia graça e desvirtuava tudo. O comportamento pesava nas notas e o meu, como resultado, deu menos de zero. Então meu pai disse para a minha mãe: “Argentina, leva o Oswaldo para outra escola e matricula ele no 1º ginasial”, era a escola dos irmãos Marista que estava na Rua do Carmo. Chegando lá perguntaram: “Você trouxe o diploma do 4º ano?”, minha mãe disse: “Não trouxemos, ele foi reprovado”. “Então não pode, mas matricule-o na segunda época, se ele for aprovado ele vai direto para o primeiro ginasial”.

O meu forte sempre foi português e matemática. No exame de segunda época era na marra, ou você faz direito, ou não faz. Eu fui aprovado para o 1º ginasial sem diploma do 4º ano. Hoje eu estou desfrutando o que eu me fiz. Eu sou projetista mecânico, projetista eletricista, eletrônico... Faz 33 anos que eu estou aposentado, mas eu não parei de estudar. Fala...



O senhor se casou em que ano?

Oswaldo: Eu me casei em 1937.



Só se casou uma vez?

Oswaldo: Uma vez só.



O senhor teve quantos filhos?

Oswaldo: Dois. Essa moça que veio comigo e um homem, Paulo Arlindo Diana. Orivalda Argentina Diana é a minha filha. Argentina Suplicy era a minha mãe.



Suplicy da família Matarazzo?

Oswaldo: Matarazzo é que é da família Suplicy, porque o pai desse senador [Eduardo Suplicy] Paulo Suplicy é que casou com Filomena Matarazzo, então Suplicy é de Paulo e não o Matarazzo. Eu não uso o Suplicy porque não me registraram, mas minha mãe é Argentina Suplicy Diana.



Você pode ser descendente do Conde Francisco Matarazzo...

Oswaldo: Não posso, porque meu pai é que arrumou a moça. Para isso ele devia ter arrumado uma Fulana Matarazzo. Uma vez eu fui à rua 15 de novembro para pedir emprego na indústria do café para o Luís Suplicy. Ele me atendeu: “O que é que você quer?”, eu disse: “O senhor é influente na indústria do café, eu quero um emprego”, ele disse: “Não é possível”. Eu perguntei: “E aqui mesmo?”, ele disse: “Também não pode!”, “Então tchau”. Nunca mais fui procurar aquele camarada. Havia muita discriminação contra o imigrante, principalmente o italiano. Chamavam o imigrante italiano de “carcamano”. Meu pai falava bem o português, falava bem o diário napolitano, falava bem o diário do meu avô, quer era sarraceno. Porque a península itálica não era a Itália ainda quando foi invadida pelos sarracenos, os árabes. Então meu sangue tem um bocadinho de sarraceno. Essas coisas você entende depois de estudar.



Como você ficou sabendo que assinaram o armistício?

Oswaldo: Ah bom, a notícia corre logo. Nós estávamos em Guaratinguetá. No recuo o material ficou acantonado e nós estávamos ali. E a conversa entre os oficiais e sargento e subtenente dava a entender tudo...



E aí você imediatamente abandonou a posição e voltou para casa?

Oswaldo: Não, quando nós voltamos, em Guaratinguetá, chegamos a São Paulo e fomos para a zona oeste, que era outra zona de combate. Estavam comentando as coisas, mas não tinha acabado com o exército, o exército estava ali, você tinha que enfrentar ou é aprisionado de qualquer maneira. Então nós fomos na região perto de Amparo, Itatiba, Morungaba, queimaram a ponte do rio Jaguari, a ponte era de madeira e ficamos acantonados na fazenda do Brumado...



E o que aconteceu com você depois? O senhor voltou à vida normal?

Oswaldo: Ah, eu vou falar o que aconteceu. Eu me transferi para a escola de radiotelegrafistas. Depois da Revolução, este amigo aqui [o da foto] tinha uma família numerosa, já de uma certa importância no Vale do Paraíba: Marcondes. Então, o dr. Rangel tinha quatro filhas e dois filhos, e uma delas, a Lourdes, tocava piano, e eu cantava, abria o peito, todas as músicas novas eu levava para ela. Nisso cresceu um “bichinho que rói o coração”, então, eu já estava na escola de radiotelegrafistas e pensei: “Será que a Lourdes não me aceita porque eu sou um soldado?”. Como eu tinha dois empregos eu resolvi pedir baixa do serviço e fui falar com ela. Ela já estava comprometida. Perdi o emprego e a mulher, mas a coisa não é como nós queremos e sim como deve ser. É por isso que a humanidade está “esculhambada”, porque faz as coisas à moda dela e não há disciplina.

A moça [Lourdes] casou em 1936 e eu casei em 1937, e esse aqui [amigo da foto] casou com uma das filhas de um outro Marcondes, que também era parente dos de Guaratinguetá.

Depois eu montei uma oficina e fiquei vivendo com o conceito de rádio... Em seguida, me arrumaram um emprego na São Paulo Railway, a estrada de ferro. Mas, quando eu mostrei as minhas aptidões o camarada tirou o corpo fora e não me arranjou o emprego na oficina, me arranjou emprego de limpador de máquina, modéstia parte eu também fazia muito bem. Fora da profissão tem muita coisa que eu tenho que aprender.



São Paulo estava em que condições após a quebra da bolsa de Nova York?

Oswaldo: Getúlio mandou queimar todo o café, mas eram montanhas de café, mas não estávamos vivendo um período de miséria, apesar de ser um período difícil. Existia serviço para todo mundo, talvez fosse um período de renovação, porque para você encontrar um pessoal habilitado para as novas profissões era muito difícil. São Paulo era chamado de “Locomotiva que puxava 20 vagões vazios” (risos). São Paulo era tudo, as indústrias, tudo aqui em São Paulo. Hoje já está tudo diversificado, mas continua sendo a grande locomotiva.



Queria que você definisse o espírito paulista em 1932 com uma frase.

Oswaldo: Olha, eu sou muito pequeno para falar, mas eu vou lhe dizer uma coisa, eu sempre vi entusiasmo, sempre. Eu tive um curso primário muito adequado. Canções, hinos, hinos à bandeira... Hoje está tudo fora do negócio... O grupo escolar era o grupo escolar São Joaquim, na Liberdade, tinha um pátio enorme de terreno. A gente cantava hino à bandeira, hino às árvores, que a gente não vê hoje. Pergunta hoje para um aluno, que seja do quarto, quinto ano, eles não sabem coisa nenhuma. Eu conversei com uma dona no ônibus: “O senhor onde nasceu?”, “Eu nasci na Liberdade, na rua Tamandaré, nº 31”, ela disse: “Por quê? O senhor fala tão diferente!”. Eu não quis ofender a dona, mas deu vontade de falar: “Eu estudei, você não estudou!”.



(Fim do lado A da segunda fita)



Eu já vi um vídeo em que uma senhora, que foi enfermeira da Cruz Vermelha durante a Revolução de 1932, canta a introdução ao Hino Nacional Brasileiro. Eu nem sabia que existia, o senhor sabia?

Oswaldo: Olha, a introdução eu não me recordo. Quer dizer, é aquela música que é tocada antes de começarem as palavras, mas faz muito tempo já...



E quanto ao Hino da Força Pública?

Oswaldo: O hino eu não me recordo, o da Força Pública... Eu me lembro mais ou menos... Mas, a Força Pública era querida, viu...



Ainda é...

Oswaldo: Agora falta a parte material, a parte, vamos dizer, da “guerra”. A Força Pública prestou muito bom serviço à Guerra dos Canudos. Quem venceu a Guerra dos Canudos foi a Força Pública. Na secretaria do 1º Batalhão, no armário, fica a bandeira brasileira que serviu na Bahia, na Guerra dos Canudos... Fala mais alguma coisa, vamos ver se eu me lembro de mais coisa.



O senhor lutou durante os três meses da Revolução?

Oswaldo: Eu fiz só três combates. Três meses de fogo completo não fiz. Só fiz três combates. A ordem do pelotão é que distribuía o comando.



O que você pensa de Getúlio Vargas?

Oswaldo: Getúlio Vargas me decepcionou! Porque na Revolução de 1930 nós também saímos às ruas gritando “Getúlio Vargas”. Ele falseou com São Paulo e mandou queimar a bandeira paulista, sabia disso?



Mandou queimar?!?!?!

Oswaldo: Para não ser falado ele queimou uma do Rio Grande do Sul primeiro e depois queimou a de São Paulo. Depois arranjou a tal de intervenção na Força Pública, então foi deslealdade... Agora, intimamente eu penso que ele foi morto, para mim ele não suicidou-se, porque tinha problema com o tal de [Carlos] Lacerda (jornalista que foi o “pivô” do suicídio de Getúlio Vargas). Naturalmente mexeu com a cabeça de Getúlio: “Esses paulistas, se organizaram a Revolução em 1924 e em 1932, podem organizar outra vez”. Porque a promulgação da Constituição [a de 1934] foi forçada pela Campanha Paulista. Por dois anos cozinhou na cabeça de Getúlio, então São Paulo foi vitorioso!!! (Oswaldo fecha os olhos, encosta as costas no encosto da cadeira e encolhe os ombros).

Você não repare neste meu gesto, porque eu sou espírita. Isso é algum oficial que encostou aqui na gente... São 70 anos de mediunidade...



(Filha de Oswaldo interrompe)



Orivalda Diana: Você vai contar a biografia inteira para ele? (risos)



(Retomada da gravação)



Oswaldo: Agora, nós tivemos um desfile bonito antes da Revolução com toda a tropa de São Paulo ali. Nas janelas, aquelas bancadas as pessoas jogavam flores sobre os soldados. Emociona. Aí, quando chegou o dia 10 de manhã veio o capitão e disse: “Ontem nós éramos regalistas (pessoa que tem regalias ou que as defende; partidário do regalismo), hoje somos revolucionários!”.

No entanto, eu não posso falar com autoridade, porque eu não tenho curso de oficial, mas com pequena imaginação, você pega uma zona montanhosa... Cada parte elevada é um ponto de combate. Eu já deslizei, porque nós ficamos na frente de dois fogos né, isso é chato, porque você tem que trabalhar com a cabeça. Quando chegamos ao nosso posto vieram as balas do inimigo, nós tivemos que sair nos arrastando como um jacaré...



(Interrupção)



Oswaldo: Isso é formação do meu caráter. Eu não queria ser um valente, eu queria defender São Paulo. Mas, para enfrentar a bala você precisa ter peito, porque tem muita gente que diz que faz... No fim, ou mata ou morre. Tinham muitos que perdiam as armas. Eu fui com o fuzil número “tanto” e voltei com o mesmo número. Meu fuzil estava sempre pronto, embalado para... Porque, de repente, você sofre uma surpresa e como é que fica?



Só esqueci de perguntar uma coisa: qual é o nome da sua esposa?

Oswaldo: A minha esposa era Oralda de Oliveira, aí veio Diana quando nos casamos. Olha, foi uma mulher, que eu dizia para ela: “Você é uma mulher privilegiada”, ela perguntava: “Por quê?”. Eu dizia: “Você tem três personalidades: Você é minha esposa, minha companheira e minha mulher”, ela ficava toda orgulhosa.

Não sei a sua religião, mas depois de estudar o evangelho dentro do Kardecismo (de Allan Kardec), você tem que estudar o esoterismo, onde se procura desenvolver a mente, porque se eu mandar um telegrama mental para alguém e esse alguém estiver “sintonizado” eu recebo. Eu trabalhava num Centro de Umbanda e de manhã eu sentia as minhas vibrações. Eu mandei proteção para todo mundo. À noite eu fui dormir no Centro. Um só companheiro veio direto para mim: “Você me mandou um presente hoje, hein”, eu disse: “Mandei, onde é que você está?”, ele disse: “Eu estava orando quando recebi transmissão de pensamento”. Agora um outro não recebeu, não recebeu porque é um rádio desligado, a onda passou, mas ele não estava sintonizado. Eu estudo esoterismo desde 1957...



O senhor sabe quem estava presente aqui?

Oswaldo: Não sei... Às vezes eles fogem, não sei quem estava presente aqui. Eu senti logo, mas não sei quem era... Agora, por que eu tenho 99 anos? Existe um porquê, mas é na hora certa que se vai descobrir tudo isso. Graças a Deus aconteceu muita coisa boa por essas minhas mãos. Não é com vaidade que eu faço, mas sim com glória, porque você ajudar um indivíduo que precisa e você pode fornecer o medicamento, para você é uma alegria, porque cumpriu a sua missão e não para dizer: “Eu fiz isso”, Não! Não fez não, porque o médium não é ninguém, ele é o sifão. A ordem do espaço vem, passa pelo sifão e vai embora. Então, por isso o nome é “médium”, ele é um intermediário. Deus para apagar a chama da vida não precisa encher os pulmões, basta um estalar de dedos e o camarada empacota. Essa é a minha teoria. Então vamos dizer a gente pega um mapa para ver os planetas todos. A Terra é 1300 e tantas vezes menor do que Júpiter, então imagina o nosso tamanho... A Terra é um planeta de expiação. Alguns dizem: “Deus, me perdoe!”, mas Deus não pode perdoar, porque Ele não castiga! O que acontece é o seguinte, ali “do alto” é muito diferente. O Pai maior chega e diz: “Olha, você vai reencarnar agora”, “Mas, eu sozinho?”, “Sim, você sozinho, mas você vai ter ajuda externa de todo o jeito. Para ajudar está aqui um talão de ‘cheques’, usa como você quiser”, aqueles que não sabem usar voltam para Deus e falam: “Pai, o ‘cheque’ acabou, você não pode me dar outro”, “Não, você não o usou como devia, agora você se arrepende”.


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