domingo, 10 de julho de 2011

ALFREDO PIRES É O NOVO COMANDANTE DO EXÉRCITO CONSTITUCIONALISTA. TOMOU POSSE DO CARGO NESTE 9 DE JULHO

Às vésperas de completar 91 anos, Alfredo Pires Filho costuma dizer: “Tenho duas vidas. A particular e a da Revolução de 32.” Neste sábado (9), quando se comemoram os 79 anos da Revolução Constitucionalista de 1932, as duas vidas serão uma só. O veterano do movimento que cobrava a criação de uma Constituição e defendia o fim da intervenção de Getúlio Vargas no governo paulista, será homenageado no tradicional desfile em São Paulo. Pela primeira vez, ele toma posse como comandante do Exército Constitucionalista, que é simbólico.


“É muito bom ser reconhecido pelo o que você fez”, contou Pires Filho, que recebeu o G1 em sua casa, localizada a apenas 2 km do Obeslico do Parque Ipirapuera, na Zona Sul da capital, onde haverá a homenagem. O instrutor de aviação civil aposentado participou da revolução quando tinha apenas 12 anos. Era escoteiro e trabalhou como mensageiro ou estafeta, como gosta de dizer o veterano. Junto com o álbum onde guarda fotos, convites, diplomas e outras homenagens ao longo da vida, ele mantém uma raridade: um capacete de aço original usado pelos soldados em 1932. No interior dele, a inscrição: "Oferta do povo paulista ao soldado da Constituição".

“Um capitão do Exército mandou que eu fosse até o Ipiranga (na Zona Sul) no caminhão com os outros (militares) buscar os capacetes na fábrica. Quando cheguei com o caixote, disseram: ‘Pires, esse presente é para você’”, lembrou o veterano. Quem espera vê-lo de farda no desfile deste sábado, cheio das medalhas que recebeu na carreira, esqueça. “Vou de terno azul marinho. Não fica bem usar as condecorações anteriores porque eu já vou receber uma amanhã (sábado).”

Alfredo Pires Filho participou da Revolução de 1932 como mensageiro (Foto: Carolina Iskandarian/ G1)

O discurso que Pires Filho lerá durante a homenagem vai lembrar os mortos na revolução, considerada por ele “o maior movimento cívico da história”. Falará ainda da campanha “Ouro para o bem de São Paulo”, na qual a população doou joias para arrecadar fundos destinados ao movimento revolucionário. “Os casais não andavam na rua com aliança de ouro; só de ferro. Era para o bem de São Paulo”, disse o veterano, que demorou 15 dias para preparar o texto escrito a mão.

Para manter viva a história da Revolução de 32, os antigos combatentes criaram a Sociedade Veteranos de 32 – M.M.D.C. A sigla contém as iniciais de quatro manifestantes mortos em confronto com a polícia de Vargas: Martins, Miragaia, Drausio e Camargo. Marinei Chalub, que trabalha como secretária na diretoria da associação, contou que a atuação do Exército Constitucionalista é simbólica. “Todo ano muda o comandante e é uma homenagem que se faz aos veteranos.”

Feridas da guerra: Com dois filhos, três netos e quatro bisnetos, Pires Filho disse ter orgulho do seu passado e não hesita em dizer que “fez história”. Mas, humilde, contou apenas que soube aproveitar as oportunidades. Uma delas foi ter trabalhado como instrutor de voo durante a Segunda Guerra. Já foi também vendedor e nadador. Ele se recorda das provas de natação no Rio Tietê. “A água era limpíssima e os peixes ficavam beliscando o pé.” Tinha uns 16 anos na época.

É muito bom ser reconhecido pelo o que você fez". Alfredo Pires Filho, veterano da Revolução de 32: Quando questionado sobre a pior memória para um garoto de 12 anos durante a Revolução de 1932, relatou que seu pai, formado advogado, foi perseguido. “O filho de um político do Getúlio Vargas trabalhava no escritório do meu pai, no Centro. Um dia entraram lá e queimaram todos os livros. Fizeram uma fogueira. Ficamos seis meses dormindo no porão da minha tia até abaixar a poeira.”

Bastante lúcido – os 91 anos serão comemorados em 21 de agosto -, Pires Filho não esconde a emoção a cada 9 de julho. “Quando chega, sinto um entusiasmo. Fico lembrando o passado. Assim que eu soube da homenagem, caiu meu céu. Imagina ser homenageado aos 90 anos?”