quarta-feira, 3 de agosto de 2011

BRASIL, PAÍS DOS INGRATOS

BRASIL, PAÍS DOS INGRATOS,




Quinhentos anos levou a construção de nosso país. Foi produto de muito trabalho, amor à terra, pioneirismos e iniciativas de homens e mulheres que nos abriram caminhos e perspectivas de dias melhores, graças aos quais estamos vivendo hoje. Contudo, assistimos atualmente, ao pouco caso com que é tratada a história pátria. As biografias e memórias dos construtores da nacionalidade, daqueles que se destacaram por suas contribuições aos mais diversos setores: liberdade, direito e democracia, progresso científico e seus reflexos na saúde, na educação, nas residências, no urbanismo, além de uma série de escritores, artistas e intelectuais que elevaram nossas letras e artes ao reconhecimento internacional - fariam o orgulho de qualquer país que se pretende civilizado. Para começar, citemos os bandeirantes, homens indômitos, que saíram à procura de ouro, prata e pedras preciosas, com o auxílio dos próprios indígenas, e dilataram de Norte a Sul e de Leste a Oeste, o território hoje pertencente ao Brasil. Porém, caíram no descrédito dos novos historiadores por terem se voltado à captura e escravização dos índios, em vista dos trabalhos agrícolas. Como se os impérios que se formaram ao longo da história da civilização partiram para a conquista com o fito de realizar obras de caridade...

Está esquecida a sucessão dos heróis que saíram em defesa da pátria, além de escritores, poetas, cientistas e compositores que a enalteceram. Eram orgulho nacional, reverenciados nas escolas e nas cédulas e moedas de prata e cobre: Tiradentes, d. Pedro II, a princesa Isabel, Castro Alves, Gonçalves Dias, Duque de Caxias, o pacificador, o Barão do Rio Branco, Rui Barbosa, Santos Dumont, o “Pai da Aviação”. O sertanista Marechal Cândido Rondon, que implantou o telégrafo no território nacional, descobriu novos cursos de água e tribos indígenas até então ignoradas. Seu lema era: “Morrer se preciso for, matar, jamais”. Entre os cientistas, Carlos Chagas, Oswaldo Cruz ,Vital Brasil, Adolfo Lutz, Emilio Ribas, etc., os compositores Carlos Gomes, Villa-Lobos, Camargo Guarnieri e muitos outros. Hoje, desapareceram de circulação, substituídos nas notas de reais circulantes pela fria esfinge republicana e por peixes e felinos pertencentes à fauna tropical.

Houve os que caíram de seus pedestais, tradicionalmente plantados em ruas, praças e jardins públicos, vitimados pelo vandalismo dos larápios, à cata de materiais valorizados no mercado como o bronze e o cobre, ou pelo descaso da população a qual, por falta de esclarecimento, não consegue participar de sua própria historicidade. Em São Paulo, entre outros, sumiram o capacete de Ayrton Senna, no monumento colocado em homenagem ao corredor, na entrada do túnel do mesmo nome, o busto da benemérita Pérola Byinton, na praça do mesmo nome, o da pianista Antonieta Rudge, o do poeta Goethe, etc. para não mencionarmos uma longa série danificada de bustos, hermas, torsos e outros objetos, entre os quais se incluem a réplica do “14 Bis”, o avião pioneiro de Santos Dumont, que esteve durante muitos anos na praça do mesmo nome.

De importância capital para a história de São Paulo e do país, o Monumento do Ipiranga homenageia a Independência do Brasil, ocorrida naquela local. Obra de Ettore Ximenes, inaugurada em 1922, é também chamada ”Altar da Pátria”. Abriga a Capela Imperial contendo os restos mortais de D. Pedro I, de D. Leopoldina, sua primeira esposa, e de D. Amélia sua segunda esposa. Construído com dinheiro dos paulistas, arrecadado junto à população, foi tombado pelas três esferas de poder: municipal, estadual e federal. Contudo, encontra-se sujo e maltratado. Apesar de pertencer ao povo de São Paulo, o Estado de São Paulo decidiu doá-lo ao governo federal. Entretanto, se este não se acha na obrigação de conferir-lhe maiores cuidados, muito menos o Estado e a Prefeitura.

Outra característica a ressaltar é o gosto e a pena volúveis dos prefeitos e vereadores de São Paulo, sujeitos a modismos, à ideologia e ao jogo de interesses eleitoreiros ditados pelas alternâncias do poder. Facilmente se esquecem das fases históricas pelas quais passou a cidade e constantemente trocam os nomes dos logradouros públicos tradicionais referentes ao nascimento e à evolução da cidade. Tal foi o caso do “Túnel 9 de Julho”, evocativo da Revolução Constitucionalista de 1932. Inaugurado em 1939, seu nome foi substituído na gestão de Marta Suplicy pelo de um particular. Há casos em que nomes tradicionais e pitorescos, preservados durante séculos no espaço urbano tais como a Avenida Águas Espraiadas, Ponte Pequena, Praça Silva Teles, Ponte Cidade Jardim, Ponte dos Bandeirantes, etc. foram trocados sem consultas populares, adotando-se os das comunidades formadas por recém chegados.

Outras vezes, é o próprio equipamento urbano que é alterado, substituído por outro mais moderno, embora de um imponente mau gosto. Lembremos das luminárias colocadas recentemente na Avenida Paulista, verdadeiras muletas que surgiram da noite para o dia, em nome de uma iluminação mais eficiente. Enquanto as capitais européias, as mais famosas e formosas, como Paris, Viena, Bruxelas, Madrid, etc. ainda dispõem de seus antigos lampiões, complementados por luzes modernas e indiretas que iluminam os monumentos e a vegetação ornamental e arbórea.

Ora, a cidade é depositária de equipamentos, nomes e tradições relativas aos diferentes períodos de sua história. É esse o espírito que prevalece em todas as cidades do mundo civilizado. Parece que são poucas as esperanças de que nosso patrimônio histórico e artístico se torne alvo de valorização e de maiores cuidados. Recentemente, a Comissão de Gestão de Obras e Monumentos Artísticos em Espaços Públicos do Município de São Paulo declarou, a propósito da oferta que lhe fizeram de uma nova obra para figurar na cidade de São Paulo: “pontuar praças e canteiros centrais da cidade com bustos e cabeças (...) nada mais representa que poluir a paisagem”. Além do que, “não se pode ficar preso a uma idéia do século XIX”, segundo palavras atribuídas à presidente da referida Comissão[1]!

Reconhecemos que, neste caso, o personagem a ser homenageado é um ilustre desconhecido do grande público, concordamos, mesmo, em que há necessidade de se fazer uma triagem com relação às obras a serem incluídas no patrimônio municipal. Contudo, causam preocupação os argumentos apresentados como justificativa que expressam os avanços da contracultura. Diremos que os monumentos de bronze e granito, representantes de uma época em que a estética era ética, ainda podem e muito cumprir a função a que vieram e ornamentar ruas, praças e jardins, desde que bem conservados. O que polui a paisagem urbana é o lixo acumulado nas ruas, o mau cheiro que exalam e os insetos e ratos que criam, em meio a soluções urbanas imediatistas, montadas às pressas, sem preocupação com o acabamento, que fazem da cidade que mais arrecada no país - a quinta maior do mundo - uma das mais maltratadas do planeta.

Assim, a história vai se apagando, à revelia da população. Sempre pega de surpresa, esta é vítima de decretos camuflados por obra de traições de vereadores, prefeitos, governadores e ministros e dos órgãos cuja função é exatamente a de preservar o patrimônio histórico e artístico nacional.



Ass. MARIA CECÍLIA NACLÉRIO HOMEM, RG 2249899, formada em Letras Neolatinas pela USP, doutora pela FAU-USP em “Estruturas Ambientais Urbanas”; tradutora. Escreveu Higienópolis, Grandeza de um Bairro Paulistano, EDUSP, 2011, O Palacete Paulistano, WMF Martins Fontes Editora, 2ª Ed., 2010, O Prédio Martinelli: A Ascensão do Imigrante e a Verticalização de São Paulo, Projeto Ed;, 1984, Membro da Academia Cristã de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, do Conselho Cívico e Cultural da Associação Comercial de São Paulo e da Sociedade Veteranos de 32 – MMDC, e. mail: mcecilianh@gmail.com