sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

PAULO BOMFIM: EU TE AMO SÃO PAULO - ORAÇÃO À CIDADE DE SÃO PAULO

EU TE AMO SÃO PAULO


Paulo Bomfim

Poeta, Jornalista e Decano da Academia Paulista de Letras



Eu te amo, São Paulo, em teu mistério de chão antigo, em teu delírio de cidades novas; e porque teus cafezais correm por meu sangue e tuas indústrias aquecem o ritmo de meus músculos; pela saga de meus mortos que vêm voltando lá do sertão, pela presença dos que partiram, pela esperança dos que vêm vindo – eu te amo, São Paulo!



Em teu passado em mim presente, em teus heróis sangrando rumos, em teus mártires santificados pela liberdade, em teus poetas e em teu povo de tantas raças, tão brasileiro e universal – eu te amo, São Paulo!



Pela rosa-dos-ventos do sertão, pelas fazendas avoengas, pelas cidades ancestrais, pelas ruas da infância, pelos caminhos do amor – eu te amo, São Paulo!



Na hora das traições, quando tantos se erguem contra ti, no instante das emboscadas, quando novos punhais se voltam contra teu destino – eu te amo, São Paulo!



Pelo crime de seres bom, pelo pecado de tua grandeza, pela loucura de teu progresso, pela chama de tua história – eu te amo, São Paulo!



Desfazendo-me em terra roxa, transformando-me em terra rubra, despencando nas corredeiras do meu Tietê, rolando manso nas águas santas do Paraíba, vivendo em pedra o meu destino nos contrafortes da Mantiqueira, salgando pranto, dor e alegria na areia branca de nossas praias, na marcha firme dos cafezais, nas lanças verdes do canavial, no tom neblina deste algodão, na prece de nossos templos, no calor da mocidade, na voz de nossas indústrias, na paz dos que adormeceram – eu te amo, São Paulo!



Por isso, enquanto viver, por onde andar, levarei teu nome pulsando forte no coração, e quando esse coração parar bruscamente de bater, que eu retorne à terra donde vim, à terra que me formou, à terra onde meus mortos me esperam há séculos; por epitáfio, escrevam apenas sobre meu silêncio, minha primeira e eterna confissão: – eu te amo São Paulo!


ORAÇÃO À CIDADE DE SÃO PAULO



PAULO BOMFIM



EMÉRITA CIDADE DE SÃO PAULO,

VOSSO PRINCÍPIO FEZ-SE O MEU PRINCÍPIO! ARMARAM-ME ESSES ARCOS ANCESTRAIS, VOSSAS PENAS FORMARAM MINHAS PENAS, MEU VÔO, MEUS COCARES GUAIANASES!

VOSSO COLÉGIO BATIZOU-ME UM DIA, E ANCHIETA COLOCOU EM MINHA FRONTE O SAL DOS OCEANOS DA POESIA; E FUI MUROS DE TAIPAS GUARNECENDO O CREPITAR DOS FOGOS NO SILÊNCIO; AH! SILÊNCIOS PRIMEIROS INSPIRANDO O AMOR EM MADRUGADAS MAMELUCAS! AI, FLECHAS, ARCABUZES, ESCOPETAS

TINGINDO DE VERMELHO A TARDE ANTIGA!



“CAMINHO VELHO DO MAR”,

TRAZEI MEUS PASSOS DE VOLTA!

OH! “RUA DE SANTO ANTÔNIO”,

CASAI SÃO PAULO COM A GLÓRIA!

RUA DE “MARTIM AFONSO”,

GUIAI-NOS NA ETERNIDADE!

“TABATINGUERA”, PARAI EM VOSSOS DIAS OUSADOS!



SINOS DO MEU SÃO PAULO, DESPERTAI AQUELES QUE MORRERAM EM BELEZA!

BRONZES DA SÉ, DE SÃO BENTO,

DOS REMÉDIOS, SÃO GONÇALO,

OH! DOBRES DE SÃO FRANCISCO,

ORAÇÕES DA BOA MORTE,

PRECES DA LUZ, EVOCAI

A SAGA DE MANOEL PRETO,

A FEBRE DE FERNÃO DIAS,

AS LUTAS DO PAI PIRÁ,

OS MARTÍRIOS DO ANHANGUERA,

AS MONÇÕES FLUTUANDO EM SANGUE, O VERDE DAS DESCOBERTAS, E OS GIBÕES QUE SE ENCANTARAM NA MATA VIRGEM DO TEMPO!



EVOCAI EM VOSSOS DOBRES

AQUELES QUE NÃO CHEGARAM

DOS NORDESTES, OS HOLANDESES,

DOS LITORAIS DE CORSÁRIOS;

DOS PAULISTAS QUE SEMEARAM

COM RASGOS DE VALENTIA,

CAMPOS DO SUL E DO OESTE,

AS TERRAS DO PARAGUAI,

O TÚNEL, A VILA QUEIMADA,

E O ARDOR DE MONTE CASTELO!



EMÉRITA CIDADE DE SÃO PAULO!

TABA ANCESTRAL, ARRAIAL SERTANISTA, BURGO ESTUDANTE, PROVÍNCIA MENINA, ROSA DE IMIGRAÇÃO, ROSA CABOCLA,

PROFECIA DE ANCHIETA, LUZ DE PRECE DE FREI GALVÃO; EMÉRITA CIDADE, GUARDAI-NOS DOS MOMENTOS DE FRAQUEZA!

QUE NESTE PAÇO O PASSO SEJA DADO RUMO AO PORVIR, ÀS MARGENS DO AMANHÃ.

E DAS RAÇAS, DOS CREDOS E DE CLASSES, DE TUDO QUE SE IRMANA NO PLANALTO, NASÇA UM CANTO DE AMOR À NOVA AURORA, AO MUNDO NOVO, AO HOMEM NOVO, AO CHÃO NOVO EM SUA ALEGRIA E EM SUA PAZ.



EMÉRITA CIDADE DE SÃO PAULO,

MÃE BRANCA, MÃE INDÍGENA, MÃE PRETA, VELAI POR NÓS!