segunda-feira, 23 de julho de 2012

UMA CRÔNICA DE HUMBERTO DE CAMPOS A RESPEITO DE OLAVO BILAC SOBRE O SERVIÇO MILITAR - CRÔNICA ENVIADA POR MARIANO TAGLIANETTI

O PRESTÍGIO DO SABONETE...






No discurso com que iniciou, em São Paulo, a 9 de outubro de 1.915, a sua campanha pelo ressurgimento cívico do Brasil, Olavo Bilac assim definiu, entre nós, pela primeira vez, o serviço militar; - Que é o serviço militar generalizado ? É o triunfo completo da democracia; o nivelamento das classes, a escola da ordem, da disciplina, da coesão; o laboratório da dignidade própria e do patriotismo. É a instrução obrigatória; é a educação cívica obrigatória; é o asseio obrigatório; a higiene obrigatória; a regeneração muscular e física obrigatória. As cidades estão cheias de ociosos descalços, maltrapilhos, inimigos da carta de abc e do banho – animais brutos, que de homens tem apenas a aparência e a maldade. Para esses rebotalhos da sociedade a caserna seria a salvação. A caserna é um filtro admirável, em que os homens se depuram e apuram; dela sairiam conscientes, dignos brasileiros, esses infelizes sem consciência, sem dignidade, sem pátria, que constituem a massa amorfa e triste da nossa multidão. No ano em que Bilac atirou à esterilidade da alma brasileira esse punhado de sementes da arvore da Verdade, não havia a mínima probabilidade da militarização da América do Norte. Terminada, porém, a guerra, vem um oficial americano, o capitão J. Abbott, e, ali, no “American Journal of Clinical Medicine”, declara, em artigo recente, e documentado, que a maior vitória dos Estados Unidos não foi obtida nas batalhas da Europa, mas nos quartéis, nos campos de exercício militar, contra as moléstias, contra o espírito de indisciplina, e, sobretudo, contra a falta de asseio de seu povo. Quando o Príncipe do nosso Parnaso aludia, insistentemente, nas palestras de camaradas, à necessidade de dar um banho de sabonete no Brasil inteiro, passando-lhe, depois, um pente, nós, que o ouvíamos, supúnhamos, geralmente, tratar-se de uma “blague”, de um de seus recursos de imagens, tão constantes e tão irônicos. E, no entanto, êle dava um conselho verdadeiro sem hipérboles nem redundâncias, como homem que conhecia, de perto a gente do seu país. O futuro do Brasil está, efetivamente, muito mais na torneira, na caixa d’água, na margem do rio, do que na escola, no livro, no banco da Academia. Foi por seus hábitos de higiene, de limpeza, de bom gosto, que o homem se libertou da animalidade. O homem sujo, por mais alto que seja o surto do espírito, é, ainda, irmão do porco, do cão, do asno, pelo seu contacto com o monturo. NÃO HÁ HOMENS SUPERIORES SEM O SENTIMENTO DO ASSEIO. Diórgenes morava no tonel, mas conhecia todos os mananciais das cercanias de Atenas. A propósito do seu amor à água, conta-se, mesmo, uma anedota, cuja oportunidade desculpa a senectude. Um dia, um amigo levou o filósofo à cisterna, para a sua ablução quotidiana. Diórgenes olhou a água, e vendo-a suja, perguntou ao dono da casa : - depois de tomar banho aqui onde devo me lavar ? A falta de asseio é inteiramente incompatível com as faculdades do espírito e do caráter. Bilac semeava o legítimo ouro da verdade quando, a três anos, prometia regenerar o Brasil, de norte a sul, com um pente e um sabonete.



HUMBERTO DE CAMPOS “ Mealheiro de Agripa (crônicas) - Obras completas Editora Jackson fls 93/96.