quarta-feira, 29 de agosto de 2012

29 de agosto de 2012 - 2º BATALHÃO DE POLÍCIA DO EXÉRCITO - REINAUGURAÇÃO DO MONUMENTO AO HAPKI-DÔ E INAUGURAÇÃO DO ESPAÇO CULTURAL GENERAL VENTURA








O COMANDANTE DO 2º BATALHAO DE POLÍCIA DO EXÉRCITO, TENENTE-CORONEL ÁUREO RIBEIRO VIEIRA DA SILVA reinaugura o Monumento ao HAPKI-DÔ e inaugura o Espaço Cultural GENERAL VENTURA.
 O Hapkidô ou Hapkido é uma arte marcial coreana especializada em defesa pessoal, e aprendizado de técnicas de socos, chutes, rolamentos, escapes, esquivas, torções, técnicas de alongamento e respiração, além de englobar técnicas com armas diversas como bastões, espadas, bengalas, facas, leques. Essa arte marcial também ensina seus praticantes a auto defesa com praticamente qualquer objeto. Além de tecnicas de luta, o faixa preta em Hapkido é um Terapeuta, pois o Hapkido tem em seu treinamento o conhecimento de pontos de acupuntura e massagem, pontos que são utilizados em tecnicas de imobilização causando muita dor no adversário, mas que também são utilizados em tratamentos e terapias.


GENERAL DOMINGOS VENTURA PINTO JÚNIOR
Nascido em 27 de junho de 1915, no Estado do Rio de Janeiro, RJ, verificou praça em 1º de março de 1933 e pertence à turma de 1935 da Escola Militar do Realengo. Como Capitão, foi designado para integrar a Força Expedicionária Brasileira, nas funções de Comandante da Companhia de Obuses 105 mm do 11º RI (Regimento Tiradentes), com a qual embarcou, no 1º escalão, para o Teatro de Operações da Itália, em 2 de julho de 1944. Foi pioneiro em comando de subunidade de Regimento de Infantaria guarnecida com obuses de 105 mm, tendo, por isso, permanecido como adido ao 3º Grupo de Obuses, Grupo Souza Carvalho, de março a julho de 1944, para fins de aprendizagem técnica e de emprego da Artilharia. Por determinação do General Zenóbio da Costa, o Capitão Ventura combateu, na guerra, com o 6º RI (Regimento Ipiranga). Alcançou os diversos postos da carreira sempre por merecimento. Promovido a General-de-Brigada em abril de 1965, chegou, na reserva, ao posto de General-de-Divisão. Recebeu as seguintes medalhas e condecorações, por sua participação na Segunda Guerra Mundial: Cruz de Combate 2ª Classe; Medalha de Campanha; e Medalha de Guerra. Comandante da Companhia de Obuses de 105 mm do 6º Regimento de Infantaria da Força Expedicionária Brasileira, entrevistado em 22 de maio de 2000. As causas da Segunda Guerra Mundial envolvem um fato singular: um fanático patriota e chefe de um partido operário alemão, Adolf Hitler, conseguiu elevar a Alemanha à condição de potência mundial e, ele próprio, arrastá-la, mais tarde, ao desespero, à sucumbência, ao nada. A derrota da Alemanha e o conseqüente Tratado de Versalhes motivaram Hitler para o soerguimento do país, do povo germânico, como afirmou em seu livro Mein Kampf. Para alcançar seu objetivo de vingança, em face da humilhação imposta pelos vencedores, filiou-se, em 1919, um ano após o término da guerra, ao Partido Operário Nacional Socialista Alemão, do qual passou a ser, no ano seguinte, um líder autêntico, um aglutinador de massas e chefe do Partido. De dentro da organização partidária, viu a maneira como reestruturar a força armada alemã, tanto assim que procurou contato com o General Von Seeckt, de quem disse saber ser um patriota e que, por isso, incumbia-lhe renovar as forças armadas alemãs – “reorganização do grande exército alemão” – motivando os companheiros, de tal maneira que eles compreendessem que o país só se reergueria pela força. Assim, o General Von Seeckt pôs mãos à obra e foi procurar os seus antigos companheiros, para então dar início à reorganização sub-reptícia das forças armadas. Em 1927, nove anos depois do final da Primeira Guerra Mundial, o Marechal Foch, comandante do Exército francês que derrotou, com os aliados, a Alemanha, fez uma declaração para o mundo, afirmando que, decorridos esses nove anos, a Alemanha estava totalmente desarmada. Falou isso, sem observar que a Liga das Nações não estava fiscalizando devidamente o trabalho de Adolfo Hitler, e disse mais: “Daqui irei para o meu torrão, a França.” Para Hitler foi uma maravilha, porque, assim, adquiria condições de fazer mais alguma coisa para a recuperação do seu país. A Alemanha estava ainda revoltada com a derrota e com os termos do Tratado de Versalhes e, por isso mesmo, o Rei Guilherme II, Imperador da Alemanha e Rei da Prússia, o Cáiser, abdicou. O Marechal Hindenburg, Comandante do Exército nas forças armadas alemãs, retirara-se da vida militar para a civil. Mas o seu povo, que também estava revoltado pela humilhação que sofrera, foi buscá-lo e o convidou para candidatar-se ao cargo de presidente da República. Hindenburg, um patriota, aceitou, mas teve como opositor em sua chapa Adolf Hitler, chefe do partido, que obteve nas urnas 13 milhões de votos contra 19 milhões de votos do velho soldado. Hindenburg, em face das 232 cadeiras que Hitler obteve – a maioria das cadeiras do Congresso – sob a pressão dos militares e mesmo dos operários do partido, foi obrigado a designá-lo Chanceler da Alemanha, como Bismark fora anteriormente. Isso em 1933. Em 1934, Hindenburg morreu. Não demorou para Adolfo Hitler assumir a presidência da República, onde permaneceu, como ditador, até 1945, quando foi derrotado pelos aliados. Como presidente da República e ditador, pôs à mostra sua capacidade, criou o partido nazista, a juventude nazista, introduziu o serviço militar obrigatório, elevando o efetivo a mais de um milhão de militares, quando o Tratado de Versalhes estabelecia somente cem mil, e quase totalmente desarmados . Dessa forma, Hitler já ficou com nítida vantagem, isto é, mesmo com a presença da Liga das Nações e de todos os adidos militares, ninguém disse nada. Foi quando sentiu estar em posição de força. Nesta fase, morreu Hindenburg. Em 1938, anexou a Áustria à Alemanha, anexou simplesmente. Em 1º de setembro de 1939 invadiu a Polônia e anexou Dantzig, cidade do corredor polonês. Acabou com a Polônia em uma semana, pondo em prática a blitzkrieg, a guerra relâmpago. Em 1940, invadiu a Dinamarca, a Noruega, a Holanda, a Bélgica, logo depois, a França. Em 1941, a Iugoslávia e a Grécia e, em seguida, a Rússia, tendo chegado às portas de Moscou, quando o “general inverno” e o próprio povo russo fizeram-no recuar até Stalingrado. Nesta cidade, cujo sítio fora comandado pelo Marechal Von Paulus, o chefe militar alemão foi obrigado a render-se com os seus milhares de homens, desmentindo o próprio Hitler e sua afirmação de que um marechal-de-campo alemão não se rendia a um inimigo. Aí começou a derrocada do exército de Adolf Hitler. Em 1941, Roosevelt, acompanhando a expansão da Alemanha, da maneira como ocorria, impressionado e amedrontado por isso mesmo, organizou a reunião dos chanceleres em Havana, para resolver essa situação. Ao término do conclave, foi pública uma declaração ao mundo de que todo e qualquer país não-americano que atacasse um país americano, ameaçasse a inviolabilidade do seu território, que agisse contra a soberania e a independência política de outro estado americano, estaria praticando uma afronta e um ato de agressão contra os 28 países que ali estavam e assinavam a declaração. O Brasil foi um dos signatários. Em setembro de 1942, Pearl Harbor, base aeronaval dos Estados Unidos no Havaí, foi arrasada com a maioria das belonaves – navios, cruzadores, torpedeiros e outras que lá se encontravam. Grande número dos habitantes da ilha e de militares da base foi vitimado. O Brasil, como país signatário da convenção de Havana, solidarizou-se com os Estados Unidos e, dessa forma, acabou a neutralidade de nosso País. Antes do fim dessa neutralidade, os brasileiros estavam acostumados a ver no cinema a rigidez do Exército alemão, a postura dos seus soldados, o “passo de ganso”, que muito impressionava, tanto os civis quanto os militares. Bem me lembro, lá no meu Regimento, no meu 11º RI , onde servia nessa ocasião, tínhamos cerca de 30% ou 40% de elementos que eram favoráveis à Alemanha, eram chamados germanófilos.. Mas eles mesmos deixaram de sê-lo, quando notaram, na segunda invasão, na Europa, não na primeira, a da Polônia, mas nas seguintes, Dinamarca, Bélgica, Holanda, França, Iugoslávia, Grécia a Rússia, que a Alemanha queria tomar conta do mundo. Então o ambiente melhorou, o pessoal começou a sentir que a Alemanha era um perigo para o Brasil e para a América, como Roosevelt já havia constatado. Mudou o entendimento, que passou a ser favorável aos aliados. Quando Roosevelt dirigiu sua atenção para o Brasil, possuidor de matéria prima necessária à guerra, fez, em 1943, uma visita ao nosso País e, em Natal, encontrou-se com o Presidente Vargas. Na fala que o Presidente Vargas fez ao povo brasileiro, disse que era possível enviar uma tropa experimentada para o velho mundo, para cooperar com os exércitos aliados. O General Dutra, Ministro da Guerra, fez uma visita aos Estados Unidos. Ele declarou, peremptoriamente, que o Brasil iria mandar uma divisão de infantaria expedicionária para combater ao lado dos aliados, no velho mundo. Daí então, depois dessa fala, é que começamos a nossa mobilização. Uma mobilização, isto é, um mobiliamento do território nordestino e das ilhas oceânicas, como Fernando de Noronha. Em Natal, Recife, Belém do Pará, foram alocadas novas forças militares. A tropa, o 11º BC, de Jacutinga, lá perto do meu Regimento, e o 12º BC foram para Natal. O 11º RI não foi porque já estava previsto seguir para a guerra. Entretanto, no final de 1942, enviaram tropa para organizar o 34º BC de Belém do Pará e o 35º BC, em Bragança, perto de Belém. Antes de abril de 1943, ainda como tenente, pois sou capitão de abril, fui, com cerca de 30 oficiais, sargentos e soldados, integrar o 34º Batalhão de Caçadores, junto à Base Aérea de Val-de-Cans, naquela ocasião, uma floresta que estava sendo desmatada. O Brasil cedeu a área aos Estados Unidos, enquanto durasse a Segunda Guerra Mundial. Essa Base serviu para levar, inclusive, mudas de seringueira para os Estados Unidos e outros lugares, bem como ferro, alumínio, tudo isso. Afinal, fomos para aquela região, a fim de organizar o 34º BC. Permaneci na Unidade durante um certo tempo, inclusive observando o comportamento do povo paraense, o que já fizera, antes de seguir para lá. Foi época de invasão de casas de italianos, alemães, japoneses, em virtude da traição do Império japonês aos Estados Unidos, assim como pelo término da neutralidade rompida na ocasião da reunião de Havana. Assisti a tudo isso em Belém do Pará. Tudo aconteceu como primeiro revide aos países do eixo. O General Zenóbio da Costa era o Comandante da 8ª Região Militar, não me conhecia, mas me via jogar basquete, voleibol, pelo Remo de Belém do Pará, sempre contra o Paissandu. O General Zenóbio era atleta, gostava disso e não saía lá da quadra. Certa vez ele perguntou para o genro: “Quem é aquele lá?”, o genro disse: “É o Tenente Ventura que serve no 34º.” Não fiquei sabendo desse diálogo, a não ser mais tarde. No dia seguinte, estava no meu quartel, trabalhando na construção da pista de atletismo, já que a Unidade não possuía instalações apropriadas. Na verdade, tratava-se de antigo hospital que fora adaptado para receber o Batalhão. Eu era oficial de educação física, possuía o curso. Junto com o pessoal, uniforme de ginástica e picareta na mão, na mesma faina, para dar exemplo. Bem, o General Zenóbio, no dia seguinte, chega ao quartel e me vê. O Ajudante-de-ordens chamou minha atenção e indicou o general que se aproximava. Quando chegou, apresentei-me, e ele disse: “O que é que o senhor está fazendo?” – “Eu estou aqui tentando construir essa pista de atletismo” – “Está ótimo, está certo, eu já conheço o senhor! Já sei quem é o senhor. Eu vou visitar o quartel, quando for dado o toque de oficiais, o senhor não vai não, continua com o seu serviço aqui.” Falou assim, seguiu seu caminho e, depois da reunião com os oficiais, foi embora. No dia seguinte, encontrou-me no Clube do Remo e falou comigo – “você está jogando bem” e aquelas outras coisas. O general admirava muito um atleta e eu, modéstia à parte, naquele tempo, com os meus 28 para 29 anos, gostava muito de jogos, correr cem metros, lançar o peso, disco. De outra feita, fomos chamados ao QG. Ele chegou, dirigiu-se a mim e disse: “Por que o senhor saiu de São João del-Rei?” – “Eu vim porque sou solteiro e me designaram para servir aqui”. “O senhor pretende ficar muito tempo?” – “Pretendo ficar até que Vossa Excelência me tire daqui e possa voltar.” Eu não era muito bobo nessa ocasião, não. Era Tenente, Capitão só em abril de 1943. O Gen Zenóbio foi chamado ao Rio e movimentado para a Diretoria do Pessoal. Antes de sair, chegou perto de mim, despediu-se e disse: “Olha, agora eu vou, mas quando chegar lá, você vai receber um rádio, com sua transferência para o 11º RI, preciso de você no Regimento.” Eu não estava sabendo por que; naquele tempo, o oficial, capitão, tenente não sabia o que se passava, nem se metia a saber. Não tinha idéia de que a gente ia e para onde ia. Aquela fala a que me referi, a do Presidente Getúlio, só vim a saber depois que desembarquei no Rio. Quando publicou a minha transferência e cheguei, fui ao Departamento Geral de Pessoal, falar com o general e agradecer. Ele disse: “Olha, vou precisar muito do senhor lá no 11º RI, porque a Unidade vai comigo para a guerra, eu vou ser o comandante da Infantaria Divisionária.” Fiquei tranqüilo, fui para o meu Regimento e, um mês depois, o general lá chegou, para inspecionar a Unidade. Durante a inspeção, já na reunião de oficiais, ele dirigiu-se ao Coronel Delmiro de Andrade, Comandante da Unidade, e disse: “Coronel, desejo dizer ao senhor que o Ventura vai comandar a Companhia de Obuses 105mm que foi colocada, agora, no Regimento de Infantaria. Ele vai aprender e vai fazer tudo para que nós ganhemos essa guerra.” Falou isso e disse mais: “Queria que o senhor o mandasse escolher os homens que vai comandar, alfabetizados, porque na Artilharia não existe analfabeto.” Depois que o general saiu, o Cel Delmiro falou: “O senhor pode escolher quem quiser.” Então, escolhi; escolhi quem? Eu tinha dois cunhados sargentos que estavam fazendo o estágio na Unidade, além de um irmão, também sargento. Os três iam fazer exame para a Escola Militar e foram os primeiros que vieram. Além deles, chamei antigos colegas meus do ginásio Santo Antônio. Minha Companhia ficou uma subunidade de parentes e amigos, uma verdadeira beleza. Eu não comandei, eu estava junto com os meus amigos. Por isso, fiquei muito feliz com a minha Companhia de Obuses. Quando o Gen Zenóbio verificou que o navio comportava duas companhias, mandou um mensageiro ao morro do Capistrano e determinou que embarcássemos, eu e minha Companhia. Então, fui para lá e embarquei. Quando cheguei a Nápoles, ele falou: “O senhor agora é do 6º RI.” Publicou em boletim a nossa transferência para o 6º RI e pronto. Dessa maneira fui para a guerra. Foi curiosa a forma como participei de exercícios preparatórios, ainda no Brasil. Quando estava no 11º RI, colocava uma carroça, aquelas “carrocinhas” que a gente tinha, para fingir que era canhão, para fazer “ordem unida de artilharia junto do canhão”. Veja bem, as flechas das peças eram os varais da carroça. Quando chegamos ao morro do Capistrano, pensei: “Mas não posso fazer nada, como é que vou fazer, não sei nada dessa Artilharia.” Aí alguém disse: “O Capitão Valmiki Erichsen está aqui perto, no Grupo Souza Carvalho.” Então, fui lá falar com o Souza Carvalho e disse: “Coronel, eu não entendo nada, vou para a guerra com seis obuses, as Baterias de seu Grupo têm quatro só, a minha tem seis. O que é que vou fazer com seis obuses que não sei operar?” Ele chamou o Valmiki, que chegou em seguida. Conversamos sobre o meu problema, e pronto, o Valmiki resolveu logo. Tanto assim que deu férias à Bateria dele, justamente quatro dias antes do Presidente Getúlio Vargas ir ao Campo de Instrução de Gericinó. Getúlio foi lá para assistir a uma demonstração de tiro de Artilharia. Quem é que fez a linha de fogo? A minha Companhia de Obuses fez a linha de fogo de bateria, porque o pessoal de Artilharia estava fora. Mas, antes disso, no dia 17 de maio, não esqueço essa data, eu já fizera um exercício conjunto com o Valmiki, com meus soldados nas peças da linha de fogo. e meus homens no observatório de Monte Alegre. Naquele tempo, ainda não havia a central de tiro, era outro sistema, depois é que mudaram. O Valmiki me ensinou tudo e não deixei escapar nada. Aprendi a técnica de artilharia, porque a tática nem sei o que é. Eu era capitão, não tinha nada de tática, tinha mais é que saber regular, saber atuar como observador avançado. Na minha companhia, 2ª Companhia, no primeiro ataque que fizemos, atuei como observador avançado ligado à linha de fogo. Esse treinamento foi a coisa mais importante que se fez para um oficial, no meu caso, excepcionalmente, pelo fato de uma Companhia de Obuses, dentro da Infantaria, apoiar com fogos de Artilharia a sua própria tropa. Um fato inusitado e motivo de orgulho. A minha viagem começou no dia 2 de julho. Antes do embarque, dia 1º, o Presidente foi despedir-se da “moçada”. No dia 2 de julho, às sete horas da manhã, já estávamos saindo no navio General Mann, comboiado por três contratorpedeiros brasileiros e um cruzador americano. Levamos dezesseis dias para chegar lá, o que aconteceu no dia 18 de julho; desembarcamos e fomos direto para o acampamento, em um lugar chamado Agnano, distante de Nápoles cerca de 20 minutos de automóvel, onde existia um vulcão já extinto, excelente área coberta de bosques, que oferecia ótimas condições para instalação do acampamento e armar barracas de dez praças. Ao longo do percurso marítimo, participamos de exercícios de salvamento, quase todas as noites ou durante o dia. Uma sirene tocava, anunciando inimigo à vista. Colocávamos os coletes e nos dirigíamos para junto dos botes, ficando em condições de descer. Mas era somente um treinamento. Jamais ocorreu qualquer surgimento de inimigo ou de outra qualquer ameaça ao navio General Mann. A alimentação, durante a viagem, constava de uma refeição diária, somente, porque o navio transportava 5.600 homens. A capacidade para alimentar aquele pessoal não era grande. Então, quando terminava o almoço já estava na hora do jantar, eis porque só poderia haver uma refeição. Mas eles faziam sanduíches e esses sanduíches eram entregues à tropa, que os consumia nos seus alojamentos, ficando muito bem alimentada. Não considero batismo de fogo minha Companhia atirar na regulação de um tiro, realizar um tiro de inquietação ou de destruição. Batismo de fogo a gente considera quando há o tiro das armas portáteis ou recebe uma contrabateria do inimigo, sobre nossa posição, o que aconteceu uma vez. Graças a Deus não recebemos, nessa oportunidade, contra bateria sobre nós. No dia 15 de setembro, à meia-noite, substituímos dois batalhões americanos na zona de Vechiano. Trezentos metros atrás estava a minha Companhia de Obuses, com as seis peças em linha, protegida por uma boa massa cobridora. Lembro-me, também, que o Grupo Da Camino estava lá, cerca de 800 metros à esquerda, igualmente atrás de uma boa massa cobridora, para fazer a regulação do seu tiro. O Tenente Coelho Netto, que o senhor conheceu, ficou na linha de fogo e para o observatório mandei o Tenente Antorildo, meu oficial de reconhecimento. Bem, prossegui ao lado do Capitão Tavares, comandante da 2ª Companhia do I Batalhão. O Batalhão estava com a missão de atacar Bozzano e Massarosa, que eram as duas regiões mais importantes. Massarosa era um entroncamento de estradas, uma ia para o Mar Tirreno, na direção de Viareggio e a outra para San Lucas, a cidade de Lucas. Então, pedi ao Tenente Antorildo, no observatório, que, com sua carta, procurasse regular o tiro sobre Massarosa. Como estava claro, ele regulou o tiro para aquela região. O inimigo que se encontrava na área retraiu quando lá chegamos para substituir os dois batalhões americanos. O Cap Tavares, Alberto Tavares da Silva Junior, irmão do Anacleto Tavares, comigo a seu lado – como procede o observador avançado na artilharia, apoiando todos os pelotões – era um sujeito meio audacioso, estava na frente mesmo. Permaneci ao lado dele, para atender a algum pedido de tiro. Se fosse o caso, ligaria para o Coelho Netto, na linha de fogo, ou para o Antorildo, no observatório. Cheguei a dar ordens para, enquanto não houvesse missão, desencadearem tiros de inquietação sobre Massarosa e Bozzano, porque era para lá que iríamos. No trajeto, ao chegarmos perto do Monte Comunale, recebemos tiros daquelas alturas, que ficavam a uns 800 metros de Bozzano. O Capitão Tavares, que já estava com a Companhia bem adaptada ao terreno, procurava movimentar-se sem ser visto. Nós ainda usávamos o método francês. Não vi o método americano na Itália, porque os nossos soldados, os meus e os das demais companhias de fuzileiros, eram das classes de 1942, 1943 e 1944. Essas três tiveram instrução de combate e serviço em campanha pela escola francesa. Para o ataque, usavam quatro perguntas: “Para onde vou?” “Por onde eu vou?” “Como vou?” “Quando vou?” Quatro perguntas capitais, consagradas. A progressão, aprendemos com o francês, deveria ser feita se arrastando no chão, sem levantar o calcanhar, para não levar tiro e morrer. Para se proteger do arrebentamento de granada, pois esta avisava com um sibilar característico, a gente sabia: deitar no chão, a fim de escapar do estilhaço. Foi essa a instrução que tivemos e foi com essa instrução que continuamos a guerra. Resumidamente, tudo que a minha Companhia aprendeu, aprendeu no Grupo Souza Carvalho, com o máximo de boa vontade, tanto da parte do Comandante de Bateria, quanto do Comandante do Grupo. O pessoal de nossa Companhia não sentiu qualquer diferença, até porque jamais tinha visto um canhão, nem mesmo em retrato. Foi ver no Capistrano e, depois, quando chegou em Vada, Tarquinia, ao recebermos o material. Só conhecemos o obus 105 na Itália. Antigamente era o 75. Estudei com o 75. Quanto ao armamento de infantaria, tínhamos o fuzil Mauser 1908, de repetição. O fuzil americano era o Garand, automático. Para atirar era só apertar o gatilho. Interessava, em termos de armamento, saber atirar, desmontar e fazer a manutenção simples. O que era necessário saber mais, o americano ensinou, tanto sobre o fuzil quanto sobre as metralhadoras .30 e .50. Ensinou a manutenção também, embora nem sempre precisasse fazê-la, porque o pessoal brasileiro procurava, ”fuçava” e acabava encontrando a solução, com louvável iniciativa. Já era armeiro por natureza. Não posso falar sobre os outros soldados, mas sobre os que estiveram comigo, e já comentei esse particular, eram amigos, parentes, companheiros de escola, de maneira que faziam tudo pelo “bem querer”. Certo dia, no mês de junho, um enfermeiro tratou mal um companheiro e este o agrediu com um soco. O camarada que deu o soco era metido a machão. Como estava perto, vi o sangue no rosto do agredido e perguntei o que tinha havido. Na verdade, quando vi o sangue, fiquei meio doido e fui prender o cabo responsável. Eu era bom atleta e fiquei aguardando que ele viesse. Entretanto, ele levantou chorando, fez a continência, pediu desculpas e alegou que não pensara em fazer aquilo. Quer dizer, ele possuía disciplina consciente. Todo o pessoal era disciplinado. Mesmo quando permanecemos no acampamento geral em Francolise, perto de Nápoles, antes do regresso ao Brasil, todos se comportaram muito bem. Sofremos um inverno de 18º abaixo de zero. O meu motorista era também corneteiro, em obediência ao quadro de organização. Esse soldado sentia um frio danado e quase teve pé-de-trincheira. Os meus comandados não padeceram desse problema porque, com aquela reconhecida criatividade, souberam se defender. O combat boot americano era todo forrado, mas o nosso pessoal colocava jornal ou papel. Por isso estavam sempre com os pés secos, em condições e evitavam o congelamento. Enfrentavam isso e muito mais, tanto que aceitavam, por exemplo, a comida de “latinha”. Vivemos a fase defensiva na ocasião do inverno. Foi época das nossas patrulhas e das alemãs. As patrulhas saíam com as véstias brancas, às vezes se enfrentavam. Se não se encontrassem, tentavam trazer prisioneiros e informações sobre o inimigo. Só reconhecimento. Tínhamos contato com a população civil durante as patrulhas. Era quando aparecia a oportunidade de vê-los. Na defensiva foi muito difícil fazer contato com os populares. O povo vivia quase na miséria, queria comer. Os que moravam nas redondezas se juntavam, faziam fila, debaixo de um frio danado, primeiro as crianças, depois as mulheres e os velhos. Todos se alimentavam com o que sobrava do rancho. Mas dava para eles comerem, depois que as Companhias recebiam as etapas, esquentavam e serviam as refeições para o seu efetivo. Sem dúvida, isso aumentou a integração. O serviço religioso na Companhia de Obuses, com o pessoal de São João del-Rei, era levado muito a sério. Não só a Companhia que comandei, mas de uma maneira geral, a maioria era muito religiosa. Na minha subunidade, esse aspecto foi mais acentuado, porque alguns de seus integrantes já tinham estudado para padre. Meu pessoal conseguiu fazer uma cruz que colocou, num caminhão de 1.1/2 tonelada, viatura tratora do obus 105 M3. A viatura tracionava muito bem, diga-se de passagem. O Nilton Melo amarrou a cruz na carroceria do caminhão. Já havia o lugar da missa, todo o pessoal do Regimento ia assistir ao culto, bem como os que se encontravam nas redondezas. Havia uma natural devoção. O Frei Orlando, muito querido por todos, era do 11º RI e celebrou missa em nossa área. Era, também, meu amigo. Tive mais contato com o soldado alemão no destacamento do General Zenóbio. No livro que escrevi, refiro-me ao fato do aprendizado na escola francesa. Quando um objetivo era conquistado, para que não fosse retomado pelo inimigo, em contra-ataque, eram preparados planos de fogos, abrigos, etc. Em relação a esse cuidado, para evitar que o inimigo contra-atacasse com sucesso, vou relatar o seguinte: o Capitão Tavares, a quem já me referi, era muito meu amigo e ficou mais amigo ainda, durante a ida para Bozzano. Eu estava, nesse dia, na torre de uma igreja, fazendo a observação do dispositivo que havia realizado o ataque, para chegar a Castelnuovo di Garfagnana. Então vi um movimento, o pessoal recuando, recuando até que dei ordem à Companhia para não atirar naquela direção, pois não sabia o que estava sucedendo. O Major João Carlos Gross, Comandante do I / 6º RI, chamou-me: “Ventura!” Aí, desci as escadas, e ele me disse: “O Tavares quer falar com você.” Coloquei o fone no ouvido, música tocando, falei: “Tavares, o que é, você está escutando música? E o alemão?” Ele respondeu: “O alemão não é de nada.” Mas o que houve foi o seguinte: O alemão, que era muito vivo, colocou na frente a tropa italiana – eles tinham uma companhia de italianos – e quando nós atacamos o italiano levantou a mão com a maior facilidade. Atacamos, conquistamos o objetivo e trouxemos cerca de quarenta ou cinquenta prisioneiros. Eram cinco horas da tarde, botaram música, aquela coisa toda, daqui um “bocadinho” o alemão atacou. Um camarada que estava dentro de uma casa, pulou pela janela e foi metralhado. Era inverno, então o corpo ficou cerca de seis meses debaixo da neve. Em maio ou junho, já não estava mais fazendo frio, o corpo foi encontrado inteirinho, conservado na neve. Era um Tenente que, em vez de estar junto com a sua subunidade, vendo se estavam cumprindo a missão de manutenção do objetivo, estava lá dentro do quarto. Eu não quis falar nada, mas depois o próprio General Zenóbio chegou, chamando todos de covardes: “De cima para baixo todos são covardes aqui.” Foi assim, ele era duro. Não podia admitir que acontecesse uma coisa daquela. Na verdade, não retraímos além da linha que ocupávamos e, no dia seguinte, voltamos para as nossas posições que acabamos reconquistando. Não foi covardia, foi indisciplina. Acharam que estava tudo bem. Falta de atenção, falta de maturidade, ainda não eram veteranos. Mostraram despreparo. E o alemão era realmente um grande soldado. Na parte da defensiva propriamente dita, eu faria um destaque. Gostaria de mencionar isso. Uma patrulha foi organizada em Montese, que já tinha sido conquistada. Mas havia Montelo e mais outra região, porque Montese era um agrupamento de pontos fortificados: Montese, Montelo, Monte Bufone. Em uma daquelas patrulhas que foram feitas depois, encontraram uma cruz fincada no solo, com a seguinte inscrição: “Aqui estão sepultados três bravos brasileiros.” Camaradas de uma patrulha nossa. Os outros desgarraram e voltaram. Esses três, com certeza, encontraram uma patrulha alemã, a munição acabou e eles, para não morrer, partiram para o combate corpo-a-corpo. Aí os alemães acabaram com eles. Para o inimigo, três heróis brasileiros. Abriram a cova e enterraram os rapazes, colocaram uma cruz, onde escreveram “aqui jazem três bravos brasileiros”. Demonstração de humanidade e respeito ao adversário. A 148ª Divisão só aceitou a rendição incondicional porque se tratava de uma tropa brasileira! Os alemães mesmos repetiam “os brasileiros são dignos de confiança”. A rendição é fato que desejo destacar, porque, para mim, foi a coisa mais importante que fizemos. Collecchio-Fornovo tinha acabado de cair. Fornovo ficava cerca de 8 a 10 quilômetros a nordeste de Collechio. Estávamos lá, eu e a minha Companhia, bem como o I Batalhão. O Coronel Nelson de Mello, Comandante do 6º RI, chamou-me e disse: “Foram localizados cerca de quinhentos alemães que estão tentando atravessar a linha Gaiano, Segalara e Talighano”. Essa tropa, considerada como pertencente à 148ª Divisão alemã, queria atravessar essa linha para dirigir-se a Parma, no Vale do Rio Pó, e retrair, na verdade, fazer uma retirada. “Necessitamos que o Batalhão vá com a sua Companhia de Obuses. Vocês estão em condições?” Eu só precisava ver se havia carta. Encontrei no S3. Estudei como faria o deslocamento, porque queria ir embora de uma vez! Sair antes que desse qualquer coisa errada. Realmente, eu não poderia sair, pois minha subunidade, praticamente de artilharia, não dispunha de qualquer apoio. Entretanto, tinha certeza de que o meu pessoal, bem armado, iria. Arranjei a “coisa toda” e me desloquei. Cheguei à linha de alturas de Gaiano, Segalara e Talighano, uma extensão mais ou menos de uns quatro quilômetros. Segalara era o mais importante. O meu pessoal de reconhecimento procurou uma posição, com uma boa massa cobridora, quinhentos ou seiscentos metros atrás de Segalara, onde colocamos os nossos seis obuses. Duas horas depois, chegou o Valmiki, que se colocou lá do outro lado. Bem que fiz isso, porque, se não tivesse feito, o Batalhão, quando chegasse, não encontraria um acidente do terreno que lhe permitisse fazer um ataque coordenado. Não havia segurança na linha de partida. A sorte deles foi eu ter chegado uns cinqüenta minutos antes. As peças entraram em posição, o Coelho Netto foi para cima do Morro Segalara, para observar, e deu o sinal para nós. As peças estavam prontas! Atiramos à frente de Segalara, atendendo ao pedido de tiro do Coelho Netto. Os alemães da 148ª estavam vindo para conquistar aquela elevação, a única que eles iriam encontrar, porque lá era um descampado. Deparariam com as minhas primeiras posições. Mas, logo em seguida, chegou o I Batalhão, do Major Gross. Desse I Batalhão fazia parte o Capitão Ernani Airosa da Silva. Bem, sei que o Airosa era um dos melhores que tivemos lá, foi um sujeito formidável. Mas teve uma infelicidade, porque, quando chegou com o Batalhão, foi reconhecer o Morro Segalara. Fez o reconhecimento e viu, com o binóculo, os alemães se movimentando na frente. Voltou para fazer o relato ao Major Gross, que estava no PC. Quando regressou, em vez de tomar a estrada que eu tomei e pela qual ele veio, a que fazia uma curva para subir a elevação, continuou na direção do inimigo. A Polícia do Exército não fora chamada, embora sua missão em campanha fosse guarnecer os pontos críticos para impedir movimentos não autorizados. Mas ela lá não estava, eu também não sabia de nada, queria cumprir a minha missão e o Batalhão executar a dele. Então, quando o Airosa chegou, escutei a explosão. Sua viatura passara em cima de uma mina anticarro. Foi feito prisioneiro, mas, pela madrugada, os alemães já tinham mandado os parlamentares para cá, de maneira que o Airosa voltou, transportado como ferido. Estabelecemos muitos contatos com militares de outras nações. Particularmente, nos exercícios, nos testes finais que realizamos. O General Mark Clark, Comandante do V Exército, não permitiu que a nossa tropa entrasse em combate sem ter sido testada por eles. Colocou 270 árbitros americanos entre oficiais e sargentos, e providenciou um teste final – uma marcha para o combate, de 36 quilômetros, com tiro real. A marcha foi executada, o ataque desencadeado e figurado o assalto. Os árbitros americanos, unanimemente, consideraram a tropa brasileira bem adestrada, com capacidade e iniciativa de combate. Por isso, o General Mark Clark abraçou o General Zenóbio, que era o Comandante do Grupamento Tático empenhado no teste. Convivemos também, uma semana antes, com a 88ª Divisão, que era constituída de filhos de japoneses. Fizemos o nosso estágio com eles, na frente de Florença, perto de onde nos encontrávamos. A minha Companhia de Obuses ficou junto à Companhia de Obuses do 42º Regimento. Foi um estágio que providenciaram para nós. Uma beleza, fiquei ao lado do capitão, um oficial de artilharia. Era um sujeito formidável. Levou-me para o PC dele. Falava espanhol muito bem e me explicou tudo sobre central de tiro. Ficamos lá dois dias. Vimos que eles queriam nos ajudar, particularmente os da 88ª Divisão. Também o pessoal que deu instrução de armamento foi formidável, gente muito boa, tratou-nos como se fôssemos irmãos. Certa feita, o nosso jipe enguiçou. Perto, havia uma viatura de transporte inglesa, também enguiçada. Mas quando o nosso teve a pane, eles largaram o transporte deles e vieram nos ajudar. O nosso era um jipe e o deles um transporte 3/4 tonelada, daquele menor. Depois voltaram e foram tratar da viatura 3/4. Foi um gesto de grande solidariedade. O apoio logístico funcionou muito bem. Vestuário, por exemplo. O General Zenóbio teve a coragem de nos mandar com aquela roupa “jegue”, sem recorte, uma coisa feia. A gente desfilou com “aquilo”. Entretanto, ao ver a polícia do Exército americano – nós éramos 59 soldados –, mandou buscar alfaiates em Nápoles e determinou que confeccionassem, para cada um, dois uniformes “traquejados” e outras peças; havia tudo. Era só fazer o pedido na central de abastecimento e a entrega era imediata. Combustível havia na estrada, nos postos de combustível, sem precisar coisa alguma. Era só chegar à bomba e abastecer. Quanto à munição, só diminuíam a dotação quando o consumo estava exagerado. Eu não tive esse problema, porque o americano deixou a Companhia de Obuses deles perto da Torre de Nerone, abandonando uma grande quantidade de munição. Mandei, depressa, o sargento de munição, meu irmão Aderbal, fazer mais de 20 “viagens” e trazer toda a munição. O apoio de saúde foi perfeito. Quando estávamos em combate, os enfermeiros funcionavam muito bem. Havia sempre um posto de saúde nas proximidades. As ambulâncias faziam a evacuação do ferido, tudo muito bem entrosado. O companheirismo, a união, a vontade de bem cumprir a missão, isso tudo fez com que a minha Companhia se destacasse. Outros que poderiam falar sobre a minha Companhia já morreram. Seriam o General Zenóbio e o Coronel Souza Carvalho, que até me fez um elogio em boletim, depois que passei à disposição do Grupo. O Valmiki Erichsen também poderia falar. Realmente, sempre gostei das minhas subunidades. Antes de comandar a Companhia de Obuses, era Comandante da Companhia de Petrechos Pesados do Batalhão. Era uma beleza de Companhia que, por exemplo, nenhuma outra, mesmo de fuzileiros, conseguia superar na ordem unida. Quanto às missões de tiro, primeiro só recebia os pedidos de tiro das subunidades do Batalhão. Fiquei na central de tiro somente depois que o 2º escalão chegou. Nessa última situação, as subunidades pediam tanto para mim quanto para o Grupo de Artilharia Da Camino. Pediam o apoio diretamente para minha Companhia quando não havia ainda um escalão superior de artilharia. Depois fui guarnecer a central de tiro com os meus sargentos. A Companhia atuou de forma descentralizada, primeiro, e centralizadamente, após a chegada do Grupo. Gostaria de fazer referência a dois comandantes que tive: Coronel Nelson de Mello e Coronel Segadas Vianna, dois excelentes camaradas; não se pode afirmar qual o melhor. O Coronel Segadas Vianna, que era o mais velho, ia à minha Companhia, lá nas posições de tiro. Havia um Pelotão que ficava mais desgarrado, porque eu dividia a Companhia em dois Pelotões de três peças. Para mim, ficava melhor ter dois observadores avançados. Um outro ficava na linha de fogo. O Coronel Segadas Vianna, todo o dia, de manhã cedo, tomava o café e ia visitar as Companhias, assim como o General Zenóbio da Costa. O General Zenóbio da Costa, ninguém pense ao contrário, não ficava no PC. O pessoal preocupava-se com suas “andanças”, porque, na Torre de Nerone, por exemplo, lugar perigoso demais, “botava a cabeça de fora, voava tiro de morteiro”. No dia 19 de novembro, dia da Bandeira, ele foi a todos os lugares mais perigosos, de jipe. O pessoal dizia “general, não pode”. Ele retrucava: “ Vocês estão com medo, não precisam ter medo não.” Então, visitava, cumprimentava um e outro. Mas era aquele “camarada” destemido, o General Zenóbio. Destemido mesmo. O Coronel Nelson de Mello não foi só fundamental na rendição. Usou de um artifício no qual o alemão caiu. Na verdade, a Divisão não estava absolutamente cercada. Ele falou que estava cercada e o inimigo aceitou, o que não era real. Eu estava ali vendo tudo. Foi um artifício que ele usou propositadamente. Sabia que os inimigos desejavam se entregar. Foi psicológico. Havia um posto de recolhimento do armamento aprisionado, à margem de uma estrada. Fiquei ali, naquele lugar onde, ao passarem, descarregavam as armas. Não podiam parar, continuavam o deslocamento. Os alemães vieram entoando canções de guerra, com aquele passo firme. Quando chegavam perto das posições onde estávamos, davam “passos de ganso”. Eram audaciosos, como se fossem vencedores. A um quilômetro dali, fui ver o campo de concentração, onde permaneceram até o dia seguinte, quando foram mandados para Modena, campo de concentração do V Exército. Mas tinham o moral elevadíssimo. E o nosso pessoal, com pena, distribuía cigarro e dava chocolate. O que mais me chamou a atenção na campanha da FEB foi o cumprimento da missão que recebemos. Fomos preparados para a guerra, portanto o cumprimento da missão foi a coisa mais importante que fizemos. Costumava confortar meus comandados em certas oportunidades. Por exemplo, perguntar se estavam bem alimentados, verificar se não se encontravam ao relento, e se a linha de fogo, em geral, estava próxima de um barranco, bem abrigada atrás dos morros, em posições isoladas. Ou então confortá-los, quando não recebiam notícias de casa. Comentava que também não havia recebido uma só carta, explicava que a correspondência atrasava, enfim, a gente “embromava”. Era uma espécie de conforto que se podia dar. Tivemos feridos por estilhaços de granada de uma contra bateria. A granada explodiu, pegou um companheiro na linha de fogo e mais uns cinco ou seis. Morreu um só. A propaganda alemã, propriamente, foi feita por intermédio de panfletos lançados pela Artilharia. As granadas explodiam espalhando os folhetos, alguns com o seguinte teor: “O que é que vocês estão fazendo aí? Os seus chefes estão dormindo lá no Brasil!” Os nossos eram lançados dos aviões. Os preparativos para a volta foram singulares, pelos aspectos que os cercaram. Estávamos voltando lá do Norte da Itália, de perto de Gênova. Regressamos para as cercanias de Nápoles, a poucos quilômetros da cidade, num lugarejo denominado Francolise. Ficamos em barracas de 10 praças, num acampamento que os americanos montaram. Fazia um calor terrível. Vivíamos os meses de junho e julho, época de forte verão na Europa. O americano já deixara tudo preparado para nós. Não tivemos que armar barracas, pois as encontramos todas arrumadinhas. Lá ficamos, reunimo-nos e foi organizada a associação dos ex-combatentes do Brasil, lá em Francolise. Quando chegamos ao nosso País, o cais do porto estava apinhado de gente, muita gente, foi bastante difícil atravessar aquele povo, para entrar em forma. Iniciamos o deslocamento da Praça Mauá e seguimos pela Avenida Rio Branco. Perto da Avenida Rio Branco, a tropa ainda alinhada, os populares entraram por dentro da formação, aplaudindo-nos e abraçando-nos. Muita gente queria ter ido e não foi à guerra. É claro, nem todos que desejaram puderam ir. Contávamos 25 mil homens na Itália, em condições de combater. Era grande o número de voluntários. Mas muitos não foram. De qualquer forma, após nossa chegada, diversos ex-combatentes foram mandados para Centros de Instrução, Escola Militar etc. Os oficiais e os sargentos tornaram-se instrutores e monitores nessas organizações. Foram bem aproveitados. Foram úteis para o Exército o conhecimento e a experiência adquiridos pela FEB. Por isso, os ensinamentos foram ministrados nas escolas, principalmente na Escola Militar. Eu me sentia como um veterano. Depois que embarcamos no navio, tive a felicidade de ser chamado pelo General Zenóbio da Costa que também convocou o Coronel Nelson de Mello e disse: “Coronel, entregue esse braçal MP, Militar Police, para o capitão Ventura que vai ser o chefe de disciplina neste navio – o General Mann. O comandante do navio veio falar comigo e me cumprimentou. Cheguei ao Rio, nessa condição. Deixei de ser MP para, mais tarde, comandar a minha PE, aquela PE que fez a guerra. No que diz respeito a uma mensagem final, posso deixar pelo menos três: a primeira é que a melhor e a maior homenagem que se faz a um combatente morto é dar assistência ao combatente vivo; a outra mensagem é “se estiverdes servindo às Forças Armadas devereis saber que estareis sendo preparados para a guerra, se não fordes bem preparados podereis ser mortos”; a última mensagem é que “deveis cultuar os gloriosos feitos dos ex-combatentes da guerra do Paraguai e da Segunda Guerra Mundial”. São as mensagens que deixo. O General Domingos Pinto Ventura Junior, Presidente do Conselho Nacional da Associação dos Ex-Combatentes do Brasil faleceu na manhã do dia 12 de Julho de 2007, no Rio de Janeiro.