terça-feira, 23 de outubro de 2012

UMA CRÔNICA DE OLAVO DE CARVALHO



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Publicado em Segunda, 22 Outubro 2012 20:13
Escrito por Olavo de Carvalho

O Mensalão não surgiu como iniciativa isolada de alguns vigaristas, mas como peça integrante e essencial da estratégia petista de debilitar as instituições para subjugar o Estado e fazer dele o instrumento dócil da vontade do Partido. Essa estratégia, por seu lado, não pode ser compreendida fora do contexto do Foro de São Paulo e de seus planos de dominação continental, que incluem a legitimação sistemática do crime – desde que cometido pelo "lado certo" – como modalidade usual e até obrigatória de ação política.
E nada disso faz o menor sentido sem a concepção tradicional marxista que se utiliza do "direito burguês" como uma ferramenta provisória a ser jogada no lixo tão logo a facção revolucionária chegue ao poder.
Quando um fenômeno dessas dimensões aparece em escala diminutiva, reduzido a um caso de delito comum, e por sorte alguns dos culpados vêm a ser punidos pela Justiça, haverá nisso algum motivo de júbilo e comemoração?
Entre os fenômenos estranhos da mente humana, um dos mais singulares é o otimismo do desespero. É o sentimento que nasce quando um sujeito sofreu tantas derrotas e humilhações que sua expectativa de melhores dias encolheu ao ponto de qualquer alívio mesquinho e passageiro bastar para levá-lo ao êxtase. Para quem padece de impotência há trinta anos, uma ereção de dez segundos é a apoteose da virilidade.
É esse o problema da "direita" brasileira. Poucas coisas são mais deprimentes que o triunfalismo fingido dos derrotados que tentam encobrir, com vitoriazinhas de detalhe, a imensidão de um fracasso geral e definitivo.
Pelo menos dessa indignidade não se pode acusar a esquerda. Expelida do poder em 1964, desbaratada e humilhada, ela teve a hombridade de reconhecer a derrota em toda a sua plenitude e entregar-se, por anos a fio, a um seriíssimo esforço de análise autocrítica, do qual emergiu portadora da nova estratégia que acabaria por lhe dar o controle hegemônico da vida cultural e logo em seguida o domínio absoluto do cenário político.
A esquerda conquistou o poder porque o mereceu. Mereceu-o, é claro, não pelas múltiplas e ilimitadas virtudes morais que se arroga – as quais, por sinal,  não existem – mas por uma única que ninguém lhe pode negar: a coragem de aprender com o fracasso.
A direita, ao contrário, não tem fibra nem mesmo para reconhecer que perdeu. Na década de 90 – enquanto os partidos de esquerda se reagrupavam no Foro de São Paulo, cortavam cabeças de direitistas à vontade mediante acusações de corrupção, verdadeiras ou falsas, e com a maior facilidade iam se impondo aos olhos do povo como paladinos da moralidade – ela ainda arrotava superioridade e, girando um copo de uísque com ar blasé, sentenciava: "O comunismo está morto."
Com que tranquilidade olímpica liberais e conservadores não apontavam as figuras dos caciques regionais – Maluf, Magalhães, Sarney, Collor – como se fossem fortalezas inexpugnáveis, barreiras intransponíveis contra as quais a onda esquerdista iria se quebrar em vão!
E quando eu lhes dizia que esses personagens seriam varridos do mapa ou reduzidos ao estatuto de office-boys em cinco minutos, tão logo a esquerda assim o decidisse, olhavam-me com um ar misto de pesar e de condescendência, como se eu fosse um egresso do Pinel, um caso perdido.
A covardia física pode às vezes ser compensada por uma dose de astúcia. Mas a covardia intelectual não tem perdão: é punida sem remédio neste mundo – e talvez no outro.
A recusa obstinada de uma reflexão autocrítica tem custado muito  caro aos partidos de direita. Da condição de meros derrotados passaram à de moribundos – e agora vão se aproximando rapidamente do que parece ser o seu ideal supremo: a perfeita inexistência.
E mesmo no fundo da mais negra humilhação ainda se recusam a admitir que algo deu errado, que é preciso pôr a mão na consciência e rever com olhos severos o caminho percorrido do poder absoluto à inermidade completa. Não reconhecem nem mesmo o que há de mais espetacular e patente, o óbvio ululante de que falava Nélson Rodrigues.
Até hoje, quando aponto os erros patéticos dos governos militares, que prometeram erradicar o comunismo e em vez disso pavimentaram o caminho para o retorno triunfal dos comunistas, ainda aparecem saudosistas do absurdo me xingando de impatriótico e até de esquerdista, porque não acho tudo lindo naquilo cuja lembrança os comove até às lágrimas.
Quando a afeição a símbolos de solidariedade grupal se sobrepõe desse modo ao senso de realidade, a hora da morte chegou ou – horresco referens – já passou. Felizes tempos aqueles em que os presunçosos comiam mortadela e arrotavam peru. Já faz alguns anos que a mortadela acabou.

Olavo de Carvalho é ensaísta, jornalista e professor de Filosofia

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