terça-feira, 22 de setembro de 2015

ENTREVISTA DO TENENTE-CORONEL PM ALBERTO MALFI SARDILLI, NOVO COMANDANTE DO 1º BPCh "TOBIAS DE AGUIAR" (ROTA) AO DIÁRIO DE SÃO PAULO (EDIÇÃO DE 22 DE SETEMBRO DE 2015)

O jornal DIÁRIO DE SÃO PAULO traz uma entrevista de AMANDA GOMES com o novo Comandante do 1º BATALHÃO DE POLICIA MILITAR DE CHOQUE - ROTA
Novo Comandante da ROTA diz não tolerar vagabundo e pede para os membros de elite da Polícia Militar paulista ' ser um pouco mais racional do que os semais seres humanos'.
Aos 46 anos de idade, sendo 31 dedicados à Polícia Militar, o TENENTE-CORONEL PM ALBERTO MALFI SARDILLI assume o comando da ROTA, a tropa de elite da corporação paulista, com a missão de acalmar a tropa, considerada a mais temida da PM.
Graduado no curso de formação de oficiais da Academia Militar do Barro Branco, o bacharel em direito foi escolhido pelo governador GERALDO ALCKMIN somente sete meses após a nomeação de ALEXANDRE GASPARIAN, que deixa o cargo chamuscado por justamente não diminiuir as mortes provocadas por policiais.
O novo Chefe das Rondas Ostensivas TOBIAR DE AGUIAR tem fama de durão. Ele nega, mas deixa claro seu recado aos subordinados.
"Vou trabalhar dentro da expectativa da comunidade paulista, que é a dureza no trato contra criminalidade, mas dentro dos parâmetros da legalidade. Não podemos nos levar por discursos oportunistas de justiça com as próprias maos", avisou o tenente-coronel.
Ex-comandante da Cavalaria da PM, SARDILLI falou ontem com exclusividade ao DIÁRIO.
DIÁRIO - Qual vai ser o foco da sua gestão à frente da ROTA?
ALBERTO MALFI SARDILLI - Não podemos imaginar a tropa do 1º Batalhão de Choque (a ROTA) como escoteiros. Isso é inviável porque se fosse para ser isso, não precisaria tê-la. Os policiais e eu, como comandante, temos de ter essa consciência. O nosso limite é estipulado pela lei.
O que representa para o senhor assumir a ROTA nesse momento conturbado?
Uma responsabilidade muito grande. Infelizmente tivemos alguns desvios de conduta que foram muito negativos para a instituição. Temos a plena consciência que a Polícia Militar tem valores bem maiores do que esses policiais apresentaram.
Como lidar com esse alto risco sem cometer excessos?
É obvio que temos um grau de risco bem maior (no combate ao crime). Seria semelhante a falar que um médico que opera numa cirurgia grave não tenha as mesmas perdas de um profissional que atende uma gripe. Da mesma maneira, não podemos fazer um parâmetro de um policial que atende o 190 com uma tropa que é colocada em locais de alta incidência criminal, com armamentos específicos para dar integridade física aos próprios agentes, e achar que os resultados serão semelhantes. Cabe a nós combater a criminalidade e temos a espectativa que a população e os organismos de direitos humanos entendam essa relação pois, infelizmente, cabe a nós fazer esse trabalho.
Como é a seleção para um PM entrar para a ROTA?
Ninguém cai de paraquedas aqui. Os policiais que se destacam nas suas áreas geográficas são identificados e tem de ter um perfil aguerrido. E não pode ser diferente disso. Trabalhamos no limite da bandidagem, no limite da vagabundagem. Não dá para ser carinhoso e nem cortês demais (com bandido). Ainda assim eles passam por estágio operacional, pelo crivo de outros oficiais para ver se têm condições técnicas, psicológicas e equilíbrio para exercer a função.
Mas qual a estratégia para manter esse equilíbrio?
Quem usa um brasão da ROTA tem de ser um pouco mais racional do que os demais seres humanos, até para preservar a si mesmo, a instituição e a família. A barreira do policial da ROTA para cometer deslizes é a família.
O senhor tem fama de linha dura. Como é o seu perfil com os subordinados?
Sou legalista. Ser linha dura às vezes pode levar para um campo de rigor excessivo. Na verdade, o rigor excessivo tem o limiar da Justiça. É nesse limiar que vamos trabalhar, da legalidade e da Justiça. Não tem como tratar na moleza. A gente tem de ter um rigor adequado ao tamanho da responsabilidade que nos é ofertada. Eu conheço esse pensamento a meu respeito. Mas são as pessoas que não têm o compromisso do pensamento pleno, e isso acaba incomodando. A escolha é da pessoa. Se ela não quiser seguir o que a gente determina, vou suar os meios necessários para que ela se enquadre.
O que o senhor não tolera?
Vagabundo. Também não tolero nenhum policial que tenha má vontade. A gente aceita até o erro, às vezes por consequências naturais, agora errar propositalmente é intolerável.
O senhor vê necessidade de mudar algo na ROTA?
Não. Obviamente que cada comandante tem uma personalidade e isso faz parte da mudança. Se fosse para não mudar nada, não precisava ter a mudança (a troca de comando). Ninguém é dono da verdade 100%. O importante é analisar o contexto das coisas, discutir com os outros oficiais e, a partir disso, propor mudanças para melhorar a qualidade de serviço à sociedade.
Tivemos neste ano várias ocorrências que resultaram em prisões de agentes da ROTA, inclusive com um soldado suspeito de participação nas chacinas de OSASCO e BARUERI. Como reverter a imagem negativa da tropa, principalmente nas áreas periféricas?
Nossa instituição tem quase 200 anos. A ROTA tem 123 anos. São instituições sedimentadas, com valor, cultura, com ensinamentos que a própria história forneceu às pessoas de hoje e do futuro. Agora, a gente tem sub-culturas. E elas devem ser combatidas, principalmente a que vai contra a cultura. Ela ter de ser exterminada porque não agrega nada e coloca o policial na cadeia. Não é confortável ter um policial preso, principalmente numa situação como essas que a gente vem acompanhando. Infelizmente esse é o remédio para curar o problema. A lei não é diferente para ninguém e o nosso policial, às vezes, acha que talvez por "n" motivos, acreditando na demora da aplicação da Justiça, quer tomar iniciativa por conta própria. E o resultado nunca vai ser positivo. O soldado não tem de esperar o sargento para ser fiscalizado, o soldado fiscaliza o próprio soldado. Porque se um cometer um crime junto ao outro, ambos são prejudicados. Não estamos em uma profissão que permite qualquer acobertamento.
Defina o que é trabalhar na Polícia Militar para o senhor?
Isso aqui é um meio de vida, e não de morte. É um trabalho diferente. Não é um escritório, não é um comércio. É um sacerdócio. Eu não deixo de ser policial militar quando saio daqui e vou para casa. Se eu ver uma ocorrência acontecendo, tenho de atuar, moralmente e até pela função que eu exerço. Tenho de ter uma independência moral e ética, seja soldado, capitão, coronel.
Nas redes sociais percebemos que a população apoia os policiais da ROTA que matam bandidos, estando eles certos ou errados. O que o senhor pensa disso?
Essas pessoas têm uma admiração por conta da mesma sensação que eu tenho, que você tem. Às vezes a gente acha que a Justiça demora demais. E ninguém quer ser submetido à ação criminosa. Agora, normalmente essas pessoas enaltecem, mas não visitam o policial preso em uma ocorrência com um resultado de morte. E, às vezes, o policial estrapolou o limite da legalidade e acabou sendo condenado. E essa pessoa que fala que o bandido bom é o bandido morto, que tem de matar, ela é boa no verbo, mas na ação ela sequer vai visitar o policial.
É nesse sentido que o senhor fala do controle emocional elevado?
Sim, porque as pessoas aceleram o limite emocional dele. E nós não somos super heróis. Ninguém tem capa à prova de bala ou poder invisível. Somos policiais militares para servir a população no limite da lei. Eu não posso pedir para o meu policial extrapolar isso porque nem eu, nem o comandante geral, nem o governador, nem ninguém vai tirar a decisão do júri quando o PM é condenado. Quem mais paga é a família.
Como convencer a sociedade que a PM também é vítima desse sistema tão complexo?
A PM está presente nos 645 municípios do estado, 24 horas por dia. Nós temos várias ações comunitárias, todas positivas. mas em determinado momento o conflito, o combate com o marginal é no tiro, é na bala. E é difícil a gente querer resultado diferente da morte. Ou morre a polícia ou morre o ladrão. O ideal, nosso sonho de consumo, é, mesmo o ladrão oferecendo resistência, o marginal ser preso, mas só que não é assim. A gente lida com 110% de controle emocional da nossa tropa, porque o 100% muitas vezes não é suficiente.
A morte, então, faz parte da rotina do policial?
A morte não pode ser vista como uma coisa natural no nosso serviço. Temos civis no nosso convívio que falam que se fossem policiais, matariam. Esse cara não poderia, jamais ser PM porque ele seria preso. O resultado morte sempre será negativo. Por mais bandido que o bandido seja, por mais perigoso que ele seja. Não que ela não vá ocorrer, porque se um bandido reagir armado, o policial vai reagir armado para acabar com a ação dele. Eu não vou querer que o policial seja submetido a uma saraivada de tiros para pegar o ladrão vivo. El vai ter de se defender. Se o ladrão parar de atirar, ele para também e o prende. Agora, enquanto o caro estiver atirando, ele vai atirar. É a vida dele. Ele tem filho, ele tem mulher, ele tem mãe, que choram também. Se o bandido não para, ele faz o que? Reza? Mostra a língua? Ele não vai fazer isso.
O senhor acha que existem policiais da ROTA que saem do batalhão com o objetivo de matar nas ruas?
Eu acho que tem, mas graças a DEUS que sempre há alguém do lado que segura nesse controle e fiscalização horizontal. E, à vezes não é tão fácil a gente identificar.
Há um grupo de extermínio na ROTA ou na PM?
Não acredito que haja.
Quantos policiais da ROTA estão sendo investigados nesse momento?
Um pouco mais de 20 estão afastados. Alguns presos. Tem uma ocorrência com 14 presos. São agentes que estão fora do serviço operacional (das ruas), onerando a atividade polícia por conta de estarem recolhidos ao Poder Judiciário.
Qual é o efetivo da ROTA?
Se não me engano, 500. Por dia, trabalham 180, saindo de 45 a 50 viaturas todos os dias em horários diversos.
Esse número é suficiente?

É uma questão de difícil resposta. É obvio que quanto mais polícia, melhor.          

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