quarta-feira, 28 de outubro de 2015

A CERIMÔNIA DO ADEUS - CRÔNICA DO CIENTISTA POLÍTICO ROBERTO GONÇALVES


                  A  CERIMÔNIA  DO  ADEUS

Segunda-feira, dois de novembro, FINADOS, dia que homenageamos
nossos entes queridos. Cemitérios cheios, flores perfumando os ares,
velas acesas, produzindo nuvens brancas de fumaça que buscam a
direção do céu, lembrando a fantástica coreografia de nossa dor,
encravada na certeza da morte, verdade incontestável da vida.
É dolorido demais assistir a partida das pessoas que amamos. Quando se
cumpre o ciclo natural da vida, com os filhos enterrando os pais idosos,
ainda temos o conforto  atenuante do previsível.
Mas o enfrentamento da morte trágica, causada por acidentes, doenças
súbitas, é difícil de ser vencido, gerando dores insuportáveis e imensa
dificuldade para aceitar perdas precoces.
A verdade é que ninguém aceita a dor da morte, porque ela agride toda
nossa estrutura racional, apresentando-se como a mais violenta emoção
humana. Haja força para suportar tantas lágrimas nos olhos e tantos
espinhos no coração !
Se nossa sociedade tivesse um entendimento mais oriental da morte,
talvez tivéssemos o sofrimento reduzido. Mas nossa latinidade, de
profundas raízes sentimentais, não ajuda em nada entender o
significado
da partida. Como não temos como evitar a cruel certeza que a morte é a
maior certeza da vida, precisamos enfrentar, entender e vencer o monstro
da dor, causada pela partida das pessoas queridas e prepararmos nossas
mentes para nosso dia.
Não há receita para a certeza da morte. A literatura universal já escreveu
tudo ou quase tudo sobre essa fatalidade. Ora em tom de tragédia, ora
em comédia. Sim, através do bom humor, podemos brincar com a morte,
deixando bem claro que ela vai nos levar, mas antes, demos uma
rasteira
nela, vivendo intensamente a vida. A maior vingança humana contra a
certeza da morte é viver, na plenitude e totalidade, os prazeres da vida !
Guimarães Rosa, num de seus grandes momentos de genialidade, disse
que " morrer é fácil. Viver é que são elas ! "
Mário Quintana, para os que pensam que vão virar santo após a morte,
sentenciou, dramaticamente: " a morte não melhora ninguém ! ".
J. Paul Getty, famoso bilionário, sempre na lista dos homens mais ricos
do mundo, eternizou uma frase bem humorada do espírito empresarial,
dizendo que " não tem qualquer graça ser o sujeito mais rico do cemitério.
Lá não se pode fazer negócios. "
O grande pensador Romain Rolland, do alto de sua respeitável seriedade
e sabedoria, quase em tom melancólico, filosofou  que " cada um de nós
traz
no fundo de si um pequeno cemitério daqueles que amou ".
A cultura popular, em todos os tempos, também brinca com a morte.
Chega a dizer que " feliz é a viúva, porque é a única mulher que sabe onde
encontrar o marido ".
Sempre admirei muito uma reflexão sobre as flores, manifestação superior
da natureza, em todos momentos de alegria ou tristeza. O pensamento
popular de que " até entre as flores existe desigualdade na sorte,
porque umas enfeitam a vida, outras enfeitam a morte " é uma das mais
lindas
frases que simbolizam as contradições da condição humana.
As flores que decoram as igrejas, no feliz casamento, são as mesmas que
enfeitam os caixões de nossa última viagem...
Nos portões principais dos cemitérios brasileiros, sempre encontramos
frases filosóficas a respeito da morte, procurando passar aos
visitantes
a certeza que ela acontecerá, preparando os desprevenidos para sua
aceitação, através de palavras sábias, com pitadas de bom humor.
Das dezenas de pensamentos em portões de cemitérios que li no
transcorrer da vida, selecionei duas, por julgá-las as mais
apropriadas
aos que não não costumam pensar na certeza da morte.
A que mais me tocou é " fomos o que és.Serás o que somos ".
E a mais bem humorada é " nós, que aqui estamos, por vós esperamos ".
Alguns leitores podem achar o artigo mais ou menos mórbido, mas
Dia de Finados é para homenagear os mortos enquanto ainda estamos
vivos. Porque no segundo tempo do jogo, nós é que seremos
alvo das flores, das velas e das lágrimas das pessoas que deixamos.
E no mais, não leve a vida tão a sério. Voce não conseguirá escapar dela
com vida !

roberto gonçalves é cientista político

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