segunda-feira, 2 de novembro de 2015

LEMBRANDO O CADETE RUYTEMBERG ROCHA - BLOG TUDO POR SÃO PAULO - MEUS CRÉDITOS AO RICARDO DELLA ROSA. INFORMAÇÕES EXTRAÍDAS DA MONOGRAFIA DO PESQUISADOR HERNANI GUIMARÃES ANDRADE, PUBLICADA EM 1971.

RICARDO DELLA ROSA apresenta em seu blog um trabalho sensacional sobre o CADETE RUYTEMBERG ROCHA.
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
O caso Ruytemberg Rocha
Aqui neste blog tratamos de personagens e objetos do passado, e estes assuntos antigos tem sempre uma aura de mistério ao seu redor. Quem não se interessa pelo sobrenatural? Confesso que o comentário do Sr. Jose Vacir Cogo sobre um pelotão fantasma vagando nas antigas trincheiras de Jacutinga, mencionado no post abaixo deste, me inspirou a montar esta postagem sobre o caso Ruytemberg Rocha - um combatente de 32 que não sabia que estava morto.
As informações abaixo foram extraídas da monografia do pesquisador Hernani Guimarães Andrade, publicada em 1971. Deixando qualquer tipo de julgamento de lado, trata-se de um caso verdadeiramente interessante.


No dia 6 de novembro de 1961, às 2Oh e 3Omin, na Rua Guararapes 779, no Alto da Lapa, cidade de São Paulo, efetuava-se costumeira sessão espírita. Achavam-se presentes as seguintes pessoas: Dr.Alfredo Castro, médico, em cuja casa se realizava a sessão; D.Maria Aidê Castro, esposa do Dr.A.Castro; Dr.Waltencir Linhares,médico; D.Yvette Schwindt Linhares, esposa do Dr.W. Linhares; Sr. Sérgio dos Santos Penna, assistente social; D.Marina Schwindt dos Santos Penna, esposa do Sr.Sérgio S.Penna; D. Anunciata Guaraldo, já falecida; Sr.Léo Weinstock, comerciante, esposo de D. Vitúlia (Túlia); D. Vitúlia Weinstock (Túlia), a "médium".
Iniciados os trabalhos da sessão, na forma típica dos grupos dessa natureza, e após alguns minutos de concentração, a médium, D. Túlia, começou a manifestar os sinais característicos de um transe. Logo a seguir, aparentemente inconsciente, passou a dar indícios de sofrimento, gemendo e soluçando. O dirigente dos trabalhos, Dr.Alfredo Castro, interrogou a médium, em transe, presumindo que uma outra "personalidade" se achasse ali presente utilizando a sensitiva como meio de comunicação com os assistentes da sessão. A referida personalidade informou então, o seguinte:
a) que se chamava RUYTEMBERG ROCHA;
b) que era aluno do 2o ano da Escola de Oficiais da Força Pública do Estado de São Paulo;
c) que fora incorporado ao "Batalhão Marcílio Franco”, em atividade na frente de Buri durante as operações militares da Revolução Constitucionalista;
d) que fora ferido por um estilhaço de granada, dizendo sentir muita dor na região supraclavicular esquerda (ou no peito, à esquerda), local este onde a "médium" em transe manteve a mão espalmada durante quase toda a sessão;
e) que fora trazido ao local da sessão pelo seu pai e por alguns amigos;
f)que nascera em São João da Bocaina, Estado de São Paulo, em 1908, (hoje denominado Bocaina, apenas);
g) que seu pai chamava-se OZÓRIO ROCHA;
h) que sua mãe chamava-se JULIETA SIMÕES, pronunciando seu apelido familiar (infelizmente,esquecido pelas testemunhas, algumas das quais sugerem seja "Lilita");
i) que tinha uma irmã, cujo nome declinou na ocasião, mas do qual as testemunhas não se recordam mais, por não o haverem anotado. Faz exceção D. Marina, que lembra ter sido OLINDA o nome dado por Ruytemberg Rocha.
"Chamo-me Ruytemberg Rocha, sou aluno do 2o ano da Escola de oficiais da Força Pública do Estado de São Paulo e incorporado como 2o Tenente ao Batalhão Marcílio Franco. Nasci em 1908, em São José da Bocaina; meu pai chama-se Osório Rocha e minha mãe Julieta Simões. Tenho uma irmã que se chama Olinda.
Estou aqui, trazido por meu pai e alguns amigos. Meu pai foi me buscar no campo de batalha onde fui atingido por estilhaço de granada. Sou combatente na frente de Buri.”
Houve uma pequena pausa e o dirigente da mesa lhe perguntou:
-“Quando meu amigo foi para o campo de batalha,seu pai era falecido?” -“Não!”, respondeu a entidade, muito surpresa. Começou, então, o trabalho natural de doutrinação e quando a entidade tomou conhecimento de sua situação espantou-se, pois até então não sabia que havia morrido, e perguntou: “Em que ano nós estamos?” -“Em 1961”, respondeu~lhe o dirigente da mesa. -“Já!!! Mas não é possível. Quase 30 anos!”
-“Então o que aconteceu comigo!?, exclama admirada a entidade.”E minha mãe, onde está? “E minha irmã? Tanto a queria!”
Depois de consolada e confortada pelo dirigente dos trabalhos, que esclareceu à entidade a sua condição como pertencente ao mundo dos espíritos, houve como que um alívio, uma calma, um bem estar próprio a quem procura e encontrou uma solução para seus problemas. Concordou com certa satisfação em se afastar em companhia de nossos amigos do espaço. Fizemos uma prece para encerrar os trabalhos dessa noite e o resto transcorreu normalmente.
A partir deste impressionante episódio, o autor da monografia relata a pesquisa realizada para atestar a veracidade dos fatos e se havia alguma possibilidade dos presentes naquela sessão espírita ter algum prévio conhecimento acerca da história de Ruytemberg Rocha. Lembrem-se que o ocorrido deu-se em 1961 e que na época a obtenção de informações sobre a Revolução Constitucionalista dava-se de maneira bem diferente, sem as facilidades do compartilhamento do conhecimento que hoje temos à nossa disposição. Abaixo trago alguns aspectos interessantes desta pesquisa. No parágrafo abaixo um dos participantes relata a primeira pesquisa sobre a veracidade das informações obtidas durante a sessão mediúnica.
No dia 11 de novembro de 1961, no primeiro sábado após a reunião, aproveitamos a manhã livre para irmos até o bairro da Cantareira, nesta capital, onde está localizada a Escola Preparatória de Oficiais da Força Pública, escola esta que dizia ter pertencido a entidade manifestante de nome Ruytemberg Rocha, como aluno oficial do 2o ano. Ali chegando, solicitamos a presença do oficial do dia, sem a ordem do qual não poderíamos iniciar a nossa visita, que era a de obter dados e informações sobre ex-alunos, combatentes de 1932, desse colégio militar, já falecidos. Responde-nos o oficial: -"isto para nós é fácil, pois se tratando de nossos heróis da revolução, temos tudo arquivado. Segundo diz, informações sobre quem?” Quando lhe falamos que desejávamos saber algo sobre o tenente Ruytemberg Rocha, ele abriu largo sorriso, e estendendo os braços disse: "Recentemente lhe prestamos uma homenagem, esta avenida principal de nossa escola tem seu nome: Tenente Ruytemberg Rocha, herói falecido em combate."
De posse da ficha tivemos o prazer de ter um a um todos os dados pessoais do Tenente Ruytemberg Rocha. Todos confirmam as suas revelações. Tudo igual. Tudo certo. Nada falhara. Pedi ao Tenente Secretário, Sr.Mário de Jesus Cordeiro, uma cópia daquela ficha pessoal,o que imediatamente foi feito e assinado por ele.
O autor da monografia então relata a pesquisa acerca de publicações da época e quaisquer outras fontes que poderiam ter usadas pela "médium" para obter informações sobre o Cadete Ruytemberg:
No livro “Cruzes Paulistas”, editado pela "Campanha Pró-Monumento e Mausoléu do Soldado Paulista de 32", São Paulo, 1936, contem a maior soma de informações biográficas sobre Ruytemberg Rocha. À página 409 do referido livro, lê-se o seguinte: “RUYTEMBERG ROCHA (Força Publica) Alumno do Curso de Officiaes da Força Publica, partiu para o sector Sul, como Capitão, logo no começo da campanha. Em Bury, dia 26 de Julho, quando em combate, recebeu uma bala na cabeça, morrendo immediatamente. Foi sepultado no cemitério velho de Bury. Esse combate, um dos mais duros daquella frente, durara nada menos que dezessete horas.
Dados Biographicos - Nascera Ruytemberg em S.João da Bocaina a 19 de Janeiro de 1908, filho do Sr. Ozorio Rocha e de d. Julieta Simões Rocha. Era irmão de José Euriderval, Olinda, Ladidopeia e Servio. Era solteiro.(sic).”
Como pode ver-se, aquela página do referido livro contém grande parte das informações prestadas pela médium em transe. Todavia, falta o "apelido" da mãe. Além disso, a informação dada pela médium discrepa em algum pontos.
O Livro “Cruzes Paulistas” é um grosso volume, de 516 páginas, contendo 633 pequenas biografias de participantes ativos falecidos na Revolução de 1932. Foi editado, em 1936, com o objetivo de angariar fundos para a construção do "Monumento e Mausoléu ao Soldado Paulista de 32". Desta primeira e única edição foram feitos 100 (cem) exemplares em papel de linho, 500 (quinhentos) em papel "bouffon" e 2000 (dois mil) em papel acetinado; ao todo, 2600 (dois mil e seiscentos) exemplares. Nem todos foram vendidos, restando, ainda, muitos em estoque. O exemplar que adquirimos, em papel "bouffon", tem o número 154; data de compra: 13/08/1970.
Esse livro é pouco conhecido atualmente, bem como as outras obras congêneres lançadas naquela ocasião. A maior parte das consultas feitas sobre tal bibliografia foi conseguida nos arquivos da "Sociedade Veteranos de 1932 - M.M.D.C.", na Rua Anita Garibaldi n9 25, São Paulo, e na Biblioteca Municipal de São Paulo. Os livros sobre a Revolução de 1932, especialmente os editados à época, já não se encontram facilmente nas livrarias. O exemplar de Cruzes Paulistas foi por nós obtido na sede da "Sociedade Veteranos de 32 - M.M.D.C."
Depoimento do CEL Alfredo Guedes De Souza Figueira em 28 de agosto de 1970:
O Cel. Alfredo Guedes relatou-nos o seguinte: -Eram quatro os alunos da Escola de Oficiais da Força Pública que foram incorporados ao "Batalhão Marcílio Franco": Ruytemberg Rocha, Walter Greenen, Antônio Alembert e Alfredo Guedes de S. Figueira (o declarante). No Batalhão Marcílio Franco todos tinham, oficiosa mente, o posto de Capitão, embora não fosse este o posto real que possuíam na Força Pública. Achavam-se em pleno combate no cemitério da cidade de Buri, Estado de São Paulo. Na ocasião, como a munição estivesse escasseando, o então Cap. Alfredo Guedes dirigiu-se a Ruytemberg Rocha e propos-lhe que se fosse buscar mais munição. Ficou resolvido que o próprio Cap. Alfredo Guedes iria providenciar a munição, ficando Ruytemberg Rocha na trincheira, garantindo aquela posição com seus comandados. Ao regressar com o material, o Cap. Alfredo Guedes encontrou, no trajeto de volta, um caminhão que transportava para a retaguarda o cadáver de Ruytemberg Rocha, há pouco morto em a combate.
O Cap. Alfredo Guedes, subindo na carroceria do veículo, pode ver o corpo de Ruytemberg Rocha com ferimento ao nível do frontal (centro da testa). Na ocasião tirou-lhe o coldre a tira-colo, já sem o revólver, e guardou-o como lembrança do companheiro. Posteriormente, ofereceu-o ao Museu da Força Pública. O Cel. Alfredo Guedes afirmou que a “causa mortis” de Ruytemberg Rocha fora um tiro na cabeça. Inquirido sobre se conhecera ou tivera relações pessoais com as testemunhas do caso (sessão), afirmou jamais ter visto ou conhecido tais pessoas.
Pesquisa na Sociedade Veteranos de 32 M.M.D.C:
No dia 13 de agosto de 1970,fizemos nosso primeiro contato com o Cap. Francisco Molinari, presidente da "Sociedade Veteranos de 32 MMDC", na Rua Anita Garibaldi, 25 em São Paulo. Na mesma ocasião, ficamos conhecendo o Tenente Geraldo Norberto Freire, Diretor de Exumação e Transladações da mesma Sociedade.
Ambos esses oficiais mostraram vivo interesse pelo Caso de Ruytemberg Rocha e, gentilmente, proporcionaram-nos todas as facilidades para a pesquisa dos dados referentes à questão. Graças ao Cap. Francisco Molinari e ao Tenente G. N. Freire foi possível realizar parte do levantamento bibliográfico e obter orientação para a busca nos jornais, pois a Sociedade conta com excelente arquivo de recortes de notícias sobre a Revolução de 1932.
Inquiridos sobre a eventualidade de conhecerem as pessoas ligadas ao caso(sessão) Ruytemberg Rocha, e após verem as fotografias que lhes apresentamos, declararam que jamais viram nem ali estiveram quaisquer dos participantes da referida sessão. Afirmaram-nos, ainda, que ninguém, até então, houvera procurado os arquivos da Sociedade com o intuito de obter informes sobre Ruytemberg Rocha. Ambos ocupam os cargos há muitos anos e nunca ouviram, da parte dos funcionários da Sociedade, quaisquer alusões a uma pesquisa biográfica sobre Ruytemberg Rocha. Solicitamos informações sobre a exumação e transladação dos despojos de Ruytemberg Rocha para o Mausoléu do Soldado de 32, situado no Ibirapuera, São Paulo. O Tenente G. N. Freire exibiu-nos a documentação referente ao ato. A autorização para a transladação dos restos mortais de Ruytemberg foi firmada pela Sra. Ricardina C. Fonseca, Presidente da "Liga das Senhoras Católicas de São Paulo", aos 8 de junho de 1963. 0 ato da exumação ocorreu no dia 8 de julho de 1963, às 12 horas, no "Cemitério São Paulo", sob a responsabilidade do Sr. Jarbas Araújo, auxiliado pelo Sr. Paulo Affonso Aquillini. A cerimônia religiosa da encomendarão foi realizada pelo Capelão da FAB., Cônego Pedro Gomes. Tais cerimônias ocorreram, portanto, após a data da sessão em que se deu a aludida comunicação através de D. Túlia.

Na conclusão do seu trabalho o pesquisador sugere as seguintes questões:
a) Como e por quê a médium focalizou, em 1961, justamente Ruytemberg Rocha, falecido em 1932, bem como as fontes correlatas de informação a seu respeito?
b) Por quê a "causa mortis”, inclusive sua característica dramatização, não concorda com das fontes informativas, bem assim com o conhecimento daqueles que testemunharam a morte de Ruytemberg e que o viram com o ferimento a bala, ao nível do frontal ?
c) Como e por quê a médium registrou o apelido familiar da mãe de Ruytemberg (Julita), distinguindo-o do nome que geralmente figura no livro Cruzes Paulistas, nos registros da Academia Militar da Força Pública e no noticiário de "0 Estado de S.Paulo", de 10/7/937, pág. 12?
d) Como e por que a médium conseguiu informar o posto verdadeiro de Ruytemberg, quando ainda vivo, se a maioria das fontes informativas davam-no como Capitão?
e) Como pode a médium distinguir, entre todos os irmãos, o nome da irmã que era mais chegada a Ruytemberg, uma vez que OLINDA já era falecida em 1961, por ocasião da sessão? (No depoimento gravado do Sr. José Garcia S. Rocha, irmão de Ruytemberg, ele declarou que, realmente, OLINDA era a irmã mais ligada a Ruytemberg. Olinda faleceu dois anos após Ruytemberg, isto é, em 1934)
Ruytemberg só foi efetivamente promovido a Capitão muito tempo depois de sua morte. Ele era Aluno Oficial do 2o ano da Escola de Oficiais, quando se incorporou ao Batalhão Marcílio Franco. Logo, só poderia ter dado esta informação, a qual independe das cinco fontes dadas à publicidade, após sua morte. O livro “Cruzes Paulistas menciona "aluno do Curso de Oficiais da Força Pública", mas dá seu posto como sendo Capitão; não menciona o Batalhão Marcílio Franco.
Realmente, Ruytemberg foi morto por uma bala que o atingiu na fronte. Este é o fato. Qual teria sido a última sensação de Ruytemberg, devida ao impacto violento do projétil que lhe perfurou o crânio? Certamente, foi a de um estrondo, seguido de clarão, pois as concussões na cabeça produzem esse efeito. A bala, ao penetrar-lhe a caixa craniana, teria excitado o centro da sensibilidade correspondente à região onde sentiu a dor. Em frações de segundo, que lhe precederam a morte, Ruytemberg teria interpretado o fato como a explosão de uma granada, cujos estilhaços o teriam atingido na região correspondente à parte cerebral excitada. Esta seria, a nosso ver, a explicação para a discrepância assinalada.
É interessante ressaltar o fato de que o setor de Buri foi um dos mais castigados por bombardeios de canhão. Tal peculiaridade daquela frente de combate é particularmente conhecida dos ex-combatentes da Revolução Paulista de 1932. Desse modo, é natural que os soldados do "front" de Buri se mostrassem preocupados com os estilhaços de granada. Ao receber o impacto do projétil na testa, seria bem normal que Ruytemberg Rocha houvesse interpretado, segundos antes de morrer, como sendo um estampido de granada. Ao sentir a dor na região correspondente à zona cerebral excitada, teria concluído que fora atingido por um estilhaço de granada ao nível do peito.
O presente caso, embora comporte explicações ou normais ou baseadas na percepção extra-sensorial, apresenta evidências que sugerem a manifestação de um agente desencarnado, através de uma médium. As características da comunicação colocam-na na categoria do tipo "drop in", isto é, o comunicador é inteiramente desconhecido da médium e dos assistentes da sessão. O autor, sem querer desmerecer as outras interpretações, opta pela última, por lhe parecer mais adequada ao caso.

Os restos mortais do Cadete Ruytemberg Rocha encontram-se no Mausoléu do Ibirapuera.

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