domingo, 1 de maio de 2016

DISCURSO DO MAGNÍFICO REITOR WALDEMIRO GREMSKI, da PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO PARANÁ, AO RECEBER A MEDALHA MMDC, DA SOCIEDADE VETERANOS DE 32-MMDC.

PRONUNCIAMENTO EM AGRADECIMENTO DO MAGNÍFICO REITOR WALDEMIRO GREMSKI DA PONTÍFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO PARANÁ – PUC, EM CERIMÔNIA MARCANTE REALIZADA NA REITORIA EM DATA DE 29/04/2.016 – OCASIÃO EM QUE RECEBEU A COMENDA MMDC DA SOCIEDADE DE VETERANOS 32 ATRAVÉS DE SUA FILIADA ASSOCIAÇÃO PARANAENSE MMDC 32 E HERÓIS DO CERCO DA LAPA ENCERRANDO A HOMENAGEM A LAPA LENDÁRIA  DENOMINADA LAPA /16 EVOCANDO A EPOPÉIA LAPIANA DE 1.894.   
Saudação
* Exmo. Sr. Cel. João Almeida, Presidente Associação Paranaense MMDC 32 e Heróis do Cerco da Lapa.
* Exmo. Sr. Vice-Presidente Prof. Guimarães Britto
* Presidente do Conselho Deliberativo Sr. Martins de Lima
* Coordenador e Emb. Do MMDC Sr. Mariano Taglianetti
* Exma Sra. Rocha Taglianetti. Secretária da Associação Paranaense MMDC 32 e Heróis do Cerco da Lapa
* Exmo. Sr. Alexandre Matias Gardolinski, historiador
* Exmo. Sr. Prof. Paulo Mussi – Vice-Reitor da PUCPR
* - Exmo. Ir. Délcio Afonso Balestrin – Presidente do Grupo Marista
* 0 Caro Sr. Superintendente do Grupo Marista – Sr. Paulo Serino
* Caros Srs. Pró-Reitores, Srs. Decanos, Srs. e Sras.
  Professoras
  Demais convidados.
Durante a nossa vida, em especial quando os anos vão se acumulando e marchando cada vez mais céleres, somos confrontados com muitos momentos que deixam marcas indeléveis. Momentos que nos invadem até o âmago da nossa alma, destinados à eternidadeda ferrugem do tempo, como se tivessem acontecido ontem.
Pois bem. Este é um momento singular e único por ter o condão de fazer brilhar, de trazer à tona, de uma maneira muito grata, uma importante fração da minha vida, certamente a mais bonita, cercada de afeto, acontecida no regaço de uma numerosa família, onde imperava o amor, o respeito, a virtude, o louvor a Deus por tudo que se tinha e fazia. E onde foi isso? Na Lapa. Por isso a Lapa será sempre inesquecível na minha vida.
Tudo nos ligava à Lapa. Pois tudo acontecia na Lapa. Curitiba era um detalhe distante. No meu imaginário de criança e pré-adolescente a vida acontecia na Lapa, aliás tudo acontecia na cidade que também tinha o cognome de Legendária, que considero justo e sem qualquer exagero pela sua história. Não é por outro motivo que ali a rádio era Legendária. Na hora dos avisos, ao meio dia, era proibido falar. Quem está fazendo aniversário, quem nasceu, quem, morreu... Foi com a erva-mate legendária que aprendi a fazer do chimarrão meu companheiro de toda manhã e de todo final de tarde até os dias de hoje. Lá está viva na minha memória a rodoviária, com o Bar do Bahiano. O hospital ali perto. E aí me lembro da lapiana. A praça com o General Carneiro, altaneiro sobre o seu cavalo, pregando a sualição de coragem, lealdade e patriotismo. Mandando resistir até a morte. A Igreja Matriz de Santo Antônio, com seus séculos de história, o Panteão dos Heróis.
O Teatro São João, que teve como seu mais ilustre espectador ninguém mais nem menos que o próprio Imperador e sua família, sem esquecer que ali, no teatro, morreu o General Carneiro, ao ser atingido por uma bala de um maragato. E como deixar de falar na Gruta do Monge onde morou, jamais duvidei disso, em meados do século 19, o monge João Maria e onde até hoje as pessoas buscam cura para os mais diversos males e onde nos esforçávamos, minha mãe e eu, para a partir de um ângulo que jamais se encontrava, conseguir enxergar a imagem de uma santa na fenda existente na pedra que serviu de abrigo ao monge João Maria  - conhecida pelo menos naquela época, como pedra partida. Minha mãe costumava me culpar por não conseguirmos ver a santa. Alguma você deve ter aprontado para a gente não ter tido a graça.
Isto sem falar na sua beleza arquitetônica que vem sendo utilizada como cenário para comerciais de TV, documentários (a exemplo de “Amor em Tempos de Guerra”) e filmes de curta e longa-metragem (“Cafundó”, “O preço da Paz”, “Vitimas da Vitória”, “Paisagem de Meninos”). Também é o local onde se realiza o Festival de Cinema desde 2.006.
É da Lapa, a única Congada (manifestação folclórica dos descendentes de escravos negros) ativa no Paraná.
Não é outro o motivo que a Lapa tem o primeiro conjunto arquitetônico tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) no Paraná.
Lapianos como Vitor Ferreira do Amaral, fundaram a primeira universidade deste país – em 1.912 a Universidade do Paraná, que foi seu primeiro reitor. Sem dizer que o segundo, terceiro, quarto e quinto também foram lapianos, salientando Flávio Suplici de Lacerda que, além de reitor foi também Ministro de Educação. Sem falar de vultos que se destacaram na política do estado e do país.
E certamente poderíamos ir longe nessa sequência             de vultos, na medicina, direito, magistério, engenharia, etc.
Toda essa tradição da Lapa, decorrente do seu papel na consolidação da república, representada e lembrada hojepor uma serie de sagrados,  foi construída às custas do sacrifício supremo, o sacrifício da própria vida, de um contingente de heróis, que durante 26 dias resistiu a um invasor que cercou a Lapa com um exército quase 3 vezes superior em número de combatentes e com armamento muito mais moderno. É a soma dessa história que seria trágica, não fosse heroica, que traz a sensação, para pessoas que ali aportam, de estarem vivenciando um ambiente que não é constituído por uma bela cidade, com atrações que a tornam referência para um turismo cultural e recreativo, mas também, e porque não sublinhar, porque paira sobre Lapa algo mais, algo que traz embutida a sensação de que ali vive um povo cujos antepassados cumpriram seu dever sob a liderança de um líder que tinha no dever pátrio a suprema lei. Foi uma decisão que custou a vida de mais de 500 pessoas que morreram no Cerco, de um contingente total de639, que enfrentou bravamente durante 26 dias, entre janeiro e fevereiro de 1.894, as forças formadas por cerca de 3 mil combatentes, comandados por Gumercindo Saraiva.
Conflito que terminou nas ruas da Lapa, com tudo que se pode imaginar. Portanto nada disso, como disse, veio de graça.
Num país onde o amor à pátria, o respeito pelo seu país não tem sido forte nestes tempos, estas palavras podem parecer um tanto românticas, até ingênuas. Porém pessoas como Lima Barreto, autor do livro Triste Fim de Policarpo Quaresma, e que pertencia a uma geração que pretendia reconstruir a identidade nacional brasileira, assegurava no seu escrito que a História do Cerco da Lapa e a biografia do militar Antônio Ernesto Gomes Carneiro, poderiam contribuir de maneira única na formação das futuras gerações.
“A revolta Federalista já tinha mais de quatro meses de vida e as vantagens do governo eram problemáticas. No sul, a insurreição chegava às portas de São Paulo, e só a Lapa resistia tenazmente, uma das poucas páginas dignas de todo aquele enxurro de paixões. A pequena cidade tenha dentro de suas trincheiras o Coronel Gomes Carneiro, uma energia, uma vontade, verdadeiramente isso, porque era sereno, confiante e justo. Não sedesmanchou em violências de  apavorado e souber tornar verdade a grande frase grandiloquente: resistir até a morte”.
A 7 de fevereiro, o Cel. Gomes Carneiro foi atingido por disparos morrendo dois dias mais tarde, sem saber que, na véspera, fora promovido a general “por bravura”. Impedidos de receber socorro médico, suprimentos de comida e munição, só restou aos moradores da Lapa capitular.  A capitulação somente ocorreu no dia 11 de fevereiro, dois dias após a morte do General. Porém, ainda no seu leito de morte, repete: “Resistência, resistência...
Resistamos camaradas, porque nós, soldados, não temos direitos mas apenas deveres a cumprir, e os deveres de um soldado resumem-se em um único, queimar o último cartucho e depois morrer.
As quatro semanas de resistência, no entanto, tinham sido suficientes para que Floriano reorganizasse suas forças e impedisse que os revolucionários eventualmente marchassem em direção ao Rio de Janeiro.
O sacrifício da vida de Gomes Carneiro e a obstinação heroica dos lapianos selou os destinos da recém-nascida república brasileira.
Nessa linha, cito um trecho de artigo publicado por Laurentino Gomes analisando o Cerco da Lapa.
“Os 26 dias de encarniçada luta no Cerco da Lapa, seguidos de uma breve e também trágica tomada de Curitiba, marcaram o epílogo dessa jornada. Sem a opção de levar a sua revolução até as portas do palácio de Floriano Peixoto no Rio de Janeiro.
Gumercindo Saraiva retornou definitivamente ao Rio Grande do Sul, onde foi morto(...)
O destino colocou, portanto, a pequena e charmosa cidade da Lapa numa encruzilhada da história. A sorte da então jovem Repúblicabrasileira se decidiu ali”;
Os restos mortais desses guerreiros, entre eles do General Gomes Carneiro, estão depositados no “Panteon dos Heróis”, um dos símbolos da Lapa e mais importante monumento cívico do Paraná.
Antes de encerrar, quero registrar aqui meu mais profundo agradecimento pela comenda MMDC em homenagem aos heróis lapianos de 1.894, concedida pela Associação MMDC 32 e Heróis do Cerco da Lapa, ligada à Sociedade Veteranos de 32-MMDC,cujo significado e origem foi explicitado nos brilhantes pronunciamentos tanto do Sr. Embaixador do MMDC 32  Sr. Mariano Taglianetti, como pelo Presidente do Conselho Deliberativo Sr. Martins de Lima.
Ser condecorado com a Medalha MMDC significa ostentar osímbolo dos jovens que marcaram um dos momentos mais importantes tanto da consolidação da república sacrificando suas vidas na resistência da Lapa aos federalistas, como também um tributo ao Movimento Constitucionalista de 32 que, embora não vitorioso,como no caso do Cerco da Lapa, abriu as portas e consolidou um Estado de São Paulo pujante, podendo-sedizer inclusive = salvando a nacionalidade brasileira naquele momento.
Aliás, citando aqui palavras do Sr. Presidente da Sociedade Veteranos de 32, respeitadas as devidas proporções quanto a datas e a maneira como aconteceram os episódios citados, têm  muito em comum as duas epopeias: foram brasileiros que lutaram por um IDEAL e pela grandeza da Pátria. Estavam em situações de inferioridade, mas foram verdadeiros baluartes dos valores primeiros do nosso país. Em ambos os casos, as derrotas foram apenas materiais, porque os ideais dos heróis, homens e mulheres, que lutaram defendiam os mesmos ideais que foram preservados.
Por tudo isso e pelo simbolismo que encerra, esta Comenda muito me honra tanto como cidadão nascido na Lapa, mas também como cidadão brasileiro, pois o Cerco da Lapa repercute até os dias de hoje como fundamental na consolidação da então jovem república brasileira. Nesse aspecto gostaria também de deixar claro que a presente comenda honra não apenas a minha pessoa, mas a nossa universidade que está profundamente empenhada, como instituição católica e marista, com seus mais de 30 mil alunos, em formar cidadãos éticos, cidadãos conscientes das suas obrigações na construção de um país justo edemocrático, ideais que embasaram os heróis que doaram suas vidas no Cerco da Lapa.

Muito Obrigado !

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