sábado, 25 de junho de 2016

MARECHAL HINDEBURGO DORME O SONO ETERNO EM TANNENBERG - CRÉDITOS AO MARIANO TAGLIANETTI

HINDEMBURGO EM TANNENBERG

“O corpo do Marechal Hindemburgo será transportado para Tannenberg, e depositado na grande torre de pedra que ali foi levantada para comemorar a batalha dos lagos Masurianos.” – (Telegrama de Berlim – 02/08/1.934 ).

Em Tannenberg, ao sul dos lagos frios, se ergue a torre de pedra, solitária. Pétreo e surdo padrão da glória teuta, sangrando o seu triunfo, e o dos seus mortos, olha o escuro edifício os horizontes. Há vinte anos, ali, travou-se um prélio, que a história registrou com fogo e sangue.
Onda enorme, a rolar da Rússia próxima, as hostes do Czar tudo abalavam com o pesado trovão da artilharia. Investida, em tropel, pelo inimigo, a fronteira da Prússia fora aberta, e a avalanche dos bárbaros do norte, por ela, com fragor, se despenhara. À frente dos cossacos, Sansonoff, a bandeira imperial ondeando aos ventos, tinha na espada o brilho da vitória. Derrubada a muralha da represa, o oceano dos homens avançava, invadindo, na marcha, a terra alheia... Hindemburgo, chamado em seu retiro, comanda, o olhar sereno, a retirada, cedendo passo às forças inimigas. A Alemanha estremece ante as notícias que lhe chegam dos campos de batalha. Que faz o capitão de gênio célebre, que não detém o russo nos limites da Polônia ou não vai por ela a dentro ? Onde se acha o soldado de setenta o general que em anos de manobras recobrira seu peito de medalhas ? Os protestos da pátria vêm de longe, e Hindemburgo recua...  É cedo ainda ! Ele tem na lembrança de guerreiro o feito de Vitold há cinco séculos... Ali mesmo, naquelas terras frias, tinham Ladislau V, e os seus heróis derrotados os teutônios cavaleiros... Hindemburgo recua, e pensa nisso... De súbito, porém, detém a marcha, abre em  duas colunas seus exércitos, e o inimigo lá vai vencendo tudo. Sansonoff, contente, lança ao largo as vastas ondas de cavalaria ! Oitocentos canhões vomitam fogo, em saudação à terra conquistada...  Era isso, entretanto, o que esperava o soturno alemão : os dois tentáculos apertaram-se rápidos, fechando a retirada do invasor... E o russo,  com oitenta mil homens, prisioneiros, lá se fia detido, entre ele e os lagos ! Aos dois lados, e à frente, é tudo pântano. E à  retaguarda, qual muralha imensa, toda a massa das forças de Hindemburgo!  Rugem canhões na sombra. A infantaria atira-se em assaltos furiosos, procurando romper a alta muralha. Esquadrões em tumulto, correm, giram, no círculo fatal em que se encontram. Mais quarenta mil russos vêm do norte. O soldado alemão também os cerca. E Hindemburgo se sorna, em todo o mundo, o maior capitão da Grande Guerra !
Vinda a paz, foi erguida em Tannenberg uma torre de pedra, recordando às gentes da Alemanha o grande feito. Ali  tivera fim o moscovita. Ali de glória se cobrira a pátria, com a estratégia imortal de um grande filho. E a torre lá ficara na planície cujo solo feraz fora regado com  torrentes de sangue de dois povos... à noite, frios ventos do mar Báltico vêm chorar pelo céu.  E o céu, cinério, pede à terra notícias dos seus mortos. Vinte mil sombras se erguem na campina, e choram sobre túmulos sem cruzes, maldizendo o destino das batalhas... E perguntam, com a boca das caveiras :
- “Onde se acha Hindemburgo, que não vem ?”
Hindemburgo escutou a voz dos mortos, e vai vê-los, agora, em Tannenberg. Deitado num esquife, olhos fechados, as mãos cruzadas sobre o peito, é ele ! Gritam claros clarins quando ele passa. Rufam, surdos, os tambores. Homens d’armas, as armas apresentam ante o féretro do grande Capitão. A artilharia uiva nas fortalezas, com saudades, como cães ante à morte do seu dono. Cem mil fuzis revestem-se de crepe. E a pátria inteira chora, ajoelhada, à fúnebre passagem do seu filho...
Mas, em breve, haverá em Tannenberg movimento na torre solitária. Quando as asas da Noite se estenderem sobre a imensa planície e os grandes lagos, os fantasmas virão, em ronda enorme, bailar em torno  do caixão funério.
Hindemburgo, _ dirão,  _  tiveste a glória, sentiste a gratidão da pátria inteira. Viste-a vencida, mas tiveste força para erguê-la , ferida, nos teus braços... Nós, porém, ai de nós! Aqui ficamos sepultados no campo de  batalha, abraçando o cadáver do inimigo no seio maternal da terra fria...

Lutaste pela pátria, e, numa torre, hoje dormes... E nós, no chão sem cruzes !... Podes ficar, eterno, no teu leito, entre as bênçãos do povo e a voz da História. Nós, no entanto, que fomos teus soldados, que morremos por ti, e ao teu comando, temos, pobres, os ossos remexidos pelo santo trabalho dos arados !... Valeste mais que nós na tua vida. Na vida, mais que nós, serviste a pátria. Mas agora, na morte, nós valemos mais que tu. Mais que tu seremos úteis ! Serás nesse caixão, a carne morta, gloriosa podridão, relíquia podre, de olhos mortos olhando o mundo vivo ! Nós, porém que ficamos lá por ora, saudaremos o sol, germinaremos na colheita pagã do trigo moço ! No teu esquife, só verás as traças. Nós, lá fora, seremos flor e fruto. Transformados em trigo, pão seremos, e, então, nos beijarão os nossos filhos. Seremos seiva na árvore fecunda, e ouviremos cantar os passarinhos... E o sol, que é a Vida, iluminando a poeira em que fomos tornados, nos dará, a nós, os mortos a ilusão da Vida !”
E, num coro mais forte, em seu bailado:
_ “Hindemburgo ! Hindemburgo ! Vem conosco ! Vem tornar mais sagrada com os teus ossos a poeira da terra da Alemanha !”
Um dia, enfim, na torre solitária, um guarda encontrará, na cripta triste, deserto o esquife do ancião enorme. Vestígios se verão do passo humano, Hindemburgo terá descido à terra, a fazer companhia aos seus soldados.
Capitão morto, comandando os mortos !...

“DESTINOS...” / HUMBERTO DE CAMPOS – VOL. 7

W. M. JACKSON INC. – EDITORES - 1.933

Nenhum comentário: