domingo, 19 de junho de 2016

O ROUBO DA METRALHADORA - MEUS CRÉDITOS AO CORONEL PM RALPH ROSÁRIO SOLIMEO e a COMUNIDADE BARRO BRANCO.


O roubo da metralhadora
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alph 
18 de jun (23 horas atrás)
O ROUBO DA METRALHADORA
Eu mal acabara de jantar quando o bateram à porta. Antes mesmo de atender, eu já sabia que se tratava de alguma encrenca. Afinal, era o ônus que eu pagava por morar perto da Companhia, que comandava.
À porta, o soldado Dentinho, todo esbaforido da corrida que dera, foi, aos trancos, dizendo:
_ “Capitão! O senhor precisa ir depressa comigo, porque eu acho que o Reizinho está correndo grande perigo”.
_ O que aconteceu com ele?
“_. Não sei bem. Ele cruzou comigo no corredor do alojamento e me pediu que avisasse o senhor que eles iam roubar uma metralhadora e que se acontecesse alguma coisa com ele, o Brasinha era o culpado Logo depois, ele saiu acompanhado do Brasinha e uns outros caras, que eu não conheço”.
Eu conhecia bem o soldado Maurício, vulgo Reizinho, e se ele me mandara avisar era porque algo muito grave estaria acontecendo, daí atender, prontamente, apelo do Dentinho. Vesti a farda, coloquei uma Colt 45 na cintura e o acompanhei até o “Bar do Adilson”, no centro da Penha, onde a maioria dos soldados solteiros, dentre eles o Reizinho e o Brasinha, costumavam jantar, mas de lá eles já haviam saído, com mais alguns outros.
 Como se estava vivendo um período de atentados terroristas, o patrulhamento de alguns pontos da Capital era feito por duplas de soldados, sendo que um deles portava uma metralhadora INA. Por cautela, mandei recolher as metralhadoras das patrulhas do Segundo Batalhão e segui para o Quartel General.
Lá passei as inforRmações ao Oficial de Dia e o orientei para que não desse o alerta geral sobre o possível roubo, pois, além de pôr em risco a vida do soldado Reizinho, dificultaria a identificação do bando, impossibilitando, que se descobrisse  se o grupo era terrorista ou não. Pedi, ainda, ao citado Oficial, que se o roubo ocorresse, ele se reportasse somente a mim, para não prejudicar as diligências. e fui para casa.
Por volta da meia noite, o soldado Reizinho  bateu à minha porta.
_Capitão! Negócio feito.
_ Quem mais?
_ O Sargento Taubaté da 5ª. Companhia, o Brasinha, o Sonso e um cabo também da Companhia do Tatuapé, que eu não conheço. O assalto foi lá na Rua Pinheiros e quase deu zica. Se eu não rolo com um dos soldados, que reagiu, o sargento tinha queimado ele. A gente foi num táxi que o sargento tinha roubado ontem e que foi abandonado antes da gente chegar na Penha.
 _ Eles falaram para que queriam a metralhadora?
_ O sargento disse era para assaltar um banco e me convidou para ir junto com eles.
Como não sabia quem mais poderia pertencer ao bando, pedi apoio à equipe de prontidão do Departamento de Polícia Militar, DPM, naquele dia comandada pelo Tenente Profício e partimos para a casa onde moravam o sargento e o Sonso, na Vila Buenos Aires: eu e o Reizinho no meu fusquinha particular e o DPM numa viatura descaracterizada, vulgo “Dragão”.
Quase chegando ao destino, a equipe do DPM, confundindo dois motoristas de ônibus, que naquela época usavam quepes semelhantes aos dos PM, parou para abordá-los, enquanto o eu e o Reizinho seguimos em frente. Próximo à casa do Sargento, deparamos com ele e o Sonso, que saiam de uma viela e subiam pela rua escura.
_ Mãos pra cabeça! De joelhos!
O Sargento esboçou uma reação, mas pondo a atenção na minha Colt 45 engatilhada apontada para o seu peito e no Reizinho enquadrando o Sonso , reconsiderou e resolveu se entregar: ambos estavam com dois revólveres cada um, o “da carga pessoal” e os que roubaram dos soldados em Pinheiros.
Já desarmados, eles nos levaram a um beco, onde, num vão do muro, a metralhadora estava escondida. .
Dando uma busca na residência dos detidos encontramos alguns documentos de uma casa de banho turco, que havia sido furtada na semana anterior, no Tatuapé, além de várias chaves e documentos de táxis DKV.
Vendo que não tinham mais nada a perder, eles abriram o jogo:
Dias atrás, haviam roubado três táxis para fazer alguns “serviços”. O primeiro fora o furto do cofre da casa de banhos turco, onde pensaram que iam encontra muito dinheiro, mas só havia uma ninharia.
Diante desse fracasso, decidiram partir para algo maior onde, certamente, haveria muito dinheiro: assaltar um dos bancos da Praça Sílvio Romero, local que conheciam bem, pois era área de sua Companhia. Partiram para o assalto, mas tiveram azar, pois chegaram junto com o carro forte e não tinham como fazer frente ao armamento portado pelos seguranças deste.
Concluíram, então, que precisavam de uma metralhadora e de mais um soldado, para aumentar o poder de fogo do grupo. Acreditavam que tanto o roubo da metralhadora, como o assalto ao banco, seriam atribuídos aos terroristas.
_ Por que essa besteirada toda, Taubaté? Você sempre foi um sargento inteligente e conceituado.
_ Ora, capitão, a Polícia não dá futuro pra ninguém, por isso a gente partiu pra essa. Com a grana preta que a gente ia levantar, dava para montar um negócio aí fora e ficar bonito o resto da vida, não fosse o Reizinho ter traído a gente, tudo ia dar certo.
Após efetuar mais algumas diligência e prender os outros dois envolvidos, já madrugada avançada,  segui com presos  para o Quartel General, quando, então, o Comando da Corporação foi cientificado do que havia ocorrido, pois o Oficial de Dia, confiando em mim, a ninguém avisara. Era o dia 08 de dezembro de 1969, em que foi inaugurado o primeiro COPOM, em instalações adaptadas no alto do Q G.
 Submetidos ao Conselho de disciplina, feito a toque de caixa, todos foram expulsos na última cerimônia de expulsão com tropa formada, realizada na Corporação.
Após quase dois anos de muita demanda, pois os PM expulsos tentaram por todas as maneiras incriminá-lo como parceiro de seus crimes, conseguimos a promoção a Cabo, por bravura, do soldado 32001 Maurício da Silva, o Reizinho..

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