quinta-feira, 2 de junho de 2016

PARTICIPAÇÃO DE VARGEM GRANDE DO SUL NA REVOLUÇÃO DE 1932 - POR MÁRIO PÓGGIO JÚNIOR

PARTICIPAÇÃO DE VARGEM GRANDE DO SUL NA REVOLUÇÃO DE 1932

  
MARIO POGGIO JUNIOR

23 DE MAIO DE 2016

  

Figura 1 - FOTO TIRADA DURANTE A REVOLUÇÃO DE 1932, NA FAZENDA PERTENCENTE AO AVÔ DA ESPOSA DO ENGENHEIRO DOUTOR PAULO RODRIGUES LEITE, QUE A EMPRESTOU, LOCALIZADA NO BAIRRO DOS PILÕES, EM GUARATINGUETÁ

  
I - INTRODUÇÃO
Nos anos “1960”, o jornal “Folha de São Paulo”, aos domingos, editava suplemento infantil, denominado “Folhinha”, que entre outras atrações, publicava quadrinhos de autoria de Maurício de Souza.
Aguardávamos ansiosos a sua chegada, para ler a publicação.
Ocorre que em determinado domingo, quando estávamos em fase de alfabetização, a capa do suplemento indicava “MMDC”, com o que ficamos muito curiosos.
Após nossa pergunta, nossa avó Adalgisa Patarro Pereira, que tinha 26 (vinte e seis) anos e vários filhos pequenos na época da Revolução Constitucionalista, nos explicou que se tratava das iniciais de MARTINS, MIRAGAIA, DRÁUSIO E CAMARGO, mortos por ocasião da deflagração do Movimento Constitucionalista.
Ao saber do fato, morte dos jovens, embora há anos, por lutarem pelos direitos de cidadania, ficamos muito tristes.
Começava o interesse pela história da Revolução de 1932, que nunca nos foi ensinada na escola, primária, secundário ou no ensino superior.
Alguns  mais tarde, em visita  saudosa e querida Angelina Varaldo, que estava de repouso, na companhia de Mamãe, pois ainda éramos pequenos, os presentes comentaram sobre o evento, o que novamente aguçou nossa curiosidade, seguida de muitas perguntas.
Ao comentar o fato com Papai, soubemos que lutou na Revolução de 1932, quando tinha 18 (dezoito) anos.
A partir de então, sempre pedíamos que nos contasse sobre o Movimento, e, pacientemente, nos explicava e ponderava que pessoas de outros Estados também lutaram a favor da causa.
Evidentemente, omitia acontecimentos de batalhas que participou, fatos que somente soubemos após seu falecimento, em 1997, por intermédio de seu e meu amigo Laércio Diogo Cardoso, o “Maércio”.
Após, virmos para a Capital Paulista, pudemos começar a pesquisar sobre o assunto, vez que havia locais e material para pesquisa, diferentemente de nossa cidade natal.
Importante ressaltar que a medida que pesquisávamos, trocávamos ideias com Papai, que falava com muito orgulho do Movimento Constitucionalista, e com a Vovó Adalgisa Patarro Pereira.
Em 1999, por sugestão do jornalista Benedito Bedin, pesquisamos o jornal “O Liberal”, redigido pelo grande jornalista Walter Tatoni, editados na época dos fatos, para verificar os acontecimentos em Vargem Grande do Sul e proximidades, com o objetivo de publicação de matéria na coluna “Recordar é Viver”, do jornal “Gazeta de Vargem Grande”, nas edições de 02 09 de outubro de 1999.
Com o tempo conseguimos novas informações, as quais utilizamos para novas matérias alusivas ao movimento, também publicadas nos jornais locais: Gazeta de Vargem Grande e Tribuna.
Porém, ao assistir o desfile de 9 de Julho de 2015, nos emocionamos muito e sentimos o desejo ardente de relatar os dados que ora redigimos, para dividir os nossos conhecimentos.

 II - PARTICIPAÇÃO DE VARGEM GRANDE DO SUL NA REVOLUÇÃO DE 1932

1 – Restrição ao Direito ao Voto antes da Revolução de 1932
Um grande problema que existia antes da Revolução de 1932, era o livre direito ao voto e a lisura dos resultados.
Importante destacar que a criação Código Eleitoral foi uma das conquistas dos Soldados Constitucionalistas, para garantir a liberdade e respeito ao voto.
A propósito, o Professor Manoel Gonçalves Ferreira Filho, em seu livro “Curso de Direito Constitucional”, ao tratar da Justiça Eleitoral, se expressa:
- “Não se pode dizer que sua criação fez “Vestal de Messalina”, mas indiscutivelmente deu seriedade aos pleitos. Não acabou com a fraude, mas a reprimiu, reduzindo-a bastante.”

Antes da criação do Código Eleitoral, era comum cidadãos contrários ao Governo local serem impedidos de votar, fossem Republicanos ou Democratas.
No tocante a nossa região, a situação era idêntica, conforme nos relatou há anos o saudoso Vereador José Aleixo, que foi impedido de votar na eleição presidencial realizada em 1º de março de 1930, na qual concorreram Júlio Prestes de Albuquerque (Partido Republicano) e Getúlio Dorneles Vargas (Partido Democrático), pois não conseguiu a liberação de seu “título de eleitor”, apesar de ter empreendido uma “romaria” entre São João da Boa Vista e Vargem Grande do Sul, por ser “democrata”, portanto, contrário aos “caciques” regionais.
Ainda, acrescentou que havia tamanho radicalismo, que os “democratas” foram impedidos de “participar do carnaval” no Clube, pois este era dominado pelos “Republicanos”, obrigando-os a alugarem outro local para festejar.

2 – Disputa Eleitoral  em 1930
Durante a República Velha (1889/1930), o Partido Republicano era o mais forte, destacando-se os Diretórios Estaduais  de São Paulo e Minas Gerais, que praticavam a “política do café com leite”, ou seja, elegiam quem indicassem.
Porém, o Presidente Washington Luís, oriundo das bases paulistas, resolve indicar como seu sucessor à Presidência da República, Júlio Prestes de Albuquerque, também oriundo das bases paulistas, interrompendo a “política café com leite”, pela qual a sucessão caberia ao Presidente do Estado de Minas Gerais, Antônio Carlos.
Consequentemente, Antônio Carlos se rebela, provocando “racha” no Partido Republicano e convida Getúlio Dornelles Vargas para concorrer à Presidência, formando-se a “Aliança Liberal” (Minas Gerais e Rio Grande do Sul).
Posteriormente, a “Aliança Liberal” recebe apoio do Partido Democrático, adversário do Republicano.
Com a proximidade das eleições começam as campanhas de Júlio Prestes de Albuquerque (Presidente do Estado de São Paulo) e Vital Henrique Baptista Soares (Presidente do Estado da Bahia) pelo Partido Republicano e Getúlio Dorneles Vargas (Presidente do Estado do Rio Grande do Sul) e João Pessoa Cavalcante Albuquerque (Presidente do Estado da Paraíba), pela “Aliança Liberal”.
3 – Campanha Eleitoral em 1930
Em 15/02/1930, Vargem Grande do Sul recebeu a visita  do candidato a Deputado Federal pelo Partido Republicano, Roberto dos Santos Moreira, visando sua própria campanha, a de Júlio Prestes e a de Vital Soares, que foi  recepcionado pela cúpula do Partido Republicano local, entre os quais Francisco Ribeiro Carril, Capitão Joaquim Octávio de Andrade, Capitão Belarmino Rodrigues Peres, Amadeu de Oliveira Andrade, Christiano Dutra do Nascimento, Dr. Ernani Gama Corrêa, José de Oliveira Fontão, Antônio Carril Filho, Paulino Dinarte de Mattos, João Ferreira Varzim, João Franco de Sousa (proprietário do jornal “A Imprensa”, na ocasião), Professor Henrique de Brito Novaes, José Nogueira de Carvalho, Oswaldo Ribeiro de Andrade, Duval Campos Souza, Antônio Godoy Sobrinho, Domício Ferreira Lima, João Pinto Fontão Júnior, Antônio Pinto Fontão, Farmacêutico Rubens Jacintho Pereira, Antenor Peres Maciel, e João Benedicto de Melo, pelo Governador da Cidade, José de Andrade Fontão, e pelo então  acadêmico de direito, Moacyr Troncoso Peres, que proferiu a saudação em nome do povo vargengrandense.
Participou de banquete na residência do Capitão João Pinto Fontão, durante o qual discursaram Moacyr Troncoso Peres, Eurico Pizão, o Professor Henrique de Brito Novaes e o homenageado.
No final da tarde, na Praça, proferiu “discurso de campanha” para mais de mil pessoas (dados obtidos do semanário “A Imprensa”, edição de 16/02/1930).
4 – Resultado da Eleição em 1930
Enfim, chegou o dia do pleito, 01/03/1930, época em que nossa cidade contava com 715 eleitores (conforme relação divulgada no jornal “A Imprensa”, edição de 23/02/1930), tendo o seguinte resultado:
Candidatos à Presidência: Júlio Prestes com 326 votos e Getúlio Vargas com 114 votos.
Candidatos à Vice-Presidência: Vital Soares com 307 votos e João Pessoa com 114 votos.
Com referência ao Doutor Roberto dos Santos Moreira, conseguiu a expressiva marca de 261 votos (“A Imprensa”, edição de 09/03/1930).
Pelo exposto, nota-se que  o eleitorado prestigiara o Partido Republicano, que depois seria derrubado pela Revolução de 1930. 

5 – Motivos que desencadearam a Revolução de 1932
Evidentemente, para ocorrer qualquer movimento de porte, deve haver o descontentamento e a participação dos entes político, militar e popular.
Isto ocorreu conforme veremos a seguir.
Na época, a situação era crítica, sofrendo  ainda, os efeitos da depressão mundial iniciada em 1929, e com a queda do preço internacional do café, em decorrência do aumento da oferta mundial.
Os salários no campo estavam  baixos e havia um grande número de fazendas hipotecadas (651 em 1932).
Ademais, os fazendeiros estavam descontentes com a instituição a partir de Janeiro de 1931, da taxa sobre pés de café e a retenção de 20% (vinte inteiros por cento) do café exportado.
Por sua vez, a classe política também estava insatisfeita com o governo, face a condução dos negócios econômicos e políticos pelos militares, classe que passou a ser prestigiada por Getúlio Vargas, em detrimento dos aliados civis, principalmente os oriundos do Partido Democrata.
Aliava-se a isto a simpatia  de Getúlio pelos regimes nazista  e fascista.
Havia séria desconfiança de que as eleições fixadas para maio de 1933, visando a escolha de constituintes, não se realizariam, face a pacto firmado entre os principais líderes do “tenentismo”, em Poços de Caldas – MG, em 1931, que reafirmava que a Constituição não deveria vir antes de serem atingidos os objetivos propostos na Revolução de 1930 (deposição de Washington Luiz e consequente impedimento da posse de Júlio Prestes, presidente eleito para sucedê-lo).
Especificamente no caso de São Paulo, a situação era mais grave, pois Getúlio insistia em nomear interventores oriundos de outros  Estados e militares (as exceções foram Ferreira de Camargo, que assume em 25/07/1931 e se demite em 13/11/1931, por não aguentar as pressões dos “tenentistas” e Pedro de Toledo, que ocupou o posto  de 07/03/1932 a 10/07/1932, quando eclodiu o movimento).
Ainda, no tocante a nosso Estado, havia questão secular relativa a divisa entre São Paulo e Minas Gerais, a qual Vargas insistia em decidir favoravelmente ao vizinho Estado, pela adoção por decreto  do laudo elaborado pelo General Ximeno Villeroy, que declarava mineiras terras Bandeirantes.
Este fato gerou muitos protestos, inclusive autoridades do Distrito de Paz de Vargem, por meio de telegrama ao Presidente da República, ameaçavam deixar suas terras, caso tivessem que pertencer ao vizinho Estado.
Com referência a nossa região a questão envolvia as cidades de Caldas – MG e de São João da Boa Vista – SP, iniciada em janeiro de 1789, com o avanço do limite de terras da Capitania de Minas Gerais pelo Alferes Joaquim de Freitas, que estabeleceu uma guarda, chamada Guarda de Caldas, originária da cidade de Caldas.
Assim, membros do Partido Republicano Paulista e do Partido Democrata, abandonaram suas divergências e se uniram contra a Ditadura imposta por Vargas, formando a Frente Única Paulista, conseguindo uma vitória expressiva com a formação de secretariado estadual composto por elementos dos partidos, contra interferência dos tenentes, e romperam com o Governo Federal.
Consequentemente, os ânimos se exasperaram, com a iminência da intervenção federal em nosso Estado, para resolver o “caso paulista”.
Nesta ocasião (23/05/1932), o povo sai às ruas para comemorar a vitória, havendo embate com membros do Partido Popular Progressista, que apoiava  a ação dos militares, de cuja sede há disparos, que ferem mortalmente os jovens Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo – MMDC.
Consequentemente, têm-se o último ingrediente para o levante, os mártires.
Importante salientar que o descontentamento em relação ao Governo Federal crescia dia a dia desde 1931, surgindo manifestações públicas a partir de 25/01/1932, data em que a Bandeira da Constituinte é desfraldada em todo Estado.
Em nossa cidade houve comício pró-constituinte em 06/03/1932.

6 – Canto dos Bandeirantes

Vargem Grande do Sul tem em sua história grandes maestros e músicos que, com seu talento e determinação, deixaram suas marcas nesta arte vargengrandense.
Um destes maestros foi Edmundo Russomano que além de marcar a história em Vargem, também fez parte da história nacional, quando compôs o “Canto dos Bandeirantes”, entoado durante a Revolução Constitucionalista de 1932.
Este belo hino, cuja letra e música são do maestro Edmundo Russomano, foi cantado pela primeira vez no Cine Theatro Glória, por ocasião dos festejos comemorativos do IV Centenário da Capitania de São Vicente e, posteriormente, no Comício Pró-Constituinte realizado em Vargem Grande do Sul, em 06/03/1932, organizado pelo Dr. Theófilo Ribeiro  de Andrade, tornando-se uma das canções marcantes  da Revolução Constitucionalista.

CANTO DOS BANDEIRANTES
(Dedicado aos Paulistas)

Nós somos os bandeirantes
orgulho, sonho e porvir
da Pátria, possantes ricos,
dentre os filhos do Brasil,
São Paulo, tu és o estandarte,
do lindo céu do Brasil!
És o grande baluarte,
da nossa pátria gentil.
Outr’Ora, fagueiras cantigas
Glória! Luz! Riqueza! Vida!
Hoje, lúgubres fadigas
cobrem-te a fronte oprimida.
E tu, São Paulo querido,
que ainda és o farol!
Sacode o teu manto aguerrido.
Vida ou morte! Eis o teu sol.

7 - PARTICIPAÇÃO DOS CONSTITUCIONALISTAS
Nos meses subsequentes políticos, associações e organizações da burguesia empenharam-se  na preparação de um levante, havendo adesão de alguns políticos e populares do Mato Grosso (especialmente do sul), do Rio Grande do Sul (poucos, pois o Governador Flores da Cunha reatou com Vargas, abandonando a causa) e de Minas Gerais (poucos, pois o governo mineiro não deu o apoio combinado).
O General Bertoldo Kingler, mesmo afastado do comando, reuniu leais tropas mato-grossenses e dirigiu-se para São Paulo, em apoio à causa.
Assim, em 09/07/1932 foi deflagrada a Revolução Constitucionalista (inicialmente prevista para o dia 14), nomeando-se os Chefes Revolucionários dos Municípios (em nossa cidade era D’Ávila Ribeiro).
Os vargengrandenses participaram ativamente, pois os que estavam servindo foram para a frente de batalha e os reservistas e demais civis procuraram a junta de alistamento e integraram a força, como foram os casos de:
·        Professor Achilles Rodrigues do Patrocínio (saudoso Diretor do Fleming e pai do advogado Antônio Carlos do Patrocínio Rodrigues, o “Lin”);
·        Agenor Teixeira;
·        Alexandre Teixeira (o “Xandico”);
·        Anthero do Patrocínio Rodrigues;
·        Antônio Federighi Filho;
·        Antônio Pinto Fontão;
·        Dr. Asistides Peres;
·        Avelino A’ Afflicto;
·        Benedito Bastos;
·        Edmundo Russomano (autor do “Canto dos Bandeirantes);
·        Professor Henrique de Brito Novaes (colaborou na Intendência de Guerra em Itapetininga e no “Lunch Expresso”);
·        Homero Russio;
·        Horácio Liberal Andrade (saudoso Gerente da Caixa Econômica Estadual);
·        J. Serra (lutou no Batalhão Henrique Dias);
·        José de Andrade Fontão;
·        José Oliveira Fontão ( o “Zé Almofadinha”), que combateu na Coluna Romão Gomes, com a patente de Tenente);
·        João Pinheiro Costa;
·        Joaquim Eduardo dos Santos;
·        Luiz Lodi [2º (Segundo) Sargento];
·        Luiz Zoldan;
·        Manoel Osório de Oliveira [o “Bididinho”, que lutou no “2º (Segundo) Batalhão do Regimento 9 de Julho”];
·        Mario Poggio (lutou pelas forças rio-pardenses);
·        Dr. Moacyr Peres [lutou no “2º (Segundo) Batalhão do Regimento 9 de Julho”];
·        Oswaldo F. Fontão;
·        Oswaldo Fontão Varzim;
·        Ozório Alcides do Nascimento (combateu no “Batalhão Henrique Dias”);
·        Pedro Fiorini;
·        Pedro Ribeiro;
·        Petrônio Lupetti (“horas antes de partir promoveu uma solenidade religiosa na Igreja Metodista local, onde após ler alguns trechos da Bíblia, exortou a todos a cumprir o sagrado dever que o momento requer; e aconselhou as famílias dos soldados a aguardarem com serenidade e  fé o desfecho da lucta, pois a victória não tardará a coroar a bravura de nossa gente” – extraído de “O Liberal, nº 83);
·        Raymundo de Novaes Gomes;
·        Rogério de Oliveira Fontão;
·        Ruy Alvarenga Saturnino Alves;
·        Sebastião Belchior;
·        Segismundo dos Santos;
·        Vidal Fontão ( o “Nego Serra”, que combateu no Batalhão Henrique Dias),;
·        Vicente de Sylos (prestou auxílio às tropas em São Roque); e
·        Certamente muitos outros que em decorrência do tempo passado, não conseguimos localizar os nome.

8 – Participação de Purcina Cândida de Jesus
Para o sucesso de uma empreitada de guerra, é necessário o frequente abastecimento das tropas, para que estas possam se manter na frente da batalha sem recuar e sem ter que se arriscar para obter alimento.
Fica evidente esta necessidade ao lermos a valiosa obra de Euclydes da Cunha, “Os Sertões”, que retrata a “Guerra de Canudos”, a qual destaca que a vitória somente ocorreu porque o comandante das tropas federais adquiriu muares e mantimentos para encaminhar aos soldados, sem o que não teriam conseguido sucesso.
Em uma época em que a mulher  era discriminada, Purcina Cândida de Jesus teve a coragem e a ousadia de procurar o comandante das forças constitucionalistas da região e  propor-lhe apoio, ao invés de seus filhos serem levados para a frente da batalha.
Assim, teve ativa participação na Revolução Constitucionalista, pois sua família fornecia alimentos (pães, queijos e charque), trocava as montarias desgastadas utilizadas pelos combatentes por animais em boas condições, recuperava as recebidas para nova permuta, e restaurava as selas.
Importante salientar que tinha senha previamente combinada, para saber se as tropas eram amigas.

9 – Participação de Benedito Albuquerque, o “Ditinho Chofer”
Participou ativamente da Revolução constitucionalista, foi convocado para ser motorista do Tenente Gunor, responsável pela inspeção da fronteira entre São Paulo e Minas Gerais.
10 – Início da Revolução Constitucionalista
Uma vez iniciada a Revolução, as forças constitucionalistas localizadas no Estado de São Paulo avançaram:
·        pelo Vale do Paraíba, em direção ao Rio de Janeiro, com o objetivo de tomar a Capital Federal e depor o Ditador;
·         para as cidades localizadas no litoral norte por motivos estratégicos;
·         pela região da Estrada de Ferro Sorocabana, em direção a Itararé e Ribeira do Iguape, para sustar avanços de exércitos vindos do sul;
·         pela região de Bauru e Araçatuba em direção ao Mato Grosso, por motivos estratégicos; e
·         em direção do Sul de Minas (passando inclusive por nossa região), por motivos estratégicos.
Ato contínuo, mobilizaram-se alguns políticos gaúchos e mineiros, tentando provocar o levante.
Porém, o movimento em outros Estados teve pouca adesão, consequentemente não vieram os esperados reforços.
Os paulistas, por sua vez não desanimaram e apoiaram incontinenti o movimento.
Os que não puderam lutar contribuíram em espécie, com objetos de ouro, mantimentos, serviços e apoio moral e religioso.
No tocante à nossa cidade, o apoio foi fantástico:
·        O Hospital de Caridade, por sua diretoria, colocou-se à disposição;
·        Fundou-se a Casa do Soldado (entidade de assistência aos constitucionalistas, quando em trânsito por nossa cidade, a qual se localizava na Cerâmica Sopil);
·        O Prefeito Municipal, Capitão Francisco Ribeiro da Costa, o “Chico Ribeiro”, instituiu o tabelamento de preços de gêneros alimentícios e organizou a guarda municipal, a cargo do Major Vicente Gonçalves de Oliveira;
·         O Grupo Escolar (situava-se no prédio onde está instalada a Casa da Cultura) serviu de abrigo aos 108 (cento e oito) voluntários que compunham a 1ª (primeira) Companhia do Batalhão Rio Grande  do Norte;
·        Foi construído o Campo de Aviação; e
·        Os jornais locais elevaram o moral e conclamaram o povo a participar.

Quanto aos particulares:
·        por iniciativa de Amado Gonçalves dos Santos, foi instituído o Livro de Ouro da Infância, pelo qual as crianças arrecadavam fundos para auxílio às famílias dos soldados constitucionalistas;
·         atletas fizeram jogos amistosos para arrecadar fundos;
·        as damas pediram contribuições para a compra de capacetes de aço, costuraram roupas e prepararam alimentos;
·        os cavalheiros cuidaram das montarias  e restauraram selas;
·        todos contribuíram com ouro para fins de lastro de bônus estaduais emitidos para financiamento  do esforço de guerra e circulação como moeda;
·        crianças idealizaram festival infantil pró-soldados para arrecadar gêneros de consumo (Maria Lourdes, Rachel Junqueira, Maria Lina Gabrioli e José Junqueira); e
·        Vicente de Sylos, funcionário público, destinou um mês de seu salário à família dos combatentes.

11 – Preparativos
Faltavam armamentos e materiais de suporte, porém a cidade fez o possível.
Conforme nos contou o Senhor Aparecido Cossi, instalaram metralhadora na sede da Sociedade Italiana, localizada no cruzamento da Rua do Comércio com a Avenida Regato (onde é a loja da “Casas Pernanbucanas”), a qual era manuseada pelo Senhor José de Oliveira Fontão, o “Zé Almofadinha”.
Também, o pai da Professora Palmira Fontão Corsi, a “Milo”, Senhor José de Andrade Fontão, tinha o único binóculo da cidade, o qual emprestava para as forças paulistas, e era identificado como o “homem da baratinha vermelha.
12 – Lembrança da Professora Rosa Aguilar Cortez
A Professora Rosa Aguilar Cortez, que residia em Casa Branca na ocasião da Revolução de 32, confirmou que inúmeros ataques foram feitos àquela cidade, com o lançamento de bombas.
Assim, com a aproximação dos aviões, identificados pela cor vermelha, as autoridades acionavam a sirene para avisar a população para se proteger, que escondia-se debaixo de mesas e outros objetos.
Com referência aos soldados, recordou que  eram jovens e muitos nunca tinham realizado trabalhos pesados, além de que faltavam alimentos, que eram comprados pela população.
Também, relembrou que após a tomada da cidade, as tropas federais saquearam a escola e depredaram o patrimônio público.

                 
13 - Lutas
Os soldados constitucionalistas combateram com bravura e tomaram a cidade de Guaxupé, para fins estratégicos, porém foi feito “pacto de não agressão” entre os Estados de São Paulo e Minas Gerais, e consequentemente as forças se retiraram.
Mas, o vizinho Estado não respeitou, mais uma vez, o acordo (além desta, rompeu-o na tão falada “Batalha do Túnel de Mantiqueira”, pois as forças constitucionalistas esperavam pacificamente as tropas mineiras, para darem continuidade à operação, quando estas as atacaram sem prévia declaração de guerra).
Com o tempo, começou a faltar munição e armamentos.
Os Constitucionalistas tentaram adquiri-las no exterior, mas os Estados Unidos da América, por intervenção de Vargas, não concederam o Estatuto de Beligerância, que daria acesso ao mercado legal de armas.
Assim, foram obrigados a comprá-las no “mercado negro internacional”, lotando dois pequenos iates, porém, um foi apreendido pelo Governo Norte Americano e colocado à disposição do Cônsul Brasileiro em Nova Orleans e o outro foi bloqueado pela frota federal, caindo estas nas mãos dos governistas.
Para amenizar o problema, passaram a desenvolver armamentos e munição nas indústrias, mas o tempo era curto e faltavam matérias primas.
Após consulta a autoridades abalizadas, decidiram não fabricar balas somente de cobre (minério que havia em abundância) para elaboração  de balas, face as consequências que trariam aos atingidos.
Assim, as forças constitucionalistas foram obrigadas a improvisar substituindo canhões verdadeiros por réplicas de madeira, levando os originais para outra frente de batalha e com a ajuda de catracas, imitaram o barulho de metralhadoras, atirando com fuzis e simulando rajadas de metralhadoras, tudo para enganar o inimigo com eficácia.
Porém, os Constitucionalistas, cercados pelo litoral pela marinha, atacados pelo Vale do Paraíba, pelas divisas com o Paraná,  com o Mato Grosso  e com Minas Gerais, aos poucos foram obrigados a recuar.
Vargem Grande do Sul também lutou bravamente, e por duas vezes foi retomada, uma das quais orientadas pelos nossos voluntários.
Durante o domínio pelas forças federais houve invasão de casas para revistas, sendo destruídos documentos, livros e cadernos escolares.

14 –Participação de Mario Poggio em São José do Rio Pardo
Em 1932, Mario Poggio, com 18 (dezoito) anos estava no exército, e com o  início daRevolução Constitucionalista, lutou pela causa.
Como recordação, guardou uma medalha, doada por seus filhos à Casa de Cultura em Vargem Grande do Sul.
Conforme seu amigo Maércio (Laércio Diogo Cardoso),  em 07/01/1999, depois do falecimento de  Mario, contava´lhe que teve que combater na linha de frente da batalha, inclusive a nível de luta com “baioneta calada”.
Talvez seja esta a explicação para a resposta dada, quando, criança, perguntei-lhe quando ele tinha começado a beber, a saber:
- “ Eu aprendi a beber na revolução”.

15 – Ocupação da Padaria e Confeitaria Candinho
 Foi contador da “Padaria Candinho”, Adolpho Pratalli, contador da Padaria e Confeitaria Candinho,não quis refugiar-se no sítio de José Cândido de Oliveira e manteve o estabelecimento comercial de José Cândido Pereira aberto durante a invasão e ocupação da cidade pelas tropas federais.
Adalgisa Patarro Pereira, esposa de José Cândido Pereira, contou-nos que, durante a ocupação, as forças federais alojaram-se em seu estabelecimento comercial, porém não houve saque, pois solicitavam o que queriam a Adolpho Pratalli, que entregava as mercadorias e após recolhia os vales, apesar de José Cândido tê-lo orientado para não oferecer resistência, mas sobretudo preservar sua integridade física.
Importante salientar que entregou os vales a José Cândido Pereira, que os guardou e posteriormente os recebeu do Governo Federal, em Belo Horizonte.
16 - TÉRMINO
Por fim, em 02/10/1932, na cidade de Cruzeiro, é assinada a Convenção Militar pelo Coronel Herculano de Carvalho e Silva, Comandante da Força Pública, a qual não é bem recebida pelo alto comando Revolucionário Constitucionalista, que pretendia conseguir cláusulas mais honrosas, mas aos poucos os focos de resistência cessaram.
Mas, a imprensa vargengrandense não se calou, assim se expressando o magistral jornalista Walter Tatoni, no jornal “O Liberal”, nº 84, de 30/10/1932:
“Admirável grandeza de nosso Estado, a sua riqueza inesgotável, a capacidade de trabalho  de seu povo, após três meses de luta titânica, é chamado a abastecer os outros Estados da Federação, que o combateram ingloriamente”.

 III - CONCLUSÃO
No final, apesar da derrota armada, os constitucionalistas atingiram muitos de seus objetivos, pois o Governo foi obrigado a:
·        Garantir as eleições para os novos constituintes (maio de 1933), admitindo o voto secreto e das mulheres;
·        Instituir a justiça eleitoral;
·        Nomear em agosto de 1933, como interventor Armando de Salles Oliveira, paulista e civil; e
·        Anistiar os revolucionários.
A propósito, as eleições dão a vitória à burguesia paulista, com campanha centrada na memória dos mortos e elevados ideais.
Para finalizar, transcrevemos inscrição do monumento aos heróis de 1932, localizado em São Vicente:
“A verdade e a justiça, ainda que desarmadas, sempre vencem.”

  
IV – CRÔNICAS ABRANGENTES DE HERÓIS

 1 – ARTHUR FRIENDERECH

ESPORTES E LIBERDADE

Na opinião do saudoso riopardense Mario Poggio, o maior craque que existiu foi Arthur Frienderech.
Após a Copa do Mundo de 1966, quando a Seleção Brasileira não passou da primeira fase, estávamos muito tristes pela derrota, então Papai nos contou sobre as façanhas do Paulistano na Europa e de seu grande ídolo Frienderech, de forma a nos mostrar que os atletas que admirávamos não eram insuperáveis.
Há alguns anos, começamos, aos poucos,  a aprender um pouco sobre o ídolo,  chamado de “El Tigre” pelos uruguaios ou de “Le Danger” (o perigo) pelos franceses, por meio de leitura de reportagens e, claro, pelo programa Grandes Momentos do Esporte, que a TV Cultura transmitia.
Frienderech inovou o drible, bateu penalidades máximas com perfeição, foi o maior artilheiro de sua época e mostrou a necessidade de “sentir a bola nos pés”, pois mandou tirar a biqueira de aço de sua chuteira, para melhor tocá-la.
Como nos chamou a atenção, o Professor Doutor José Alberto Aguilar Cortez, Mestre de Futebol na Universidade de São Paulo – USP, não há possibilidade de compará-lo com o grande Edson Arantes de Nascimento – “Pelé”, como fazia Mario Poggio, por várias questões, entre as quais a de ausência de pessoas que tivessem visto os dois jogarem, por causa da tempo passado e porque na época não havia a televisão para transmitir os jogos.
Acompanhava-se pelo rádio.
Mas, Frienderech não foi somente o melhor jogador de sua época, foi herói da liberdade.
Com o início da Revolução Constitucionalista, trocou a chuteira por armas, foi às emissoras de rádio e conclamou aos esportistas para que participassem da luta pela democracia.
Sua atitude foi tão importante, que atletas consagrados em várias modalidades, deixaram de treinar, inclusive para as Olímpiadas de Los Angeles, para lutarem em prol do “MMDC” e formaram o “Batalhão dos Esportistas”.
Ganharam muito mais que títulos ou medalhas olímpicas, conquistaram uma nova constituição para o Brasil (1934).
Por todo exposto, hoje entendemos claramente porque Mario Poggio o considerava o melhor atleta que o mundo já teve, pois além de ser o melhor do mundo na época, lutou pela liberdade e foi seu “irmão de armas”.


2 – FRANCISCO DE SIMONI

O AMOR QUE A REVOLUÇÃO INTERROMPEU

Figura 2 - Esmeralda e seus irmãos Waldemar, Alberto, Mario e Adhemar Poggio, no dia do casamento de sua sobrinha Beatriz.

O riopardense Mario Poggio nunca esqueceu de seu irmão de armas e primeiro amor de sua irmã Esmeralda, Francisco do Simoni.
Nas suas frequentes idas ao Cemitério Municipal de São José do Rio Pardo, as quais sempre acompanhamos, Mario sempre visitava os túmulos de todos seus familiares, de Idalina, antiga funcionária da casa de seu irmão Waldemar e braço direito de sua cunhada Célia, e claro de Francisco De Simoni.
Antes de começar as orações, sempre dizia aqui é o túmulo do noivo de Esmeralda que faleceu durante a Revolução de 1932.
Após, a oração contava que Esmeralda sofreu com o seu falecimento, obviamente porque  foi seu primeiro amor.
Felizmente, depois conheceu, se apaixonou e  se casou com Francisco Tranquilini, homem íntegro e tão valoroso quanto o saudoso combatente, com quem teve a filha de coração Geny, que lhes deu vários netos.
Mas, o fato é que Francisco De Simoni era bancário, sem especialização na área de combate, mas partiu para a luta pela democracia.
Tombou em combate, não pode desposar sua amada Esmeralda, mas cumpriu seu dever de paulista amante do direito.
Como homenagem póstuma, seu túmulo ostenta a escultura do capacete sobre o ramo de louro, em mármore branco, obra de Aldo Pucetti & Alfarelli.

Para finalizar e relembrar o amor do combatente, transcrevemos a letra da música Meu Primeiro Amor, que era interpretada por “Cascatinha e Inhana”, nos anos 1950.

Saudade, palavra triste
Quando se perde um grande amor
Na estrada longa da vida
Eu vou chorando a minha dor
Igual uma borboleta
Vagando triste por sobre a flor
Seu nome sempre em meus lábios
Irei chamando por onde for
Você nem sequer se lembra
De ouvir a voz deste sofredor
Que implora por seus carinhos
Só um pouquinho do seu amor
Meu primeiro amor
Tão cedo acabou
Só a dor deixou
Neste peito meu
Meu primeiro amor
Foi como uma flor
Que desabrochou
E logo morreu
Nesta solidão
Sem ter alegria
O que me alivia
São meus tristes ais
São prantos de dor
Que dos olhos caem
É porque bem sei
Quem eu tanto amei
Não verei jamais.
  

V – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
·        BARBOSA, Waldemar de Almeida. Dicionário Geográfico de Minas Gerais (item – Caldas);
·        BEZERRA, Holien Gonçalves. O Jogo do Poder. Editora Moderna.
·        DONATO. Hernâni. A Revolução de 32.
·        MORAIS, Fernando. Chatô – Rei do Brasil.
·        MORAIS, Fernando. Olga.
·        POGGIO JUNIOR, Mario. Grandes Nomes da Terra Vargengrandense.
·        POGGIO JUNIOR, Mario. Genealogia da Família Pereira.
·        POGGIO JUNIOR, Mario. Genealogia da Família Poggio.
·        VICENTINO, Cláudio e DORIGO, Gianpaolo. História do Brasil. Editora Scipione.
·        O Município de São João da Boa Vista. Edição de 1910.
·        Jornal “A Imprensa”, edição de 16/02/1930
·        Jornal “O Liberal”, nºs. 56, 61, 77, 79, 80, 81, 82, 83 e 84. Editados no período de janeiro a outubro de 1932.
·        Jornal Diário Popular. Edição de 02/05/1932.
·        Jornal Diário de São Paulo. Edição de 29/04/1932.
·        Jornal “O Estado de São Paulo. Edição de 10/07/1932.
·        Jornal “Gazeta de Vargem Grande”, edições de:
Ø 06/12/1997;
Ø 25/09/1999;
Ø 02/10/1999;
Ø 09/10/1999;
Ø 04/12/1999;
Ø 15/01/2000;
Ø 12/02/2000;
Ø 29/07/2006;
·        Depoimentos de pessoas que presenciaram, ex-combatentes e de seus descendentes.


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