segunda-feira, 10 de abril de 2017

A BRASILEIRA QUE TRABALHAVA NO IATE DE UM SHEIK



Vivian Ortiz
Do UOL, em São Paulo
Era 2008 quando a paulistana Simone Peres, hoje com 44 anos, decidiu procurar algo além de seu trabalho com massagem e acupuntura no Brasil. Ela acabou indo parar no spa de um navio de cruzeiro, mas foi quando tornou-se funcionária do iate de um sheik árabe que conheceu uma cultura completamente diferente da nossa. Ao UOL, ela conta detalhes do que viveu.
Sou acupunturista e, naquele ano, trabalhava em uma clínica que estava quase falindo e não me pagava em dia. Também fazia um bico de meio período como digitadora no Aeroporto de Guarulhos para melhorar a renda e ainda pegava alguns atendimentos de massagem por fora. Estava infeliz e, atrás de novas oportunidades, consegui uma entrevista para trabalhar como massagista no spa de um navio de cruzeiros.

Arquivo pessoal
Simone na época em que trabalhava de massagista dentro de um cruzeiroImagem: Arquivo pessoal

Conquistei a vaga, mas a promessa de ganhar uma boa grana não se concretizou, pois recebia apenas uma comissão de 7% por cada massagem feita, e ainda era obrigada a vender produtos do spa, como cremes faciais e óleos de massagem, para ajudar na renda. A vida não era fácil, mas tinha suas compensações.
Em um dia de folga em Mikonos, na Grécia, brinquei com uma amiga que trabalhávamos como escravas, mas tínhamos folgas como princesa. Naquele momento, fazíamos um piquenique na praia e aquilo não tinha preço. Conheci ainda muitas ilhas do Caribe, além de mais de 40 países enquanto trabalhava em um navio de cruzeiro. Tudo mudou quando, ao visitar uma loja em Saint Martin, conheci um rapaz que trabalhava em iates e me contou que pagavam super bem.
Quando terminou o meu contrato com o cruzeiro, fui atrás disso. No total, foram sete meses procurando emprego, mas ninguém me dava nada sem ter uma carta de referência de outro iate. Só consegui esse documento após trabalhar limpando, pintando e lixando vários barcos.
Com as cartas de recomendação em mãos, fui atrás e encontrei meu primeiro emprego, em um iate ancorado em Salvador. Depois, fui para a Nova Zelândia, local em que uma outra embarcação estava, e fiquei nesse iate por sete meses. Foi quando conheci a Tailândia, Austrália, Ilhas Fiji e Cingapura.

Enxugava o chão onde o sheik passava

O barco acabou sendo vendido para outras pessoas, que o usavam direto, e comecei a ter problemas nas minhas mãos. Pedi as contas e passei 11 meses no Brasil até chegar a alta temporada na Europa, quando juntei uma grana novamente e fui para Antibes, no Sul da França. Sabia que era lá que estavam os barcos árabes.
Cheguei em março e fiz alguns serviços temporários, como trabalhar por um mês em um iate de propriedade de um sheik riquíssimo, dono de uma grande companhia aérea. Na época, a embarcação foi para Cuba.

Arquivo pessoal
Simone em uma mesquita em Abu DhabiImagem: Arquivo pessoal

Lá, eu precisava ficar na piscina do spa o tempo inteiro, sempre enxugando o chão por onde o sheik passava, além de segurar a toalha para quando saísse da piscina e também dar o sabonete líquido na hora que ele fosse tomar banho no chuveiro do spa. Esse cara tinha empregados até para recolher as roupas que largava no chão, pois não se abaixava para pegar. Também existia um funcionário especialmente designado para lavar suas costas e pés antes de ir dormir.
A esposa do sheik era meio seca com os funcionários, e sempre tomava café da manhã sozinha. Quando tinha convidados, ela e as filhas não podiam participar da mesa. De noite, o sheik ficava em um quarto separado. Se quisesse, chamava a esposa para fazer sexo e, às vezes, dava autorização para ela passar a noite lá. Do contrário, precisava deixar o cara sozinho no quarto.

Tinha que tratar todas as mulheres com respeito

Um belo dia, essa mulher me chama para fazer suas unhas. Eu não sou manicure, totalmente sem talento para isso, mas não podia negar. Até porque falar não nesse mundo é algo que nunca se deve fazer. Tudo corria bem até que borrei o esmalte e ela ficou furiosa.
Ganhei uma bela bronca e só não fui mandada embora porque meu contrato de um mês já estava acabando. No entanto, sei de uma menina antes de mim que tirou um "bife" do dedo dela e foi obrigada a desembarcar no mesmo dia. Lá, quando eles passavam, tínhamos que abaixar a cabeça.
Passado esse emprego, continuei na minha busca e outro barco me chamou. A maioria desses donos são sheiks árabes, tanto que onde trabalho atualmente é de propriedade de um príncipe dos Emirados Árabes. Ele é muito gente boa, sempre simpático com os funcionários. As esposas dele - sim, são várias - também. É claro que os tratamos com todo o respeito e só dirigimos a palavra quando falam conosco, mas todos sempre cumprimentam e sorriem. Este é um dos maiores iates do mundo, tanto que uma mulher não consegue saber o que a outra faz. Todas são tratadas com amor. 

Enclausuradas no iate


Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Quando o barco vai para a Arábia Saudita, somos proibidas de colocar nossa cara para fora, mesmo que seja até o deque. Todas as mulheres ficam presas ali dentro no período em que ficamos atracados. Detestei a experiência, mas só passei por isso em duas ocasiões, por uma semana cada. Uma vez estava de férias e, quando voltei, o iate precisou ir até o Egito buscar eu e as outras mulheres - que, no caso, eram acompanhantes coreanas -, pois não podíamos embarcar na Arábia. 
No futuro, quando não conseguir mais emprego na área, quero ser escritora para contar todas as minhas aventuras. Inclusive, já escrevi um livro chamado "O Diário Quântico de Sissi", mas que precisa de colaboração para ser publicado. Quer quiser contribuir, pode colaborar com o crowdfunding.
Enquanto isso, continuo em iates. Uma das mulheres do sheik, a quem chamamos de princesa, quer que eu seja sua "personal guru". Sempre que ela aparece no barco fazemos meditação juntas, além de acupuntura e rituais como queimar as coisas que não nos servem mais (risos).
Na verdade, ela é religiosa, mas adora essas coisas. Só que o sheik não quer permitir porque já sacou que, como funcionária, sei de muitas coisas. No entanto, estou aguardando mais uma tentativa dela. Quem sabe a princesa não ganha o marido e eu arranjo esse emprego? Seriam mais histórias incríveis para contar.

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