domingo, 23 de julho de 2017

85º ANIVERSÁRIO DO FALECIMENTO DE ALBERTO DE SANTOS DUMONT.

  85 a. falece ALBERTO DE SANTOS-DUMONT, em 23 de julho de 1932. Guardado em um cofre do Aeroclube de FRANÇA, um envelope de papel pardo encerra as últimas peças da biografia do inventor brasileiro. Nele, há cinco cartas do pioneiro da aviação mundial, escritas em francês, entre 1923 e 1928. Trata-se de um período pouco conhecido da vida de DUMONT. Naquele tempo, doente e deprimido, ele vivia às voltas com um sentimento pessoal de desolação por conta da utilização de aviões em atividades militares. O destinatário da correspondência era o também aeronauta francês GEORGES BESANÇON, amigo pessoal do brasileiro e testemunha, por quase uma década, das incursões aéreas de DUMONT em PARIS, no início do século XX. Salvo alguns assuntos triviais, as cartas versam sempre sobre o mesmo tema: a utilização do avião como máquina de guerra, uma obsessão presente em quase todas as correspondências dos últimos anos de vida de DUMONT. Os papéis ficaram em poder da família BESANÇON até a década de 1990, quando foram doados ao Aeroclube de FRANÇA, em PARIS, berço mundial das ciências aeronáuticas. A existência dos documentos só foi revelada ao governo brasileiro em 2001, quase por acaso. Adido militar, à época, junto à Embaixada do BRASIL em PARIS, o brigadeiro ANTÔNIO GUILHERME TELLES RIBEIRO descobriu as cartas em uma das muitas visitas que fez ao aeroclube.  Entusiasta da história de SANTOS DUMONT, aproveitou a passagem pela FRANÇA para reconstituir a trajetória do – aqui chamado – PAI DA AVIAÇÃO. A direção do Aeroclube de FRANÇA permitiu, no entanto, que apenas cópias (algumas com trechos ilegíveis) fossem enviadas à Força Aérea Brasileira, com o objetivo de permitir ao governo utilizá-las nos preparativos para as comemorações do centenário do vôo do 14-BIS, em 2006.
Famoso por ter utilizado o primeiro vôo da história da aviação feito diante de testemunhas, em 1906, a bordo do 14-BIS, o inventor teve uma vida pessoal solitária e conflituosa. Até 1910, ao encerrar suas atividades como piloto e construtor de dirigíveis e aeroplanos, manteve-se no foco da sociedade científica mundial. Depois, entrou em lento processo de depressão e tensão nervosa que o levaria ao isolamento. Em 1932, no auge desse processo, enforcou-se num quarto de hotel do GUARUJÁ, no litoral paulista, AOS 59 ANOS.
As cartas a BESANÇON reforçam a tese, pontuada pela maioria de seus biógrafos, de que SANTOS DUMONT dedicou os últimos anos de vida à amargura de ver a indústria aeronáutica se tornar um braço das Forças Armadas no mundo. De PETRÓPOLIS, RIO DE JANEIRO, onde construiu uma casa de arquitetura fantástica para descansar entre seus longos tratamentos contra a depressão, escreveu ao amigo francês, em 1924: “No começo deste século, nós, os fundadores da Aeronáutica, havíamos sonhado com um futuro pacífico e grandioso para ela. Mas a guerra veio, apoderou-se de nossos trabalhos e, com todos os seus horrores, aterrorizou a humanidade”.
Em outra carta, de 1926, ele conta ter procurado o embaixador do BRASIL para evitar, junto à LIGA DAS NAÇÕES, que a aeronáutica se transformasse em meio de destruição. A iniciativa, típica da personalidade pacifista de SANTOS DUMONT, foi ignorada pela diplomacia brasileira. Na carta a BESANÇON, ele percebe que seus esforços são inúteis. “Acredito que não vai se fazer nada de sério desta vez. Assim, eu pedi a ele (o embaixador brasileiro) para não mais falar deste assunto”, escreve. Adiante, arremata: “Vamos ver o que se poderá fazer em outra ocasião, isso porque será verdadeiramente assustador se, no futuro, não se puser um freio aos meios de destruição decorrentes das novas invenções do homem!”.

No mesmo tom, internado em uma clínica de VAL-MONT-SUR LERRITET, na SUÍÇA, mandou uma mensagem angustiada a BESANÇON, em 12 de agosto de 1926. “Minha intenção é muito boa, porque eu prevejo que as guerras aéreas serão terríveis e nefastas para todo mundo”, profetiza. Em 1932, ano em que cometeria o suicídio, em 23 de julho, SANTOS DUMONT pôde presenciar, quase como testemunha ocular, o uso de aviões do Exército de GETÚLIO VARGAS contra os rebeldes da REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA. Diz a lenda que, antes de se matar, teria comentado com o motorista da charrete que o levara de um passeio ao hotel LA PLAGE, no GUARUJÁ: “Eu inventei a desgraça do mundo”. Em seguida, se enforcaria com a própria gravata.     

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