terça-feira, 8 de agosto de 2017

REVOLUÇÃO DE 1930 - POR CORÁLIO BRAGANÇA PARDO CABEDA

REVOLUÇÃO DE 1930 - Coralio Bragança Pardo Cabeda Pesquisador A adesão das guarnições do Exército no Estado do Paraná, secundada pela população civil, facilitava o avanço das colunas revolucionárias do Rio Grande do Sul, pois seria o último obstáculo antes do esperado enfrentamento com as tropas da 2ª Região Militar (São Paulo). Dois tenentes revolucionários vindos do exílio, João Alberto Lins de Barros, veterano da Coluna Miguel Costa-Prestes, e Vicente Mário de Castro, participante da sublevação de 1926, tinham sido escolhidos para prepararem a revolução no Paraná. Com o rápido sucesso alcançado pela adesão da força federal, o passo seguinte seria a preparação da invasão de São Paulo, onde forte resistência se organizava. João Alberto, comissionado no posto de Coronel e a quem fora entregue o comando da 3ª Divisão de Infantaria (3ª DI), grande unidade que deveria operar no setor sul, concebeu uma atrevida manobra diversionária. Um destacamento marcharia pelo litoral, rumando para Xiririca, Cananéia e Iguape, ameaçando Sete Barras e Juquiá, e rebatendo-se, posteriormente, sobre Capão Bonito ou Guapiara, onde faria ligação com a divisão. Essa missão foi confiada ao 1º Tenente de Artilharia Vicente Mário de Castro, gaúcho de Rio Grande, comissionado como Coronel. Filho e neto de oficiais da Marinha (o avô, Almirante, combatera no Paraguai), Vicente era soldado já experimentado nas nossas revoluções, tendo participado da Campanha do Paraná, em 1924, e sublevado a 1ª Bateria do 6º Grupo de Artilharia a Cavalo (I/6º GACav), em 1926. Exilado no Uruguai, fora recrutado por Oswaldo Aranha, seu antigo adversário no ÓRGÃO DE DIVULGAÇÃO DA ACADEMIA DE HISTÓRIA MILITAR TERRESTRE DO BRASIL/RIO GRANDE DO SUL (AHIMTB/RS) - ACADEMIA GENERAL RINALDO PEREIRA DA CÂMARA - E DO INSTITUTO DE HISTÓRIA E TRADIÇÕES DO RIO GRANDE DO SUL (IHTRGS) 280 anos da chegada do Brigadeiro José da Silva Pais a Rio Grande -100 anos da entrada do Brasil na I GM ANO 2017 Julho N° 228 O TUIUTI INFORMATIVO Uma Página Ignorada: A Invasão de São Paulo pelo Litoral 2 Combate do Seival (25-11-1926), para participar do movimento de 30. A força que deveria organizar e comandar recebeu o nome de Batalhão “João Pessoa”. Formavam-na o escol da mocidade curitibana, que se alistava cheia de entusiasmo. Entre seus componentes figuravam pessoas de representação social, profissionais liberais, professores universitários, acadêmicos, o que aumentava a responsabilidade e a preocupação do comandante. A marcha seria realizada por região inóspita, quase desabitada e inçada de dificuldades de toda a sorte. Como se comportariam aqueles guerreiros entusiasmados mas inexperientes ? João Alberto, compreendendo os cuidados do companheiro, pôs à sua disposição um piquete de veteranos da Coluna Miguel Costa-Prestes: 40 bravos gaúchos de Tupanciretã, comandados pelo Coronel Nestor Veríssimo. Veríssimo era homem de confiança de João Alberto, seu companheiro de Coluna e valente oficial maragato das Revoluções de 1923 e 1924. O Batalhão “João Pessoa”, forte de 750 homens, deixou Curitiba no dia 13 de outubro, rumando por estrada de ferro para o porto de Paranaguá. Dali, em chatas do Lloyd Brasileiro, transportou-se para Guaraqueçaba, chegando a Porto Morato no dia 17. Começava, então, a luta contra a natureza, com tremedais, água e lodo a dificultarem a marcha. Caminhos e picadas estreitos obrigavam a coluna a deslocar-se em fila indiana, tendo de abandonar montarias e cargueiros por absoluta falta de forragem. Sem qualquer esperança de reabastecimento, víveres e munições tiveram de ser transportados a braço. E isso sob chuvas contínuas. A marcha assumia contornos dramáticos, pondo à prova a resistência da tropa. Na Colônia Santa Maria, localidade na divisa de São Paulo com o Paraná, travou-se no dia 19 o primeiro contato da vanguarda, comandada por Nestor Veríssimo, com o adversário, fazendo-se seis prisioneiros e tomando-se 30 fuzis com 1.000 cartuchos de guerra. No dia seguinte, novo encontro em Rio do Meio, pondo em fuga as avançadas paulistas. Marchando sob chuva torrencial, a vanguarda chegava à margem do rio Itapitangui no dia 22, em cuja margem esquerda, na vila do mesmo nome, o inimigo se entrincheirara. Comandava a força paulista o Tenente-Coronel Pedro Árbues, oficial reformado da Força Pública. Ali, travou-se o combate mais renhido. Atravessando o rio com água pelo peito e sob fogo dos defensores da praça, a vanguarda do Batalhão, após hora e meio de vivo tiroteio, armou baionetas e assaltou as trincheiras. Não resistindo à violência do assalto, o inimigo vacilou e terminou por debandar, deixando 15 mortos e feridos, 47 prisioneiros, uma metralhadora pesada, 38 fuzis e 20.000 cartuchos. Entre os mortos estava o comandante, Tenente-Coronel Pedro Árbues. Os atacantes tiveram dois mortos e dois feridos. Na documentação apreendida na vila de Itapitangui constavam informações sobre o dispositivo das forças paulistas e um estudo sobre a possibilidade de acesso ao estado pelo litoral. Ressalte-se que, dada a dificuldade da marcha do Batalhão, cuja coluna alongava-se pela estreiteza dos caminhos, apenas a vanguarda, constituída pelo piquete gaúcho, reforçado pela 3ª Companhia, entrou em combate sob o comando do Coronel Nestor Veríssimo. O restante da força só chegou nos dois dias seguintes. Após o Combate de Itapitangui, quando o Batalhão se preparava para atacar Pariquera-Açu, um rádio aos comandantes das forças em operações informava a deposição do Presidente Washington Luiz em 24 de outubro. Na tarde do dia 25, o Chefe do Estado-Maior da 5ª Região Militar comunicava ao Coronel Vicente Mário de Castro a vitória do movimento. Em 27, era ocupada Pariquera-Açu; a 29, Registro e a 31, Juquiá. Desta localidade, em composição da Estrada de Ferro Sorocabana, o Batalhão deslocou-se para 3 Santos, acantonando nos armazéns da Companhia Docas de Santos. Em 16 de novembro, pelo navio “Manaus”, retornava o destacamento vitorioso a Paranaguá, de onde, por ferrovia, chegava a Curitiba na noite de 17. Em 22 de novembro era dissolvido o Batalhão “João Pessoa”. Nos elogios de praxe, o comandante não deixou de ressaltar o estoicismo de dois combatentes, Neylor Vasconcelos e Frederico Weiss, que, embora fisicamente deficientes, suportaram a marcha realizada por terreno considerado quase intrans.- ponível. Também prestou homenagem aos mortos do Batalhão, Elpídio Dorneles e Aristides Rocha, gaúchos, caídos no Combate de Itapitangui; Antônio Ramos, intoxicado ao sofrer as agruras da fome e Alberto Del Gaudio, afogado na Baía de Guaraqueçaba. Em gesto elegante, o Coronel Vicente Mário de Castro, após a chegada a Santos, mandou por um oficial entregar a espada do comandante adversário, Tenente-Coronel Pedro Árbues, à sua família. O difícil itinerário escolhido foi a op- ção resultante de reconhecimento feito na direção de Ararapira, atravessando a zona conhecida como Varadouro. Constatandose a presença de forças inimigas e a vulnerabilidade em que ficaria o Batalhão, deslocando-se em pequenas embarcações, optou-se pela marcha de Porto Morato a ITAPITANGUI, numa extensão de 70 km. Os documentos apreendidos nessa última localidade demonstraram o acerto da decisão tomada.

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