segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

MEMÓRIAS DO VENTURA: 5 DE FEVEREIRO DE 2012

MEMÓRIAS DO VENTURA: 5 DE FEVEREIRO DE 2012: D I A C I N C O D E F E V E R E I R O D E 2 012 – D O M I N G 0. 75 anos, 1 mês e 9 dias de idade. Início de minhas memórias – 9 de J...

CUBA-BRASIL: YOANI, COMPAIXÃO E PILATOS - POR ARMANDO VALLADARES

Cuba-Brasil: Yoani, compaixão e Pilatos




* Armando Valladares



Desde o ponto de vista dos direitos humanos, a viagem a Cuba da presidentA do Brasil, Srª Dilma Rousseff, constituiu-se em um desastre inimaginável para o povo cubano e para suas esperanças de liberdade.



Nesse sentido, a viagem presidencial poderá ser inscrita no livro negro das vergonhas de nosso tempo e de nosso continente. Com seu silêncio total sobre a violação sistemática dos direitos de Deus e dos homens na ilha-cárcere desde mais de cinqüenta anos, a presidente da maior potência da América Latina e uma das maiores potências do mundo, deu implicitamente luz verde para que o regime continue perseguindo impunemente os opositores, matando-os de sede nas prisões, reprimindo as Damas de Branco e mantendo prisioneiros, sem poder sair e entrar livremente, 11 milhões de cubanos.



Também nesse sentido, a Srª Rousseff, uma ex-guerrilheira que nunca se arrependeu publicamente de seu passado, transformou-se, a partir de sua recente viagem à Havana, em co-responsável pelos atropelos e crimes que o regime comunista cometa daqui por diante, alentado em suas selvagerias por tão gigantesco aval recebido.



Poucos dias antes da chegada da presidente Rousseff à ilha-cárcere, o regime comunista havia deixado morrer de sede e de falta de atenção médica o jovem opositor Wilman Villar Mendoza, de 31 anos, pai das meninas Geormaris e Wilmari, de 7 e 5 anos. Foi uma morte cruel que sua esposa, Maritza Pelegrino, membro das Damas de Branco, que nesse momento está sendo covardemente perseguida e hostilizada pela Polícia Política cubana, qualificou sem ambigüidade como um “assassinato”.



Em 2010, seu antecessor no cargo, o Sr. Lula da Silva, ao chegar em Havana havia se deparado com a morte, também por sede e por falta de assistência médica, de outro prisioneiro político, Orlando Zapata Tamayo. Lula o qualificou como um “simples delinqüente”, provocando consternação no povo brasileiro, no povo cubano e nos defensores da liberdade no mundo inteiro.



Dilma Rousseff, ao contrário, simplesmente ignorou a morte de Wilman, como se nada tivesse acontecido. E as fotos oficiais difundidas pela Presidência do Brasil mostram-na com sorrisos generosos e sussurros ao ouvido do ditador Raúl Castro, tapando a boca para que ninguém pudesse ler seus lábios. Uma das afirmações que pôde-se ouvir, segundo o web site Globo.com, foi a de que se entrevistaria “com muito orgulho”, com o sanguinário Fidel Castro.



Alguns pensavam que o atual ditador Raúl Castro retribuiria tão abundante apoio da presidente brasileira, outorgando o visto de saída à jovem blogueira Yoani Sánchez, para visitar o Brasil em fevereiro. Com isso, ajudaria a lavar um pouco a cara da Srª Rousseff, sinalizando ao menos um resultado humanitário concreto em troca de tantas gentilezas e sorrisos presidenciais aos carcereiros de Cuba. Embora fosse uma contrapartida efêmera, serviria publicitariamente para atenuar a vergonha de sua conduta complacente em Havana.



Os que assim pensaram e esperaram, se enganaram.



O ditador Raúl Castro retribuiu com uma bofetada a todas as generosas dádivas da presidente Rousseff, negando o visto à jovem jornalista Yoani sem se preocupar em dar explicações. E colocou no pelourinho público a mandatária brasileira, deixando-a a mercê de justificadas críticas que se levantam em seu país.



Escrevo este artigo pensando no nobre povo brasileiro, que se destaca no mundo inteiro, entre tantos atributos, por seu espírito de compaixão cristã.



Os cubanos jamais poderemos esquecer, com enorme gratidão, que há 10 anos esse generoso povo brasileiro tomou como própria a causa de duas meninas cubanas, Sandra Becerra Jova e Anabel Soneira Antigua, seqüestradas pelo regime de Havana, que não permitia a saída de ambas para se reunir com seus pais, profissionais cubanos que haviam optado por residir no Brasil, um país de liberdade. O drama familiar dessas duas meninas comoveu de tal maneira o povo brasileiro, e sensibilizou de tal maneiras os meios de comunicação, que o regime cubano teve que autorizar a saída de ambas para se reunir com seus pais no Brasil. Foi um fato talvez inédito, e os brasileiros o conseguiram, com essa peculiar, única e intraduzível maneira de solucionar os problemas com criatividade, chamada “jeitinho”.



Dez anos depois, quem sabe se esse mesmo povo brasileiro poderia de alguma forma exteriorizar novamente seus sentimentos de solidariedade com o irmão povo cubano, que geme em uma ilha-cárcere desde há mais de 50 anos, e que ficou tremendamente angustiado pelo reconhecimento da presidente brasileira a seus carcereiros, de maneira que a jovem Yoani possa visitar o quanto antes o Brasil. E, se assim desejar, que ela esteja em condições de permanecer no Brasil o tempo que seja necessário, sem ver coibido seu direito de opinião. Poderá cintilar então uma luz de esperança nos corações de 11 milhões de cubanos prisioneiros, incluindo a tantas e tantas Yoanis, Sandras e Anabeles.



Segundo versão recebida de Cuba por meu companheiro de presídio e hoje brilhante jornalista, Carlos Alberto Montaner, Geormaris e Wilmari, as duas filhinhas do preso-político assassinado poucos dias antes da chegada da presidente Dilma, não entendem o que aconteceu com seu querido papai. Como a família tem influência cristã, a mãe explicou-lhes que o papai foi para o Céu. “E onde está o Céu, mamãe?”, perguntaram. “Muito longe de Cuba. Muito longe”, respondeu-lhes a jovem viúva.



É aos artífices, propulsores e mantenedores do Inferno cubano, tão, mas tão longe do Céu, a quem favorece em primeiros lugar o silêncio da presidente Dilma, um silêncio próprio do espírito de Pôncio Pilatos.



Há alguns anos, o então presidente Lula, em uma entrevista com o jornalista Boris Casoy, me acusou de “picareta” (embusteiro) porque escrevi que ele estava dando seu apoio ao “eixo do mal castrista”. Hoje, a presidente Dilma, objetivamente, por ação ou omissão, passou a liderar no continente um “eixo do silêncio” sem o qual o “eixo do mal”, que asfixia minha querida Pátria cubana, não poderia sobreviver. Assinalo uma vez mais que considero a presidente Dilma co-responsável pelo que ocorra em matéria de violação de direitos com 11 milhões de meus irmãos que gemem na ilha-cárcere, a partir de sua viagem à Havana.



Espero que sejam respeitados os direitos humanos e as liberdades de todos aqueles blogueiros e twitteiros que costumam publicar e difundir meus artigos nessa nobre Terra da Santa Cruz.



Sobre a próxima visita de SS. Bento XVI a Cuba, acabo de escrever dois artigos que podem ser localizados na Internet. “A viagem de Bento XVI a Cuba: esperanças e preocupações” e “Wilman Villar, inferno cubano e silêncio vaticano”.



Este artigo pode ser difundido e publicado por qualquer meio, livremente, especialmente no Brasil. Se for possível, comunique sua publicação e/ou sua valiosa opinião a armandovalladares2013@gmail.com.



Agradeço enormemente aos milhares de blogueiros e twitteiros cubanos e do mundo inteiro que estão difundindo meus artigos na Internet, contribuindo decisivamente para traspassar as muralhas de censura e de silêncio.



*Armando Valladares, escritor, pintor e poeta. Passou 22 anos nos cárceres políticos de Cuba. É autor do best-seller “Contra toda a esperança”, onde narra o horror das prisões castristas. Foi embaixador dos Estados Unidos ante a Comissão de Direitos Humanos da ONU sob as administrações Reagan e Bush. Recebeu a Medalha Presidencial do Cidadão e o Superior Award do Departamento de Estado. Escreveu numerosos artigos sobre a colaboração eclesiástica com o comunismo cubano e sobre a “ostpolitik” vaticana em relação a Cuba.



Tradução: Graça Salgueiro