terça-feira, 10 de dezembro de 2019

O MEU HERÓI DO COTIDIANO - PELO CORONEL PM LUIZ EDUARDO PESCE DE ARRUDA








Luiz Pesce de Arruda
O MEU HERÓI DO COTIDIANO
Luiz Eduardo Pesce de Arruda
Quem o vê caminhando anônimo pelas ruas não pode saber a história de vida tão rica que ele tem trilhado.
Ingressou no Corpo de Bombeiros em 1969. Dois de seus irmãos também seguiram essa vocação.
Esteve na ativa, em serviço contínuo, até 1999.
Participou de todas as grandes ocorrências de sua geração.
Em 19 de julho de 1973, na capital e ainda recruta, comandado pelo tenente Antonio Righini de Moura, atendia sua primeira ocorrência de resfriamento de caldeira.
Depois de, junto com sua guarnição, retirar os 60 funcionários da empresa de embalagens, o tenente lhe deu uma determinação:
-Oh, recruta, vai até a viatura e traz uma seção de mangueira pra gente.
Quando ele virou as costas e começou a se afastar, rumo à viatura, sentiu como um soco nas costas que o projetou, voando, para longe. Foi o único da guarnição que sobreviveu à explosão dos gases provenientes do vazamento da caldeira.
Esteve no Andraus, de onde retirou muitos sobreviventes. Esteve no Joelma. Ali, teve de descolar corpos fundidos uns nos outros pelo calor, vestidos apenas em roupas íntimas, apertados uns contra os outros em banheiros minúsculos, numa vã tentativa de resistir ao calor intenso, Ali as pessoas se refugiaram, tentando se molhar. Ali morreram, abraçados uns aos outros.
Esteve no incêndio da Volkswagen, em 1970, onde trinta funcionários perderam a vida. Combateu o incêndio da TV Excelsior, também em 1970, da TVS em 1978, do edifício Grande Avenida, da Aliperti, da Nestlé, e em tantos outros. Sua resistência física e sua força descomunal faziam dele, normalmente, o bombeiro responsável por subir aos andares mais altos, levando nas costas os pesados cilindros de oxigênio, para que os colegas pudessem respirar com o equipamento autônomo.
Respeitado na zona Sul, onde trabalhou por muitos anos, foi o grande empreendedor a mobilizar o empresariado da região para que se construísse o Posto de Bombeiros de Santo Amaro, hoje um marco e um orgulho santo-amarense.
Viveu grande parte da vida com muitas dificuldades materiais. Um dia, depois de vender um par de sapatos na zona leste, voltava a pé para Pirituba, porque não tinha dinheiro para o transporte. Quando conseguiu falar com a esposa, ela lhe disse que acabara a comida em casa e as crianças estavam sem leite. Nessa noite, cansado, sentado em uma praça, ele, que levava esperança a tantas vidas, chorou de desesperança. Mas, a caminho de casa, parou na padaria do bairro e propôs ao dono que iria lavar o estabelecimento, em troca de leite.
O português, sensibilizado, comunicou-lhe ao término do serviço:
- Senhor bombeiro, pegue o leite e o que mais o Senhor precisar.
Aquela noite, com pão, leite, queijo e presunto, foi uma festa na casa dele. E trabalhou por anos na padaria. E vendendo sapato. E como gestor de empresa. Sempre honrado e sempre nas horas de folga. Porque, a missão de vida dele era ser bombeiro, do incêndio e do salvamento.
O tempo passou, ele se estabilizou, foi pai de três filhos – dois adotivos – e a vida teria tudo para que ele pudesse usufruir a placidez da reforma, como sargento.
Mas teve de amparar as quatro netas, e ele as adotou.
Chefiou a defesa civil na prefeitura regional da Sé, foi assessor do vereador e depois deputado coronel Camilo.
Mas ele tinha uma frustração. Quando ingressou na Força Pública (hoje PM), só se exigia a 4ª série do ensino fundamental. Ele cursou até a oitava. Mas queria acessar o diploma de Técnico de Nível Superior em Ciências Policiais e Segurança e Ordem Pública, que é conferido pela Escola Superior de Soldados de Pirituba aos policiais militares que, tendo cursado outros currículos no passado, forem aprovados na extenuante prova de nivelamento. Diploma de curso superior na mão, isso permitirá que ele possa trabalhar em cargos melhor remunerados e compatíveis com seu extenso conhecimento.
Aos setenta e um anos, decidiu-se: foi para o EJA, viajou durante um ano e meio para estudar a noite na cidade vizinha daquela onde hoje mora, fez a festa em meio à garotada e, no último sábado, de uma sala de 45 alunos, foi o único aprovado. Agora, com ensino médio completo, pode prestar a prova da Escola de Pirituba e alcançar o tão sonhado nível superior.
Quem o vê caminhando anônimo pelas ruas não pode saber a história de vida tão rica que ele tem trilhado.
Mas seus amigos o respeitam e sabem que, um dia, quando nossa amada Pátria oferecer educação de qualidade a todos os meninos e meninas, quando a educação cívica superar o egoísmo, o imediatismo e a inversão de valores, gente como o Sargento Franclin de Jesus Ferreira será reconhecida e aplaudida ao entrar no ônibus e no avião, no restaurante e na padaria, no cinema e no estádio. Pais dirão a seus filhos para conversar e tirar selfies com ele. Afinal, não se encontram tantos heróis assim, caminhando pelas ruas. Só em Orlando. Mas lá, são heróis de ficção.
Enquanto isso, quem sabe de sua história reconhece nele o herói de carne e osso, um homem que se arriscou e ofereceu sua vida para salvar vidas alheias. Um campeão da vida. E agora, com diploma de ensino médio. Por enquanto, ele já avisou.
São Paulo, 03 de dezembro de 2019 – 18:01h
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