EXTRAÍDO DAS MEMÓRIAS DO CORONEL PM MÁRIO FONSECA VENTURA - A CRISE NA FORÇA PÚBLICA, EM 1961, TEVE INÍCIO EM 13 DE JANEIRO DAQUELE ANO. AS ANOTAÇÕES SÃO REFERENTES A FATOS OCORRIDOS NO DIA 15 DE JANEIRO.
53 a. das anotações de 16 de janeiro de 1961, em minhas memórias,
numa segunda-feira: “Em meu lar, leio as notícias, tendo acompanhado pelo rádio
o enterro dos dois sargentos do fogo, que por ordem das autoridades tiveram o
féretro antecipado, causando viva antipatia na população. A situação na FP é a
mesma, talvez até pior. Alguns meus colegas de 1959 e 1960, atualmente
aspirantes, estão presos: UBIRAJARA PISANI, ESPÍRITO SANTO, JOSÉ LUSTOSA
CARIBÉ, MOACYR ALVARENGA, LUÍS DE CASTRO, IGNÁCIO EDÉCIO STRAMA, SÍLVIO ANTÔNIO
RISSI, HAMILTON COELHO. Alguns desses rapazes foram promovidos a Aspirantes em
15 de dezembro de 1960, já tendo essa grande desilusão, no início de suas
missões.
JORNAL DA NOITE: EDIÇÃO DE 16 DE JANEIRO DE 1961
TRABALHADORES APOIAM O MOVIMENTO DA FORÇA PÚBLICA. NÃO FOI
SUPERADA A CRISE NA FORÇA: HOJE A PASSEATA DE ESPOSAS E MÃES DOS SOLDADOS DA
FP. APOIO DOS INSPETORES DA GUARDA CIVIL AOS COMPANHEIROS DA FORÇA (nota
distribuída pela Diretoria do Centro Social dos Inspetores da GUARDA CIVIL – APOIO
ÀS REIVINDICAÇÕES DA FP.
Pouco depois da meia-noite vários carros-transportes,
completamente lotados de elementos da FORÇA PÚBLICA, deixaram o quartel do 2 º
BP, da rua JOSÉ GETÚLIO, escoltados por quatro carros fortes do EXÉRCITO.
Segundo informações colhidas pela reportagem, os oficiais presos estavam sendo
transferidos para o FORTE DE ITAÍPU, em SANTOS, ou para o quartel do BARRO
BRANCO.
A PRAÇA CLÓVIS BEVILÁCQUA foi transformada em praça de guerra.
Armas poderosas foram colocadas nas imediações do QG do CORPO DE BOMBEIROS.
Encontram-se presos no 7º Batalhão, em SOROCABA, os seguintes
oficiais; capitães – PEÇANHA, WILSON, PRESMAN e GUAICURU; tenentes – JATIR,
HERMENEGILDO, MARTINHO, RENATO, BENVENUTTI, DIRCEU, GARIBE, PEREZ GIMENEZ e
OTACÍLIO; aspirantes – WADIR, UBIRAJARA PISANI, ESPÍRITO SANTO, JOSÉ LUSTOSA,
MOACIR ALVARENGA, LUÍS DE CASTRO, INÁCIO EDÉCIO, SILVIO ANTÔNIO RISSI e
HAMILTON COELHO. Segundo informações colhidas pela reportagem os oficiais do 7º
BATALHÃO, os CAPITÃES CÍCERO e BARREIRA, e os tenentes HÉLIO, PASCOAL, AIDAR,
FOGAÇA, ERNANDES, NABUCO, MASCARENHAS e GUSTAVO, solidarizaram-se com os seus
companheiros, razão pela qual, imediatamente, também foram considerados presos
e incomunicáveis.
OFICIAIS DO EXÉRCITO EM TODOS OS POSTOS DE COMANDO DA FORÇA
PÚBLICA – Esteve nos CAMPOS ELÍSIOS o comandante do II EXÉRCITO e outros
militares – Mediação do CARDEAL – Problemas do aumento.
Transcorreu calmo o dia de ontem nos CAMPOS ELÍSIOS. Cerca das 14
horas, deu-se por encerrado o dispositivo conjugado de guarda do PALÁCIO,
composto de elementos da FORÇA PÚBLICA, GUARDA CIVIL e EXÉRCITO. Assim, por
alguns minutos, apenas elementos da Milícia voltaram a guarnecer o PALÁCIO,
quando chegava a notícia lamentável da morte dos dois bombeiros, perecidos em
trabalho. Em vista dessa circunstância, o governador CARVALHO PINTO determinou
que a GUARDA CIVIL voltasse a policiar o palácio. Após manter demorada
conferência com o governador do Estado, o INSPETOR OMAR GALVÃO, chefe da guarda
civil, retirou-se dos CAMPOS ELÍSIOS, e pouco depois com ele voltavam inúmeros
guardas civis, que foram distribuídos em derredor do PALÁCIO. Esses guardas,
armados de sub-metralhadoras, segundo informou o INSPETOR OMAR GALVÃO, se
revezavam com os colegas nos postos de sentinela, perfazendo um total de 300
elementos. Às 16 horas, foi suspenso o tráfego de veículos das ruas
circundantes aos CAMPOS ELÍSIOS, desviando-se o trânsito para ruas paralelas,
evitando-se, dessa forma, que os automóveis ou qualquer outra espécie de veículos
passassem por demais próximos do PALÁCIO.
Depois de almoçar em companhia do deputado FELÍCIO CASTELANO,
secretário particular do Secretário da Segurança e com outros elementos mais
chegados, o governador CARVALHO PINTO observou rápido repouso, sendo que às 16
horas recebeu nos CAMPOS ELÍSIOS a visita dos generais STÊNIO DE ALBUQUERQUE
LIMA, Comandante do II EXÉRCITO; ALTAIR FRANCO FERREIRA, chefe do Estado-Maior
do II EXÉRCITO e do CORONEL OLDEMAR FERREIRA GARCIA, comandante da FORÇA
PÚBLICA. Iniciou-se então uma reunião dessas autoridades com o governador,
tendo a mesma se prolongado até às 18:40 horas, estando também presente o
CORONEL DJALMA ARANTES, chefe da CASA MILITAR dos CAMPOS ELÍSIOS. Tratou-se na
ocasião das medidas que vêm sendo tomadas com relação à crise, bem como dos
relatórios enviados pelas várias unidades da FP, que davam notícia da passagem
de comando para oficiais do EXÉRCITO. A passagem desses comandos, segundo
apurou a reportagem, deram-se normalmente, sem que ocorressem quaisquer incidentes.
O CARDEAL dom CARLOS CARMELO DE VASCONCELOS MOTA, às 17 horas,
esteve em reunião nos CAMPOS ELÍSIOS com o governador do Estado. O cardeal
trouxe ao chefe do Executivo uma proposta de conciliação, oferecendo-se para
servir de mediador na questão. Logo a seguir, o sr RUY MARCUCCI, chefe do
Serviço de Imprensa do Palácio informava que o cardeal foi oferecer o seu apoio
ao governador do Estado. Entretanto, tem-se notícia de que já no sábado o
cardeal se oferecera para esse mister, sendo que no mesmo dia o senador LINO DE
MATOS iniciava gestões de mediação. D. CARLOS CARMELO retirou-se do PALÁCIO DO
GOVERNO por volta das 18 horas.
O DIÁRIO DA NOITE de 16 de janeiro de 1961, segunda-feira, também
publicava reportagem sobre a morte dos dois bombeiros, que numa viatura do
CORPO DE BOMBEIROS seguiam para SANTO ANDRÉ, onde lavrava um incêndio na
avenida PEREIRA BARRETO. Eram os sargentos TOMÁS CLEODON MEDEIROS, de 34 anos,
e ANTENOR GONÇALVES TEIXEIRA, de 25 anos. Receberam graves ferimentos os
soldados JOSÉ PAULINO TORRES e ANTÔNIO MARTINS CARRASCO. Outros soldados
tiveram ferimentos leves.
Ainda colho de minhas memórias: Passo boa parte na Delegacia de
POÁ, escutando rádio, conversando com os soldados de serviço. Volto à casa de
meus pais quando já passam das 17 horas. Justamente nesse instante, em SÃO
PAULO, partindo do LARGO SÃO FRANCISCO, tínhamos a passeata monstro das
mulheres, mães, filhos dos militares envolvidos nos acontecimentos da FP.
Apresentavam-se maltrapilhos, descalços, num brado de fome. Será que o
Governador não se sentirá constrangido
quando ver esse triste quadro ?
O JORNAL FALADO TUPI, com início às 22 horas, apresentava as
notícias sobre a Passeata dos Familiares dos militares, sendo que 700 praças e
oficiais foram recambiados para o CFA, onde estão presos. O EXÉRCITO continua a
ocupar os postos chaves, com “ninhos” de metralhadoras em todos os lugares
críticos, principalmente na PRAÇA CLÓVIS BEVILÁCQUA.”