O jornal DIÁRIO DE SÃO PAULO
traz uma entrevista de AMANDA GOMES com o novo Comandante do 1º BATALHÃO DE
POLICIA MILITAR DE CHOQUE - ROTA
Novo Comandante da ROTA diz não
tolerar vagabundo e pede para os membros de elite da Polícia Militar paulista '
ser um pouco mais racional do que os semais seres humanos'.
Aos 46 anos de idade, sendo 31
dedicados à Polícia Militar, o TENENTE-CORONEL PM ALBERTO MALFI SARDILLI assume
o comando da ROTA, a tropa de elite da corporação paulista, com a missão de
acalmar a tropa, considerada a mais temida da PM.
Graduado no curso de formação
de oficiais da Academia Militar do Barro Branco, o bacharel em direito foi
escolhido pelo governador GERALDO ALCKMIN somente sete meses após a nomeação de
ALEXANDRE GASPARIAN, que deixa o cargo chamuscado por justamente não diminiuir as
mortes provocadas por policiais.
O novo Chefe das Rondas Ostensivas
TOBIAR DE AGUIAR tem fama de durão. Ele nega, mas deixa claro seu recado aos
subordinados.
"Vou trabalhar dentro da
expectativa da comunidade paulista, que é a dureza no trato contra
criminalidade, mas dentro dos parâmetros da legalidade. Não podemos nos levar
por discursos oportunistas de justiça com as próprias maos", avisou o
tenente-coronel.
Ex-comandante da Cavalaria da
PM, SARDILLI falou ontem com exclusividade ao DIÁRIO.
DIÁRIO - Qual vai ser o foco da
sua gestão à frente da ROTA?
ALBERTO MALFI SARDILLI - Não
podemos imaginar a tropa do 1º Batalhão de Choque (a ROTA) como escoteiros. Isso
é inviável porque se fosse para ser isso, não precisaria tê-la. Os policiais e
eu, como comandante, temos de ter essa consciência. O nosso limite é estipulado
pela lei.
O que representa para o senhor
assumir a ROTA nesse momento conturbado?
Uma responsabilidade muito
grande. Infelizmente tivemos alguns desvios de conduta que foram muito
negativos para a instituição. Temos a plena consciência que a Polícia Militar
tem valores bem maiores do que esses policiais apresentaram.
Como lidar com esse alto risco
sem cometer excessos?
É obvio que temos um grau de
risco bem maior (no combate ao crime). Seria semelhante a falar que um médico
que opera numa cirurgia grave não tenha as mesmas perdas de um profissional que
atende uma gripe. Da mesma maneira, não podemos fazer um parâmetro de um
policial que atende o 190 com uma tropa que é colocada em locais de alta incidência
criminal, com armamentos específicos para dar integridade física aos próprios
agentes, e achar que os resultados serão semelhantes. Cabe a nós combater a
criminalidade e temos a espectativa que a população e os organismos de direitos
humanos entendam essa relação pois, infelizmente, cabe a nós fazer esse trabalho.
Como é a seleção para um PM
entrar para a ROTA?
Ninguém cai de paraquedas aqui.
Os policiais que se destacam nas suas áreas geográficas são identificados e tem
de ter um perfil aguerrido. E não pode ser diferente disso. Trabalhamos no
limite da bandidagem, no limite da vagabundagem. Não dá para ser carinhoso e
nem cortês demais (com bandido). Ainda assim eles passam por estágio
operacional, pelo crivo de outros oficiais para ver se têm condições técnicas,
psicológicas e equilíbrio para exercer a função.
Mas qual a estratégia para manter
esse equilíbrio?
Quem usa um brasão da ROTA tem
de ser um pouco mais racional do que os demais seres humanos, até para
preservar a si mesmo, a instituição e a família. A barreira do policial da ROTA
para cometer deslizes é a família.
O senhor tem fama de linha
dura. Como é o seu perfil com os subordinados?
Sou legalista. Ser linha dura às
vezes pode levar para um campo de rigor excessivo. Na verdade, o rigor
excessivo tem o limiar da Justiça. É nesse limiar que vamos trabalhar, da
legalidade e da Justiça. Não tem como tratar na moleza. A gente tem de ter um
rigor adequado ao tamanho da responsabilidade que nos é ofertada. Eu conheço
esse pensamento a meu respeito. Mas são as pessoas que não têm o compromisso do
pensamento pleno, e isso acaba incomodando. A escolha é da pessoa. Se ela não
quiser seguir o que a gente determina, vou suar os meios necessários para que
ela se enquadre.
O que o senhor não tolera?
Vagabundo. Também não tolero
nenhum policial que tenha má vontade. A gente aceita até o erro, às vezes por
consequências naturais, agora errar propositalmente é intolerável.
O senhor vê necessidade de
mudar algo na ROTA?
Não. Obviamente que cada
comandante tem uma personalidade e isso faz parte da mudança. Se fosse para não
mudar nada, não precisava ter a mudança (a troca de comando). Ninguém é dono da
verdade 100%. O importante é analisar o contexto das coisas, discutir com os
outros oficiais e, a partir disso, propor mudanças para melhorar a qualidade de
serviço à sociedade.
Tivemos neste ano várias ocorrências
que resultaram em prisões de agentes da ROTA, inclusive com um soldado suspeito
de participação nas chacinas de OSASCO e BARUERI. Como reverter a imagem
negativa da tropa, principalmente nas áreas periféricas?
Nossa instituição tem quase 200
anos. A ROTA tem 123 anos. São instituições sedimentadas, com valor, cultura,
com ensinamentos que a própria história forneceu às pessoas de hoje e do
futuro. Agora, a gente tem sub-culturas. E elas devem ser combatidas,
principalmente a que vai contra a cultura. Ela ter de ser exterminada porque não
agrega nada e coloca o policial na cadeia. Não é confortável ter um policial
preso, principalmente numa situação como essas que a gente vem acompanhando. Infelizmente
esse é o remédio para curar o problema. A lei não é diferente para ninguém e o
nosso policial, às vezes, acha que talvez por "n" motivos,
acreditando na demora da aplicação da Justiça, quer tomar iniciativa por conta
própria. E o resultado nunca vai ser positivo. O soldado não tem de esperar o
sargento para ser fiscalizado, o soldado fiscaliza o próprio soldado. Porque se
um cometer um crime junto ao outro, ambos são prejudicados. Não estamos em uma
profissão que permite qualquer acobertamento.
Defina o que é trabalhar na Polícia
Militar para o senhor?
Isso aqui é um meio de vida, e
não de morte. É um trabalho diferente. Não é um escritório, não é um comércio. É
um sacerdócio. Eu não deixo de ser policial militar quando saio daqui e vou
para casa. Se eu ver uma ocorrência acontecendo, tenho de atuar, moralmente e
até pela função que eu exerço. Tenho de ter uma independência moral e ética,
seja soldado, capitão, coronel.
Nas redes sociais percebemos
que a população apoia os policiais da ROTA que matam bandidos, estando eles
certos ou errados. O que o senhor pensa disso?
Essas pessoas têm uma admiração
por conta da mesma sensação que eu tenho, que você tem. Às vezes a gente acha
que a Justiça demora demais. E ninguém quer ser submetido à ação criminosa.
Agora, normalmente essas pessoas enaltecem, mas não visitam o policial preso em
uma ocorrência com um resultado de morte. E, às vezes, o policial estrapolou o
limite da legalidade e acabou sendo condenado. E essa pessoa que fala que o
bandido bom é o bandido morto, que tem de matar, ela é boa no verbo, mas na ação
ela sequer vai visitar o policial.
É nesse sentido que o senhor
fala do controle emocional elevado?
Sim, porque as pessoas aceleram
o limite emocional dele. E nós não somos super heróis. Ninguém tem capa à prova
de bala ou poder invisível. Somos policiais militares para servir a população
no limite da lei. Eu não posso pedir para o meu policial extrapolar isso porque
nem eu, nem o comandante geral, nem o governador, nem ninguém vai tirar a decisão
do júri quando o PM é condenado. Quem mais paga é a família.
Como convencer a sociedade que
a PM também é vítima desse sistema tão complexo?
A PM está presente nos 645
municípios do estado, 24 horas por dia. Nós temos várias ações comunitárias,
todas positivas. mas em determinado momento o conflito, o combate com o
marginal é no tiro, é na bala. E é difícil a gente querer resultado diferente
da morte. Ou morre a polícia ou morre o ladrão. O ideal, nosso sonho de
consumo, é, mesmo o ladrão oferecendo resistência, o marginal ser preso, mas só
que não é assim. A gente lida com 110% de controle emocional da nossa tropa, porque
o 100% muitas vezes não é suficiente.
A morte, então, faz parte da
rotina do policial?
A morte não pode ser vista como
uma coisa natural no nosso serviço. Temos civis no nosso convívio que falam que
se fossem policiais, matariam. Esse cara não poderia, jamais ser PM porque ele
seria preso. O resultado morte sempre será negativo. Por mais bandido que o
bandido seja, por mais perigoso que ele seja. Não que ela não vá ocorrer, porque
se um bandido reagir armado, o policial vai reagir armado para acabar com a ação
dele. Eu não vou querer que o policial seja submetido a uma saraivada de tiros
para pegar o ladrão vivo. El vai ter de se defender. Se o ladrão parar de
atirar, ele para também e o prende. Agora, enquanto o caro estiver atirando,
ele vai atirar. É a vida dele. Ele tem filho, ele tem mulher, ele tem mãe, que choram
também. Se o bandido não para, ele faz o que? Reza? Mostra a língua? Ele não
vai fazer isso.
O senhor acha que existem
policiais da ROTA que saem do batalhão com o objetivo de matar nas ruas?
Eu acho que tem, mas graças a
DEUS que sempre há alguém do lado que segura nesse controle e fiscalização
horizontal. E, à vezes não é tão fácil a gente identificar.
Há um grupo de extermínio na
ROTA ou na PM?
Não acredito que haja.
Quantos policiais da ROTA estão
sendo investigados nesse momento?
Um pouco mais de 20 estão
afastados. Alguns presos. Tem uma ocorrência com 14 presos. São agentes que estão
fora do serviço operacional (das ruas), onerando a atividade polícia por conta
de estarem recolhidos ao Poder Judiciário.
Qual é o efetivo da ROTA?
Se não me engano, 500. Por dia,
trabalham 180, saindo de 45 a 50 viaturas todos os dias em horários diversos.
Esse número é suficiente?
É uma questão de difícil
resposta. É obvio que quanto mais polícia, melhor.