Caríssimo Amigo, Mario Ventura,
Louvável essa iniciativa, cuja menção me faz noticiar a você que minha Turma "Fortaleza" (calouros de 1961) teve a honra de, na segunda feira passada, dia 21, abrir o portão da Academia para os calouros de cinquenta anos depois.
Receba, como nossa homenagem, em primeira mão, o texto que foi lido para os novos cadetes da PM e seus Pais.
Foi oferecido a cada novo Aluno Oficial, um exemplar da "Exaltação à Polícia Militar do Estado de São Paulo", escrita pela Professora Maria Isabel de Carvalho Cunha, de Bauru, por ocasião do sesquicentenário da Corporação, que também anexo para seu conhecimento ou lembrança.
Reitero meus cumprimentos pelo seu valoroso trabalho.
Abraço fraternal.
Corrêa de Carvalho
Assim que receber fotos da solenidade, enviarei a você.
Aos Comandantes do Bicentenário,
Nem tentem imaginar o enorme desafio que é falar-lhes hoje, tendo na retina e na memória a imagem deste mesmo pátio sagrado, há exatos cinqüenta anos! Daqui a outros cinqüenta, talvez em outro lugar, muito mais amplo, vocês compreenderão perfeitamente.
Cada um de nós veio matutando para escolher ao menos algum fato exemplar vivido ao longo dos nossos trinta anos de serviço, acrescidos da experiência de mais vinte, como cidadãos e chefes de família.
Se nos déssemos apenas um minuto para cada ano, certamente seríamos daqui expulsos, sob acusação de torturá-los sob o sol ardente.
Recebam esta fala como simbólica microssíntese da história de nossas vidas, pois vimos falar-lhes com o carinho e com o amor que os avós costumam ter por seus netos.
Para terem o direito de aqui estar hoje, vocês dispenderam grande esforço, provaram méritos nos planos físico, intelectual, psicológico, emocional. Tiveram sua vida pregressa esmiuçada pela rigorosa investigação social. São vencedores, portanto!
Quem recebe a divina dádiva de nascer já tem aí a sua primeira grande vitória, porque aquele microscópico espermatozóide, que conseguiu chegar na frente, fez de cada um o grande vencedor, entre milhões que corriam para a vida!
É claro que vocês venceram outras vezes, quando superaram o medo, por exemplo, de deixar de engatinhar para por-se de pé e dar os primeiros passos, festejados por seus Pais, mas, com certeza, a vitória de hoje é a segunda verdadeiramente grande de suas vidas!
Orgulhem-se dela! Estão ingressando numa Instituição que já os convida para celebrar, em vinte anos, como comandantes de 2031, o seu bicentenário, e uma organização que dura esse tempo tem provada a sua fundamental importância social.
Ela é um cadinho do Brasil, pois entre os seus cento e trinta (pausa...) mil de 2011 (ativos e veteranos) há de todas as raças, de todos os credos, de todas as origens.
Sua história confunde-se com a história do Estado e da Nação. Várias iniciativas pioneiras nacionais são de nossa gloriosa Polícia Militar, como a criação da previdência, no fim do Século XIX. É nossa a pioneira Escola de Educação Física do Brasil, fundada em 1910.
Quando cantarem a “Canção da Polícia Militar”, reverenciem os seus autores, ambos Soldados da Milícia Paulista, com destaque para o grande poeta Guilherme de Almeida, autêntico revolucionário paulista de 1932. Procurem saber o significado de expressões como “130 de 31”, “ao nosso julho da clarinada”, “sob as Arcadas”, “glória em Canudos” e a bendita e consagradora “Paulistas por mercê de Deus”!
Vocês agora têm o privilégio de freqüentar a única “faculdade” do País que outorga a graduação Bacharel em Ciências Policiais de Segurança e da Ordem Pública e, ao longo da carreira, poderão alcançar os lauréis do mestrado e do doutorado, tudo isso erigido pela inteligência e pelas vivências de cientistas e técnicos das mais diversas áreas do saber, porque, conforme a profecia do “príncipe dos poetas brasileiros”, os “130 de 31”, multiplicando-se por mil e um, vêm constituindo um quadro de recursos humanos do mais alto nível.
Quando nós ingressamos, há apenas meio século, o candidato ao alistamento na Força Pública era submetido, na parte intelectual, a uma singela prova com problemas contendo as quatro operações aritméticas, mais um ditado simples, a título de linguagem.
Hoje, a formação do Soldado é feita na Escola Superior, assim como a do Cabo e a do Sargento, constituindo, com a Escola de Educação Física e a Academia, o Sistema de Ensino da Polícia Militar, face à Lei Complementar 1036, de 11 de janeiro de 2008.
Se, para liderar operacionais de nível fundamental, era necessária, já em 1961, a formação de profissionais de destacado nível de saber, é óbvio que, para comandar intelectos de nível superior, exigir-se-á muito mais dos Chefes que esta “Escola de Comandantes” vai construir, através da geração de vocês.
A vida é feita de escolhas e vocês terão, como nós tivemos, exemplos de como se deve e de como não se deve fazer. A escolha será sempre pessoal e a responsabilidade, pelos ônus e bônus dela decorrentes, também.
Vocês serão julgados e, no futuro, irão também julgar, por isso não desprezem nem uma migalha dos ensinamentos que lhes serão passados, em sala e em campo, como base de suas futuras decisões.
Aprendam a seguir idéias: não sigam homens! A história tem exemplos de líderes carismáticos, cegamente seguidos, que, num momento de péssima escolha, levaram milhares à desgraça. Se aprendermos a sempre avaliar as idéias, mesmo as de quem é rotulado como mau líder, jamais correremos o risco de perder uma idéia verdadeiramente salvadora, por visão preconceituosa de quem a teve.
Muitos de vocês, senão todos, devem ter ouvido a história do Brasil contada por mestres formados sob as mais diversas ideologias, algumas voltadas para a desconstrução da verdade. Sejam perspicazes, recebam as aulas com atenção e busquem na internet, nas bibliotecas, nas hemerotecas, os documentos da época da nossa geração, para conhecerem a realidade dos fatos.
Há cinqüenta anos, ingressamos neste pátio com a Força Pública sendo alvo de uma greve por salários iniciada por Tenentes, principalmente do Corpo de Bombeiros, a que se seguiu a adesão de outros oficiais e também praças. A conseqüência imediata foi uma metralhadora apontada para a entrada do Quartel da Praça Clovis Bevilacqua e a assunção do Comando Geral pelo Coronel do Exército Oldemar Ferreira Garcia.
No mesmo ano, em agosto, Janio Quadros renunciava à Presidência da República e, finalmente, tivemos a nossa Declaração de Aspirantes em dezembro de 1964, apenas dez meses após a Contra Revolução de 31 de março.
Somos, pois, Aspirantes, Tenentes, Capitães, do período mais turbulento da história recente do País, contemporâneos de heróis de verdade, como o nosso Capitão PM Alberto Mendes Junior, o Soldado do E.B. Mario Kozel Filho e muitos outros.
Valorizem as sábias lições que terão com Professores, Instrutores e Comandantes, e tenham especial humildade para explorar o rico aprendizado que se pode haurir do relacionamento com os nossos operacionais e com a comunidade, mesmo e principalmente com os de nível mais modesto.
A Polícia Militar abre portas para todas as áreas do conhecimento. Preparem-se para a oportunidade futura de atuarem como instrutores e professores, pois “quem ensina, aprende ao ensinar, e quem aprende, ensina ao aprender” (Paulo Freire).
Em nossa “Festa da Espada”, em 15 de dezembro de 1964, dos dezenove Aspirantes, quinze eram de São Paulo e quatro da Polícia Militar de Mato Grosso. Mas, ao longo da nossa formação, contamos com vinte e um integrantes, dos quais quinze estão presentes.
Faleceram o Coronel PMMT Amylton Sá Correia, que freqüentou também o Curso de Bombeiros para Oficiais em São Paulo e foi o fundador e primeiro Comandante do Corpo de Bombeiros de seu Estado, e o Dr Atayde Souza Lopes, que, depois de atuar alguns anos como oficial, foi vitorioso em concurso para a magistratura federal. Nosso preito de saudade a ambos os Companheiros.
Não podemos deixar de destacar, em sua ausência por problemas de limitação de saúde, a figura do Coronel PM Orivaldo Cardoso Filho, que encerrou sua carreira, na Polícia Militar do Mato Grosso do Sul, como seu Comandante Geral.
Nossa pequena grande Turma tem muitos feitos de que podemos nos orgulhar, mas, para concluir, mencionaremos apenas algumas singelas atitudes.
Um de nós, enquanto Capitão Comandante de Companhia no Interior, numa época em que sede de PM era sempre fundo de Delegacia de Polícia, tomou a decisão de abrir uma porta no muro dos fundos, justificando seu ato com a necessidade de dar à Polícia Militar a dignidade do endereço próprio. O Coronel PM José Hamilton Port foi esse Capitão.
Outro, ainda no seu primeiro ano de Aluno Oficial, representou dignamente a Escola de Oficiais na Semana Euclidiana de São José do Rio Pardo, em tradicional concurso de redação sobre a obra de Euclides da Cunha. Este mesmo valoroso Companheiro, já na reserva, foi baleado por um marginal que assaltara nas imediações de sua residência, o que lhe impôs a necessidade de adotar uma vida mais reclusa, sem perder a lucidez.
Tomando conhecimento desta cerimônia apenas ontem, pois trabalhávamos com a hipótese de tê-lo representado por um dos filhos, decidiu comparecer com toda a sua família o Coronel PM Orlando Aurélio Santos.
A revista “O Quinze”, que era editada a cada turma concluinte do Curso, teve a participação da nossa Turma “Fortaleza” em três edições (uma em 1963, duas em 1964). Nas duas últimas, o Presidente do então Centro Acadêmico era o nosso hoje Coronel PM Paulo José Ballatka Rahnig, que, entre muitas belíssimas ações, como oficial, foi responsável por maravilhoso trabalho como Comandante do “Corpo de Intérpretes” da Corporação, que beneficiou uma legião de milicianos com bolsas de estudos de idiomas em vários institutos. Está aqui representado por seu filho, Ricardo Rahnig.
Gratidão é o sentimento que mais abre corações e é assim que queremos encerrar: agradecendo ao nosso Comandante Geral, Coronel PM Alvaro Batista Camilo, pela honra da presença e pela lucidez de comando, que o fez merecedor da inédita manutenção no Comando Geral, mesmo com a mudança de Governo; ao Comandante da Academia, Coronel Airton Alves da Silva, pela gentil acolhida a todos nós; aos nossos homenageados in memoriam, Coronel Romeu de Carvalho Pereira e Capitão Alaor Godoy, respectivamente do Centro de Formação e Aperfeiçoamento e da Escola de Oficiais, e Coronel Edson Tenório dos Santos, presente, nosso Comandante de Pelotão no Primeiro Ano de Curso Preparatório.
Aos novos Cadetes e aos seus Pais, nossa mensagem de esperança, de fé, no futuro brilhante reservado aos seus filhos, para a continuidade da renovação e do aperfeiçoamento da segurança da sociedade paulista e brasileira.
Só sucesso, sempre!
EXALTAÇÃO À POLÍCIA MILITAR DO ESTADO DE SÃO PAULO
Eu te exalto – Polícia Militar do meu São Paulo
e te sinto minha
glorioso de tuas glórias
orgulhoso de tua História...
eu te exalto
na visão esplêndida
de tua origem heróica
de tua caminhada magnífica
de teu testemunho de raça...
Nasceste num momento
de Pátria balbuciante...
marcada para ser forte
pra crescer...pra amar...
marcou-te a fronte audaz
Feijó – o Homem inteiro
sagrou-te a alma sábia... Tobias de Aguiar!
e seguiste a picada
aberta das Bandeiras
cresceste com São Paulo
na cava das trincheiras
teu vulto se estendendo
por sobre a Pátria inteira...
Eu te exalto – Polícia Militar do meu São Paulo
e te contemplo...
carregando o pavilhão verde-dourado
pelos campos sagrados de minha terra
machucado pela sanha paraguaia...
carregando o pavilhão verde-dourado
na santa guerra da paz e da união
quando irmão se levanta contra irmão...
e te encontro nos pampas e no norte
nas praias, nas cidades, nos sertões...
em Vaza-Barris distante
na senda de Camisão...
e choro contigo em Venda Grande...
eras ainda uma criança...
e São Paulo era batido
e com Feijó caia pela vez primeira...
Eu te exalto – Polícia Militar do meu São Paulo
Gloriosa Força Pública de São Paulo de 32!
Lembras-te? Como fostes grande?
Alegra-te!
Como sofrestes... Lembras-te?
São Paulo de 32... São Paulo vergastado pela tirania
Pisada e traída a terra dos Andradas
Humilhado como nunca o pendão das treze listas...
SÃO PAULO SE LEVANTA e... caminha... TODO!
Lembras-te? Eras tu, Polícia Militar,
que à frente caminhava
a transmitir força
a comunicar confiança...
e o que possuias, então?
por arma – Coragem
por lema – Direito
por escudo – Verdade
por divisa – Pátria
Eu te admiro – Polícia Militar do meu São Paulo
quando teus ideais
se identificam e se confundem
com os ideais da gente paulista...
Eu te admiro, sobretudo
quando ofereceste
em holocausto de dor
o melhor que possuías
o sangue de teus filhos
derramando sobre a Pátria
a seiva da redenção...
e eu me lembro de Marcondes Salgado
e eu me lembro do Major Marcelino
tombados no amanhecer da luta
no desespero terrível
de salvar esta nação...
Eu te exalto e te saúdo
Polícia Militar do meu São Paulo...
nos teus 150 anos de existência
e hoje te contemplo
na grandeza , nas dimensões incríveis
desta terra de Paes Leme...
e eu te encontro a cada passo
nos teus filhos por aí
em todo canto, por toda parte
velando por todos nós...
guardiães silentes, serenos
trazendo no garbo, nos gestos,
todo um passado de honra
e, na fineza do trato,
um toque muito gaulês...
e eu te encontro, a cada passo
na solidão dos que edificam,
na incompreensão dos que constroem,
no anonimato dos que servem...
e te encontro também
na confiança dos que crêem,
na justiça dos que entendem,
na compreensão dos que sabem...
Eu te exalto – Polícia Militar do meu São Paulo,
e te sinto minha...
glorioso de tuas glórias,
orgulhoso de tua História...
Maria Izabel de Carvalho Cunha
Bauru, dezembro de 1980






