O QUE CELEBRAM OS FERIADOS
em 15/07/2011
De: Jornal Valor Econômico
Há aproximadamente seis anos me mudei do Rio para São Paulo. Uma das coisas que chama atenção imediatamente são as diferenças e semelhanças nos nomes de ruas. Há tanto no Rio quanto em São Paulo uma rua chamada Mena Barreto.
No Rio ela é muito mais importante do que em São Paulo.
Isso revela alguma coisa quando se tem em mente que legisladores e outros servidores públicos tomaram a decisão de dar os nomes de tais ruas. O mesmo raciocínio se aplica à rua Marquês de São Vicente, que ambas as cidades possuem, mas que no Rio é um endereço nobre que abriga tanto um conhecido shopping de classe média alta como a famosa PUC do Rio de Janeiro.
Um dos nomes de rua que salta aos olhos em São Paulo é Nove de Julho.
Trata-se de uma avenida de grande importância na geografia da cidade. Liga o centro à região da avenida Faria Lima. Essa importância toda contrasta com sua inexistência no Rio.
Há avenidas Nove de Julho em centenas de municípios de São Paulo, todas elas avenidas importantes, mas não há sequer uma avenida Presidente Getulio Vargas, diga-se de passagem, uma das avenidas mais importantes do centro do Rio. Aliás, toda vez que eu estou em uma cidade desconhecida do Brasil e quero, por meio do GPS, ir para o centro da cidade, sempre coloco algum número de uma rua, avenida ou praça Sete de Setembro ou Quinze de Novembro. Nunca dá errado.
Há a alternativa, desde que fora do Estado de São Paulo, de utilizar também o endereço de avenida Presidente Vargas. Em geral também funciona.
Consta que o município de Osasco foi o primeiro de São Paulo a batizar uma rua com o nome do político gaúcho. Não por acaso Osasco é administrada pelo PT.
Está no nome de ruas e avenidas de grande importância não apenas da capital paulista, mas também de inúmeros municípios, o Nove de Julho que também é o feriado estadual de São Paulo. Trata-se de algo muito relevante que a elite política paulista, em 1995, tenha decidido estabelecer a data de 9 de julho como o feriado estadual.
O Nove de Julho é em primeiro lugar a comemoração de uma derrota. Curioso que o feriado estadual paulista comemore uma derrota, ao passo que praticamente todos os outros feriados estaduais no Brasil comemorem vitórias.
Alagoas comemora em 16 de setembro a emancipação em relação a Pernambuco, Sergipe comemora em 8 de julho a emancipação em relação à Bahia, Santa Catarina comemora em 11 de agosto a criação da capitania que separou a região de São Paulo e o Paraná comemora em 19 de dezembro a emancipação em relação ao Estado de São Paulo.
Há muitos Estados que em seus feriados regionais comemoram a criação do próprio Estado. São eles Acre, Amapá, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Paraíba, Rondônia e Tocantins. São datas que comemoram triunfos políticos, que comemoram, do ponte de vista da elite política local, vitórias.
Somente em São Paulo a data comemorativa local diz respeito a uma derrota.
A data local de Minas Gerais se transformou em um feriado nacional, o 21 de Abril, que, pode-se argumentar, também comemoraria uma derrota. Afinal, os inconfidentes mineiros foram trucidados e o seu movimento não logrou obter a independência do Brasil. Mas a derrota mineira é comemorada como um ideário que depois acabou triunfando. Anos mais tarde o Brasil viria a se tornar independente de Portugal e a Inconfidência teria sido o movimento precursor, o movimento que plantara o ideário que um dia acabou triunfando. Isso fez, inclusive, que o feriado cívico de Minas Gerias coincidisse com o feriado nacional de Tiradentes.
No caso do feriado de 9 de julho, não creio que se trata da comemoração de um ideário que no futuro triunfará. Em primeiro lugar, cumpriria perguntar qual o ideário de Nove de Julho.
A Revolução Constitucionalista ocorreu em 1932 e isso deve servir de aviso àqueles que argumentam que São Paulo lutara contra um ditador gaúcho. Em 1932 era impossível dizer o que aconteceria com Vargas. Os derrotados daquele episódio queriam acima de tudo a volta do predomínio paulista no controle da política nacional. Nada do que aconteceu a Getulio Vargas depois de 1932, Estado Novo, apoio aos nazistas, eleição de Dutra, viabilização da aliança PSD-PTB alijando a UDN do poder, nada disso pode ser colocado na conta dos revolucionários de 1932, simplesmente porque eles não sabiam o que aconteceria no futuro. O que eles sabiam com muita clareza é que Vargas tinha feito uma aliança nacional que retirava poderes de São Paulo e deslocava o eixo da política nacional para outros centros de poder.
O predomínio paulista na política nacional não tinha a ver com a alternância no poder de presidentes de Minas e de São Paulo. Mais do que isso, durante a República Velha, praticamente todos os presidentes passaram pelos bancos da Faculdade de Direito de São Paulo. Nesse sentido, Vargas era realmente de uma elite inteiramente diferente.
A derrota dos constitucionalistas de 1932 foi consolidada pelas novas Constituições brasileiras de 1934 e 1946. Em ambas o Estado de São Paulo perdeu cadeiras na Câmara dos Deputados e se tornou bastante sub-representado (somente em 1890 São Paulo não foi sub-representado na Câmara).
A sub-representação de São Paulo foi exacerbada recentemente pela Carta de 1988. Nunca na história do Brasil São Paulo ficou tão sub-representado na Câmara do que após a Constituição democrática de 1988. O ciclo iniciado por Vargas nos anos 1930 foi fechado por Ulisses Guimarães nos anos 1980.
O Brasil escolheu a atual representação na Câmara dos Deputados como o ponto de equilíbrio federativo do governo nacional.
São Paulo tem hoje 70 deputados federais. Caso a representação na Câmara fosse proporcional ao tamanho do eleitorado do Estado, seriam 120 deputados. Essa é a conta que São Paulo paga para manter a unidade federal. Por outro lado, os dois mandatos de Fernando Henrique e de Lula deixaram claro que o poder nacional passa e sempre passará por São Paulo, não são necessários 120 deputados federais para que isso aconteça. Os dois partidos que disputaram a Presidência da República com chances de vitória, e que continuarão disputando no futuro, são também de São Paulo.
Aliás, foi em 2010 que vimos na TV um fato emblemático pela primeira vez. No dia da eleição, quando as redes de televisão mostram os candidatos indo votar, foi a primeira vez que um dos favoritos, desde 1994, não votava em São Paulo. Dilma votou em Porto Alegre. Tudo indica que na próxima eleição teremos a mesma Dilma votando em Porto Alegre e Aécio em Minas Gerais. Ainda assim, todas as estatísticas de ocupação de ministérios também mostram o predomínio de São Paulo. Trata-se do Estado que emplaca mais ministros e nos postos mais importantes. Até há bem pouco tempo, com Palocci na Casa Civil e Mantega na Fazenda, uma dupla paulista controlava as principais ações do governo.
Quando Vargas assumiu o poder, São Paulo detinha aproximadamente 50% do PIB nacional. Atualmente, essa proporção caiu para em torno de 33%. A centralidade do Estado, todavia, não está no tamanho do PIB, mas em seus aspectos qualitativos: o centro das decisões econômicas, o que inclui o mercado financeiro, a mídia e as principais associações empresariais nacionais, está em São Paulo.
Portanto, ainda que no futuro São Paulo venha a ter menos do que os atuais 33% do PIB nacional, tudo indica que isso ocorrerá caso o Brasil realmente venha a crescer de forma consistente. Os agentes econômicos dos demais Estados precisarão sempre ir a São Paulo para cuidar dos interesses de suas empresas.
A grande questão é que esse recente feriado de 9 de julho, o feriado que comemora a derrota, criado somente em 1995, teve agora uma primeira passeata comemorativa de alguns gatos pingados na avenida Paulista defendendo a separação de São Paulo do Brasil. Não coincidentemente, logo após a eleição de 2010 houve quem, em São Paulo, responsabilizasse o Nordeste pela eleição de Dilma.
Ressentimentos regionais são normais no Brasil e em outros países. Mas a eventual perda de poder relativo não pode servir de motivo para que simples ressentimentos se tornem mais um problema político para o Brasil. É preciso, hoje e sempre, comemorar as vitórias.
Alberto Carlos Almeida, sociólogo e professor universitário, é autor de "A Cabeça do Brasileiro" e "O Dedo na Ferida: Menos Imposto, Mais Consumo".
alberto.almeida@institutoanalise.com
www.twitter.com/albertocalmeida
Coronel Arruda respondeu ao autor, em http://faganelo.blogspot.com/2011/07/o-que-celebram-os-feriados.html
Consta que...
O grande problema ao se escrever sobre história é o "consta que". Consta que o PT resgatou Getúlio, dando-lhe o nome de um logradouro (cidades do vale do Paraíba, Guarulhos e outras já possuem logradouros com esse nome há décadas).
Caro Professor Alberto, o volume de informações que o Sr possui sobre o movimento cívico-militar de 1932 não me permite discutir com o Sr.
Peço que leia algo do que foi publicado no período, não apenas pela propaganda varguista, que muito o influencia, mas também pela propaganda dita "paulista" (digo dita, pois houve polos de corajoso apoio à causa paulista no Rio Grande, no Amazonas, no Pará, no Mato Grosso, na Bahia e até em seu estado natal, caso o Sr não saiba). Para começar a conhecer um pouco mais, sugiro ler Hernâni Donato, que é um resumo bem simples e o Sr vai poder entender melhor outros pontos de vista sobre o assunto. Somente se analisarmos os mortos, por exemplo, muitos dos que morreram lutando pela causa dita "paulista" eram nordestinos, cariocas, democratas que fugiram do Rio de canoa, e a pé do Paraná e de Minas para lutar por São Paulo, que congregou a causa dos liberais brasileiros de então.
Houve também italianos, alemães, portugueses, árabes, etc, imigrantes que não faziam parte da elite mas se sentiam brasileiros.
1932 foi um grito contra o autoritarismo, contra a humilhação imposta a um povo orgulhoso - e que tem motivos para ser orgulhoso, pois tudo o que construiu foi pelo esforço de seus filhos, naturais ou adotivos, e que nunca viveu como parasita, sugando impostos gerados por outrem, como é o caso das Capitais da República. Foi também um grito pelo retorno do país à ordem constitucional que, pelo que se depreende de seu artigo, era inadequada e justificou o golpe militar de Vargas.
Há golpes militares, então, que podem ser justificados? Há, assim, golpes bons e golpes maus?
Claro que não! O apelo popular da causa mobilizou voluntariamente mais de 150.000 homens e mulheres que abandonaram seus lares, escolas e sonhos para lutar por um ideal.
Alguns deles ainda estão vivos e suas referências banalizam o ideal dessa geração, que merece, no mínimo, um pouco de respeito.
Caro Alberto, por favor, atualize seu GPS.
Um abraço
Luiz Eduardo Arruda
Qui Jul 21, 06:11:00 PM
Um comentário:
Brilhante o Cel PM ARRUDA!
A Revolução de 1932 foi para restaurar, no Brasil, o Estado de Direito, subtraído pelo ditador desde outubro de 1930.
Importante salientar que muitos integrantes do antigo Partido Democrático (PD), políticos Paulistas dissidentes do velho PRP, que haviam apoiado de boa-fé a Revolução de 1930, estavam engajados em 1932, pela causa Constitucionalista.
Ademais, ao contrário do que jocosamente afirma o dito professor, São Paulo não sofreu derrota.
Do ponto de vista estritamente militar, o que houve foi um armistício, o que difere, tecnicamente, da derrota pura e simples...
E, no plano político, foi, afinal, a luta de São Paulo que propiciou a convocação da Assembleia Nacional Constituinte em 1933 e a promulgação de uma Carta Magna avançada e liberal, em 1934.
O ditador, afinal, embora prometendo a convocação da Constituinte desde antes da Revolução de 1932, "jurando" que esta já restava "agendada", vinha tergiversando a olhos vistos e protelando tal convocação, bem ao seu estilo de "deixar como estava para ver como ficava".
Evidente que os Paulistas não poderiam, em 1932, prever o futuro quanto às atitudes que viriam a ser tomadas pelo ditador.
Entretanto, no próprio ano de 1932, já era possível flagrar as tendências despóticas de Getúlio Vargas, refestelado que estava na comodidade de seu gabinete, onde governava por decreto.
Tanto assim, que até os antigos aliados gaúchos de Vargas, alguns amigos seus desde a juventude, e que também participaram da Revolução de 1930, ficaram ao lado de São Paulo pela causa Constitucionalista, como Batista Luzardo, João Neves da Fontoura e o próprio Dr. Borges de Medeiros, este último, responsável pelo ingresso de Getúlio na política.
Estariam os próceres gaúchos acima citados lutando pela volta do predomínio Paulista na política nacional?
Ora, tão risíveis quanto inexistentes os argumentos suscitados pelo d. professor, que se mostra, em 2011, ainda manipulado pela mendaz propaganda varguista feita há cerca de 80 anos!
Os atos praticados por Getúlio Vargas, ao rasgar a Carta de 1934 e implantar a ditadura do Estado Novo, aos 10 de novembro de 1937, durante a qual flertou acintosamente com o nazi-fascismo, só provam que, em 1932, no mínimo, São Paulo tinha razão!
Postar um comentário