domingo, 30 de dezembro de 2018

A CONSOLADORA - HUMBERTO DE CAMPOS - MEUS CRÉDITOS A MARIANO TAGLIANETTI

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A CONSOLADORA ***

Nenhum rajá da Índia possuíra, jamais, um séquito como daquele rei. Senhor de minas inesgotáveis, em que brilhavam o ouro e a prata e rutilavam o diamante e a ametista, o rubi, a safira, o topázio, a esmeralda, uma infinidade em suma, de pedras luminosas e estranhas, aquele monarca vivia na opulência, mas cumprindo, na terra, uma terrível sentença: andar continuamente, eternamente, perpetuamente, e sempre, dia e noite, na mesma direção.  Foi para minorar esse castigo que ele organizou aquela comitiva soberba convidando para a sua companhia todos os príncipes  e princesas dos reinos vizinhos. A amizade, a Riqueza, a Mocidade, a Fé, a Esperança, o Amor, o Ódio, a Caridade, a Ternura, a Tolerância, o Prazer, a Coragem, a Alegria, tudo isso o acompanhava na sua grande viagem através de planícies, de cidades, de desertos e de montanhas.
Ao fim de trinta anos de marcha tumultuosas, o suntuoso vagabundo  voltou-se, por um instantes, sobre o seu cavalo ajaezado, e olhou para trás.
- Onde ficou a Mocidade? – indagou do seu pagem.
-Morreu meu senhor!  Ela era jovem e fatigou-se logo.
E o Ódio?
O ódio velho não cansa...
O soberano sorriu e continuou a sua grande marcha invariável. E a proporção que  marchava para o Ocidente, notava que lhe iam ficando, um a um, os companheiros de aventura. Um dia era a Coragem; outro o Prazer; outro a Alegria. E assim foram deixando todos, até que abandonado pela Esperança, última princesa da comitiva, ele se viu, uma tarde sozinho, trôpego e velho, à margem de um caminho silencioso.  O crepúsculo polvilhava de cinza o horizonte, e o soberano se pôs a chorar.
- Triste cousa – gemeu; - triste cousa é a solidão! Antes a Morte, porque esta, ao menos, é uma companheira!
Ao levantar o rosto lavado de pranto, viu, porém, que não estava só, como supusera. Diante dele, fitando-o com uma doçura triste, erguia-se a mais formosa das princesas que os seus olhos tinham visto.
- Quem és tu ? – indagou, enxugando as lágrimas.
- A companheira dos que  não tem companheiras...   respondeu-lhe a visão.  Eu espero por eles, sempre no fim da jornada.
O soberano fitou-a, reconhecido.
Era a Saudade...

*** Apud HUMBERTO DE CAMPOS - CONRASTES / W. M. JACKSON INC. EDITORES – Rio de Janeiro – Edição Impressa segundo os desejos dos herdeiros do autor, na ortografia do acordo do ano de 1.931 entre a Academia Brasileira de Letras e a Academia de Ciência de Lisboa, do qual o autor foi um dos signatários  e cujo vocabulário foi publicado em 1.933.

Curitiba / PR. – 29-12-2.018.

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