72 a. do velório de GETÚLIO VARGAS
Uma
multidão calculada em 40 mil pessoas acompanhou o corpo do presidente, cantando
várias vezes, durante o trajeto, o HINO NACIONAL. Compareceram representantes
oficiais de vários estados e de municípios gaúchos. Por cessão do presidente
JUAN DOMINGO PERÓN, um avião do governo da ARGENTINA trouxe o embaixador
brasileiro em BUENOS AIRES, ORLANDO LEITE RIBEIRO, que apresentou os pêsames à
família enlutada. À beira do túmulo, o deputado JOÃO GOULART, presidente do
PTB, foi o primeiro a discursar. Começou lendo a “CARTA TESTAMENTO” dirigida ao
povo brasileiro, que lhe havia sido entregue por GETÚLIO após a última reunião
ministerial, ainda na madrugada do suicídio. Seu juramento final ecoou
dramaticamente no silêncio e tranquilidade do pequeno cemitério: “Ela há de ser
também o hino do povo, que recebe com lágrimas o sangue que deste por ele”. Aos
prantos, JANGO abraçou o caixão do presidente. Logo após, falou o deputado RUY
RAMOS: “GETÚLIO, aqui estamos para empunhar a espada que legaste ao povo...”
O
ministro OSVALDO ARANHA proferiu o mais inflamado e emocionado dos discursos.
Com lágrimas nos olhos e de punhos cerrados, iniciou sua oração: “Saímos juntos
daqui e não voltamos juntos porque tu poupaste a minha vida. Juntos, vivemos
juntos sonhamos. As tuas decisões foram sempre as melhores. Olhando para ti,
estou olhando para o BRASIL. O que será de nós neste transe que se abre? Nós te
continuaremos na morte, mais fiéis do que na vida ...Costuma-se dizer que, para
escrever a História do BRASIL, é preciso molhar a pena no sangue. No futuro,
dir-se-á: quando se quiser escrever a História do BRASIL, é preciso molhar a
pena no teu coração, GETÚLIO”.
As
palavras do ministro da Justiça, TANCREDO NEVES, não foram menos candentes:
“MINAS aqui está a seu lado, presidente, como sempre esteve. Foi de MINAS que
partiu o primeiro tiro da Revolução que o conduziria ao poder. Foi em MINAS,
presidente, que o senhor recebeu a última e consagradora manifestação popular,
quando há dias ali esteve, plantando mais uma usina, para a emancipação
econômica do nosso país... A morte do Senhor GETÚLIO VARGAS separou o BRASIL em
dois grupos – de um lado, os vendidos ao capital colonizador, que suga o sangue
do povo; de outro lado, aqueles que querem que o BRASIL seja dominado por
brasileiros. Matou-te a plutocracia reacionária, acumpliciada com alguns
traidores. Diante de tua memória juramos que teu sacrifício não foi inútil. Não
te faltaremos depois de morto”. Finalizando, disse: “A bandeira de VARGAS é
hoje a bandeira do que o nosso povo possui de melhor, mais puro, mais heroico”.
Usou
a palavra, ainda, o governador do Estado do RIO GRANDE DO SUL, ERNESTO
DORNELLES: “VARGAS será, através dos tempos, o líder do povo”. O representante
do governador do PARANÁ, deputado federal do PTB, PARAÍLIO BORBA, falou: “A
energia do PARANÁ está pronta para a luta” e ANÍBAL DI PRIMIO BECK, secretário
de Estado das OBRAS PÚBLICAS DO RIO GRANDE DO SUL e vice-presidente da Comissão
Executiva Estadual Gaúcha do PTB, que afirmou: “Teu túmulo será o santuário dos
trabalhistas”.
Às
11:50 horas daquela fria manhã, ao som do HINO NACIONAL BRASILEIRO, cantado por
milhares de vozes emocionadas, o esquife do presidente VARGAS desceu ao túmulo
da família, construído em 1920, onde estavam sepultados seus pais, dona CÂNDIDA
DORNELLES VARGAS, falecida em 1936, e o general MANOEL DO NASCIMENTO VARGAS,
morto em 1943.
As
emissoras de rádio de PORTO ALEGRE não puderam transmitir o sepultamento em
virtude dos acontecimentos verificados no dia 24 de agosto, quando diversos
prédios foram depredados na capital gaúcha e a companhia telefônica foi
obrigada a permanecer fechada por vários dias.
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