72 a. da reunião de setenta generais no
Ministério da Guerra, às 9 horas do dia 21 de agosto de 1954. Foram convocados
pelo Alto Comando do Exército. Ao término do encontro foi expedida uma nota em
que se reafirmava o propósito de preservar a Constituição de qualquer modo.
Também os almirantes reuniram-se no Clube Naval e declararam-se pela apuração
do crime e das defesas constitucionais. Mas o mais preocupante foi a realização
de uma grande reunião, à noite, no Clube da Aeronáutica, em que participaram
mais de mil oficiais da Aeronáutica, Marinha e Exército. A leitura do relatório
pelo MAJOR GUSTAVO BORGES, do que fora até então apurado pelo IPM,
principalmente o teor dos documentos apreendidos no arquivo de GREGÓRIO
FORTUNATO no CATETE e a participação comprovada no crime de integrantes da
guarda pessoal de GETÚLIO VARGAS provocaram indignação e revolta, e oficiais
exaltados, como o BRIGADEIRO NETO DOS REIS, pronunciaram-se abertamente pela
renúncia do presidente da República. O BRIGADEIRO GUEDES MUNIZ convocou, à
revelia do Ministro da Aeronáutica, EPAMINONDAS GOMES DOS SANTOS, para o dia
seguinte, uma reunião no próprio Clube da Aeronáutica com todos os brigadeiros
presentes no RIO.
Um grave incidente ocorreu
a bordo do cruzador “BARROSO”, quando o contra-almirante MUNIZ FREIRE, durante
seu discurso na cerimônia de comemoração do 3º aniversário da incorporação do
navio à Marinha do BRASIL, fez graves referências à crise política e à atitude
do governo. Foi preso pelo vice-almirante NORONHA DE CARVALHO, que se
encontrava lá. Toda a oficialidade presente solidarizou-se com ele, sendo que
alguns também chegaram a ser presos.
Reunidos os oficiais da
Marinha, resolveram marcar para o dia seguinte uma grande manifestação de
desagravo ao almirante MUNIZ FREIRE, que teve sua prisão relaxada no mesmo dia
pelo almirantado que entendeu “não ter havido prática de indisciplina, mas sim
uma exaltação momentânea”.
O líder do governo na
Câmara Federal, deputado GUSTAVO CAPANEMA, foi ao encontro do vice-presidente
CAFÉ FILHO em seu gabinete, que se localizava no Ministério do Trabalho, na
esplanada do CASTELO. Este em tom desalentador comentou a delicada situação em
que o país vivia, principalmente, após a divulgação dos documentos do arquivo
de GREGÓRIO FORTUNATO.
Às 16 horas, CAFÉ FILHO foi
ao Palácio do CATETE para seu encontro com GETÚLIO. Este apreensivo, mas
cordial, o recebeu de imediato. O vice foi direto ao motivo de sua visita e
transmitiu ao presidente sua proposta. Levou ainda os nomes dos ministros OSVALDO
ARANHA e JOSÉ AMÉRICO DE ALMEIDA, dos deputados ALBERTO PASQUALINI e GUSTAVO
CAPANEMA, do almirante ÁLVARO ALBERTO (renomado cientista na área da energia
nuclear) e do marechal JOÃO BAPTISTA MASCARENHAS DE MORAES, que poderiam ser
indicados e eleitos pelo Congresso Nacional nos termos da Constituição para
exercer o cargo de presidente da República e completar o período do mandato.
GETÚLIO VARGAS ouviu
olhando para o teto do palácio e, numa peculiar reflexão mímica, retrucou com
voz de amargura: “Enganam-se os que me acreditam incapaz de renunciar. Estou
velho e esgotado. A situação é realmente difícil. Não contesto o quadro que me
traçou. Posso largar isto definitivamente e com ironia completou: “Irá
buscar-me depois uma patrulha da Aeronáutica”
O vice-presidente assegurou
que nada daquilo aconteceria e que, pessoalmente, obteria um compromisso das
Forças Armadas. GETÚLIO disse: “Agradeço-lhe a colaboração, compreendo a
gravidade do momento. Não tenho apego a isto. Depois de ouvir alguns amigos,
dar-lhe-ei uma resposta definitiva”.
O deputado federal AUGUSTO
DO AMARAL PEIXOTO, irmão do governador do Estado do RIO, tomou a iniciativa de
procurar uma solução para a crise e, depois de consultar o deputado AFONSO
ARINOS e outros líderes políticos, foi ao CATETE, a fim de propor a GETÚLIO
“uma reorganização do governo, de tal forma que a opinião pública viesse a ter
certeza de que todos os crimes cometidos neste e noutros quinquênios seriam
devidamente apurados, de que todos os criminosos seriam punidos...” AUGUSTO não
se pode avistar com o presidente, mas ele respondeu à proposta apresentada:
“... aceito qualquer
solução que seja a bem do BRASIL. Apenas advirto que na hipótese de não poder
manter a ordem pública, eu então entregarei o governo a quem possa manter essa
ordem pública, que é o Exército Nacional, na pessoa do seu ministro GENERAL
ZENÓBIO DA COSTA”.
À noite, na casa do
MARECHAL MASCARENHAS DE MORAES, o deputado AMARAL PEIXOTO, com as presenças dos
GENERAIS JUAREZ TÁVORA e FRANCISCO GIL CASTELLO BRANCO, presidente do Superior
Tribunal Militar, do BRIGADEIRO LUÍS RAUL NETO DOS REIS, apresentou a resposta
de VARGAS, que foi mal recebida por TÁVORA, classificando-a de inconstitucional
e declarando que, no caso de passar o governo, caberia assumir o substituto
legal, o vice-presidente da República.
Revelam-se novos documentos
do arquivo de GREGÓRIO FORTUNATO: listas de bicheiros que incriminavam os
delegados BELENS PORTO, HERMES MACHADO e BRANDÃO FILHO, que comprovadamente
mantinham ligações com GREGÓRIO FORTUNATO na exploração do jogo do bicho no RIO.
Por ordem do chefe de polícia, CORONEL PAULO TORRES, são presos.
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