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publicação no jornal FOLHA DE SÃO PAULO, em 14 de janeiro de 1961, sobre a
greve na FORÇA PÚBLICA: “ALASTROU-SE A VARIAS UNIDADES DA FP A GREVE DEFLAGRADA
ONTEM PELOS BOMBEIROS DE SÃO PAULO. Irrompida pouco depois das 8:30 horas da
manhã, a greve dos bombeiros da Capital – em sinal de protesto contra o nível
de seus soldos – ganhou corpo durante todo o dia, alastrando-se pelas unidades
com sede no Interior do Estado. Houve adesões na FORÇA PÚBLICA, paralisando
inclusive parte do policiamento ordinário da cidade, a cargo da RÁDIO PATRULHA
(22 das 144 viaturas) e, ao terminar a jornada, o movimento transformou-se numa
greve “por tempo indeterminado”. Trinta detenções –aspirantes e oficiais– foram
efetuadas, cinco chamados de incêndio (só na zona centro) deixaram de ser
atendidos, além de uma ocorrência em GUARULHOS em que o corpo de um menor
afogado não pôde ser retirado da água. As últimas horas da noite de ontem
surgiram os primeiros informes segundo os quais, além das trinta prisões,
tornadas públicas, dois ônibus lotados de oficiais detidos haviam sido enviados
à SOROCABA, embora fontes oficiais não confirmassem a notícia. Às 15:40 horas
de 13 de janeiro, o Comandante do CORPO DE BOMBEIROS, CORONEL MILTON MARQUES DE
OLIVEIRA, saiu do QG dos Bombeiros e dirigiu-se ao da FORÇA PÚBLICA onde passou
a conferenciar com o comandante-geral, o CORONEL do Exército Brasileiro OLDEMAR
FERREIRA GARCIA (nomeado por decreto de 7 de janeiro de 1961) e com o chefe do
Estado-Maior. Pouco antes das 17 horas o coronel saiu do QG como portador de um
apelo a ser dirigido à Corporação em favor da disciplina. O comandante mandou
reunir a tropa no pátio do QG. Houve de início resistência dos oficiais e
soldados que se encontravam nas imediações, e não desejavam ingressar,
desejando antes que o comandante fosse a eles. Depois de alguma hesitação e
conduzidos por um tenente, os milicianos reuniram-se, afinal, no pátio interno,
onde o CORONEL MILTON MARQUES DE OLIVEIRA lhes dirigiu a palavra. As palavras
do comandante foram acolhidas com serenidade, mas não logrou reprimir a greve que, a partir de
então, ganhou características de movimento por tempo indeterminado. Logo em
seguida, chegou ao QG o presidente do CLUBE DOS SARGENTOS DA FORÇA PÚBLICA, o
qual informou que o movimento tinha a solidariedade de todos os sargentos da
FORÇA. Às 18 horas, chegou ao QG o CORONEL COSTA JÚNIOR, comandante do 9 º
Batalhão de Policiamento que, em companhia de toda a oficialidade da unidade,
resolveu solidarizar-se com o movimento. Interpelado se toda a unidade entrara
também em greve ou se apenas hipotecara solidariedade moral, respondeu: “O
canário na muda não canta. E eles estão na muda”. Quando retornou à tarde para
o QG, o carro que conduziu o comandante da FORÇA PÚBLICA foi seguido por uma
perua. Mas os soldados que se achavam à frente do edifício, julgando que o
veículo conduzia milicianos presos, montaram verdadeira barreira humana para
impedir o seu ingresso no QG. À circulação do boato de que um choque da FP iria
dispersá-los, instalaram as mangueiras e prepararam quatro guarnições,
dispondo-se a enfrentar qualquer choque com jatos d´água. Foi o momento de
maior tensão no curso dos acontecimentos do dia. O povo, do lado de fora, também
em ambiente de tensão, se pôs a aplaudir a formação da defesa improvisada.
Pouco depois das 17 horas compareceu ao QG uma comissão de líderes sindicais,
acompanhados de um deputado. Às 20 horas, foi retirada a ESCADA MAGIRUS que os
bombeiros haviam erguido em frente do prédio do CORPO DE BOMBEIROS, tendo no
alto uma bandeira preta. Também o clarim aderiu a greve. Os toques ordinários
deixaram de ser dados, a partir do toque de revista, ao meio-dia.
O CHEFE DA CASA MILITAR, CORONEL DJALMA ARANTES, confirmou
as notícias de PRONTIDÃO GERAL na FORÇA PÚBLICA e guarda redobrada no PALÁCIO.
Cerca das 22 horas, o GENERAL STÊNIO CAIO DE ALBUQUERQUE
LIMA, comandante do II EXÉRCITO, esteve nos CAMPOS ELÍSIOS, a chamado do
governador. Nada transpirou da conversa mantida entre ambos, sabendo-se apenas
que foi tratada a situação criada na FP com a greve dos bombeiros.
Às 23 horas, o CAPITÃO SIDNEI GIMENEZ PALÁCIOS,
comandante do 5º BC, de TAUBATÉ, que se encontrava no QG do CORPO DE BOMBEIROS,
informou à reportagem que o BATALHÃO DE GUARDAS aderiu ao movimento, abrindo os
portões da unidade, sem rendição da tropa.
À tarde, o BATALHÃO DE TRÂNSITO da FORÇA PÚBLICA aderiu
ao movimento e os guardas abandonaram os semáforos e o policiamento de
trânsito. Diante da crise eclodida na FORÇA PÚBLICA, o governador do Estado
convocou para ontem à noite uma reunião das principais autoridades do Estado, a
fim de estudar o assunto. Cerca das 22 horas teve início essa reunião, que
durou até às 23 horas. À saída, a reportagem interrogou o Comandante do II
EXÉRCITO, GENERAL STÊNIO CAIO DE ALBUQUERQUE LIMA, que afirmou ter examinado,
com o governador e demais autoridades do governo, a situação da crise na FORÇA
PÚBLICA. Interrogado se era iminente a intervenção do EXÉRCITO, informou que
por enquanto, não cogitava do assunto. Obtiveram-se também do Comandante da
FORÇA PÚBLICA, as seguintes informações: 1º) a FP tentará debelar com seus
próprios recursos a crise, sem recorrer ao EXÉRCITO; porém, se isso não for
possível a intervenção do EXÉRCITO se dará; 2º) A “greve branca”, na sua
opinião, continua a mesma; 3º) Não houve propriamente prisão de oficiais do
Corpo de Bombeiros, mas apenas de praças e soldados; 4º) Quanto a situação em
si, naquelas dependências da FORÇA, disse que o foco de greve permanecia o
mesmo. Acentuou, finalmente, que a situação ainda é obscura. Outro participante
da reunião de ontem à noite nos CAMPOS ELÍSIOS foi o BRIGADEIRO FARIA LIMA, que
ao deixar o PALÁCIO, não quis confirmar nem desmentir as notícias de mediação
no caso da FORÇA PÚBLICA. O CORONEL HUGO ALMEIDA PORTELA, Comandante do 2º BP,
e o MAJOR ÊNIO COLAÇO FRANÇA, comandante do 12º BP, entregaram-se ao comando da
FORÇA PÚBLICA por não pretenderem participar do movimento.
Após receber informações do governador CARVALHO PINTO
sobre a crise na FORÇA PÚBLICA, o ministro ODÍLIO DENYS entrou em contato com o
ministro ARMANDO FALCÃO, da Justiça, com quem tratou do assunto, discutindo
providências.
À zero hora de 14 de janeiro, todos os carros (ou quase
todos) dos diversos distritos do CORPO DE BOMBEIROS, foram levados para o QG da
Corporação, totalizando 63 veículos e 4 escadas MAGIRUS.
Aos 40 minutos de hoje continuavam as reuniões
governamentais para cuidar da crise da FORÇA PÚBLICA. Nos CAMPOS ELÍSIOS, na
ala residencial do PALÁCIO, além do governador, estavam reunidos o secretário
da Segurança Pública, FRANCISCO JOSÉ DA NOVA; JOSÉ BONIFÁCIO NOGUEIRA
(Agricultura), MÁRCIO PORTO (Governo), HÉLIO BICUDO e HÉLIO DAMANTE, auxiliares
do chefe do Executivo. Já no Quartel General da FORÇA PÚBLICA, para onde
retornou dos CAMPOS ELÍSIOS, o seu comandante, com ele tratavam do assunto todo
o Estado-Maior da FP e comandantes de departamentos da milícia, inclusive do
CORPO DE BOMBEIROS.”
Ontem, dia 13, pela manhã, iniciada parcialmente a greve
na CMTC –setor de ônibus– motivada pelo atraso de pagamento. O setor de bondes
não foi afetado e não se fala, ainda, em greve.