quarta-feira, 12 de junho de 2019

AGENDA DIÁRIA - 12 DE JUNHO DE 2019

A LUTA PELO PROGRESSO - "A REPÚBLICA E A LAPA" - MEUS CRÉDITOS AO DOUTOR MARIANO TAGLIANETTI

Palestra IHGP ontem 11 andante...


Caixa de entrada
x

MarianoTaglianetti

Anexosqua, 12 de jun 13:56 (há 11 horas)
 para eu
Caríssimo Cel. VENTURA, boa tarde !
Envio-LHE o texto da epigrafada em homenagem ao transcurso  do 250º da LAPA,
realizada na tarde desta terça-feira, 11 do andante.
Fraternal apreço, TAGLIANETTI.


A LUTA PELO PROGRESSO
“A REPÚBLICA E A LAPA”
Ao iniciarmos esta palestra em homenagem aos 250 anos da LAPA, fundada em 13 de junho de 1769, neste Instituto Histórico e Geográfico do Paraná, o qual  temos a honra de integrar, objetivamos evidenciar a contribuição robusta da EPOPÉIA LAPIANA forjada em resistência heroica. Foram 20 dias gloriosos de 1894,  em uma luta que deteve o rastro sangrento da chamada “REVOLUÇÃO FEDERALISTA” na qual foram sacrificados os estados Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.
À nacionalidade em termos de FATOS HISTÓRICOS não cabe o detalhamento dos resquícios que os envolveram (degolas e atos praticados em seu decorrer etc. etc.), mas o que resultou significativamente da RESISTÊNCIA LAPIANA para a consolidação da ordem republicana proclamada em 15 de novembro de 1889 e consolidada pela CONSTITUIÇÃO DE 1891.
Nessa ótica em que a partícula apassivadora “se” está comprometida com a realidade procuraremos demonstrar que não foi em vão o sangue derramado pelos legalistas, enfatizamos brasileiros e paranaenses  lapianos em sua heroica resistência comandados pelo insigne patriota e herói da guerra do Paraguai General ANTÔNIO ERNESTO GOMES CARNEIRO, como no curso desta exposição se dará ênfase.
Para o deslinde da análise proposta  por esta palestra é preciso rememorar o FATO HISTÓRICO que suplanta o regime monárquico, atendendo ao reclamo de idealistas  a nível de RUI BARBOSA, BENJAMIM CONSTANT, EUCLIDES DA CUNHA e outros. Esse reclamo foi lastrado no positivismo de AUGUST CONTE que sinteticamente está consubstanciado no lema de nossa bandeira “ORDEM E PROGRESSO” cuja não compreensão,  “lato sensu” tem causado tropeços sangrentos á nacionalidade, entre eles o ora analisado.
Frisemos que o EXÉRCITO ao abraçar em 1889 o regime republicano o fez em função de “ORDEM E PROGRESSO”.
Com esse norte, instaurado o governo provisório confiado ao SEU proclamador Marechal DEODORO DA FONSECA,  foi exarado o decreto nº 1 de 15 de novembro de 1889 declarando que as antigas Províncias ficavam “reunidas pelos laços da federação”, constituindo os Estados Unidos do Brasil.
Assinalamos, com ênfase, que observando o lema positivista “ORDEM E PROGRESSO” foram lançadas as bases da nova ordem republicana: - O SUFRÁGIO UNIVERSAL; - ABOLIÇÃO DAS PENAS DE GALÉS; - SEPARAÇÃO ENTRE IGREJA E O ESTADO INSTITUÍNDO O CASAMENTO CIVIL; - SUPRIMINDO A VITALICIEDADE DOS SENADORES; - e DISSOLVENDO O CONSELHO DE ESTADO, tudo isso à sombra da  elaboração do anteprojeto da Constituição Republicana que seria ainda refundido por Rui Barbosa e considerado como CONSTITUIÇÃO PROVISÓRIA DA REPÚBLICA pelo decreto nº 510 de 22 de junho de 1890. Procedeu-se aos trâmites da convocação da CONSTITUÍNTE REPUBLICANA que trabalhou durante 58 dias sendo a CARTA MAGNA DA REPÚBLICA promulgada a 24 de fevereiro de 1891. Basearam-se os constituintes, principalmente na constituição Norte Americana de 1787, sem perderem de vista as Constituições da Suíça da Argentina e a Brasileira de 1824. Os princípios doutrinários da escola clássica francesa serviram de fomento ao nosso primeiro código republicano. À semelhança do sistema norte americano, adotaram os constituintes de 1891  o SISTEMA PRESIDENCIALISTA E A DUALIDADE DE CÂMARAS REPRESENTATIVAS, organizadas estas segundo a doutrina do federalismo.
A primeira eleição de presidente e  vice-presidente da república foi feita pelo sistema indireto, isto é, pelo CONGRESSO CONSTITUÍNTE, sendo escolhidos os marechais DEODORO E FLORIANO, respectivamente.
Os primeiros passos da REPÚBLICA já CONSTITUCIONAL presidida por DEODORO foram tumultuados.  Confrontos houveram entre o Executivo e o Congresso provocando o fechamento deste por ato ditatorial em 03/11/1891, o qual originou o levante da ARMADA em 23 de novembro do mesmo ano, sob comando do contra almirante CUSTÓDIO JOSÉ DE MELO, intimando a deposição do Presidente com um tiro de canhão sobre a cúpula da Candelária, pondo em polvorosa a população do Rio de Janeiro. DEODORO NÃO OFERECEU RESISTÊNCIA. Com a saúde debilitada chamou FLORIANO e entregou-lhe o governo, o qual tomando posse nessa mesma data, determinou a mediata reabertura do Congresso.
Frisemos que a máxima “ORDEM E PROGRESSO”, desrespeitada por DEODORO era restabelecida por FLORIANO.
Entrementes, no Rio  Grande do Sul, debatiam-se duas facções políticas que provocaram a  deposição de 19 (dezenove) governadores, no espaço de hum ano, aquela conduzida por JÚLIO DE CASTILHOS  defendendo a REPÚBLICA, nos parâmetros de “ORDEM E PROGRESSO” e a FEDERALISTA comandada por GASPAR SILVEIRA MARTINS, que contestava,  desrespeitando o Art. 42 da CONSTITUIÇÃO FEDERAL, recém aprovada de 24/02/1891 cuja disposição de seu § 2º que expressava claramente: - “O PRESIDENTE E O VICE-PRESIDENTE, ELEITOS NA FORMA DESTE ARTIGO OCUPARÃO A PRESIDÊNIA E A VICE-PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA DURANTE O PRIMEIRO PERÍODO PRESIDENCIAL”, o que fundamentou a legitimidade do exercício da presidência, pelo Marechal Floriano.  A rivalidade dessas duas facções foram os horizontes da chamada “REVOLUÇÃO FEDERALISTA”. Apesar da manifestação de GASPAR SILVEIRA MARTINS, exortando junto ao verdadeiro chefe dessa insurreição general João Nunes da Silva Tavares de alcunha JOCA TAVARES, em termos pacifistas em 21 de junho de 1892: - cito na íntegra - : “ Chefe partido aconselho, correligionários peço, rio-grandenses suplico: GUERRA CIVIL, NÃO ! – Não é necessária para conquistar  poder em conter governo federal: dificuldades todo gênero, liberdade d’imprensa, opinião pública fazem o que a violência não consegue”, porém o rogo foi subestimado   com a transposição da fronteira Brasil/Uruguai na altura das montanhas do Herval de uma tropa de 600 cavalarianos  comandada por GUMERCINDO SARAIVA, tendo por sustentáculo federalistas exaltados de índole caudilhesca, os quais batalhariam por maior AUTONOMIA FEDERATIVA  e IMPLANTAÇÃO DO SISTEMA PARLAMENTARISTA em substituição ao presidencialista acolhido pela CARTA REPUBLICANA recém votada, contestando ainda a Carta de 1891 cuja errônea interpretação, por haver Deodoro renunciado em prazo inferior a dois anos, determinaria nova eleição o que desrespeitava o já mencionado § 2º do art. 42 da Carta CONSTITUCIONAL “in casu” para futuros mandatos. O mandato de Floriano foi ratificado pela  própria Assembleia Constituinte que havia se transformado em Congresso, o qual confirmou frisamos e destacamos novamente o § 2º do enfaticamente já mencionado artigo 42 da Constituição Federal. Aclarados, para melhor ideia do contexto a fase que antecedeu a denominada ”REVOLUÇÃO FEDERALISTA” passaremos a comentar a marcha de GUMERCINDO SARAIVA e seus comandados ao transpor as fronteiras na região montanhosa do HERVAL.
Narra o preeminente historiador paranaense ROCHA POMBO: - “No dia 2 de Fevereiro DE 1893, Gumercindo Saraiva e Vasco Martins, à testa de uns 600 homens, transpôs a fronteira,  passando a acampar em Aceguá”, iniciando então a denominada Revolução Federalista ocasionando, em primeiro plano refregas e contra-refregas nas principais localidades e cidades fronteiriças: Bagé, Dom Pedrito, Sant’Ana do Livramento, Alegrete, Cacequi, São Leopoldo etc., com as tropas legalistas, denominadas “pica paus”, provocando a fuga de milhares de famílias para o Uruguai.
Nessa faze, contou com o apoio maciço  do general e político JOÃO NUNES DA SILVA TAVARES, agraciado pelo  Império com o título de BARÃO DE ITAQUI que com o advento da República foi ex-governador do Estado, tornando-se conhecido pela alcunha de JOCA TAVARES.
Encerando essa primeira faze em 27 de agosto de 1.893 houve com apoio do Coronel Salgado a vitória dos maragatos na batalha de CERRO DO OURO na qual os legalistas perderam grande quantidade de armamentos além de 200 mortos e 57 prisioneiros.
Nessa altura os desentendimentos entre os vitoriosos acentuaram-se e GUMERCINDO SARAIVA tomando conhecimento da revolta da armada, comandada pelo  contra almirante CUSTÓDIO DE MELO, inicia a segunda fase da insurreição, marchando para o norte durante o mês de outubro, passando por CRUZ ALTA, CARAZIM, PASSO FUNDO ETC. atingindo VACARIA, e finalmente chegando a 7 de novembro de 1.893 em Santa Catarina. A essa altura o coronel Salgado   chegava a Laguna e Gumercindo a Desterro, atual Florianópolis.
Já com apoio de Custódio de Melo, Gumercindo Saraiva divide sua tropa, enviando por terra contingente que seria retido pela trincheira lapiana, enquanto com apoio da armada que bombardeou Paranaguá e Morretes desembarcou, saqueando essas cidades, empreendendo a subida da serra e tomando Curitiba que ficaria sob seu jugo até 1º de maio de 1.894, quando um batalhão da FORÇA PÚBLICA PAULISTA a liberta,  após desembarcar em Paranaguá, pondo em debandada a tropa maragata. Observe-se que o Gen. Ewerton Quadros chegou a Curitiba somente em 5 desse mês. A estratégia de Gumercindo Saraiva de concentrar sua tropa em Curitiba e enfrentar a legalidade invadindo o Estado de São Paulo, fracassou diante da heroica resistência lapiana por haver esta esgotado o grosso da tropa maragata, dando tempo para que FLORIANO fortalecesse Itararé, na fronteira Paraná / São Paulo,   encurralando os insurretos, obrigando-os a retirada, o que culminou em definitiva derrota. Trago, após estas considerações, síntese do discurso pronunciado pelo emérito Dr. JOÃO CÂNDIDO FERREIRA para apreciação de todos aqui presentes que foi médico durante os 26 dias de luta, assistindo aos que tombaram e aos sobreviventes feridos, havendo prestado conforto ao GENERAL GOMES CARNEIRO nos últimos momentos de sua existência terrena, por ocasião da inauguração da estátua deste HERÓI em 09 de fevereiro de 1928, a qual simboliza o heroísmo de todos que estão imortalizados no PANTEÃO HERÓICO LAPIANO.
Assim verberou o também ilustre  prefeito e ex-governador Dr. JOÃO CÂNDIDO FERREIRA : -
“A RESISTÊNCIA DA  LAPA SALVOU A REPÚBLICA:
Não fosse a pertinácia ao lado de um pugilo de bravos; não fosse a coragem indômita e o patriotismo de Gomes Carneiro, que tinha o condão de fazer de cada soldado um lutador e de cada  lutador um amigo extremado, a corte federalista que vinha das bandas do sul, talando como ciclone, teria nestas plagas uma vitória fácil e frutuosa como a de Cesar sobe Phárnaces, rei do Ponto, sintetizado pelo celebre romano em três palavras apenas: “Veni, vidi, vici”.
Muito outro foi o sucesso que aqui se realizou: a vitória do adversário custou tantas vidas de pelejadores adestrados no manejo das armas, fez correr tanto sangue, que Gumercindo Saraiva poderia ter repetido as palavras de Pyrrho ao triunfar em Ásculo: - ‘”Ainda outra vitória como esta, e estarei perdido”.
Em verdade, além do grande número de soldados dos mais pugnazes que pereceram durante o cerco, enquanto nele se pelejava por dilatados dias, com ardimento e ousadia a causar delírio, o governo federal teve tempo suficiente para aparelhar a esquadra improvisada e organizar a defesa em terras da Pauliceia, que, consoante o que se dizia, estava pronta para receber os revoltosos de braços abertos, encaminhando-os para o coração da República, aonde chegariam triunfantes.
Gumercindo Saraiva devia ter em mente este fato, quando disse a uma das suas mais distintas patrícias, então na capital do Paraná, e a cuja casa chegávamos em serviço medico,  apenas dela saia o denodado guerreiro; - “O maior erro da revolução foi sitiar a Lapa, onde perdemos tanta gente e um tempo que nos era precioso pra alcançar o nosso destino. Hoje eu torço a orelha e não sai sangue”. Esta frase do famigerado caudilho encerra claramente a decepção de não ter alcançado o eldorado paulista e a dolorosa perspectiva de uma derrota que se lhe antolhava  bem próxima.
Por que motivo foi Carneiro escolhido para tão alta missão?
FLORIANO PEIXOTO, possuidor de apurado tino, tendo necessidade de um oficial que fosse, ao mesmo tempo, bravo, competente, dedicado e enérgico, para comandar as forças que deviam operar no Paraná, e que se destinavam a desbaratar os federalistas, quando não pudessem impedir a  sua invasão pelo Rio Negro, não vacilou, um instante, em confiar essa elevada e delicada incumbência ao Cel. GOMES CARNEIRO que possuía todos os requisitos para desempenho como o demonstrou.
Não havia covardes nas fileiras sob seu comando. Tal era a influência que ele exercia no ânimo dos combatentes, que todos, ardegos e impetuosos, queriam primar no cumprimento de suas ordens. O  seu valor, como é fácil mostrar, vinha-se afirmando desde os inóspitos campos do Paraguay, para culminar no sitio desta cidade, onde se encerrou, entre bênçãos da República, o ciclo daquela existência toda dedicada à família e à  pátria.
Quando rompeu aquela guerra, que se prolongou por mais de um lustro, ele apressou-se em assentar praça, em janeiro de 1.865, como voluntário da pátria, não tendo ainda completado 19 anos de idade.
A 14 de Fevereiro de 1866, foi promovido a cabo de esquadra, e no mês seguinte teve três promoções por atos de bravura: - a 1º de março, furriel; a 7, segundo sargento; e a 23, primeiro sargento. A 2 de maio, foi ferido em combate, baixando ao hospital. A seis do mesmo mês foi promovido a alferes.
A 25 de julho, teve alta do hospital, a pedido, desistindo de 6 meses de licença, concedida por inspeção de saúde, para se tratar, no Brasil, de um ferimento, que lhe havia deformado a mão esquerda.
Participou de quase todos os grandes encontros com o inimigo na guerra do Paraguai e sempre impávido, reto e desprendido, como registram os anais dessa guerra, que pôs relevo o mérito excepcional do soldado brasileiro e elevou bem alto o nome de nossa pátria no conceito das nações  civilizadas.
Na ocupação de Curupaiti, no reconhecimento de Humaitá, na ponte de Itororó, no combate de Lomas Valentinas e em tantos outros, lá estava CARNEIRO indefeso, destemido e inflamado sempre de uma pugnacidade invencível, que o patriotismo não deixava jamais arrefecer.
Em Lomas Valentias, foi gravemente ferido, bem como no assalto  à praça de Peribebuhi, onde sofreu profunda contusão, e ainda assim continuou combatendo, como quem nada tivesse sofrido. Este ato de estupenda calma e extraordinária firmeza, valeu-lhe repetidos e calorosos elogios.
Regressando ao Brasil, trazendo no corpo varias condecorações, representadas pelas  cicatrizes, que o fuzil, o sabre , e a lança do inimigo nele haviam traçado indelevelmente, matriculou-se, em 1.871, cheio de entusiasmo, na Escola Militar, com o intuito de prosseguir no serviço da pátria. Nos prélios da inteligência e na aplicação aos misteres do seu ofício, era quase invariavelmente o  PRIMUS INTER PARES.
No dia fatídico de 7 de Fevereiro, às 6 horas da manhã, o troar de um canhão federalista anunciava o começo da refrega.
Foi ali na TRINCHEIRA DA RUA BOA-VISTA JUNTO A FÁMACIA WESTPHALEN que o prélio chegou ao mais  impressionante e indizível paroxismo; foi ali que uma mesma bala fulminou um esforçado patriota e feriu gravemente um brioso oficial;  foi ali que as facções beligerantes, em último arranco, se confundiram num entreverar truculento e feroz; foi ali que, por duas vezes, ficou a trincheira desguarnecida e, por duas vezes, briosos servidores da legalidade vieram oferecer os generosos peitos aos golpes do invasor, baqueando sorridentes, foi ali,  em suma, que CARNEIRO, qual Judas Machabeu, no auge da peleja, animando os que lutavam, e exaltando os que caíam para não mais se erguer, teve o rijo organismo varado, de lado a lado por uma bala de fuzil.
Que fatalidade, Snrs! Quando,  cheio de civismo ardente, blindado de coragem indomável e inflexível, ele tomava todas as providências para que a vitória coroasse aquele inenarrável  sacrifício dos sitiados, eis que uma bala certeira atravessa aquele organismo que parecia invulnerável.
Ereto, estoico, sobranceiro, sem o menor queixume, sem uma imprecação sequer, comprimindo, apenas, a sede do ferimento com aquela mão que uma bala paraguaia havia já deformado, pediu que o acompanhassem  até a casa em que estávamos residindo.
E a todos os que o inquiram sobre o seu estado de saúde, ia para logo dizendo que o ferimento não tinha a menor importância, era simples contusão, e que breve estaria ao lado dos bravos camaradas para  festejar a vitória da legalidade, que seria a pascoa da República livre dos fariseus. Pediu-nos que o examinássemos e que, qualquer que fosse a intensidade do ferimento, disséssemos a todos, invariavelmente, ser leve e sem a menor gravidade.
Nesse momento, Senhores,  o que se passava naquela trincheira onde canhões rugiam como panteras sanguisedentas, os fuzis explodiam tétricos, as balas detonavam mortíferas, era tal amalgama de ímpetos, de valentia, de bramidos e de cólera, que se não pode descrever o espetáculo medonho e pavoroso. Era o homem que se transformava em fera, era o soldado que espalhava o excídio e extermínio naquele pugilato homérico em que os ardegos combatentes se esfacelavam num ímpeto selvagem, abrasados de uma fúria insopitável.
DEPOIMENTO DE UMA TESTEMUNHA
LÍBERO Guimarães, em depoimento requisitado pelo Ministério da Guerra, assim relata, sem atavios, o que se deu na trincheira fatídica.
“Depois  do triste acontecimento, o Cel. Lacerda,  que pressuroso, se mostrava em todos os lugares onde se combatia, mandou vir um reforço, em socorro desse posto, seguindo para a casa do médico, acompanhando ao Cel. CARNEIRO. O fogo continuava cerrado, produzindo mortandade em nossas forças, já muito resumidas. Nessa ocasião caiu, a meu lado, atravessado por uma bala, o 2º tenente Lebon Regis, que não havia abandonado o seu posto na trincheira, erguendo vivas à república, ficando por essa razão sem comandante a boca de fogo, cuja guarnição estava então quase toda morta.
Com reforço pedido pelo Cel Lacerda, veio o Cap. Sisson, que, tomando conta da peça, a carregou atirando contra a casa donde  nos atacavam, conseguindo dar por esse meio tempo aos nossos soldados a arrombarem as portas e entrarem no prédio, travando-se dentro uma luta terrível, corpo a corpo, desbaratando-os completamente, ficando em  nosso poder o único ponto que esta ainda oferecia resistência”...
Às 2 da tarde desse dia funesto e lúgubre após 8 horas de fogo vivo e incessante, que transformara em vulcão esta cidade, os sitiantes em verdade recuaram desorientados e assombrados de tanto denodo, deixando o campo coalhado de cadáveres.
Logo depois  desse embate ciclópico, que glorificou a impavidez de tantos patriotas obscuros que tombaram galhardamente com o nome da legalidade na boca o Cel. Serra Martins procurou CARNEIRO e, narrando em entusiasmo a estonteante vitória dos sitiados, disse, com vivacidade e já pronto para se retirar: “Cel. Suas ordens?” CARNEIRO, com a máxima energia de que ainda era capaz, respondeu ato continuo: - “A ordem é uma só – resistência, resistência a todo transe”.
Decorridos alguns instantes, chegou o Cel. J. Lacerda, e CARNEIRO, no leito de morte, recebeu-o prazenteiramente com esta frase, que valeu por uma apoteose: “Eu tenho a glória de descobrir no Paraná um verdadeiro herói – o Cel. Lacerda”.
Era, de fato, esse inolvidável paranaense político de fino atilamento e vasto prestígio, lapiano de enorme influência, que conseguiu, sem dificuldade alguma, reunir nesta cidade um batalhão de patriotas destinados a defender a legalidade, os quais no cerco se bateram como legítimos e experimentados veteranos.
Sempre animado, sempre esperançoso e cheio de gratidão aos nossos cuidados e aos do seu esforçado enfermeiro o industrial José do Amaral, CARNEIRO não manifestou jamais a menor dúvida quanto ao triunfo completo da causa que defendia, PORQUE ERA A CAUSA DA LEI.
Na mais rigorosa vigilância por parte dos sitiados e sob intermitentes disparos dos sitiantes, passaram-se os dias 7, 8 e 9 de Fevereiro, até ás 19 horas, quando concitando sempre os camaradas a não abandonarem as trincheiras, expirou sem um gemido e sem uma contração que denotasse padecimento.
Em verdade, durante o cerco patentearam uma coragem indomável – Lacerda, João Pacheco, Líbero Guimarães, AMYNTAS DE BARROS, José Charlot, Fidencio Guimarães, Henrique José dos Santos, Otto Rochehdorf Faustino Riola, Emilio Blum e tantos outros, todos civis os quais fizeram jus á calorosa admiração de um militar do estofo de GOMES CARNEIRO.
Seu coração era um sacrário de energias e de bondade. Sua alma era um repositório das mais acrisoladas virtudes.
PELO DEDO SE CONHECE O GIGANTE
Os homens verdadeiramente grandes não necessitam, para se extremar das mediocridades, que se lhe recordem todos os feitos vultosos e memoráveis; basta algumas das mínimas ocorrências de sua vida para os  caracterizar de modo inconfundível. Percebe-se o forte latejar do pulso do gigante, ora em um simples episódio, ora em uma frase incisiva e oportuna.
O MONUMENTO RESGATA DIVIDA E É PENHOR DE CONCORDIA.
Ressalto o intuito elevado do  presidente CAETANO MUNHOZ DA ROCHA ao mandar erigir este monumento ao Gen. ANTÔNIO GOMES CARNEIRO foi, sem duvida, satisfazer as aspirações dos nossos queridos patrícios, pagar uma dívida de gratidão que a República havia contraído com um dos seus mais fieis e devotados servidores que baqueou sobranceiro para que ela se erguesse avante.
A postura que ele mantem ali, ereta, firme, resoluta, parecendo dizer com entranhada convicção: - “Aqui não entrarão”, - deve despertar na alma de todos os brasileiros, amigos da sua pátria, o desejo ardente de seguir a trajetória deslumbrante desse estrategista viril e impoluto, que salvou a nação do maior inimigo que a podia empolgar;  – A ANARQUIA.
.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.
FRANCISCO BRITO DE LACERDA, em seu opúsculo  “Cerco Da Lapa – Do começo ao fim – fls. 67 editado pelo Governo do Paraná em 2.005” assevera “CADA VEZ ME CONVENÇO MAIS DE QUE CARNEIRO ERA UM MONSTRO HERÓICO. APESAR DE NÃO EXISTIR QUALQUER ESPERANÇA EM RESISTIR POR MAIS DE DOIS OU TRES DIAS, ELE NÃO RENUNCIOU, OBSTINANDO-SE EM NÃO SE ENTREGAR. Foi a Divina Providência que consentiu na sua morte, em tempo oportuno, quando nada mais daria a fazer. Conta-se que vários soldados e cidadãos não combatentes foram conduzidos presos e degolados”.
.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-
Ainda nesse opúsculo fls. 15 narra “A resistência da Lapa constituiu-se num dos maiores feitos da HISTÓRIA MILITAR BRASILEIRA. Topograficamente, a então cidadezinha, cercada de montanhas, era local propício para não resistir 48 horas, ou, no máximo, como calculava Gumercindo, 72 HORAS. Os sitiados  tinham cerca de 900 homens (os mais otimistas chegavam a admitir 1200, mal adestrados, na maioria civis voluntários, inferiorizados em material bélico. E os sitiantes contavam com mais de 3000 homens, colocados, sob todos os aspectos, em posição avantajada. MAS A LAPA, EM LUGAR DE RESISTIR 48 OU 72 HORAS, PROLONGOU ESSA RESISTÊNCIA SUICÍDIA POR 26 DIAS”.
.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-
A história tem o condão da análise da trajetória da humanidade, por fatos consolidados oferecendo a oportunidade de aprendermos para em termos de nacionalidade, construirmos um futuro alvissareiro.
ROCHA POMBO historiador paranaense nos dá ideia (Vol. V. – história do Brasil – fls 5   sob epígrafe “A revolução rio grandense” - Gráfica Editora Brasileira Ltda. 1953), de como uma pequena parcela de gaúchos de ontem que apoiaram a insurreição maragata desrespeitaram  o lema “PROGRESSO COM ORDEM”, satisfazendo suas ambições e veleidades egoísticas e pessoais.
Entretanto a LAPA HERÓICA venceu essa mentalidade caudilhesca e ao vence-la  nos deu a experiência REPUBLICANA/DEMOCRÁTICA, por haver caído de pé, por falta de munição e tombamento de seus  heroicos defensores...
Deram assim os filhos da Lapa de então o exemplo que a inscreveu no firmamento da nacionalidade, como estrela de primeira grandeza inspirada na bandeira do Paraná (à época) e do Brasil sobrestadas pelo dístico “ORDEM E PROGRESSO”. A margem desse capítulo heroico de brasilidade afirmamos convictamente que     os heróis paranaenses lapianos compelidos ao armistício de 11 de fevereiro de 1.894 deram a vida pelo Brasil, pela liberdade republicana democrática.
Um sacrifício Srs., desconhecido pela grande maioria das gerações que se sucederam que só acreditaram e acreditam em tirar proveito da vida...
Um sacrifício que acalentou uma coragem na liberdade de ideais, na dignidade humana, na luta pelo que é verdadeiro, bom, certo e justo nos limites da “ORDEM E PROGRESSO”.
Epílogo:
Desde 1892 que o governo federal estava tratando de pacificar o Rio Grade do Sul, mediante acordo amigável: porém diversos e lamentáveis contratempos vieram  interromper as negociações nesse sentido entaboladas. Correspondendo aos ardentes desejos de toda a nação, JÁ PRESIDENTE PRUDENTE DE MORAIS, realizou-se, a 10 de julho de 1895, NA  CIDADE DE PELOTAS, uma conferência entre o Gen. INOCÊNCIO GALVÃO DE QUEIROZ, delegado do governo da República, e o Gen. JOÃO NUNES DA SILVA TAVARES (Joca Tavares), que figurou como chefe e representante dos federalistas, antecedida por   conferência na qual foi acertado um armistício entre as partes beligerantes, passando as respectivas forças a concentrar-se em algumas cidades. Por essa época Aparício Saraiva achava-se aguardando ordens entre Piraí e Upamaroti. Propagada a notícia desse grande acontecimento por todo o Brasil, de todas as partes foram dirigidos telegramas de felicitações ao presidente da República, enquanto este (que era o Doutor Prudente de Morais) era, na Capital-Federal, alvo das mais estrondosas e expressivas manifestações do regozijo popular. Também a Câmara dos Deputados se fez  representar nas saudações oficiais oferecidas juntamente com todas as classes sociais ao chefe da nação, que na mensagem de 26 de Agosto comunicava ao Congresso Nacional a terminação da luta. Enquanto estes fatos se passavam na capital da República, o comandante do 6º distrito, em repetidos documentos oficiais, anunciava os resultados de sua missão no Rio Grande do Sul, e promovia todas as medidas atinentes ao pacto celebrado. O Gen. Savaget, que sucedera ao Gen. Galvão como delegado do governo da República e comandante do 6º distrito militar, foi dentro em breve substituído pelo Gen. Cantuária, que trabalhou com muito afinco para levar a efeito o restabelecimento da paz. Afinal, depois de várias complicações, na Câmara e no Senado, o governo federal concedeu, a 19 de Setembro de 1895, plena anistia aos revoltosos, quer no Rio Grande do Sul, quer da Armada, bem como aos deportados para o Alto-Amazonas e aos 13 generais punidos em 1892 por terem assinado a famosa representação ao marechal Floriano Peixoto.
.-.-.-.-.-.-.-.--.-.-.--.-.-.-.-.-.-
Entretanto, esta palestra ao nosso ver não poderia encerrar-se apenas satisfazendo às explanações  de seu epílogo, visto que objetivamos salientar o significativo e singular, desempenho da LAPA no contexto da nacionalidade republicana.  
Se os casarões históricos da Lapa rivalizam com os de Ouro Preto, Recife / Olinda, Salvador - Pelourinho /São Luiz do Maranhão / São Paulo e Rio de Janeiro, a LAPA é a única que no firmamento da nacionalidade republicana possui estrela de primeira grandeza, da qual  também faz parte a REVOLUÇÃO DE BRASILIDADE CONSTITUCIONALISTA DE SÃO PAULO de 1.932, visto que ambos ESTADOS PARANÁ E SÃO PAULO lutaram pela LEGALIDADE CONSTITUCIONAL.
Não poderíamos, encerrar esta palestra sem render justa homenagem ao prefeito PAULO CESAR FIATES FURIATI por haver batalhado tenazmente para aprovação do projeto de Lei que criou o “DIA NACIONAL DO CERCO DA LAPA” – Lei 13.570, de 21 de dezembro de 2.017 – A SER COMEMORADO TODO DIA 9 DE FEVEREIRO.  
Curitiba, 11 de junho de 2.019.
Mariano Taglianetti /  Advogado /

Mariano Taglianetti – presidente da Associação PARANAENSE MMDC 32 e HERÓIS DO CERCO DA LAP
Área de anexos