
82 a. nasce VLADO HERZOG,
que assumiu o nome VLADIMIR quando solicitou (e obteve) carteira de estrangeiro
no BRASIL, no dia 27 de junho de 1937, em OSIJEK, hoje capital da ESLOVÊNIA
ORIENTAL, em território croata. Sua família morava, no entanto, em BANJA LUKA,
hoje incrustada na BÓSNIA-HERZEGOVINA. Na guerra, a família judia fugiu para o
VÊNETO, no nordeste da ITÁLIA. Espremida entre forças aliadas e fascistas, os
HERZOG acabaram sob abrigo da ONU. VLADO chegou ao BRASIL em 1955, com 18 anos,
e, apesar de jornalista, tinha paixão por cinema. Entrou para o PCB já na
ditadura militar, numa época em que o partido se colocou ostensivamente contra
a luta armada e optou pela luta pacífica pela redemocratização. Mas estava
longe de ser um comunista perfeito: criticava o partido e as restrições à
liberdade na URSS e em CUBA, além de detestar as longas reuniões pouco
resolutivas.
No dia em que HERZOG
começou a trabalhar, 4 de setembro de 1975, um editor antigo pôs no ar uma
matéria sobre HO CHI MIN, líder do VIETNÃ DO NORTE, visto como poderoso símbolo
comunista. Surpreendido, HERZOG mandou suprimir a matéria do jornal da noite e
demitiu o editor que a programou à tarde. No dia seguinte, 5 de setembro, a
matéria foi denunciada por CLÁUDIO MARQUES, notório simpatizante do regime
militar, que escrevia uma coluna no jornal SHOPPING NEWS. A partir de uma
sucessão de movimentos de bastidores e publicações em jornais que apoiavam a
repressão, foi articulada uma escalada contra a nova direção de jornalismo da
TV CULTURA. No dia 7, MARQUES publicou outra nota, bem mais provocativa, vinculando a direção do
jornalismo da CULTURA ao PCB. A denúncia
de ROMEU TUMA veio na esteira, no dia 10. Numa das reuniões habituais da
comunidade de informações para coletar e avaliar denúncias, o delegado
mencionou a contratação de HERZOG e o acusou de ser um “elemento comprometido”.
Como última etapa da escalada, as prisões começaram a acontecer no dia 29 de
setembro, quando foi detido JOSÉ MONTENEGRO DE LIMA, que fazia o contato da
base dos jornalistas com o PCB e morreria, a seguir, durante o interrogatório,
assassinado com uma injeção para sacrificar cavalos.
Em 24 de outubro, HERZOG
foi procurado na TV CULTURA por uma equipe do DOI-CODI, que acabou concordando
com sua apresentação no dia seguinte, quando prestaria depoimento. HERZOG se apresentou
na manhã do dia 25 e horas depois estava morto. O regime militar insistiu na
versão de que teria se suicidado, mas em 1978 a Justiça condenou o Estado
brasileiro a pagar indenização por sua morte à viúva CLARICE HERZOG.
ROMEU TUMA, à época chefe
do serviço de informações do Departamento de Ordem Política, Econômica e Social
(DEOPS), da Secretaria de Segurança de SÃO PAULO, foi a primeira autoridade do
regime militar a denunciar o jornalista VLADIMIR HERZOG, então diretor de
jornalismo da TV CULTURA paulista. A revelação consta da ata de uma reunião da
comunidade de informações, localizada no Arquivo do Estado de SÃO PAULO e
revelada pelo livro MEU QUERIDO VLADO, do jornalista PAULO MARKUN, preso com
HERZOG. O livro foi lançado em 9 de novembro de 2005. O senador ROMEU TUMA
confirmou ao “ESTADO” a existência da ata, mas disse não aceitar ser
responsabilizado pelo destino de HERZOG. Ele alega ter cumprido a sua
atribuição à época – repassar informações que identificassem focos de subvenção
ao regime: “Há uma distância oceânica entre isso e o que aconteceu com o
jornalista VLADIMIR HERZOG”, disse. Alegou que foi ele quem preservou a
documentação do DEOPS, entregando-a ao governo paulista.
A ata, cujo fac-símile é
mostrado no livro, reporta uma reunião em 10 de setembro de 1975, 45 dias antes
da prisão e morte de HERZOG pelo DOI-CODI paulista. Na reunião, TUMA disse:
“Que o canal 2, através de seu departamento de jornalismo, está fazendo uma
campanha sistemática contra as instituições democráticas e esse fato foi notado
após ter assumido a direção daquele departamento o jornalista VLADIMIR HERZOG,
elemento sabidamente comprometido”. Na biografia que mantém em seu site
pessoal, o senador omite o cargo de chefe do serviço de informações e a
posterior chefia do DEOPS.
Segundo o livro, os ataques
a HERZOG como diretor de jornalismo da TV CULTURA, iniciados imediatamente após
sua contratação, ganharam lógica e foram reforçados pela denúncia de TUMA.
Antes de contratar HERZOG, o então secretário de CULTURA, JOSÉ MINDLIN,
consultara o chefe do escritório do Serviço Nacional de Informações (SNI) em
SÃO PAULO, coronel PAIVA, que deu o “nada consta”.

