quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

A HISTÓRIA SE REPETE - GERMANO DENISALE FERREIRA JÚNIOR E MARINO DI TELLA FERREIRA.






 A HISTÓRIA SE REPETE-( artigo de autoria minha e do irmão e confrade Marino Di Tella Ferreira, publicado hoje , 2 de dezembro , no jornal Correio Popular )

Aqueles que desconhecem a história estão fadados a repetir seus erros.
Isso fica lamentavelmente demonstrado pelo "plano de paz" com seus 28 “artigos”, que Donald Trump e Vladimir Putin negociaram como termo da guerra na Ucrânia.
Já assistimos algo semelhante.
Em 1919, após o final da Primeira Guerra Mundial – “a guerra para acabar com todas as guerras”, as potências vencedoras firmaram o Tratado de Versalhes, que redesenharia o mapa da Europa central. Do desmembrado Império Austro-Húngaro, surgiriam a Áustria e a Hungria com extensões menores, sendo que esta cederia território à Romênia, reapareceria a Polônia e seriam criadas novas nações como Checoslováquia e Iugoslávia.
À Alemanha, a principal responsável pela Grande Guerra, também foi imposta a perda de parte de seu território a nações vizinhas, além de outras sanções como a redução de suas forças armadas e o pagamento de indenizações.
A submissão da Alemanha ao Tratado de Versalhes foi um dos motivos que levou ao surgimento do Partido Nazista, a sua chegada ao poder e o flerte com a expansão territorial.
Em março de 1938 a Alemanha anexou a Áustria e em outubro do mesmo ano, a vítima foi a Checoslováquia, sobre cuja cabeça os dois parceiros de negociação concluíram um acordo (o fraco primeiro-ministro francês Édouard Daladier e o ditador italiano Benito Mussolini praticamente não desempenharam nenhum papel). Tal acordo, firmado em Munique sem a presença de representante checo, impôs extensas concessões territoriais à Checoslováquia, bem como termos que destruíram a capacidade do restante do Estado de se defender. Por fim, o documento continha promessas vagas do Terceiro Reich, como por exemplo, sobre um "Comitê Internacional" para resolução de impasses que, em última análise, não tinha qualquer poder real. O primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain, também signatário do Acordo de Munique, retornou ao Reino Unido onde foi recebido como herói por haver colaborado para a preservação da paz, discursando ainda no aeroporto de Heston ao mesmo tempo que acenou à multidão com a folha de papel do acordo, em imagem que ficou imortalizada. O obstinado Winston Churchill, que o sucederia como primeiro-ministro, quanto ao Acordo diria: "Entre a desonra e a guerra, escolheste a desonra, e terás a guerra”.
Da mesma forma, os vinte e oito mandamentos do plano atual estipulam que a Rússia não só deve ter permissão para manter os territórios que conquistou, como também deve receber outros territórios que o Kremlin exige sem qualquer fundamento legal - fortificações construídas durante os anos de guerra teriam que ser abandonadas sem luta. A Ucrânia, tal como a Checoslováquia de 1938, ficaria indefesa contra novos ataques.
A redução exigida do exército ucraniano, para menos da metade de seu efetivo, é uma exigência adicional – aqui, a proposta vai além, não tendo paralelo no famigerado Acordo de Munique.
Putin certamente encontrará um pretexto para novas agressões.
Não é preciso ser um estrategista militar para prever os próximos passos de Putin após a implementação do “Plano Trump”: conflitos ao longo das fronteiras impostas à Ucrânia, no leste e sudeste, poderiam fornecer-lhe um pretexto para retirar as garantias de segurança; ou poderiam ocorrer ataques reais por parte de soldados ucranianos desiludidos, o que é altamente provável após um cessar-fogo; se, ao contrário das expectativas, isso não acontecer, o Kremlin é conhecido pela sua experiência com incidentes encenados, como a chamada “provocação de Gleiwitz” em 1939 .
Uma cláusula fundamental dentro do plano para a paz na Ucrânia não tem precedentes no Acordo de Munique e em seus documentos complementares: o Ponto 14 estipula que os EUA têm direito a metade dos lucros dos projetos de reconstrução na Ucrânia.
Atingiu-se um novo patamar de retórica, até mesmo para Donald Trump.
O "plano de paz" pode acelerar o caminho para uma futura guerra. Se a violência russa atingirá primeiro a Moldávia, o Azerbaijão, os Estados Bálticos ou talvez a Finlândia, isso ainda é uma incógnita. No entanto, é praticamente certo que o plano para a Ucrânia — uma nova forma de apaziguamento no século XXI, uma prática que se acreditava ter sido superada — dificilmente durará muito. Uma política que, em pleno século XXI, parece repetir erros mais graves que os cometidos na história recente, dificilmente alcançará a tão sonhada paz.
Germano Denisale Ferreira Júnior, advogado e membro da Academia Campinense de Letras.
Marino Di Tella Ferreira, advogado, membro da Academia Campinense de Letras e presidente da Associação dos Expedicionários Campineiros.

CORREIO BRAZILIENSE - 4 DE DEZEMBRO DE 2025 - QUINTA-FEIRA.

 

BRASÍLIA, DISTRITO FEDERAL, QUINTA-FEIRA, 4 DE DEZEMBRO DE 2025

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