139 a. falece GUSTAVE
FLAUBERT em 8 de maio de 1880. Nasceu em 1821, em RUÃO, na NORMANDIA, FRANÇA.
Aos dez anos vai estudar no renomado Colégio Real. GUSTAVE é uma criança
distraída e desinteressada. Prefere cultivar e devorar romances em vez de
estudar matérias obrigatórias. Nos intervalos da aula GUSTAVE lê. Gosta de
romances históricos, de aventuras maravilhosas, de poesias carregadas de
sentimento que caracterizam o Romantismo. E um dia resolve escrever também.
Compõe narrativas históricas e alguns contos, seguindo os padrões de suas
leituras preferidas. Redige também o semanário escolar ARTE E PROGRESSO.
Aos quinze anos descobre o
teatro. Atraem-no as peças de SHAKEASPEARE, ALEXANDRE DUMAS, pai e VICTOR HUGO.
Decide então compor um drama em prosa, em cinco atos, LUIZ XI. Pouco tempo mais
tarde, no inverno de 1837, aos dezesseis anos, descontente com a aventura
teatral, redige seu primeiro romance, PAIXÃO E VIRTUDE. Nessa obra imatura e
juvenil vislumbram-se os germes de suas grandes criações: a heroína, MAZZA,
contém os traços que reaparecerão em EMA BOVARY. A minúcia com que descreve a
paisagem e o ambiente, o esforço para encontrar em seu vocabulário de
adolescente, a palavra exata, a preocupação de harmonizar temperamento e ação,
enfim, todas as características do futuro FLAUBERT já se anunciam timidamente
nessa primeira narrativa literária. É nessa época que descobre o amor. Amor de
adolescente por uma mulher casada, onde anos mais velha: ELISA SCHLESINGER.
Tanto ela quanto o marido gostam muito de FLAUBERT. Levam-no a passeios de
barco, convidam-no para jantar e se preocupam com seus problemas. GUSTAVE nunca
falou à amada do amor, nunca esboçou um gesto de carinho: adora ELISA em
silêncio. Ela respeita-lhe os sentimentos. Embora viúva, não quis esposá-lo. O
amor impossível e constante inspirou-lhe quatro livros: MEMÓRIAS DE UM LOUCO
(1838) , NOVEMBRO (1842) e as duas versões de A EDUCAÇÃO SENTIMENTAL. Na
primeira versão, escrita em 1845, ainda sob o impacto de sua experiência
amorosa, o jovem FLAUBERT confere um desenlace feliz à sua paixão, acreditando
ainda que, para conquistar a felicidade, bastaria desejá-la com toda a força.
Anos mais tarde, ao redigir a segunda versão da obra (1869), reconhece o engano
de sua mocidade. Inicia o livro com uma saudosa evocação de ELISA (a senhora
ARNOUX do romance) e termina com a melancólica despedida de FRÉDÉRIC MOREAU
(nome que atribui a si próprio no enredo).
Embora infeliz no amor e
ávido de escrever, FLAUBERT compreende a necessidade de cumprir os desejos
paternos: diplomar-se advogado. Vai para PARIS em 1840, aos dezenove anos,
estudar. Sem entender nada das aulas nem dos compêndios, cursa a faculdade.
Deixa crescer a barba, fuma cachimbo sem parar, vai ao teatro sempre, freqüenta
bons restaurantes, gasta despreocupadamente todo o dinheiro que o pai lhe
manda. A reprovação nos exames, no entanto, abalam FLAUBERT, e o faz ter o
primeiro ataque nervoso. E é esse ataque que faz com que os pais desistam de
insistir para que ele conclua os estudos. FLAUBERT, então, abandona o curso e
vai morar com a família na vila de CROISSET, à margem do SENA. Ali passa o
resto da vida, e assiste, no espaço de três meses, à morte do pai e da irmã
CAROLINE, falecida em 1846, aos 22 anos, após dar à luz uma menina.
Os anos passam. Em 1846,
GUSTAVE FLAUBERT conhece a flamejante LOUISE COLLET. Separada do marido, mãe de
uma adolescente, amante do filósofo VITOR COUSIN, sucumbe de imediato à atração
pelo escritor e com ele vive uma tempestuosa aventura. A grande paixão de
FLAUBERT, no entanto, continua sendo a literatura. Considera mais emocionante
encontrar uma bela frase que amar uma bela mulher. Ao observar um fato
interessante, ao experimentar novas emoções, fixa-as imediatamente num livro de
notas, para usá-las mais tarde. Tal aspecto mostra o pendor de FLAUBERT para a
escola literária realista, fato que o salva de cair nos exageros sentimentais
característicos de alguns românticos decadentes. Não é o caso de FLAUBERT. Sob
forma precisa e realista, revela um tédio em muito semelhante ao “mal do
século” que, tendo sido desencadeado por GOETHE, atingiria CHATEAUBRIAND,
ALFRED DE VIGNY, entre outros. Ao concluir MADAME BOVARY, declara: “Quando
escrevi a cena de envenenamento senti na boca o gosto do arsênico, senti-me
envenenado. Tanto que tive duas indigestões seguidas, duas indigestões reais .
. .”. Em 1848, rompe com a amante. O rei LUÍS FILIPE entrega o poder a NAPOLEÃO
BONAPARTE. FLAUBERT aceita o fim da aventura amorosa sem sofrimentos e observa
imperturbável os sangrentos episódios políticos. Quando muito se aborrece com a
violência que testemunha. A morte de seu
amigo LE POITTEVIN sacode-o profundamente. O próprio FLAUBERT fecha-lhe os
olhos. É uma dor imensa, que abala sua saúde. Seguindo conselho médico, parte
em viagem para o Oriente em outubro de 1849, onde pretende ficar por dois anos.
Mas meses depois está de volta. Antes de viajar, começara a redação de AS
TENTAÇÕES DE SANTO ANTÔNIO, obra inspirada num quadro do pintor flamengo
BRUEGEL, mas o amigo DU CAMP não aprova a peça. Decepcionado, pois esperava uma
reação mais entusiasmada, abandona a obra, para retomá-la em 1869.
Em junho de 1851, após
longo período de inatividade, FLAUBERT inicia a composição da mais famosa de
suas obras: MADAME BOVARY, que o tornará em pouco tempo um dos mais célebres
romancistas da FRANÇA. São cinco anos de trabalho, e finalmente MADAME BOVARY
começa a ser publicada na REVUE DE PARIS a partir de outubro de 1856, porém com
corte das cenas mais picantes. A censura suspende a publicação do livro e processa
o autor. Acha que a obra é imoral. FLAUBERT tenta abafar o processo, recorrendo
a amigos influentes. Em vão! Em janeiro de 1857, aos 36 anos, senta-se no banco
dos réus. Oito dias depois, porém, é absolvido, e o livro, editado na íntegra,
esgota-se em pouco tempo.
Com o passar dos dias a
fama acaba por cansar FLAUBERT. E ele volta a CROISSET em 1857 para trabalhar
em OS MERCENÁRIOS. Concluída a obra, viaja para o Oriente. Começa a escrever –
e publicar em capítulos – ainda nesse ano a obra SALAMBÔ, que não é sucesso nem
de crítica nem de público. Como que para esquecer o fracasso de SALAMBÔ, reescreve
A EDUCAÇÃO SENTIMENTAL.
Corre o ano de 1870. A
FRANÇA sofre a invasão prussiana. Eclode a guerra entre FRANÇA e ALEMANHA. A
queda da pátria representa, para FLAUBERT, apesar de seu indiferentismo
político, “a chegada do fim do mundo”. O escritor volta a padecer de ataques
epilépticos da juventude. O pai já não está presente para tratá-lo com sangrias
e dietas. O amigo BOUILHET morrera, assim como a mãe de GUSTAVE. ELISA
SCHLESINGER, viúva, encontra-se recolhida a um asilo de loucos. FLAUBERT só tem
a companhia da sobrinha, e, em visitas breves, a do romancista ÉMILE ZOLA, do
jovem contista GUY DE MAUPASSANT e do escritor russo IVAN TURGUENIEV.
A vida, que, para ele nunca
tivera atrativos, é agora um tédio infinito. A única distração ainda é
escrever. Aos 55 anos, FLAUBERT elabora um conto que é uma obra prima: UM
CORAÇÃO SIMPLES. A morte de LOUISE COLLET o deixa mais só. Começa a escrever
BOUVARD ET PÉCUCHET, mas não consegue concluí-lo. A mão não tem mais firmeza. A
palavra certa não lhe ocorre mais. Finalmente, um ataque de apoplexia dá-lhe o
golpe mortal. O tédio dissolve-se, a vida pára. Num dia de primavera de 1880, o
romântico mestre do Realismo francês resolve suas inquietações. Mas não lhe
havia sobrado tempo necessário para cumprir a promessa que fizera a um amigo:
“Um dia, antes de morrer, resumirei minha vida, tentarei contar-me a mim
mesmo”.