domingo, 27 de janeiro de 2019

A ÍNDOLE DE MONTEIRO LOBATO - MARIANO TAGLIANETTI

A indole de MONTEIRO LOBATO...


MarianoTaglianetti

Anexosdom, 27 de jan 08:24 (Há 16 horas)
 para eu
Caríssimo Cel. VENTURA bom dia !
A  obra  de  MONTEIRO LOBATO  noticía  o  "ESTADÃO" já é de dominio público.
Façamos votos que as editoras acordem no sentido de reeditá-la, contribuindo
para  que  o  brasileiro  tenha  ciência   da  problemática  crônica  que  assola
a nacionalidade...
Fraternal apreço, Mariano.



Monteiro Lobato


O “saco de carvão” ***
Meu primeiro artigo em jornal foi no “Correio Paulistano” em 1913 – Guiomar Novaes, recém-chegada do seu precoce triunfo no Conservatório de Paris. Mas me passei logo para “O Estado”, que ficou desde então sendo o meu jornal. Creio que a principal razão da mudança estava na feição oposicionista do velho órgão. Eu também nascera na oposição, mais ou menos como aquele espanhol que desembarcou em Santos e foi logo perguntando: “Há governo nesta terra? Responderam-lhe afirmativamente e o espanhol empertigou-se:  “pois então sou contra.”
Não conheço as razões do espanhol. Em mim foi uma eterna revolta contra a desonestidade dos governos. Meu amor por José Américo decorre da sua intransigência e meu entusiasmo por Prestes Maia vem da sua honestidade absoluta. Honestidade  relativa conheço muitas.
Fui sempre colaborador de “O Estado”, mas “free  lancer”, colaborador livre, dos que só aparecem quando querem ou tem algo a dizer. Não sei escrever por força de contratos ou encomendas. E naquele tempo me tornei “sapo” da redação, na boa companhia dos dois grandes Lopes: Filinto, o incomparável humorista, verdadeira reencarnação de Mark Twain, e Maneco Lopes, espécie de bomba atômica barbada.
Sapo de redação quer dizer o sujeito, amigo da casa, que lá comparece todas as noites, e fila o café, e faz daquilo o seu clube. Os sapos comentam as notícias do dia, dão palpites, tosam nos adversários e metem a ronca no próprio jornal.  Por  que?  Por amor à casa, pura e pia revolta pela não introdução de melhoramentos que a eles parecem indispensáveis.
Quem secretariava “O  Estado” naquele tempo era Nestor Rangel Pestana, talvez o mais admirável tipo de homem que me foi dado encontrar na vida. O equilíbrio mental e moral do Nestor! A natural incorruptibilidade  do Nestor!  O inalterável bom senso do Nestor! Tudo sob um belo aspecto físico de homem -  “um perfeito senador romano” – como o definiu Isadora Duncan. Sua ação no jornal era catalítica. Nestor agia por simples ato de presença. Nada precisava fazer para que “O Estado” se mantivesse sempre na linha e em perfeita vertical. Bastava mostrar-se, comparecer lá todas as noites e sentar-se á sua prodigiosa secretaria americana, onde, com o correr das semanas, a papelada ia se amontoando até impedi-lo de trabalhar; vinha então uma limpeza a fundo; tudo aquilo ia para os arquivos ou o lixo – e nova montanha de papel começava a formar-se.
Os espíritos conformados nesse  molde são em regra conservadores. Quantas vezes nós, com a leviandade e a irresponsabilidade dos sapos, não propúnhamos coisas, mudanças, reformas no jornal, que achávamos excessivamente pesadão ou casacal, como dizia Maneco, Julinho Mesquita, então no esplendor da mocidade, concordava, mas com um suspiro:  “Impossível. Nestor não quer”. E se nós, tomados de revolta, pulávamos com a alegação de que os donos do jornal eram eles e não Nestor, um simples contratado, a invariável resposta vinha sempre a mesma: “Sim, nós somos os donos, mas Nestor é o  secretário”.
Aquilo nos encantava, e mais nos amarrava aquele toco. Eles os proprietários absolutos, não tinham animo de impor. O celebre “Nestor não quer” fala mais alto do que qualquer outra coisa da superioridade  daquele ambiente.
Julinho, naquela época o “Capitão”, vivia numa permanente crise de entusiasmo, extravasada em furiosos debates sobre a coisa publica. Muitas vezes errado ( na nossa opinião) mas sempre sincero, firme e violento.  Gostavamos  daquilo, da sua “ferocidade” patriótica, já que para equilíbrio tínhamos o Nestor. O consumo da palavra “pátria” na sala do Julinho sempre foi grande. O sereníssimo e ultra-filosofico Léo Vaz, lá da sua mesa de canto na redação, apontava com a caneta, quando o debate rugia: “ A sala da pátria está a 100 graus”.
Creio que foi aquele o período áureo de “O ESTADO”.
Da sua bela fazenda de Louveira Julio Mesquita “tele-presidia” o grupo com a sua inesquecível superioridade de semi-deus aposentado. Nestor ali no leme era a própria imagem da prudência e da expediência mais alta. Julinho representava o elemento fogo; era a mocidade; o futuro. Os sapos faziam o papel do coro das tragédias gregas.
Muita gente lá fora rosnava, achava o jornal “muito fechado” – e creio eu era realmente fechadíssimo – mas não há negar que foi essa feição que lhe deu  tamanho prestígio na opinião pública. Antes muito fechado que muito aberto. O São Paulo da era perrepeana  jamais tomou partido em, qualquer coisa sem primeiro saber como “ O Estado” pensava – para declarar-se, a favor ou contra. Comuníssimo, e frequentíssimo, na capital e no interior, a frase: “Vamos ver o que “O Estado” diz”.
O jornal dava a sua opinião pela primeira nota das “Notas e informações”. Fosse uma questão política ou dum qualquer interesse geral, era ali que em seu estilo tão puro e sintético Júlio Mesquita se manifestava – e às vezes, creio,  também Nestor. As notas não eram muito frequentes, o que ainda mais lhe aumentava o prestigio.
O coro grego, irreverentíssimo, formava rodinha longe dos ouvidos do Nestor, e caçoava: “O Estado” está convencido de que é centro do sistema planetário; daí a cautela com que emite opinião. Puro medo  de que com um pequeno deslise venha a perturbar-se a harmonia universal e rebente alguma catástrofe cósmica”.  Ah, o cuidado de Nestor na escolha dos adjetivos! Para que o jornal atribuísse a alguém a qualidade de “distinto” ou “notável” era preciso muita coisa, sobretudo que o sujeito o fosse realmente. As palavras nestorianas só saiam depois de meticulosamente pesadas em balança de alta precisão.
Em 1918 ocorreu por lá curioso incidente. Por esse empo era eu um dos sapos mais assíduos; não dispensava o encontro diário com os dois Lopes, com Julinho e Nestor. Irrompera a gripe, que breve se tornou  calamidade pública. A preocupação de todos era uma só – a gripe. O Trabalho de todas as conversas era um só – a gripe. O trabalho de todos, um só – socorrer gripados. E toda gente ia caindo de cama. O numero dos conhecidos mortos começava a assustar.
As notícias na sala da redação passaram a ser de um só tipo. “Chegou telefonada de Louveira. Júlio Mesquita caiu”. E logo depois: “Sabem   quem caiu? Julinho. E Chiquinho também”. Já ninguém dizia “cair com gripe”, ou “adoecer”, e sim, e só, “cair”.
Certa noite,  ao entrar na redação, não encontrei Nestor na celebre mesa. Dez horas, onze horas e nada. Telefonamos para sua residência. Tinha caído também. Loo depois nos parece Plinio Barreto, que vinha substituí-lo no secretariado. Mas no dia seguinte cai Plinio e surge Pinheiro Junior em substituição. Dois dias apenas esteve Pinheiro a postos, porque também caiu. E como  lá em baixo, na administração, houvesse caído Chiquinho, Ricardo Figueiredo o gerente, e seus substitutos,  aconteceu que em certo momento todo o estado-maior do jornal ficou fora de combate.
Lembro-me da noite em que só encontrei lá Filinto Lopes. Esperamos até onze horas pelo substituto de Pinheiro Junior. Ninguém apareceu. O jornal estava acéfalo e ameaçado de não sair no dia seguinte.  Falta de quem o dirigisse. Lá na “Vala Comum”, isto é, na sala geral dos redatores, cosinheiros e repórteres, a brecha aberta pela gripe fora de 50% ou mais e ali na sala do secretário e desfalque era integral.
Uma  ideia me ocorreu.
- Amigo Filinto, a situação é grave. O jornal está sem cabeça e correndo o risco de paralização. E não há a quem recorrer. Os donos caíram, e caíram os gerentes e mais de metade do pessoal. Dos sapos só restamos nós dois. Até Maneco, apesar da sua grande barba, foi para a cama. Proponho que assumamos o comando. Do contrário não teremos “O Estado” na rua a parir  de amanhã.
Filinto Lopes gravemente concordou.
- Pois então, continuei, tome conta da sala de espera e receba lá quem vier com informes e comunicações, que eu me sento á mesa do Nestor e despacho o expediente.
E assim fizemos. Enquanto na sala de espera seu Filinto recebia gente, eu na sala do Nestor abria o famoso bauzinho da “matéria” e passava os olhos naquilo selecionando o que tinha de sair no dia seguinte, podando excessos, baixando os adjetivos, rabiscando instruções.  Depois zás! Metia a papelada no tubo pneumático que por baixo da terra levava tudo ás oficinas de composição e impressão.
Para reforço da “Vala Comum” mobilizei vários elementos de fora, como Leo Vaz e Alarico Caiuby, que por esse tempo trabalhavam comigo na “Revista do Brasil” – e como desfecho de semelhante mobilização Léo Vaz entrou definitivamente para o corpo de redatores do “O Estado”.  E fez carreira. Quando Nestor faleceu foi quem substituiu como secretario do jornal; mais tarde alçou-se ao posto supremo: diretor, em substituição de Plinio Barreto. Hoje Léo Vaz tira o chapéu na rua sempre que ouve a palavra “gripe”.
Nesse trágico momento da vida do “O Estado” ocorreu um incidentezinho que tem sua comicidade.  Este jornal e o “Correio Paulistano” sempre viveram às turras,  órgãos que eram de politicas adversas.  Em havendo ensejo, um dardejava contra o outro uns  borrifos de veneno, mas sempre com muita linha e  elevação. Pois bem: aproveitei-me do fato de estar sozinho e sem controle á frente do jornal para umas alfinetadas no governo. Com toda a gravidade, uma sabia imitação do estilo de Júlio Mesquita, lancei uma das tais notas entrelinhas sobre a “falta de coordenação dos serviços oficiais de combate á gripe”. Certo de que quem falava era o pobre Dr. Júlio, lá na cama em Louveira, o “Correio”  vibrou  de cólera: “Nem numa ocasião como esta, de calamidade nacional, o grande órgão esquece os seus rancores políticos!”. Eu impassível ignorei o estrilo e continuei com as notas, numa verdadeira “scie” sobre a tal falta de coordenação. Lá em Louveira Júlio Mesquita folheava o jornal na cama e danava: “Quem é que me anda  em S. Paulo com estas absurdas impertinências?” – e não podia informar-se pelo telefone, porque em S. Paulo todo mundo estava morre-não-morre nas unhas da gripe. Durou uns dias o pega dos dois jornais, muito a serio do lado do “Correio”, sempre a ver naquilo o “dedo do Júlio”; e da minha parte com piscadelas do olho esquerdo para seu Filinto.
Mas tudo tem fim. Ao cabo de duas ou três semanas, indo á noite para a redação (era na Praça Antônio Prado), esbarrei na rua  Quinze com um vulto encapotado, de cache-nez e gola erguida. “Nestor!...” Sim, era ele que saia pela primeira vez, depois de sua temporada na cama. Seguimos juntos, Nestor a contar da doença e eu, com muito medo da censura, a falar da nossa intromissão na seara alheia. Mas Nestor apenas disse:  “Bem que andei desconfiado do milagre – todos na cama e o jornal a sair. Foi ótimo” – e deu-me a absolvição.
Chegando á redação, passei-lhe a vara e apresentei-lhe os meus elementos. Léo e Caiuby. Dias depois foram surgindo os alcançados pela gripe – menos os que morreram, evidentemente, como caiu na asneira de o fazer o nosso querido Adalgiso Ferreira.
Este fato revela o clima do “velho órgão”. Tão grande a identidade de todos com a alma do jornal, tamanha a confiança reciproca, que sem ordem de ninguém dois meros filantes de café assumem o comando do maior jornal do Brasil e dirigem-no  autocraticamente por mais de uma quinzena. E finda a “ocupação”, os donos e gerentes de nada se queixam, antes agradecem a lembrança e perdoam, sorrindo aquela intrusão inédita nos anais da imprensa. Porque nunca, jamais, em país nenhum do mundo, ocorreu uma coisa semelhante...
Tal era o “esprit de corps” do jornal de Júlio Mesquita. Imagine-se agora o espanto, o estarrecimento, e depois a indignação quando em 1942 correu pela cidade nova de que “O Estado” fora invadido e ocupado pela polícia; e que a polícia havia descoberto lá metralhadoras, canhões, tanques, dreadnoughts, submarinos e bombas atômicas – terríveis armas com que “o pessoal do “Estado” pretendia derrubar a ditadura que nos vinha fazendo tão felizes...
E depois veio o exílio dos donos do jornal, e vieram as ameaças e as pressões, e por fim a compra á força feita pelo governo. A sensação do público de S. Paulo foi de um fim de tudo. E parecia na realidade o fim de tudo, aquele coroamento da ocupação militar que desde 1930 desabara sobre S. Paulo. Entre todas as humilhações com que a ditadura nos obsequiou para castigo do levante de 1932, nenhuma tão dolorosa como a que destruiu o ultimo consolo que nos restava: “O Estado” sempre de pé, sempre digno, sempre mudo, mas de extraordinária eloquência em sua mudez.  Era nosso único meio de protestar contra a onipotência getuliana.
E a gente paulista viveu três anos com um peso no coração. O confisco  do “O Estado” não era ofensa dessas que saram. Abriu em nossas almas uma ulcera fagedênica. Já não podíamos protestar contra a pilhagem de S. Paulo nem sequer por meio da eloquente mudez de um jornal...
Mas tudo tem fim, e hoje é com imensa euforia que assistimos ao grande ato da reparação. A entrega do seu a seu dono, a devolução do “O Estado” aos  Mesquitas, vai ser o começo de cicatrização da ferida aberta na alma paulista pela onda predatória  em que se transformou a arrancada libertadora de 1930.
A Via Lactea  possui em certo ponto uma falha, um negror profundo que recebeu dos astrônomos o nome de “Saco de Carvão”. Na longa e luminosa via láctea do jornal de Júlio Mesquita, a fase de 1942 a 1945 aparecerá como um saco de carvão. O velho órgão continuou a sair na sua forma física de sempre, mas já sem alma, sem coração e se cérebro. Vazio. Puro fantasma de Macbeth. E assim foi até que o Ultimo Interventor, atendendo ás instruções de um grande Ministro da Justiça, restaurou-o no que fora, devolvendo-lhe a alma, o coração e o cérebro. Quando Macedo Soares assinou o decreto redentor, estava simbolicamente pingando o ponto final na ocupação naziforme da terra bandeirante.
“Faça-se justiça para que não pereça o mundo”! – é o brocardo de incomparável beleza que os juízes da República Judiciaria espanejaram e retiraram do longo olvido. Abençoados sejam.
***Apud – MONTEIRO LOBATO / Na Antevespera   fls 281-290 / Editora Brasiliense Ltda. – Obras completas de MONTEIRO LOBATO –  Edição 1.951.
Comentário
Nesta lavra “O saco de carvão” o imortal MONTEIRO LOBATO narra o acontecido ao longo de sua profícua existência, o nefasto episódio que envolveu o jornal “O ESTADO DE SÃO PAULO”, durante o surto da “gripe espanhola”, no qual seus diretores foram por ela contaminados. A iniciativa de haver tomado as rédeas do jornal, diante do impacto desse desastre o qual prostara seus responsáveis, naqueles dias tristes de 1.918, como relata,  demonstra a tenacidade de um líder singular no escopo da brasilidade.
Curitiba, 27 janeiro 2.019.
Área de anexos
O “saco de cO “saco de carvão” ***
Meu primeiro artigo em jornal foi no “Correio Paulistano” em 1913 – Guiomar Novaes, recém-chegada do seu precoce triunfo no Conservatório de Paris. Mas me passei logo para “O Estado”, que ficou desde então sendo o meu jornal. Creio que a principal razão da mudança estava na feição oposicionista do velho órgão. Eu também nascera na oposição, mais ou menos como aquele espanhol que desembarcou em Santos e foi logo perguntando: “Há governo nesta terra? Responderam-lhe afirmativamente e o espanhol empertigou-se:  “pois então sou contra.”
Não conheço as razões do espanhol. Em mim foi uma eterna revolta contra a desonestidade dos governos. Meu amor por José Américo decorre da sua intransigência e meu entusiasmo por Prestes Maia vem da sua honestidade absoluta. Honestidade  relativa conheço muitas.
Fui sempre colaborador de “O Estado”, mas “free  lancer”, colaborador livre, dos que só aparecem quando querem ou tem algo a dizer. Não sei escrever por força de contratos ou encomendas. E naquele tempo me tornei “sapo” da redação, na boa companhia dos dois grandes Lopes: Filinto, o incomparável humorista, verdadeira reencarnação de Mark Twain, e Maneco Lopes, espécie de bomba atômica barbada.
Sapo de redação quer dizer o sujeito, amigo da casa, que lá comparece todas as noites, e fila o café, e faz daquilo o seu clube. Os sapos comentam as notícias do dia, dão palpites, tosam nos adversários e metem a ronca no próprio jornal.  Por  que?  Por amor à casa, pura e pia revolta pela não introdução de melhoramentos que a eles parecem indispensáveis.
Quem secretariava “O  Estado” naquele tempo era Nestor Rangel Pestana, talvez o mais admirável tipo de homem que me foi dado encontrar na vida. O equilíbrio mental e moral do Nestor! A natural incorruptibilidade  do Nestor!  O inalterável bom senso do Nestor! Tudo sob um belo aspecto físico de homem -  “um perfeito senador romano” – como o definiu Isadora Duncan. Sua ação no jornal era catalítica. Nestor agia por simples ato de presença. Nada precisava fazer para que “O Estado” se mantivesse sempre na linha e em perfeita vertical. Bastava mostrar-se, comparecer lá todas as noites e sentar-se á sua prodigiosa secretaria americana, onde, com o correr das semanas, a papelada ia se amontoando até impedi-lo de trabalhar; vinha então uma limpeza a fundo; tudo aquilo ia para os arquivos ou o lixo – e nova montanha de papel começava a formar-se.
Os espíritos conformados nesse  molde são em regra conservadores. Quantas vezes nós, com a leviandade e a irresponsabilidade dos sapos, não propúnhamos coisas, mudanças, reformas no jornal, que achávamos excessivamente pesadão ou casacal, como dizia Maneco, Julinho Mesquita, então no esplendor da mocidade, concordava, mas com um suspiro:  “Impossível. Nestor não quer”. E se nós, tomados de revolta, pulávamos com a alegação de que os donos do jornal eram eles e não Nestor, um simples contratado, a invariável resposta vinha sempre a mesma: “Sim, nós somos os donos, mas Nestor é o  secretário”.
Aquilo nos encantava, e mais nos amarrava aquele toco. Eles os proprietários absolutos, não tinham animo de impor. O celebre “Nestor não quer” fala mais alto do que qualquer outra coisa da superioridade  daquele ambiente.
Julinho, naquela época o “Capitão”, vivia numa permanente crise de entusiasmo, extravasada em furiosos debates sobre a coisa publica. Muitas vezes errado ( na nossa opinião) mas sempre sincero, firme e violento.  Gostavamos  daquilo, da sua “ferocidade” patriótica, já que para equilíbrio tínhamos o Nestor. O consumo da palavra “pátria” na sala do Julinho sempre foi grande. O sereníssimo e ultra-filosofico Léo Vaz, lá da sua mesa de canto na redação, apontava com a caneta, quando o debate rugia: “ A sala da pátria está a 100 graus”.
Creio que foi aquele o período áureo de “O ESTADO”.
Da sua bela fazenda de Louveira Julio Mesquita “tele-presidia” o grupo com a sua inesquecível superioridade de semi-deus aposentado. Nestor ali no leme era a própria imagem da prudência e da expediência mais alta. Julinho representava o elemento fogo; era a mocidade; o futuro. Os sapos faziam o papel do coro das tragédias gregas.
Muita gente lá fora rosnava, achava o jornal “muito fechado” – e creio eu era realmente fechadíssimo – mas não há negar que foi essa feição que lhe deu  tamanho prestígio na opinião pública. Antes muito fechado que muito aberto. O São Paulo da era perrepeana  jamais tomou partido em, qualquer coisa sem primeiro saber como “ O Estado” pensava – para declarar-se, a favor ou contra. Comuníssimo, e frequentíssimo, na capital e no interior, a frase: “Vamos ver o que “O Estado” diz”.
O jornal dava a sua opinião pela primeira nota das “Notas e informações”. Fosse uma questão política ou dum qualquer interesse geral, era ali que em seu estilo tão puro e sintético Júlio Mesquita se manifestava – e às vezes, creio,  também Nestor. As notas não eram muito frequentes, o que ainda mais lhe aumentava o prestigio.
O coro grego, irreverentíssimo, formava rodinha longe dos ouvidos do Nestor, e caçoava: “O Estado” está convencido de que é centro do sistema planetário; daí a cautela com que emite opinião. Puro medo  de que com um pequeno deslise venha a perturbar-se a harmonia universal e rebente alguma catástrofe cósmica”.  Ah, o cuidado de Nestor na escolha dos adjetivos! Para que o jornal atribuísse a alguém a qualidade de “distinto” ou “notável” era preciso muita coisa, sobretudo que o sujeito o fosse realmente. As palavras nestorianas só saiam depois de meticulosamente pesadas em balança de alta precisão.
Em 1918 ocorreu por lá curioso incidente. Por esse empo era eu um dos sapos mais assíduos; não dispensava o encontro diário com os dois Lopes, com Julinho e Nestor. Irrompera a gripe, que breve se tornou  calamidade pública. A preocupação de todos era uma só – a gripe. O Trabalho de todas as conversas era um só – a gripe. O trabalho de todos, um só – socorrer gripados. E toda gente ia caindo de cama. O numero dos conhecidos mortos começava a assustar.
As notícias na sala da redação passaram a ser de um só tipo. “Chegou telefonada de Louveira. Júlio Mesquita caiu”. E logo depois: “Sabem   quem caiu? Julinho. E Chiquinho também”. Já ninguém dizia “cair com gripe”, ou “adoecer”, e sim, e só, “cair”.
Certa noite,  ao entrar na redação, não encontrei Nestor na celebre mesa. Dez horas, onze horas e nada. Telefonamos para sua residência. Tinha caído também. Loo depois nos parece Plinio Barreto, que vinha substituí-lo no secretariado. Mas no dia seguinte cai Plinio e surge Pinheiro Junior em substituição. Dois dias apenas esteve Pinheiro a postos, porque também caiu. E como  lá em baixo, na administração, houvesse caído Chiquinho, Ricardo Figueiredo o gerente, e seus substitutos,  aconteceu que em certo momento todo o estado-maior do jornal ficou fora de combate.
Lembro-me da noite em que só encontrei lá Filinto Lopes. Esperamos até onze horas pelo substituto de Pinheiro Junior. Ninguém apareceu. O jornal estava acéfalo e ameaçado de não sair no dia seguinte.  Falta de quem o dirigisse. Lá na “Vala Comum”, isto é, na sala geral dos redatores, cosinheiros e repórteres, a brecha aberta pela gripe fora de 50% ou mais e ali na sala do secretário e desfalque era integral.
Uma  ideia me ocorreu.
- Amigo Filinto, a situação é grave. O jornal está sem cabeça e correndo o risco de paralização. E não há a quem recorrer. Os donos caíram, e caíram os gerentes e mais de metade do pessoal. Dos sapos só restamos nós dois. Até Maneco, apesar da sua grande barba, foi para a cama. Proponho que assumamos o comando. Do contrário não teremos “O Estado” na rua a parir  de amanhã.
Filinto Lopes gravemente concordou.
- Pois então, continuei, tome conta da sala de espera e receba lá quem vier com informes e comunicações, que eu me sento á mesa do Nestor e despacho o expediente.
E assim fizemos. Enquanto na sala de espera seu Filinto recebia gente, eu na sala do Nestor abria o famoso bauzinho da “matéria” e passava os olhos naquilo selecionando o que tinha de sair no dia seguinte, podando excessos, baixando os adjetivos, rabiscando instruções.  Depois zás! Metia a papelada no tubo pneumático que por baixo da terra levava tudo ás oficinas de composição e impressão.
Para reforço da “Vala Comum” mobilizei vários elementos de fora, como Leo Vaz e Alarico Caiuby, que por esse tempo trabalhavam comigo na “Revista do Brasil” – e como desfecho de semelhante mobilização Léo Vaz entrou definitivamente para o corpo de redatores do “O Estado”.  E fez carreira. Quando Nestor faleceu foi quem substituiu como secretario do jornal; mais tarde alçou-se ao posto supremo: diretor, em substituição de Plinio Barreto. Hoje Léo Vaz tira o chapéu na rua sempre que ouve a palavra “gripe”.
Nesse trágico momento da vida do “O Estado” ocorreu um incidentezinho que tem sua comicidade.  Este jornal e o “Correio Paulistano” sempre viveram às turras,  órgãos que eram de politicas adversas.  Em havendo ensejo, um dardejava contra o outro uns  borrifos de veneno, mas sempre com muita linha e  elevação. Pois bem: aproveitei-me do fato de estar sozinho e sem controle á frente do jornal para umas alfinetadas no governo. Com toda a gravidade, uma sabia imitação do estilo de Júlio Mesquita, lancei uma das tais notas entrelinhas sobre a “falta de coordenação dos serviços oficiais de combate á gripe”. Certo de que quem falava era o pobre Dr. Júlio, lá na cama em Louveira, o “Correio”  vibrou  de cólera: “Nem numa ocasião como esta, de calamidade nacional, o grande órgão esquece os seus rancores políticos!”. Eu impassível ignorei o estrilo e continuei com as notas, numa verdadeira “scie” sobre a tal falta de coordenação. Lá em Louveira Júlio Mesquita folheava o jornal na cama e danava: “Quem é que me anda  em S. Paulo com estas absurdas impertinências?” – e não podia informar-se pelo telefone, porque em S. Paulo todo mundo estava morre-não-morre nas unhas da gripe. Durou uns dias o pega dos dois jornais, muito a serio do lado do “Correio”, sempre a ver naquilo o “dedo do Júlio”; e da minha parte com piscadelas do olho esquerdo para seu Filinto.
Mas tudo tem fim. Ao cabo de duas ou três semanas, indo á noite para a redação (era na Praça Antônio Prado), esbarrei na rua  Quinze com um vulto encapotado, de cache-nez e gola erguida. “Nestor!...” Sim, era ele que saia pela primeira vez, depois de sua temporada na cama. Seguimos juntos, Nestor a contar da doença e eu, com muito medo da censura, a falar da nossa intromissão na seara alheia. Mas Nestor apenas disse:  “Bem que andei desconfiado do milagre – todos na cama e o jornal a sair. Foi ótimo” – e deu-me a absolvição.
Chegando á redação, passei-lhe a vara e apresentei-lhe os meus elementos. Léo e Caiuby. Dias depois foram surgindo os alcançados pela gripe – menos os que morreram, evidentemente, como caiu na asneira de o fazer o nosso querido Adalgiso Ferreira.
Este fato revela o clima do “velho órgão”. Tão grande a identidade de todos com a alma do jornal, tamanha a confiança reciproca, que sem ordem de ninguém dois meros filantes de café assumem o comando do maior jornal do Brasil e dirigem-no  autocraticamente por mais de uma quinzena. E finda a “ocupação”, os donos e gerentes de nada se queixam, antes agradecem a lembrança e perdoam, sorrindo aquela intrusão inédita nos anais da imprensa. Porque nunca, jamais, em país nenhum do mundo, ocorreu uma coisa semelhante...
Tal era o “esprit de corps” do jornal de Júlio Mesquita. Imagine-se agora o espanto, o estarrecimento, e depois a indignação quando em 1942 correu pela cidade nova de que “O Estado” fora invadido e ocupado pela polícia; e que a polícia havia descoberto lá metralhadoras, canhões, tanques, dreadnoughts, submarinos e bombas atômicas – terríveis armas com que “o pessoal do “Estado” pretendia derrubar a ditadura que nos vinha fazendo tão felizes...
E depois veio o exílio dos donos do jornal, e vieram as ameaças e as pressões, e por fim a compra á força feita pelo governo. A sensação do público de S. Paulo foi de um fim de tudo. E parecia na realidade o fim de tudo, aquele coroamento da ocupação militar que desde 1930 desabara sobre S. Paulo. Entre todas as humilhações com que a ditadura nos obsequiou para castigo do levante de 1932, nenhuma tão dolorosa como a que destruiu o ultimo consolo que nos restava: “O Estado” sempre de pé, sempre digno, sempre mudo, mas de extraordinária eloquência em sua mudez.  Era nosso único meio de protestar contra a onipotência getuliana.
E a gente paulista viveu três anos com um peso no coração. O confisco  do “O Estado” não era ofensa dessas que saram. Abriu em nossas almas uma ulcera fagedênica. Já não podíamos protestar contra a pilhagem de S. Paulo nem sequer por meio da eloquente mudez de um jornal...
Mas tudo tem fim, e hoje é com imensa euforia que assistimos ao grande ato da reparação. A entrega do seu a seu dono, a devolução do “O Estado” aos  Mesquitas, vai ser o começo de cicatrização da ferida aberta na alma paulista pela onda predatória  em que se transformou a arrancada libertadora de 1930.
A Via Lactea  possui em certo ponto uma falha, um negror profundo que recebeu dos astrônomos o nome de “Saco de Carvão”. Na longa e luminosa via láctea do jornal de Júlio Mesquita, a fase de 1942 a 1945 aparecerá como um saco de carvão. O velho órgão continuou a sair na sua forma física de sempre, mas já sem alma, sem coração e se cérebro. Vazio. Puro fantasma de Macbeth. E assim foi até que o Ultimo Interventor, atendendo ás instruções de um grande Ministro da Justiça, restaurou-o no que fora, devolvendo-lhe a alma, o coração e o cérebro. Quando Macedo Soares assinou o decreto redentor, estava simbolicamente pingando o ponto final na ocupação naziforme da terra bandeirante.
“Faça-se justiça para que não pereça o mundo”! – é o brocardo de incomparável beleza que os juízes da República Judiciaria espanejaram e retiraram do longo olvido. Abençoados sejam.
***Apud – MONTEIRO LOBATO / Na Antevespera   fls 281-290 / Editora Brasiliense Ltda. – Obras completas de MONTEIRO LOBATO –  Edição 1.951.
Comentário
Nesta lavra “O saco de carvão” o imortal MONTEIRO LOBATO narra o acontecido ao longo de sua profícua existência, o nefasto episódio que envolveu o jornal “O ESTADO DE SÃO PAULO”, durante o surto da “gripe espanhola”, no qual seus diretores foram por ela contaminados. A iniciativa de haver tomado as rédeas do jornal, diante do impacto desse desastre o qual prostara seus responsáveis, naqueles dias tristes de 1.918, como relata,  demonstra a tenacidade de um líder singular no escopo da brasilidade.
Curitiba, 27 janeiro 2.019.arvão” ***O “saco de carvão” ***
Meu primeiro artigo em jornal foi no “Correio
Paulistano” em 1913 – Guiomar Novaes, recém-
chegada do seu precoce triunfo no Conservatório
de Paris. Mas me passei logo para “O Estado”, que
ficou desde então sendo o meu jornal. Creio que a
principal razão da mudança estava na feição
oposicionista do velho órgão. Eu também nascera
na oposição, mais ou menos como aquele
espanhol que desembarcou em Santos e foi logo
perguntando: “Há governo nesta terra?
Responderam-lhe afirmativamente e o espanhol
empertigou-se: “pois então sou contra.”
Não conheço as razões do espanhol. Em mim foi
uma eterna revolta contra a desonestidade dos
governos. Meu amor por José Américo decorre da
sua intransigência e meu entusiasmo por Prestes
Maia vem da sua honestidade absoluta.
Honestidade relativa conheço muitas.
Fui sempre colaborador de “O Estado”, mas “free
lancer”, colaborador livre, dos que só aparecem
quando querem ou tem algo a dizer. Não sei
escrever por força de contratos ou encomendas. E

2
naquele tempo me tornei “sapo” da redação, na
boa companhia dos dois grandes Lopes: Filinto, o
incomparável humorista, verdadeira reencarnação
de Mark Twain, e Maneco Lopes, espécie de
bomba atômica barbada.
Sapo de redação quer dizer o sujeito, amigo da
casa, que lá comparece todas as noites, e fila o
café, e faz daquilo o seu clube. Os sapos comentam
as notícias do dia, dão palpites, tosam nos
adversários e metem a ronca no próprio jornal.
Por que? Por amor à casa, pura e pia revolta pela
não introdução de melhoramentos que a eles
parecem indispensáveis.
Quem secretariava “O Estado” naquele tempo era
Nestor Rangel Pestana, talvez o mais admirável
tipo de homem que me foi dado encontrar na vida.
O equilíbrio mental e moral do Nestor! A natural
incorruptibilidade do Nestor! O inalterável bom
senso do Nestor! Tudo sob um belo aspecto físico
de homem - “um perfeito senador romano” –
como o definiu Isadora Duncan. Sua ação no jornal
era catalítica. Nestor agia por simples ato de
presença. Nada precisava fazer para que “O
Estado” se mantivesse sempre na linha e em

3
perfeita vertical. Bastava mostrar-se, comparecer
lá todas as noites e sentar-se á sua prodigiosa
secretaria americana, onde, com o correr das
semanas, a papelada ia se amontoando até
impedi-lo de trabalhar; vinha então uma limpeza a
fundo; tudo aquilo ia para os arquivos ou o lixo – e
nova montanha de papel começava a formar-se.
Os espíritos conformados nesse molde são em
regra conservadores. Quantas vezes nós, com a
leviandade e a irresponsabilidade dos sapos, não
propúnhamos coisas, mudanças, reformas no
jornal, que achávamos excessivamente pesadão ou
casacal, como dizia Maneco, Julinho Mesquita,
então no esplendor da mocidade, concordava, mas
com um suspiro: “Impossível. Nestor não quer”. E
se nós, tomados de revolta, pulávamos com a
alegação de que os donos do jornal eram eles e
não Nestor, um simples contratado, a invariável
resposta vinha sempre a mesma: “Sim, nós somos
os donos, mas Nestor é o secretário”.
Aquilo nos encantava, e mais nos amarrava aquele
toco. Eles os proprietários absolutos, não tinham
animo de impor. O celebre “Nestor não quer” fala

4
mais alto do que qualquer outra coisa da
superioridade daquele ambiente.
Julinho, naquela época o “Capitão”, vivia numa
permanente crise de entusiasmo, extravasada em
furiosos debates sobre a coisa publica. Muitas
vezes errado ( na nossa opinião) mas sempre
sincero, firme e violento. Gostavamos daquilo, da
sua “ferocidade” patriótica, já que para equilíbrio
tínhamos o Nestor. O consumo da palavra “pátria”
na sala do Julinho sempre foi grande. O
sereníssimo e ultra-filosofico Léo Vaz, lá da sua
mesa de canto na redação, apontava com a caneta,
quando o debate rugia: “ A sala da pátria está a
100 graus”.
Creio que foi aquele o período áureo de “O
ESTADO”.
Da sua bela fazenda de Louveira Julio Mesquita
“tele-presidia” o grupo com a sua inesquecível
superioridade de semi-deus aposentado. Nestor ali
no leme era a própria imagem da prudência e da
expediência mais alta. Julinho representava o
elemento fogo; era a mocidade; o futuro. Os sapos
faziam o papel do coro das tragédias gregas.

5
Muita gente lá fora rosnava, achava o jornal
“muito fechado” – e creio eu era realmente
fechadíssimo – mas não há negar que foi essa
feição que lhe deu tamanho prestígio na opinião
pública. Antes muito fechado que muito aberto. O
São Paulo da era perrepeana jamais tomou
partido em, qualquer coisa sem primeiro saber
como “ O Estado” pensava – para declarar-se, a
favor ou contra. Comuníssimo, e frequentíssimo,
na capital e no interior, a frase: “Vamos ver o que
“O Estado” diz”.
O jornal dava a sua opinião pela primeira nota das
“Notas e informações”. Fosse uma questão política
ou dum qualquer interesse geral, era ali que em
seu estilo tão puro e sintético Júlio Mesquita se
manifestava – e às vezes, creio, também Nestor.
As notas não eram muito frequentes, o que ainda
mais lhe aumentava o prestigio.
O coro grego, irreverentíssimo, formava rodinha
longe dos ouvidos do Nestor, e caçoava: “O
Estado” está convencido de que é centro do
sistema planetário; daí a cautela com que emite
opinião. Puro medo de que com um pequeno
deslise venha a perturbar-se a harmonia universal

6
e rebente alguma catástrofe cósmica”. Ah, o
cuidado de Nestor na escolha dos adjetivos! Para
que o jornal atribuísse a alguém a qualidade de
“distinto” ou “notável” era preciso muita coisa,
sobretudo que o sujeito o fosse realmente. As
palavras nestorianas só saiam depois de
meticulosamente pesadas em balança de alta
precisão.
Em 1918 ocorreu por lá curioso incidente. Por esse
empo era eu um dos sapos mais assíduos; não
dispensava o encontro diário com os dois Lopes,
com Julinho e Nestor. Irrompera a gripe, que breve
se tornou calamidade pública. A preocupação de
todos era uma só – a gripe. O Trabalho de todas as
conversas era um só – a gripe. O trabalho de
todos, um só – socorrer gripados. E toda gente ia
caindo de cama. O numero dos conhecidos mortos
começava a assustar.
As notícias na sala da redação passaram a ser de
um só tipo. “Chegou telefonada de Louveira. Júlio
Mesquita caiu”. E logo depois: “Sabem quem
caiu? Julinho. E Chiquinho também”. Já ninguém
dizia “cair com gripe”, ou “adoecer”, e sim, e só,
“cair”.

7
Certa noite, ao entrar na redação, não encontrei
Nestor na celebre mesa. Dez horas, onze horas e
nada. Telefonamos para sua residência. Tinha
caído também. Loo depois nos parece Plinio
Barreto, que vinha substituí-lo no secretariado.
Mas no dia seguinte cai Plinio e surge Pinheiro
Junior em substituição. Dois dias apenas esteve
Pinheiro a postos, porque também caiu. E como lá
em baixo, na administração, houvesse caído
Chiquinho, Ricardo Figueiredo o gerente, e seus
substitutos, aconteceu que em certo momento
todo o estado-maior do jornal ficou fora de
combate.
Lembro-me da noite em que só encontrei lá Filinto
Lopes. Esperamos até onze horas pelo substituto
de Pinheiro Junior. Ninguém apareceu. O jornal
estava acéfalo e ameaçado de não sair no dia
seguinte. Falta de quem o dirigisse. Lá na “Vala
Comum”, isto é, na sala geral dos redatores,
cosinheiros e repórteres, a brecha aberta pela
gripe fora de 50% ou mais e ali na sala do
secretário e desfalque era integral.
Uma ideia me ocorreu.

8
- Amigo Filinto, a situação é grave. O jornal está
sem cabeça e correndo o risco de paralização. E
não há a quem recorrer. Os donos caíram, e caíram
os gerentes e mais de metade do pessoal. Dos
sapos só restamos nós dois. Até Maneco, apesar
da sua grande barba, foi para a cama. Proponho
que assumamos o comando. Do contrário não
teremos “O Estado” na rua a parir de amanhã.
Filinto Lopes gravemente concordou.
- Pois então, continuei, tome conta da sala de
espera e receba lá quem vier com informes e
comunicações, que eu me sento á mesa do Nestor
e despacho o expediente.
E assim fizemos. Enquanto na sala de espera seu
Filinto recebia gente, eu na sala do Nestor abria o
famoso bauzinho da “matéria” e passava os olhos
naquilo selecionando o que tinha de sair no dia
seguinte, podando excessos, baixando os
adjetivos, rabiscando instruções. Depois zás!
Metia a papelada no tubo pneumático que por
baixo da terra levava tudo ás oficinas de
composição e impressão.

9
Para reforço da “Vala Comum” mobilizei vários
elementos de fora, como Leo Vaz e Alarico Caiuby,
que por esse tempo trabalhavam comigo na
“Revista do Brasil” – e como desfecho de
semelhante mobilização Léo Vaz entrou
definitivamente para o corpo de redatores do “O
Estado”. E fez carreira. Quando Nestor faleceu foi
quem substituiu como secretario do jornal; mais
tarde alçou-se ao posto supremo: diretor, em
substituição de Plinio Barreto. Hoje Léo Vaz tira o
chapéu na rua sempre que ouve a palavra “gripe”.
Nesse trágico momento da vida do “O Estado”
ocorreu um incidentezinho que tem sua
comicidade. Este jornal e o “Correio Paulistano”
sempre viveram às turras, órgãos que eram de
politicas adversas. Em havendo ensejo, um
dardejava contra o outro uns borrifos de veneno,
mas sempre com muita linha e elevação. Pois
bem: aproveitei-me do fato de estar sozinho e sem
controle á frente do jornal para umas alfinetadas
no governo. Com toda a gravidade, uma sabia
imitação do estilo de Júlio Mesquita, lancei uma
das tais notas entrelinhas sobre a “falta de
coordenação dos serviços oficiais de combate á

10
gripe”. Certo de que quem falava era o pobre Dr.
Júlio, lá na cama em Louveira, o “Correio” vibrou
de cólera: “Nem numa ocasião como esta, de
calamidade nacional, o grande órgão esquece os
seus rancores políticos!”. Eu impassível ignorei o
estrilo e continuei com as notas, numa verdadeira
“scie” sobre a tal falta de coordenação. Lá em
Louveira Júlio Mesquita folheava o jornal na cama
e danava: “Quem é que me anda em S. Paulo com
estas absurdas impertinências?” – e não podia
informar-se pelo telefone, porque em S. Paulo
todo mundo estava morre-não-morre nas unhas da
gripe. Durou uns dias o pega dos dois jornais,
muito a serio do lado do “Correio”, sempre a ver
naquilo o “dedo do Júlio”; e da minha parte com
piscadelas do olho esquerdo para seu Filinto.
Mas tudo tem fim. Ao cabo de duas ou três
semanas, indo á noite para a redação (era na Praça
Antônio Prado), esbarrei na rua Quinze com um
vulto encapotado, de cache-nez e gola erguida.
“Nestor!...” Sim, era ele que saia pela primeira vez,
depois de sua temporada na cama. Seguimos
juntos, Nestor a contar da doença e eu, com muito
medo da censura, a falar da nossa intromissão na

11
seara alheia. Mas Nestor apenas disse: “Bem que
andei desconfiado do milagre – todos na cama e o
jornal a sair. Foi ótimo” – e deu-me a absolvição.
Chegando á redação, passei-lhe a vara e
apresentei-lhe os meus elementos. Léo e Caiuby.
Dias depois foram surgindo os alcançados pela
gripe – menos os que morreram, evidentemente,
como caiu na asneira de o fazer o nosso querido
Adalgiso Ferreira.
Este fato revela o clima do “velho
órgão”. Tão grande a identidade de
todos com a alma do jornal,
tamanha a confiança reciproca, que
sem ordem de ninguém dois meros
filantes de café assumem o
comando do maior jornal do Brasil e
dirigem-no autocraticamente por
mais de uma quinzena. E finda a
“ocupação”, os donos e gerentes de
nada se queixam, antes agradecem

12
a lembrança e perdoam, sorrindo
aquela intrusão inédita nos anais da
imprensa. Porque nunca, jamais, em
país nenhum do mundo, ocorreu
uma coisa semelhante...
Tal era o “esprit de corps” do jornal de
Júlio Mesquita. Imagine-se agora o
espanto, o estarrecimento, e depois a
indignação quando em 1942 correu pela
cidade nova de que “O Estado” fora
invadido e ocupado pela polícia; e que a
polícia havia descoberto lá metralhadoras,
canhões, tanques, dreadnoughts,
submarinos e bombas atômicas – terríveis
armas com que “o pessoal do “Estado”
pretendia derrubar a ditadura que nos
vinha fazendo tão felizes...
E depois veio o exílio dos donos do jornal,
e vieram as ameaças e as pressões, e por

13
fim a compra á força feita pelo governo. A
sensação do público de S. Paulo foi de um
fim de tudo. E parecia na realidade o fim
de tudo, aquele coroamento da ocupação
militar que desde 1930 desabara sobre S.
Paulo. Entre todas as humilhações com
que a ditadura nos obsequiou para castigo
do levante de 1932, nenhuma tão
dolorosa como a que destruiu o ultimo
consolo que nos restava: “O Estado”
sempre de pé, sempre digno, sempre
mudo, mas de extraordinária eloquência
em sua mudez. Era nosso único meio de
protestar contra a onipotência getuliana.
E a gente paulista viveu três anos com um
peso no coração. O confisco do “O
Estado” não era ofensa dessas que saram.
Abriu em nossas almas uma ulcera
fagedênica. Já não podíamos protestar
contra a pilhagem de S. Paulo nem sequer

14
por meio da eloquente mudez de um
jornal...
Mas tudo tem fim, e hoje é com imensa
euforia que assistimos ao grande ato da
reparação. A entrega do seu a seu dono, a
devolução do “O Estado” aos Mesquitas,
vai ser o começo de cicatrização da ferida
aberta na alma paulista pela onda
predatória em que se transformou a
arrancada libertadora de 1930.
A Via Lactea possui em certo ponto uma falha, um
negror profundo que recebeu dos astrônomos o
nome de “Saco de Carvão”. Na longa e luminosa
via láctea do jornal de Júlio Mesquita, a fase de
1942 a 1945 aparecerá como um saco de carvão. O
velho órgão continuou a sair na sua forma física de
sempre, mas já sem alma, sem coração e se
cérebro. Vazio. Puro fantasma de Macbeth. E
assim foi até que o Ultimo Interventor, atendendo
ás instruções de um grande Ministro da Justiça,
restaurou-o no que fora, devolvendo-lhe a alma, o
coração e o cérebro. Quando Macedo Soares

15
assinou o decreto redentor, estava
simbolicamente pingando o ponto final na
ocupação naziforme da terra bandeirante.
“Faça-se justiça para que não pereça o mundo”! –
é o brocardo de incomparável beleza que os juízes
da República Judiciaria espanejaram e retiraram
do longo olvido. Abençoados sejam.
***Apud – MONTEIRO LOBATO / Na Antevespera
fls 281-290 / Editora Brasiliense Ltda. – Obras
completas de MONTEIRO LOBATO – Edição 1.951.
Comentário
Nesta lavra “O saco de carvão” o imortal MONTEIRO LOBATO narra o
acontecido ao longo de sua profícua existência, o nefasto episódio que
envolveu o jornal “O ESTADO DE SÃO PAULO”, durante o surto da “gripe
espanhola”, no qual seus diretores foram por ela contaminados. A
iniciativa de haver tomado as rédeas do jornal, diante do impacto desse
desastre o qual prostara seus responsáveis, naqueles dias tristes de
1.918, como relata, demonstra a tenacidade de um líder singular no
escopo da brasilidade.
Curitiba, 27 janeiro 2.019.
Meu primeiro artigo em jornal foi no “Correio
Paulistano” em 1913 – Guiomar Novaes, recém-
chegada do seu precoce triunfo no Conservatório
de Paris. Mas me passei logo para “O Estado”, que
ficou desde então sendo o meu jornal. Creio que a
principal razão da mudança estava na feição
oposicionista do velho órgão. Eu também nascera
na oposição, mais ou menos como aquele
espanhol que desembarcou em Santos e foi logo
perguntando: “Há governo nesta terra?
Responderam-lhe afirmativamente e o espanhol
empertigou-se: “pois então sou contra.”
Não conheço as razões do espanhol. Em mim foi
uma eterna revolta contra a desonestidade dos
governos. Meu amor por José Américo decorre da
sua intransigência e meu entusiasmo por Prestes
Maia vem da sua honestidade absoluta.
Honestidade relativa conheço muitas.
Fui sempre colaborador de “O Estado”, mas “free
lancer”, colaborador livre, dos que só aparecem
quando querem ou tem algo a dizer. Não sei
escrever por força de contratos ou encomendas. E

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naquele tempo me tornei “sapo” da redação, na
boa companhia dos dois grandes Lopes: Filinto, o
incomparável humorista, verdadeira reencarnação
de Mark Twain, e Maneco Lopes, espécie de
bomba atômica barbada.
Sapo de redação quer dizer o sujeito, amigo da
casa, que lá comparece todas as noites, e fila o
café, e faz daquilo o seu clube. Os sapos comentam
as notícias do dia, dão palpites, tosam nos
adversários e metem a ronca no próprio jornal.
Por que? Por amor à casa, pura e pia revolta pela
não introdução de melhoramentos que a eles
parecem indispensáveis.
Quem secretariava “O Estado” naquele tempo era
Nestor Rangel Pestana, talvez o mais admirável
tipo de homem que me foi dado encontrar na vida.
O equilíbrio mental e moral do Nestor! A natural
incorruptibilidade do Nestor! O inalterável bom
senso do Nestor! Tudo sob um belo aspecto físico
de homem - “um perfeito senador romano” –
como o definiu Isadora Duncan. Sua ação no jornal
era catalítica. Nestor agia por simples ato de
presença. Nada precisava fazer para que “O
Estado” se mantivesse sempre na linha e em

3
perfeita vertical. Bastava mostrar-se, comparecer
lá todas as noites e sentar-se á sua prodigiosa
secretaria americana, onde, com o correr das
semanas, a papelada ia se amontoando até
impedi-lo de trabalhar; vinha então uma limpeza a
fundo; tudo aquilo ia para os arquivos ou o lixo – e
nova montanha de papel começava a formar-se.
Os espíritos conformados nesse molde são em
regra conservadores. Quantas vezes nós, com a
leviandade e a irresponsabilidade dos sapos, não
propúnhamos coisas, mudanças, reformas no
jornal, que achávamos excessivamente pesadão ou
casacal, como dizia Maneco, Julinho Mesquita,
então no esplendor da mocidade, concordava, mas
com um suspiro: “Impossível. Nestor não quer”. E
se nós, tomados de revolta, pulávamos com a
alegação de que os donos do jornal eram eles e
não Nestor, um simples contratado, a invariável
resposta vinha sempre a mesma: “Sim, nós somos
os donos, mas Nestor é o secretário”.
Aquilo nos encantava, e mais nos amarrava aquele
toco. Eles os proprietários absolutos, não tinham
animo de impor. O celebre “Nestor não quer” fala

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mais alto do que qualquer outra coisa da
superioridade daquele ambiente.
Julinho, naquela época o “Capitão”, vivia numa
permanente crise de entusiasmo, extravasada em
furiosos debates sobre a coisa publica. Muitas
vezes errado ( na nossa opinião) mas sempre
sincero, firme e violento. Gostavamos daquilo, da
sua “ferocidade” patriótica, já que para equilíbrio
tínhamos o Nestor. O consumo da palavra “pátria”
na sala do Julinho sempre foi grande. O
sereníssimo e ultra-filosofico Léo Vaz, lá da sua
mesa de canto na redação, apontava com a caneta,
quando o debate rugia: “ A sala da pátria está a
100 graus”.
Creio que foi aquele o período áureo de “O
ESTADO”.
Da sua bela fazenda de Louveira Julio Mesquita
“tele-presidia” o grupo com a sua inesquecível
superioridade de semi-deus aposentado. Nestor ali
no leme era a própria imagem da prudência e da
expediência mais alta. Julinho representava o
elemento fogo; era a mocidade; o futuro. Os sapos
faziam o papel do coro das tragédias gregas.

5
Muita gente lá fora rosnava, achava o jornal
“muito fechado” – e creio eu era realmente
fechadíssimo – mas não há negar que foi essa
feição que lhe deu tamanho prestígio na opinião
pública. Antes muito fechado que muito aberto. O
São Paulo da era perrepeana jamais tomou
partido em, qualquer coisa sem primeiro saber
como “ O Estado” pensava – para declarar-se, a
favor ou contra. Comuníssimo, e frequentíssimo,
na capital e no interior, a frase: “Vamos ver o que
“O Estado” diz”.
O jornal dava a sua opinião pela primeira nota das
“Notas e informações”. Fosse uma questão política
ou dum qualquer interesse geral, era ali que em
seu estilo tão puro e sintético Júlio Mesquita se
manifestava – e às vezes, creio, também Nestor.
As notas não eram muito frequentes, o que ainda
mais lhe aumentava o prestigio.
O coro grego, irreverentíssimo, formava rodinha
longe dos ouvidos do Nestor, e caçoava: “O
Estado” está convencido de que é centro do
sistema planetário; daí a cautela com que emite
opinião. Puro medo de que com um pequeno
deslise venha a perturbar-se a harmonia universal

6
e rebente alguma catástrofe cósmica”. Ah, o
cuidado de Nestor na escolha dos adjetivos! Para
que o jornal atribuísse a alguém a qualidade de
“distinto” ou “notável” era preciso muita coisa,
sobretudo que o sujeito o fosse realmente. As
palavras nestorianas só saiam depois de
meticulosamente pesadas em balança de alta
precisão.
Em 1918 ocorreu por lá curioso incidente. Por esse
empo era eu um dos sapos mais assíduos; não
dispensava o encontro diário com os dois Lopes,
com Julinho e Nestor. Irrompera a gripe, que breve
se tornou calamidade pública. A preocupação de
todos era uma só – a gripe. O Trabalho de todas as
conversas era um só – a gripe. O trabalho de
todos, um só – socorrer gripados. E toda gente ia
caindo de cama. O numero dos conhecidos mortos
começava a assustar.
As notícias na sala da redação passaram a ser de
um só tipo. “Chegou telefonada de Louveira. Júlio
Mesquita caiu”. E logo depois: “Sabem quem
caiu? Julinho. E Chiquinho também”. Já ninguém
dizia “cair com gripe”, ou “adoecer”, e sim, e só,
“cair”.

7
Certa noite, ao entrar na redação, não encontrei
Nestor na celebre mesa. Dez horas, onze horas e
nada. Telefonamos para sua residência. Tinha
caído também. Loo depois nos parece Plinio
Barreto, que vinha substituí-lo no secretariado.
Mas no dia seguinte cai Plinio e surge Pinheiro
Junior em substituição. Dois dias apenas esteve
Pinheiro a postos, porque também caiu. E como lá
em baixo, na administração, houvesse caído
Chiquinho, Ricardo Figueiredo o gerente, e seus
substitutos, aconteceu que em certo momento
todo o estado-maior do jornal ficou fora de
combate.
Lembro-me da noite em que só encontrei lá Filinto
Lopes. Esperamos até onze horas pelo substituto
de Pinheiro Junior. Ninguém apareceu. O jornal
estava acéfalo e ameaçado de não sair no dia
seguinte. Falta de quem o dirigisse. Lá na “Vala
Comum”, isto é, na sala geral dos redatores,
cosinheiros e repórteres, a brecha aberta pela
gripe fora de 50% ou mais e ali na sala do
secretário e desfalque era integral.
Uma ideia me ocorreu.

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- Amigo Filinto, a situação é grave. O jornal está
sem cabeça e correndo o risco de paralização. E
não há a quem recorrer. Os donos caíram, e caíram
os gerentes e mais de metade do pessoal. Dos
sapos só restamos nós dois. Até Maneco, apesar
da sua grande barba, foi para a cama. Proponho
que assumamos o comando. Do contrário não
teremos “O Estado” na rua a parir de amanhã.
Filinto Lopes gravemente concordou.
- Pois então, continuei, tome conta da sala de
espera e receba lá quem vier com informes e
comunicações, que eu me sento á mesa do Nestor
e despacho o expediente.
E assim fizemos. Enquanto na sala de espera seu
Filinto recebia gente, eu na sala do Nestor abria o
famoso bauzinho da “matéria” e passava os olhos
naquilo selecionando o que tinha de sair no dia
seguinte, podando excessos, baixando os
adjetivos, rabiscando instruções. Depois zás!
Metia a papelada no tubo pneumático que por
baixo da terra levava tudo ás oficinas de
composição e impressão.

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Para reforço da “Vala Comum” mobilizei vários
elementos de fora, como Leo Vaz e Alarico Caiuby,
que por esse tempo trabalhavam comigo na
“Revista do Brasil” – e como desfecho de
semelhante mobilização Léo Vaz entrou
definitivamente para o corpo de redatores do “O
Estado”. E fez carreira. Quando Nestor faleceu foi
quem substituiu como secretario do jornal; mais
tarde alçou-se ao posto supremo: diretor, em
substituição de Plinio Barreto. Hoje Léo Vaz tira o
chapéu na rua sempre que ouve a palavra “gripe”.
Nesse trágico momento da vida do “O Estado”
ocorreu um incidentezinho que tem sua
comicidade. Este jornal e o “Correio Paulistano”
sempre viveram às turras, órgãos que eram de
politicas adversas. Em havendo ensejo, um
dardejava contra o outro uns borrifos de veneno,
mas sempre com muita linha e elevação. Pois
bem: aproveitei-me do fato de estar sozinho e sem
controle á frente do jornal para umas alfinetadas
no governo. Com toda a gravidade, uma sabia
imitação do estilo de Júlio Mesquita, lancei uma
das tais notas entrelinhas sobre a “falta de
coordenação dos serviços oficiais de combate á

10
gripe”. Certo de que quem falava era o pobre Dr.
Júlio, lá na cama em Louveira, o “Correio” vibrou
de cólera: “Nem numa ocasião como esta, de
calamidade nacional, o grande órgão esquece os
seus rancores políticos!”. Eu impassível ignorei o
estrilo e continuei com as notas, numa verdadeira
“scie” sobre a tal falta de coordenação. Lá em
Louveira Júlio Mesquita folheava o jornal na cama
e danava: “Quem é que me anda em S. Paulo com
estas absurdas impertinências?” – e não podia
informar-se pelo telefone, porque em S. Paulo
todo mundo estava morre-não-morre nas unhas da
gripe. Durou uns dias o pega dos dois jornais,
muito a serio do lado do “Correio”, sempre a ver
naquilo o “dedo do Júlio”; e da minha parte com
piscadelas do olho esquerdo para seu Filinto.
Mas tudo tem fim. Ao cabo de duas ou três
semanas, indo á noite para a redação (era na Praça
Antônio Prado), esbarrei na rua Quinze com um
vulto encapotado, de cache-nez e gola erguida.
“Nestor!...” Sim, era ele que saia pela primeira vez,
depois de sua temporada na cama. Seguimos
juntos, Nestor a contar da doença e eu, com muito
medo da censura, a falar da nossa intromissão na

11
seara alheia. Mas Nestor apenas disse: “Bem que
andei desconfiado do milagre – todos na cama e o
jornal a sair. Foi ótimo” – e deu-me a absolvição.
Chegando á redação, passei-lhe a vara e
apresentei-lhe os meus elementos. Léo e Caiuby.
Dias depois foram surgindo os alcançados pela
gripe – menos os que morreram, evidentemente,
como caiu na asneira de o fazer o nosso querido
Adalgiso Ferreira.
Este fato revela o clima do “velho
órgão”. Tão grande a identidade de
todos com a alma do jornal,
tamanha a confiança reciproca, que
sem ordem de ninguém dois meros
filantes de café assumem o
comando do maior jornal do Brasil e
dirigem-no autocraticamente por
mais de uma quinzena. E finda a
“ocupação”, os donos e gerentes de
nada se queixam, antes agradecem

12
a lembrança e perdoam, sorrindo
aquela intrusão inédita nos anais da
imprensa. Porque nunca, jamais, em
país nenhum do mundo, ocorreu
uma coisa semelhante...
Tal era o “esprit de corps” do jornal de
Júlio Mesquita. Imagine-se agora o
espanto, o estarrecimento, e depois a
indignação quando em 1942 correu pela
cidade nova de que “O Estado” fora
invadido e ocupado pela polícia; e que a
polícia havia descoberto lá metralhadoras,
canhões, tanques, dreadnoughts,
submarinos e bombas atômicas – terríveis
armas com que “o pessoal do “Estado”
pretendia derrubar a ditadura que nos
vinha fazendo tão felizes...
E depois veio o exílio dos donos do jornal,
e vieram as ameaças e as pressões, e por

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fim a compra á força feita pelo governo. A
sensação do público de S. Paulo foi de um
fim de tudo. E parecia na realidade o fim
de tudo, aquele coroamento da ocupação
militar que desde 1930 desabara sobre S.
Paulo. Entre todas as humilhações com
que a ditadura nos obsequiou para castigo
do levante de 1932, nenhuma tão
dolorosa como a que destruiu o ultimo
consolo que nos restava: “O Estado”
sempre de pé, sempre digno, sempre
mudo, mas de extraordinária eloquência
em sua mudez. Era nosso único meio de
protestar contra a onipotência getuliana.
E a gente paulista viveu três anos com um
peso no coração. O confisco do “O
Estado” não era ofensa dessas que saram.
Abriu em nossas almas uma ulcera
fagedênica. Já não podíamos protestar
contra a pilhagem de S. Paulo nem sequer

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por meio da eloquente mudez de um
jornal...
Mas tudo tem fim, e hoje é com imensa
euforia que assistimos ao grande ato da
reparação. A entrega do seu a seu dono, a
devolução do “O Estado” aos Mesquitas,
vai ser o começo de cicatrização da ferida
aberta na alma paulista pela onda
predatória em que se transformou a
arrancada libertadora de 1930.
A Via Lactea possui em certo ponto uma falha, um
negror profundo que recebeu dos astrônomos o
nome de “Saco de Carvão”. Na longa e luminosa
via láctea do jornal de Júlio Mesquita, a fase de
1942 a 1945 aparecerá como um saco de carvão. O
velho órgão continuou a sair na sua forma física de
sempre, mas já sem alma, sem coração e se
cérebro. Vazio. Puro fantasma de Macbeth. E
assim foi até que o Ultimo Interventor, atendendo
ás instruções de um grande Ministro da Justiça,
restaurou-o no que fora, devolvendo-lhe a alma, o
coração e o cérebro. Quando Macedo Soares

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assinou o decreto redentor, estava
simbolicamente pingando o ponto final na
ocupação naziforme da terra bandeirante.
“Faça-se justiça para que não pereça o mundo”! –
é o brocardo de incomparável beleza que os juízes
da República Judiciaria espanejaram e retiraram
do longo olvido. Abençoados sejam.
***Apud – MONTEIRO LOBATO / Na Antevespera
fls 281-290 / Editora Brasiliense Ltda. – Obras
completas de MONTEIRO LOBATO – Edição 1.951.
Comentário
Nesta lavra “O saco de carvão” o imortal MONTEIRO LOBATO narra o
acontecido ao longo de sua profícua existência, o nefasto episódio que
envolveu o jornal “O ESTADO DE SÃO PAULO”, durante o surto da “gripe
espanhola”, no qual seus diretores foram por ela contaminados. A
iniciativa de haver tomado as rédeas do jornal, diante do impacto desse
desastre o qual prostara seus responsáveis, naqueles dias tristes de
1.918, como relata, demonstra a tenacidade de um líder singular no
escopo da brasilidade.
Curitiba, 27 janeiro 2.019.