LOBATO, UM PATRIMLOBATO, UM PATRIMÔNIO DE TODOS NÓS
Pedro Bandeira *
Dentre tantos pioneirismos que marcaram a
trajetória de Monteiro Lobato, um dos principais
foi a revolução na oferta de literatura para o Brasil
de seu tempo. Como escritor, adaptador, tradutor
e editor, ele foi prolífico. Mexeu em tudo, para
todas as idades. Sua adaptação do Pinóquio,
do Carlo Collodi, é muito mais engraçada do
que o original, embora o escritor italiano só
viesse a cair em domínio público em 1961. O
trabalho de Lobato é tão primoroso que, na
Itália, deveriam oferecer a tradução de sua
adaptação: os italianinhos haveriam de
divertir-se a valer! Em Collodi, Gepeto fabrica
uma marionete, que logo se demonstra
falante e movente, mas Lobato foi além,
criando um primeiro capítulo primoroso, em
que Gepeto vai á mercearia de um certo
Mestre Cereja em busca de uma boa madeira
e... lembro-me de rolar de rir com as
peripécias que uma acha de madeira
2
endiabrada provoca, saltando e chocando-se
com as canelas do pobre Mestre Cereja! Que
delícia! Mas é claro que qualquer italianinho
ou quem quer que seja sempre poderá ler o
texto integral de Collodi.
Em 1930, Lobato lança Peter Pan, sua versão livre
do livro do inglês James Barrie, que só cairia em
domínio Público em 2008. E que versão! Tudo
em uma oralidade primorosa que encantaria os
inglesinhos de hoje. Mas é claro que o original do
Barrie continua intocado à disposição de quem
quiser. Lobato também nos ofertou o
divertidíssimo Dom Quixote das Crianças, fazendo
com que até um pirralho como eu acabasse, aos 12
anos, descobrindo dois grossos volumes
encadernados em couro na estante de um tio e
viesse a devorar os livrões do que eu imaginei na
ocasião ser uma “aventura de cavalaria”! mas o
original do primeiro romance da história continua
intocado por ai, com ilustrações de Gustave Doré,
de Picasso, para quem quiser deliciar-se.
E não foi por falta de esforço de Lobato que a
população brasileira continuaria no atoleiro no
3
analfabetismo por muitas décadas. Ele adaptou e
remexeu os Grimm, Andersen, Perrault e, ao
abrasileirar o imortal Robinson Crusoé, teve o
“cuidado” de omitir todas as partes em que a
solidão do náufrago demonstra ser também
sexual. Mas foi por causa dessa adaptação
primorosa que, na adolescência, procurei o
fantástico livrão do Daniel Defoe. Um portento, á
disposição de quem quiser ler, letra por letra.
Esse autor foi mesmo um formador de mim.
Não só “inventou” a literatura infantil que me
profissionalizou, como, em minha opinião, foi
o melhor contista da primeira metade do
século 20.
Seus contos de humor são signos de
Wodehouse, de Jerome K. Jerome. De
Mencken. Bugio Moqueado poderia ter sido
assinado por Edgar Alan Poe, se este fosse
brasileiro.
Fui formado pela literatura infantil desse autor. É
claro que fugi da gramática, da aritmética, da
geografia e da física que ele procurou ensinar, e,
mesmo não gostando dos xingamentos racistas de
4
Emília, o que me afastava e ainda me afasta de
Caçadas de Pedrinho é a ideia de matar uma linda
onça! Não posso aceitar que a maravilhosa
Narizinho, minha primeira paixão, aquela
delicadeza de mulherzinha, possa esfregar uma
faca de serrar pão no pelo macio da onça pintada,
enquanto Emília a perfura com um espeto de
frango.
A sorte é que as obras de Lobato continuam e
continuarão sendo publicadas em sua íntegra, com
gramáticas, aritméticas, onças mortas e
xingamentos preconceituosos pra quem quiser ler!
De minha parte, continuo lendo todo ele, e agora
posso mostrar minha paixão por seu mais lindo
livro: Reinações de narizinho, imaginando que
haja muitos velhos brasileiros como eu, que se
apaixonaram por esta personagem, minha
adaptação chama-se Narizinho, a Menina mais
Querida do Brasil. Lobato a aprovaria. Ou não?
Lembro-me de uma das primeiras Bienais do Livro
de que participei. A certa altura, uma menina com
seus 5 aninhos, passou por mim levando debaixo
do braço um livro que eu havia escrito. Fiquei
contente e comentei: “Que gracinha! Esse livrinho
5
é meu...” Ato contínuo, a deliciosa menininha
encolheu-se, abraçada ao livro, e me fuzilou com o
olhar: “Não! É meu!”
É claro! Aquele livrinho era dela inteiro, para
imaginá-lo como ela quisesse! Não era mais meu!
Com essa criança aprendi que um livro, depois de
publicado, não é mais de seu autor. Ele voa,
penetra nos cérebros de quem o lê, modifica-se lá
dentro, toma outros coloridos, outras dimensões
e torna-se infinito. É verdade: meus livros não são
mais meus, são dos meus leitores. Por isso, Lobato
não é mais dele, é muito nosso!
*Escritor.
Apud – Jornal “O ESTADO DE S. PAULO” / Aliás /
fls E 2 / DOMINGO, 17 DE MARÇO DE 2.019.
Curitiba, 24 março 2.019.ÔNIO DE TODOS NÓS
Pedro Bandeira *
Dentre tantos pioneirismos que marcaram a
trajetória de Monteiro Lobato, um dos principais
foi a revolução na oferta de literatura para o Brasil
de seu tempo. Como escritor, adaptador, tradutor
e editor, ele foi prolífico. Mexeu em tudo, para
todas as idades. Sua adaptação do Pinóquio,
do Carlo Collodi, é muito mais engraçada do
que o original, embora o escritor italiano só
viesse a cair em domínio público em 1961. O
trabalho de Lobato é tão primoroso que, na
Itália, deveriam oferecer a tradução de sua
adaptação: os italianinhos haveriam de
divertir-se a valer! Em Collodi, Gepeto fabrica
uma marionete, que logo se demonstra
falante e movente, mas Lobato foi além,
criando um primeiro capítulo primoroso, em
que Gepeto vai á mercearia de um certo
Mestre Cereja em busca de uma boa madeira
e... lembro-me de rolar de rir com as
peripécias que uma acha de madeira
2
endiabrada provoca, saltando e chocando-se
com as canelas do pobre Mestre Cereja! Que
delícia! Mas é claro que qualquer italianinho
ou quem quer que seja sempre poderá ler o
texto integral de Collodi.
Em 1930, Lobato lança Peter Pan, sua versão livre
do livro do inglês James Barrie, que só cairia em
domínio Público em 2008. E que versão! Tudo
em uma oralidade primorosa que encantaria os
inglesinhos de hoje. Mas é claro que o original do
Barrie continua intocado à disposição de quem
quiser. Lobato também nos ofertou o
divertidíssimo Dom Quixote das Crianças, fazendo
com que até um pirralho como eu acabasse, aos 12
anos, descobrindo dois grossos volumes
encadernados em couro na estante de um tio e
viesse a devorar os livrões do que eu imaginei na
ocasião ser uma “aventura de cavalaria”! mas o
original do primeiro romance da história continua
intocado por ai, com ilustrações de Gustave Doré,
de Picasso, para quem quiser deliciar-se.
E não foi por falta de esforço de Lobato que a
população brasileira continuaria no atoleiro no
3
analfabetismo por muitas décadas. Ele adaptou e
remexeu os Grimm, Andersen, Perrault e, ao
abrasileirar o imortal Robinson Crusoé, teve o
“cuidado” de omitir todas as partes em que a
solidão do náufrago demonstra ser também
sexual. Mas foi por causa dessa adaptação
primorosa que, na adolescência, procurei o
fantástico livrão do Daniel Defoe. Um portento, á
disposição de quem quiser ler, letra por letra.
Esse autor foi mesmo um formador de mim.
Não só “inventou” a literatura infantil que me
profissionalizou, como, em minha opinião, foi
o melhor contista da primeira metade do
século 20.
Seus contos de humor são signos de
Wodehouse, de Jerome K. Jerome. De
Mencken. Bugio Moqueado poderia ter sido
assinado por Edgar Alan Poe, se este fosse
brasileiro.
Fui formado pela literatura infantil desse autor. É
claro que fugi da gramática, da aritmética, da
geografia e da física que ele procurou ensinar, e,
mesmo não gostando dos xingamentos racistas de
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Emília, o que me afastava e ainda me afasta de
Caçadas de Pedrinho é a ideia de matar uma linda
onça! Não posso aceitar que a maravilhosa
Narizinho, minha primeira paixão, aquela
delicadeza de mulherzinha, possa esfregar uma
faca de serrar pão no pelo macio da onça pintada,
enquanto Emília a perfura com um espeto de
frango.
A sorte é que as obras de Lobato continuam e
continuarão sendo publicadas em sua íntegra, com
gramáticas, aritméticas, onças mortas e
xingamentos preconceituosos pra quem quiser ler!
De minha parte, continuo lendo todo ele, e agora
posso mostrar minha paixão por seu mais lindo
livro: Reinações de narizinho, imaginando que
haja muitos velhos brasileiros como eu, que se
apaixonaram por esta personagem, minha
adaptação chama-se Narizinho, a Menina mais
Querida do Brasil. Lobato a aprovaria. Ou não?
Lembro-me de uma das primeiras Bienais do Livro
de que participei. A certa altura, uma menina com
seus 5 aninhos, passou por mim levando debaixo
do braço um livro que eu havia escrito. Fiquei
contente e comentei: “Que gracinha! Esse livrinho
5
é meu...” Ato contínuo, a deliciosa menininha
encolheu-se, abraçada ao livro, e me fuzilou com o
olhar: “Não! É meu!”
É claro! Aquele livrinho era dela inteiro, para
imaginá-lo como ela quisesse! Não era mais meu!
Com essa criança aprendi que um livro, depois de
publicado, não é mais de seu autor. Ele voa,
penetra nos cérebros de quem o lê, modifica-se lá
dentro, toma outros coloridos, outras dimensões
e torna-se infinito. É verdade: meus livros não são
mais meus, são dos meus leitores. Por isso, Lobato
não é mais dele, é muito nosso!
*Escritor.
Apud – Jornal “O ESTADO DE S. PAULO” / Aliás /
fls E 2 / DOMINGO, 17 DE MARÇO DE 2.019.
Curitiba, 24 março 2.019.Pedro Bandeira *
Dentre tantos pioneirismos que marcaram a
trajetória de Monteiro Lobato, um dos principais
foi a revolução na oferta de literatura para o Brasil
de seu tempo. Como escritor, adaptador, tradutor
e editor, ele foi prolífico. Mexeu em tudo, para
todas as idades. Sua adaptação do Pinóquio,
do Carlo Collodi, é muito mais engraçada do
que o original, embora o escritor italiano só
viesse a cair em domínio público em 1961. O
trabalho de Lobato é tão primoroso que, na
Itália, deveriam oferecer a tradução de sua
adaptação: os italianinhos haveriam de
divertir-se a valer! Em Collodi, Gepeto fabrica
uma marionete, que logo se demonstra
falante e movente, mas Lobato foi além,
criando um primeiro capítulo primoroso, em
que Gepeto vai á mercearia de um certo
Mestre Cereja em busca de uma boa madeira
e... lembro-me de rolar de rir com as
peripécias que uma acha de madeira
2
endiabrada provoca, saltando e chocando-se
com as canelas do pobre Mestre Cereja! Que
delícia! Mas é claro que qualquer italianinho
ou quem quer que seja sempre poderá ler o
texto integral de Collodi.
Em 1930, Lobato lança Peter Pan, sua versão livre
do livro do inglês James Barrie, que só cairia em
domínio Público em 2008. E que versão! Tudo
em uma oralidade primorosa que encantaria os
inglesinhos de hoje. Mas é claro que o original do
Barrie continua intocado à disposição de quem
quiser. Lobato também nos ofertou o
divertidíssimo Dom Quixote das Crianças, fazendo
com que até um pirralho como eu acabasse, aos 12
anos, descobrindo dois grossos volumes
encadernados em couro na estante de um tio e
viesse a devorar os livrões do que eu imaginei na
ocasião ser uma “aventura de cavalaria”! mas o
original do primeiro romance da história continua
intocado por ai, com ilustrações de Gustave Doré,
de Picasso, para quem quiser deliciar-se.
E não foi por falta de esforço de Lobato que a
população brasileira continuaria no atoleiro no
3
analfabetismo por muitas décadas. Ele adaptou e
remexeu os Grimm, Andersen, Perrault e, ao
abrasileirar o imortal Robinson Crusoé, teve o
“cuidado” de omitir todas as partes em que a
solidão do náufrago demonstra ser também
sexual. Mas foi por causa dessa adaptação
primorosa que, na adolescência, procurei o
fantástico livrão do Daniel Defoe. Um portento, á
disposição de quem quiser ler, letra por letra.
Esse autor foi mesmo um formador de mim.
Não só “inventou” a literatura infantil que me
profissionalizou, como, em minha opinião, foi
o melhor contista da primeira metade do
século 20.
Seus contos de humor são signos de
Wodehouse, de Jerome K. Jerome. De
Mencken. Bugio Moqueado poderia ter sido
assinado por Edgar Alan Poe, se este fosse
brasileiro.
Fui formado pela literatura infantil desse autor. É
claro que fugi da gramática, da aritmética, da
geografia e da física que ele procurou ensinar, e,
mesmo não gostando dos xingamentos racistas de
4
Emília, o que me afastava e ainda me afasta de
Caçadas de Pedrinho é a ideia de matar uma linda
onça! Não posso aceitar que a maravilhosa
Narizinho, minha primeira paixão, aquela
delicadeza de mulherzinha, possa esfregar uma
faca de serrar pão no pelo macio da onça pintada,
enquanto Emília a perfura com um espeto de
frango.
A sorte é que as obras de Lobato continuam e
continuarão sendo publicadas em sua íntegra, com
gramáticas, aritméticas, onças mortas e
xingamentos preconceituosos pra quem quiser ler!
De minha parte, continuo lendo todo ele, e agora
posso mostrar minha paixão por seu mais lindo
livro: Reinações de narizinho, imaginando que
haja muitos velhos brasileiros como eu, que se
apaixonaram por esta personagem, minha
adaptação chama-se Narizinho, a Menina mais
Querida do Brasil. Lobato a aprovaria. Ou não?
Lembro-me de uma das primeiras Bienais do Livro
de que participei. A certa altura, uma menina com
seus 5 aninhos, passou por mim levando debaixo
do braço um livro que eu havia escrito. Fiquei
contente e comentei: “Que gracinha! Esse livrinho
5
é meu...” Ato contínuo, a deliciosa menininha
encolheu-se, abraçada ao livro, e me fuzilou com o
olhar: “Não! É meu!”
É claro! Aquele livrinho era dela inteiro, para
imaginá-lo como ela quisesse! Não era mais meu!
Com essa criança aprendi que um livro, depois de
publicado, não é mais de seu autor. Ele voa,
penetra nos cérebros de quem o lê, modifica-se lá
dentro, toma outros coloridos, outras dimensões
e torna-se infinito. É verdade: meus livros não são
mais meus, são dos meus leitores. Por isso, Lobato
não é mais dele, é muito nosso!
*Escritor.
Apud – Jornal “O ESTADO DE S. PAULO” / Aliás /
fls E 2 / DOMINGO, 17 DE MARÇO DE 2.019.
Curitiba, 24 março 2.019.