sábado, 4 de janeiro de 2014

EPISÓDIOS DA REVOLUÇÃO DE 1932, PUBLICADOS POR JOSÉ DE SOUZA MARTINS



Publicado em O Estado de S. Paulo [Caderno Metrópole],
segunda-feira, 19 de julho de 2010, p. C6.
1932
Em 1965, eu fazia pesquisa, em Amparo, quando o fazendeiro Jacinto Cintra me convidou para conhecer a fazenda de café de sua família há várias gerações. Como me entretivesse no terreiro, perguntei-lhe se era possível visitar a velha casa. Disse-me que sim, mas ele próprio não entraria. A sala ainda tinha o revestimento de papéis de parede muito antigos. O recinto não era tocado fazia muitíssimos anos. No centro da sala, o piso de madeira carbonizado tinha a marca ampla de uma fogueira. Na Revolução Constitucionalista de 1932, tropas vindas de Minas Gerais invadiram São Paulo e chegaram até Amparo. Ocuparam a fazenda e a residência da família. Sendo inverno, os soldados haviam feito uma fogueira dentro da casa para aquecer-se. A Revolução terminou e os Cintra voltaram à sua fazenda, mas não à sua casa. Em justo e sofrido protesto contra a violação do que, para os antigos, era o lugar sagrado da família, nunca mais haviam entrado nela.
Naquele tempo, os paulistas ainda sentiam no peito o desapreço contra São Paulo, que já se manifestara na Revolução de 1924 quando o presidente Artur Bernardes mandou bombardear a capital, argumentando que, sendo seu estado rico, os paulistas a construiriam de novo. Ali na fazenda dos Cintra a história fora interrompida. Era como se eu estivesse entrando na casa no dia seguinte ao do término da Revolução de 1932, as paredes ainda impregnadas das muitas amarguras da derrota.
Na sequência, fui a Cunha, no Alto Paraíba. Acompanhado de pessoa de família antiga na região, visitei o velho cemitério. Queria conhecer o lugar em que fora sepultado Paulo Virgínio, um caboclo de velha cepa, herói mítico da Revolução de 1932, exumado e transladado para o Mausoléu do Soldado Constitucionalista, no Ibirapuera. Fora cruelmente torturado com água fervente e executado por tropa da Marinha, após cavar a própria sepultura, porque afirmara ser paulista e, mesmo sob tortura, se negara a dizer onde se encontravam os combatentes de São Paulo.
Meu guia contou-me, então, anedota alegórica que corre por aquelas serras sobre outro morador, caipira rústico, alheio a tudo, sem a bravura de Paulo Virgínio. Surpreendido na roça por tropa legalista e perguntado se era legalista ou paulista, declarou-se paulista. Imediatamente, foi ordenado seu fuzilamento. Nesse meio tempo, avançaram os paulistas que, tendo visto o roceiro com a tropa inimiga, quiseram saber se era paulista ou legalista. Escaldado, declarou-se legalista, ouvindo, então, a sentença de que fosse fuzilado. Antes, porém, outro troço de legalistas fez os paulistas recuarem, caindo o caboclo novamente nas mãos de gente contrária. Perguntado se era legalista ou paulista, pensou um pouco e de sopetão dependurou-se num galho da árvore sob a qual se encontrava:
– Iéu?! Iéu sô fruita, ó!
* Professor Emérito da Universidade de São Paulo.
Dentre outros livros, autor de A Sociabilidade do Homem Simples (Contexto, 2008),
Sociologia da Fotografia e da Imagem (Contexto, 2008),
A Aparição do Demônio na Fábrica (Editora 34, 2008),
O Cativeiro da Terra (Contexto, 2010).

Jose de Souza Martins

Caro Coronel Mario Ventura,
Porque pode ser de seu interesse, repasso-lhe o e-mail de Caetano Gramani, que mora em São Carlos, cujo pai lutou na Revolução de 1932. Caetano Gramani pai teria completado 100 anos no ano passado. Tinha 19 anos quando se alistou nas forças da Revolução Constitucionalista. 
Há um episódio bonito na história desse Caetano da Revolução, que era filho de famoso farmacêutico de São Paulo, Gaetano Gramani, imigrante italiano, que está sepultado no Cemitério do Araçá. O velho Gaetano alarmou-se com a falta de notícias do filho alistado na Revolução. Mandou um telegrama para o comando revolucionário em São Paulo, mais ou menos nestes termos:
"Peço notícia sobre meu filho Caetano Gramani, que se alistou na Revolução. Gostaria de saber se está vivo. Se ele morreu na luta, peço informar-me para que eu o substitua na triancheira."
Meu genro, geólogo, é neto do avô da trincheira.
Caetano Gramani:   caetano@damazonica.com.br
Cordialmente, José de Souza Martins

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