Publicado em O Estado de S. Paulo [Caderno Metrópole],
segunda-feira, 19 de julho de
2010, p. C6.
1932
Em
1965, eu fazia pesquisa, em Amparo, quando o fazendeiro Jacinto Cintra me
convidou para conhecer a fazenda de café de sua família há várias gerações.
Como me entretivesse no terreiro, perguntei-lhe se era possível visitar a velha
casa. Disse-me que sim, mas ele próprio não entraria. A sala ainda tinha o
revestimento de papéis de parede muito antigos. O recinto não era tocado fazia
muitíssimos anos. No centro da sala, o piso de madeira carbonizado tinha a
marca ampla de uma fogueira. Na Revolução Constitucionalista de 1932, tropas
vindas de Minas Gerais invadiram São Paulo e chegaram até Amparo. Ocuparam a
fazenda e a residência da família. Sendo inverno, os soldados haviam feito uma
fogueira dentro da casa para aquecer-se. A Revolução terminou e os Cintra
voltaram à sua fazenda, mas não à sua casa. Em justo e sofrido protesto contra
a violação do que, para os antigos, era o lugar sagrado da família, nunca mais
haviam entrado nela.
Naquele
tempo, os paulistas ainda sentiam no peito o desapreço contra São Paulo, que já
se manifestara na Revolução de 1924 quando o presidente Artur Bernardes mandou
bombardear a capital, argumentando que, sendo seu estado rico, os paulistas a
construiriam de novo. Ali na fazenda dos Cintra a história fora interrompida.
Era como se eu estivesse entrando na casa no dia seguinte ao do término da
Revolução de 1932, as paredes ainda impregnadas das muitas amarguras da
derrota.
Na sequência, fui a Cunha, no Alto Paraíba.
Acompanhado de pessoa de família antiga na região, visitei o velho cemitério.
Queria conhecer o lugar em que fora sepultado Paulo Virgínio, um caboclo de
velha cepa, herói mítico da Revolução de 1932, exumado e transladado para o
Mausoléu do Soldado Constitucionalista, no Ibirapuera. Fora cruelmente
torturado com água fervente e executado por tropa da Marinha, após cavar a
própria sepultura, porque afirmara ser paulista e, mesmo sob tortura, se negara
a dizer onde se encontravam os combatentes de São Paulo.
Meu guia contou-me, então, anedota alegórica que corre
por aquelas serras sobre outro morador, caipira rústico, alheio a tudo, sem a
bravura de Paulo Virgínio. Surpreendido na roça por tropa legalista e
perguntado se era legalista ou paulista, declarou-se paulista. Imediatamente,
foi ordenado seu fuzilamento. Nesse meio tempo, avançaram os paulistas que,
tendo visto o roceiro com a tropa inimiga, quiseram saber se era paulista ou
legalista. Escaldado, declarou-se legalista, ouvindo, então, a sentença de que
fosse fuzilado. Antes, porém, outro troço de legalistas fez os paulistas
recuarem, caindo o caboclo novamente nas mãos de gente contrária. Perguntado se
era legalista ou paulista, pensou um pouco e de sopetão dependurou-se num galho
da árvore sob a qual se encontrava:
– Iéu?! Iéu sô fruita, ó!
* Professor Emérito da Universidade de São Paulo.
Dentre outros livros, autor de A Sociabilidade do Homem
Simples (Contexto, 2008),
Sociologia da
Fotografia e da Imagem (Contexto, 2008),
A Aparição do
Demônio na Fábrica (Editora 34, 2008),
O Cativeiro da
Terra (Contexto, 2010).
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Caro
Coronel Mario Ventura,
Porque pode ser de seu interesse, repasso-lhe o
e-mail de Caetano Gramani, que mora em São Carlos, cujo pai lutou na Revolução
de 1932. Caetano Gramani pai teria completado 100 anos no ano passado. Tinha 19
anos quando se alistou nas forças da Revolução Constitucionalista.
Há um episódio bonito na história desse Caetano da
Revolução, que era filho de famoso farmacêutico de São Paulo, Gaetano Gramani,
imigrante italiano, que está sepultado no Cemitério do Araçá. O velho Gaetano
alarmou-se com a falta de notícias do filho alistado na Revolução. Mandou um
telegrama para o comando revolucionário em São Paulo, mais ou menos nestes
termos:
"Peço notícia sobre meu filho Caetano Gramani,
que se alistou na Revolução. Gostaria de saber se está vivo. Se ele morreu na
luta, peço informar-me para que eu o substitua na triancheira."
Meu
genro, geólogo, é neto do avô da trincheira.
Caetano
Gramani: caetano@damazonica.com.br
Cordialmente,
José de Souza Martins
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