FILOSOFIA DO TEMPO
A
discussão sobre conflito de gerações é mais antiga que as pirâmides
do Egito.
O apressado relógio do tempo nunca tira férias, confirmando a certeza que o
tempo tem a idade do universo.
Os mais
velhos, naturalmente saudosistas, buscam argumentos nos chavões, exaltando e
defendendo seu tempo. E, sempre que possível, criticam o tempo de seus filhos e
netos:
- Ah ! No
meu tempo, papai nos educava pelo olhar !
Também
muito usado pela terceira idade, outro chavão polêmico:
- No meu
tempo, os filhos respeitavam os pais !
Outra
afirmação, discutível, mas com fundo de verdade:
- No meu
tempo, a família era unida !
Os pais
eram chefes de família com postura machista e autoritária. E o famoso educar
pelo olhar era o aviso que o espancamento estava a caminho, E as crianças,
cientes que estavam cometendo algum "delito", recuavam, atemorizadas
por aquele olhar que transmitia pavor educativo.
A questão
dos filhos respeitarem os pais, tem um componente a favor dos filhos, nunca bem
colocado, consubstanciado numa pergunta: o chamado respeitar tem conexão com o
verbo amar ?
Por tudo
que vivi na Jales pioneira, e depois na fase acadêmica e vida profissional,
ficou a certeza que os filhos de ontem, hoje e quase certo os de amanhã, sempre
amaram, amam e amarão seus pais. A dimensão do amor filial, em extensão e
totalidade, é infinita. O que mudou e jamais deixará de mudar, é a maneira dos
filhos manifestarem esse amor absolutamente verdadeiro
E o
terceiro chavão, negando que a família contemporânea não é unida como a de
Jales antiga, é totalmente verdadeiro e facilmente explicável.
Foi-se o
tempo que o homem era o chefe absoluto da família, porque ele nunca foi o chefe
funcional, mas sim, o líder social. No comando da casa e administração dos
filhos, a mulher sempre foi a chefe da família.
A maioria
dos programas sociais públicos são registrados em nome da mulher. A própria
justiça brasileira, costumeiramente, desempata os conflitos familiares em favor
da mulher.
E o que
aconteceu, em velocidade galopante, na Jales após a década de 60 ? A mulher
partiu para o mercado de trabalho, reduzindo, significativamente, seu tempo de
contato com a casa e com os filhos. A mulher melhorou a renda familiar,
trazendo mais conforto material aos filhos, mas deixou a família fragilizada.
Trabalhar fora representou um grande avanço na mente da mulher, deixando de ser
gata borralheira, chofer de fogão e geradora de prole numerosa.
Por outro
lado, os filhos não conseguem entender que o mundo já existia antes deles
nascerem. É muito forte na agenda adolescente imaginar que a vida começou com
eles. O conflito milenar de gerações é produto da contínua evolução da
sociedade. A vida muda todos os dias, porque todos dias coisas novas são
inventadas pela genialidade do ser humano.
Afinal,
quando é que a vida foi melhor em Jales ?
Eis aí o
grande enigma da existência, porque todos os tempos são bons, desde que as
pessoas saibam viver a especificidade de cada tempo em suas vidas.
Na
infância, antes e agora, vivemos o brinquedo, a busca da mãe, a segurança e o
modelo do pai, sempre na perspectiva de enfrentar e vencer todas adversidades.
Melanie Klein desvendou, com as tintas da sabedoria revolucionária, o quadro
traumático da infância.
E os
adultos, na idade da razão e senhores do poder, da força, da pretensão em
dominar a verdade, elaboram o código da vida, e, soberanamente, pilotam as
regras de convivência para todos.
Refletindo a
respeito do tempo, apaixonado de longa data pela filosofia, defendo a tese que
todos os tempos são bons, porque são os tempos que conhecemos. Será que o
jovem, romântico, politicamente correto em sua rebeldia na Jales pioneira,
empoeirada, conservadora, carente e precária, era feliz e não sabia ?
E a
criança jalesense, num tempo sem televisão, sem internet, sem tablete,
sem "rolê" combinado em shopping e, ainda por cima, vivendo a
pobreza de calçar uma "pragata", como era chamado o mais vendido
calçado brasileiro, será que conseguia ser feliz ?
E
juntando-se às demais carências daquele tempo, a vontade de tomar sorvete,
loucura de prazer gastronômico e santo remédio para vencer o calor sufocante da
terra. Será que essa criança também era feliz e sabia ?
Eis aí
indagações de dupla resposta, porque alegria, sentimento, vontade, desejo, interação
e realização, são instintos e emoções que as pessoas vivem em todos seus tempos
de vida, e elas, somente elas, sabem realmente a representação do passado em
suas lembranças.
Não é
justo os pais brigarem contra o tempo de seus filhos, na mesma proporção que os
filhos precisam respeitar, e tentar entender, o tempo de seus pais.
Então
explode, na Jales de hoje, a inevitável declaração de amor ao tempo, feita pelo
pessoal da terceira idade:
- No meu
tempo, tudo era melhor em Jales. A comida era caseira, não havia tempero
químico, fruta era mais doce, os córregos eram limpos,
as
pessoas se visitavam e havia muito respeito.
É triste
constatar, mas essa Jales não existe mais. E as pessoas mais idosas precisam
entender que "aquele tempo" se foi, respeitando o já citado relógio
inexorável do tempo.
Como não
conheceram a Jales tão querida e lembrada por seus pais e avós, os jovens
que vivem seu hoje, melhorado com diversas tecnologias, precisam respeitar a
lembrança de seus antepassados, até porque vivemos um agora de drogas rolando
por aí, violência nos bares e festas, motoristas voando nas ruas e outras
agitações que afetam o cotidiano, mostrando uma Jales com vários defeitos de
cidade grande e nenhuma lembrança da Vila Jales. As vizinhas não trocam mais
açúcar,
café,
alho, cebola e outros iguarias, tão normais nas donas de casa que se socorriam
das amigas.
Com o
tempo não se brinca. Quem não presta atenção no tempo vê a vida passar e não
consegue ser protagonista do espetáculo deslumbrante da existência. Torna-se um
mero coadjuvante desse filme que tem começo, meio e fim.
O tempo
já foi passado, hoje é presente e amanhã será futuro. O tempo não tem tempo de
parar no tempo !
A
garotada jalesense está no mundo sofisticado da internet, apertando botões o dia
inteiro, tatuagem solta, celular rolando, boné virado, bermudão e aquela
vontade imensa de gritar: eta mundo bão !
Esse
tempo também será passado um dia e os filhos da garotada de hoje viverão outro
tempo, gerando, com certeza desaprovação de seus pais e avós. A vida é assim:
hoje, aquela rebeldia sem causa: amanhã, senhoras e senhores conservadores.
A crônica
de hoje, na verdade um artigo, nasceu de uma solicitação de antiga moradora de
Jales, preocupada com o conflito de gerações. E no
e-mail,
enfatiza que " muita gente em Jales, ainda viva, foi feliz na infância, na
juventude, na maturidade e agora, na terceira idade, sustentando que a
felicidade está dentro da gente. E completa: ser feliz é arrumar um lugar nesse
mundo e dar um jeito em nossas emoções ".
Gostaria
de oferecer este artigo ao grande professor, cidadão, amigo e exemplo Carlos
Antônio Prata, o conhecido e querido Pratinha, de quem lembrei, mais uma vez,
quando falei da "pragata", calçado das crianças mais pobres da Jales
antiga.
Um
amiguinho meu vinha descalço à escola, com os pés sempre machucados, um quadro
de tristeza inesquecível na infância.
Certo
dia, Pratinha viu o menino e, assim como eu, se comoveu com seus pés descalços
e feridos. Pratinha me chamou num canto, com um pedaço de barbante e pediu que
eu medisse o pé do garoto, coisa que fiz imediatamente.
No dia
seguinte, Pratinha me chamou e entregou um par de alpargatas roda, zero bala,
para dar ao menino e manter o presente, comprado do próprio bolso, no
anonimato..
Entreguei
a "pragata" e o menino começou chorar de emoção. Era a primeira vez
na vida que vestia um calçado. Saindo com o garoto, encontro com .Pratinha, e
ele se aproxima. elogiando o sapato do menino, não contendo as lágrimas.
Desculpe-me,
Pratinha, segurei até hoje aquele gesto de bondade humana. Mas como você me
proporcionou uma das maiores emoções na Jales que vivi, preciso tornar público,
para sua sempre bela Maurita, seus filhos, netos e
todos seus amigos, aquele gesto nobre de um grande homem.
Não
existe conflito de gerações, quando todas as gerações tem gente como o
Professor Pratinha !
Roberto
Gonçalves é Cientista Político
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