terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

CONFLITO DE GERAÇOES - ROBERTO GONÇALVES



                  FILOSOFIA  DO  TEMPO

A discussão sobre conflito de gerações é mais antiga que as pirâmides 
do Egito. O apressado relógio do tempo nunca tira férias, confirmando a certeza que o tempo tem a idade do universo.
Os mais velhos, naturalmente saudosistas, buscam argumentos nos chavões, exaltando e defendendo seu tempo. E, sempre que possível, criticam o tempo de seus filhos e netos:
- Ah ! No meu tempo, papai nos educava pelo olhar !
Também muito usado pela terceira idade, outro chavão polêmico:
- No meu tempo, os filhos respeitavam os pais !
Outra afirmação, discutível, mas com fundo de verdade:
- No meu tempo, a família era unida !
Os pais eram chefes de família com postura machista e autoritária. E o famoso educar pelo olhar era o aviso que o espancamento estava a caminho, E as crianças, cientes que estavam cometendo algum "delito", recuavam, atemorizadas por aquele olhar que transmitia pavor educativo.
A questão dos filhos respeitarem os pais, tem um componente a favor dos filhos, nunca bem colocado, consubstanciado numa pergunta: o chamado respeitar tem conexão com o verbo amar ?
Por tudo que vivi na Jales pioneira, e depois na fase acadêmica e vida profissional, ficou a certeza que os filhos de ontem, hoje e quase certo os de amanhã, sempre amaram, amam e amarão seus pais. A dimensão do amor filial, em extensão e totalidade, é infinita. O que mudou e jamais deixará de mudar, é a maneira dos filhos manifestarem esse amor absolutamente verdadeiro
E o terceiro chavão, negando que a família contemporânea não é unida como a de Jales antiga, é totalmente verdadeiro e facilmente explicável.
Foi-se o tempo que o homem era o chefe absoluto da família, porque ele nunca foi o chefe funcional, mas sim, o líder social. No comando da casa e administração dos filhos, a mulher sempre foi a chefe da família.
A maioria dos programas sociais públicos são registrados em nome da mulher. A própria justiça brasileira, costumeiramente, desempata os conflitos familiares em favor da mulher.
E o que aconteceu, em velocidade galopante, na Jales após a década de 60 ? A mulher partiu para o mercado de trabalho, reduzindo, significativamente, seu tempo de contato com a casa e com os filhos. A mulher melhorou a renda familiar, trazendo mais conforto material aos filhos, mas deixou a família fragilizada. Trabalhar fora representou um grande avanço na mente da mulher, deixando de ser gata borralheira, chofer de fogão e geradora de prole numerosa.
Por outro lado, os filhos não conseguem entender que o mundo já existia antes deles nascerem. É muito forte na agenda adolescente imaginar que a vida começou com eles. O conflito milenar de gerações é produto da contínua evolução da sociedade. A vida muda todos os dias, porque todos dias coisas novas são inventadas pela genialidade do ser humano.
Afinal, quando é que a vida foi melhor em Jales ?
Eis aí o grande enigma da existência, porque todos os tempos são bons, desde que as pessoas saibam viver a especificidade de cada tempo em suas vidas.
Na infância, antes e agora, vivemos o brinquedo, a busca da mãe, a segurança e o modelo do pai, sempre na perspectiva de enfrentar e vencer todas adversidades. Melanie Klein desvendou, com as tintas da sabedoria revolucionária, o quadro traumático da infância. 
E os adultos, na idade da razão e senhores do poder, da força, da pretensão em dominar a verdade, elaboram o código da vida, e, soberanamente, pilotam as regras de convivência para todos.
Refletindo a respeito do tempo, apaixonado de longa data pela filosofia, defendo a tese que todos os tempos são bons, porque são os tempos que conhecemos. Será que o jovem, romântico, politicamente correto em sua rebeldia na Jales pioneira, empoeirada, conservadora, carente e precária, era feliz e não sabia ?
E a criança jalesense, num tempo sem televisão, sem internet, sem tablete, sem "rolê" combinado em shopping e, ainda por cima, vivendo a pobreza de calçar uma "pragata", como era chamado o mais vendido calçado brasileiro, será que conseguia ser feliz ?
E juntando-se às demais carências daquele tempo, a vontade de tomar sorvete, loucura de prazer gastronômico e santo remédio para vencer o calor sufocante da terra. Será que essa criança também era feliz e sabia ?
Eis aí indagações de dupla resposta, porque alegria, sentimento, vontade, desejo, interação e realização, são instintos e emoções que as pessoas vivem em todos seus tempos de vida, e elas, somente elas, sabem realmente a representação do passado em suas lembranças.
Não é justo os pais brigarem contra o tempo de seus filhos, na mesma proporção que os filhos precisam respeitar, e tentar entender, o tempo de seus pais.
Então explode, na Jales de hoje, a inevitável declaração de amor ao tempo, feita pelo pessoal da terceira idade:
- No meu tempo, tudo era melhor em Jales. A comida era caseira, não havia tempero químico, fruta era mais doce, os córregos eram limpos,
as pessoas se visitavam e havia muito respeito.
É triste constatar, mas essa Jales não existe mais. E as pessoas mais idosas precisam entender que "aquele tempo" se foi, respeitando o já citado relógio inexorável do tempo.
Como não conheceram a Jales tão querida  e lembrada por seus pais e avós, os jovens que vivem seu hoje, melhorado com diversas tecnologias, precisam respeitar a lembrança de seus antepassados, até porque vivemos um agora de drogas rolando por aí, violência nos bares e festas, motoristas voando nas ruas e outras agitações que afetam o cotidiano, mostrando uma Jales com vários defeitos de cidade grande e nenhuma lembrança da Vila Jales. As vizinhas não trocam mais açúcar,
 café, alho, cebola e outros iguarias, tão normais nas donas de casa que se socorriam das amigas.
Com o tempo não se brinca. Quem não presta atenção no tempo vê a vida passar e não consegue ser protagonista do espetáculo deslumbrante da existência. Torna-se um mero coadjuvante desse filme que tem começo, meio e fim.
O tempo já foi passado, hoje é presente e amanhã será futuro. O tempo não tem tempo de parar no tempo !
A garotada jalesense está no mundo sofisticado da internet, apertando botões o dia inteiro, tatuagem solta, celular rolando, boné virado, bermudão e aquela vontade imensa de gritar: eta mundo bão !
Esse tempo também será passado um dia e os filhos da garotada de hoje viverão outro tempo, gerando, com certeza desaprovação de seus pais e avós. A vida é assim: hoje, aquela rebeldia sem causa: amanhã, senhoras e senhores conservadores.
A crônica de hoje, na verdade um artigo, nasceu de uma solicitação de antiga moradora de Jales, preocupada com o conflito de gerações. E no
e-mail, enfatiza que " muita gente em Jales, ainda viva, foi feliz na infância, na juventude, na maturidade e agora, na terceira idade, sustentando que a felicidade está dentro da gente. E completa: ser feliz é arrumar um lugar nesse mundo e dar um jeito em nossas emoções ".
Gostaria de oferecer este artigo ao grande professor, cidadão, amigo e exemplo Carlos Antônio Prata, o conhecido e querido Pratinha, de quem lembrei, mais uma vez, quando falei da "pragata", calçado das crianças mais pobres da Jales antiga.
Um amiguinho meu vinha descalço à escola, com os pés sempre machucados, um quadro de tristeza inesquecível na infância.
Certo dia, Pratinha viu o menino e, assim como eu, se comoveu com seus pés descalços e feridos. Pratinha me chamou num canto, com um pedaço de barbante e pediu que eu medisse o pé do garoto, coisa que fiz imediatamente.
No dia seguinte, Pratinha me chamou e entregou um par de alpargatas roda, zero bala, para dar ao menino e manter o presente, comprado do próprio bolso, no anonimato..
Entreguei a "pragata" e o menino começou chorar de emoção. Era a primeira vez na vida que vestia um calçado. Saindo com o garoto, encontro com .Pratinha, e ele se aproxima. elogiando o sapato do menino, não contendo as lágrimas.
Desculpe-me, Pratinha, segurei até hoje aquele gesto de bondade humana. Mas como você me proporcionou uma das maiores emoções na Jales que vivi, preciso tornar público, para sua sempre  bela Maurita, seus filhos, netos e todos seus amigos, aquele gesto nobre de um grande homem.
Não existe conflito de gerações, quando todas as gerações tem gente como o Professor Pratinha !

Roberto Gonçalves é Cientista Político

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