domingo, 25 de outubro de 2015

BIANCA MORANDI TELLES RUDGE MORRE, AOS 107 ANOS, EM 24 DE OUTUBRO DE 2015.

Homenagem a uma história de luta

Bianca Morandi Telles Rudge é, aos 106 anos, condecorada pela participação na Revolução Constitucionalista de 32; emoção marcou a cerimônia

Malavolta Jr.
Na época, Bianca mobilizou mulheres em torno da causa
Todo o comando de Policiamento Militar de Bauru - Militar, Rodoviário, Bombeiros e até o Samu - esteve representado ontem pela manhã, no 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior. Houve uma cerimônia singela, mas bastante especial, para outorgar a medalha constitucionalista a Bianca Morandi Telles Rudge, viúva de Antonio Telles Nunes, que lutou pelo Estado de São Paulo, em 1932 na Revolução Constitucionalista. Ela mesma, uma participante ativa do movimento que deu reconhecimento às mulheres e a oportunidade de votar.
São Paulo não saiu vencedor do  levante  armado ocorrido no Brasil entre os meses de julho e outubro de 1932 (leia abaixo), onde o Estado visava a derrubada do Governo Provisório de Getúlio Vargas e a promulgação de uma nova Constituição para o Brasil, mas a luta não foi esquecida. Tanto que, em 9 de julho, sempre é feriado estadual e, anos depois, o próprio Getúlio Vargas acabaria se matando. Por sinal, hoje faz 60 anos do suicídio de Getúlio Vargas.
De São Paulo, veio William Mascarenhas, chefe do “Estado Maior Constitucionalista”, entidade que mantém viva a história da luta armada paulista que ressaltou o fato de ela ser remanescente, a mulher de ex-combatente mais idosa ainda viva.
História de amor
Também vieram da capital familiares de dona Bianca, que hoje mora em Bauru, com a filha Maria Helena Rudge Guimarães. É ela quem conta emocionada, ao lado da neta Ana Helena Rudge Guimarães, a história da mãe. Mais do que ser a noiva que rezava para que o noivo voltasse da guerra, dona Bianca foi também engajada na luta constitucionalista.
Filha de imigrantes italianos, criada em Santos, ainda jovem, foi para São Paulo e aos 20 anos estava noiva quando viu da janela da sua casa, na praça da República, centenas de jovens se alistarem para combater a favor da causa constitucionalista. Entre eles estava o seu noivo. Se a revolução começou em 9 de julho, três dias depois, dia 12 ela já se despedia de Antonio que partia para a luta armada.
Coube a ela então se mobilizar. Não ficou em casa esperando. Reuniu-se com um grupo de mulheres no antigo Cine República da capital. Ali, mães, irmãs, esposas de outros combatentes costuravam uniformes, gorros para os homens e, ainda teciam ações de como criar os filhos pequenos sem os jovens que estavam na luta. Além disso, dona Bianca doou todas as joias que possuía, muitas delas de família, em favor da causa.
Mas a ida de Antonio não teve final trágico. O noivo voltou vivo da disputa. Dois anos depois eles se casaram e ficaram juntos até 1975, quando ele morreu. Até que em 2008, já próxima dos 100 anos, ela  foi morar na casa da filha Maria Helena, que estava estabelecida em Bauru. 
Voto feminino
Ontem, dona Bianca, que está lúcida, mas com limitações por causa da idade, viu a emoção dos familiares, afinal foi um dia de festa com a presença de dois filhos dela, além de Maria Helena, Antonio Carlos estava presente, netos e bisnetos. Todos lembrando as histórias que ao longo da vida ela gostava de contar.
“O interessante é que ela sempre contou e valorizou como o levante foi organizado. Não houve baderna, houve sim planejamento. Foi um exemplo de como se pode lutar por uma causa de forma organizada”, fez questão de lembrar a neta, Ana Helena.
Além disso, Ana Helena com orgulho lembrou também que a participação feminina foi decisiva, tanto que “foi depois disso que as mulheres conseguiram se igualar aos homens e alguns anos depois, contava minha avó, puderam votar.”

Um pouco do que foi a revolução
A Revolução foi um levante armado da população de São Paulo que, entre os meses de julho e outubro de 1932, combateu as tropas do governo federal. A reivindicação central do movimento era a destituição do governo provisório de Getúlio Vargas, que dois anos antes assumira o poder no país, fechando o Congresso Nacional e abolindo a Constituição. Por isso mesmo o levante é chamado de “constitucionalista”, afinal, São Paulo pedia a promulgação de uma nova Constituição.
A empreitada militar paulista foi mal sucedida: as tropas do Estado perderam a guerra, sufocadas pela superioridade numérica e técnica do Exército Brasileiro. Mas sua luta não foi completamente em vão: dois anos depois, em 1934 o governo central promulgava uma nova Constituição, mostrando que a revolta conseguira, ainda que tardiamente, atingir seu principal objetivo declarado. Nessa época, também as mulheres conseguiram o direito ao voto.

Nenhum comentário: