O DELÍRIO DO “ENCILHAMENTO”
O encilhamento
endoidecera meio-mundo. Em que data
precisamente aquilo começou, pouco o sabiam. Entretanto, ninguém ignorava que
nascera com o advento, dos homens da República. Foi depois de 15 de Novembro,
durante o governo provisório, que se iniciaram
as loucuras da Bolsa. E a epidemia contagiara toda a gente. O vírus entontecera muita cabeça sensata.
Todos jogavam: desde o
homem formado até o humilde funcionário
público, desde o negociante apatacado até o modesto vendedor ambulante. Os zangões
e os corretores enxameavam as ruas centrais, principalmente o trecho final da
Rua da Alfândega até à “Primeira de Março”, prolongando-se pela Rua da
Candelária e enchendo de vozerio as imediações do prédio do Banco do Brasil.
As fortunas fantásticas
pululavam, como por milagre, da noite para o dia. Faustosas carruagens
estacionavam no Largo de São Francisco de Paula, à espera dos novos milionários
do dia, deslizando, depois pela Rua do Lavradio e bairro do Catete, numa luzida
ostentação embasbacante de riqueza inesperada, na descrição do Visconde de
Taunay.
“Cada cidadão foi um incorporador e diretor de bancos e
companhias; quem ontem não tinha capacidade para dirigir uma bodega nas mais
limitadas proporções, viu-se de improviso arvorado em diretor de altas
finanças; cada cidadão descurou do seu ofício para jogar, e a praça do Rio de
Janeiro metamorfoseou-se num abrir e fechar de olhos em um Casino de Monte
Carlo, com a diferença, porém, de haver em Mônaco um só príncipe e muito regime
no Casino, e aqui serem muitos os príncipes e abundarem as falcatruas”.
Que significa a palavra “encilhamento”? Com este termo, muito
usual nos esportes de corridas de cavalos, era conhecido o local onde a última
demão se aplicava aos animais, antes de atirá-los à raia da disputa e forçá-los
á vitória no páreo, elucida o Visconde de Taunay.
O vulgo, numa adaptação
“sui-generis”, criara o neologismo feliz. Como campeasse uma jogatina
desenfreada nas barracas onde, geralmente, se encilhavam os cavalos, no jóquei
e as apostas e os palpites chegassem ao auge, assim passou a ser denominada,
popularmente, a era das especulações financeiras desenfreadas, que começara em
1890 e prolongara-se até quase 92... O encilhamento!
Iniciara-se depois da assinatura do decreto de 17 de
janeiro de 1890, quando o governo
permitira que os bancos nacionais emitissem, a torto e a direito, sobre
apólices, isto é, papel garantindo papel, sem qualquer lastro metálico.
Abriu-se ainda o precedente de que as sociedades anônimas poderiam ser
constituídas com todas as facilidades, isentando as suas diretorias de qualquer
responsabilidade perante as assembleias gerais.
“Essa isenção,
esclarece o sr. Pedro Calmon, favorecia o abuso, a fraude, até o crime. Pelos
negócios fantásticos que burlavam os incautos, de maneira a suceder uma
falência escandalosa a uma emissão de má fé, de títulos da Bolsa... A jogatina
empolgou a praça, asfixiou o comércio, corrompeu os costumes, iludiu o povo, como
se fora o sinal de uma riqueza estável e milagrosa, desequilibrou as finanças
do Estado...”
A coisa era muito fácil
de compreensão e o povo incrédulo, sem se aperceber, ia, no entanto, absorvido
pelo engodo.
Corria qualquer um ao
Ministério e obtinha, sem mais aquela, uma “concessão”, como por exemplo para explorar terras na Amazônia, ou no
Araguaia, coisa absolutamente fantástica. A publicidade era feita de boca em
boca, ingenuamente. Estavam todos certos de que o futuro financeiro de cada
qual estava naquelas colonizações...
No dia seguinte, o
concessionário, que apenas gastara a
estampilha do requerimento, vendia o privilégio a uma companhia incorporada que passava a vender as novas
ações. Os detentores desses títulos empurravam-nos para diante com ágio. Os
compradores revendiam-nos com vantagens. E assim por diante. A coisa tomava
vulto alarmante.
“Os zangões e os
corretores de praça imaginavam e arquitetavam as tramas criminosas, dos planos fantasiosos, em que se envolviam
os negocistas.
A Companhia Geral de
Estradas de Ferro e o Banco de Crédito Universal foram as maiores e as mais
escandalosas negociatas da época do “encilhamento”.
As falências, como um
castelo de cartas, desmoronavam-se ruidosamente, envolvendo milionários da
véspera. E de um momento para outro, os
que eram ricos ficavam pobres e os que eram pobres acordavam ricos...
Rui Barbosa, então
Ministro da Fazenda, chegou a pedir demissão sete vezes...
Os bancos continuavam a
emitir por faz e por nefas. Viam-se as mais variadas espécies de cédulas em
circulação: “novas, faceiras, coloridas,
com estampas de mulheres bonitas e com símbolos artísticos...”
Começaram as cenas mais
ridículas e espetaculares, praticadas por uma sociedade heteróclita de novos
ricos, a exibirem, em público, um fausto a que ainda não estavam acostumados e
para o qual não se haviam preparado...
As ostentações eram
espaventosas. O assunto do dia, nas rodas dos elegantes e dos novos ricos,
circulava em torno das amostras de riqueza de cada um. Falava-se nas gorjetas
que os nababos distribuíam, displicentemente. O Visconde de Taunay narra
episódios curiosíssimos.
De certa dama de um
desses aventureiros da Bolsa, contava-se, como coisa embasbacante, que dera de
espórtula a um cocheiro, por falta de troco, uma nota de cem mil reis!
De outro
“nouveau-riche”, como fato espantoso,
relatava-se a história quixotesca de que mandara escanhoar um dos seus
empregados, possuidor de comprida barba, dando-lhe, para tal, a importância de
500$000!
Os objetos dos menores
preços, quando comprados por essa fauna de ricaços, centuplicavam de valor.
Qualquer corrida de
tilburi, por menor que fosse, custava 5$000!
Aquele estado de coisas
não poderia perdurar por muito tempo. Era tudo muito artificial para ter maior
duração.
A grita nascera, criara
volume e esparramara-se.
Os comentários
alargavam-se, escandalosamente. O diz-que-diz de rua era dos mais
desconcertantes.
Onde já se vira tanta
roubalheira? E logo sob as vistas
complacentes do próprio governo, que animava e incrementava aquele bacanal de lucros?
O resultado não se fez
esperar. O tiro de morte no “encilhamento” estava para muito próximo.
Em novembro de 91, uma
bala no zimbório da Candelária resolveria a situação. Recorramos ao testemunho de Rodrigo Otávio.
Deodoro começara a
enfrentar uma onda séria de descontentamento, fomentada pela oposição.
Em 23 de novembro, ao
amanhecer, houve um movimento de deposição. A marinha, tendo à frente Custódio
de Melo, encabeçou a masorca. Um tiro de canhão alcançou a torre da igreja. O
povo, ao meio-dia, afluíra em massa até o Arsenal. Uns armados, outros de mãos
abanando. Tomaram de assalto, entre aclamações e vivas, o Paço Municipal, onde
seria proclamada a destituição de Deodoro. Estavam todos na sala do Intendente
e Emílio de Menezes era visto na frente e mostrava-se dos florianistas mais
exaltados.
Lícinio Cardoso, antigo
oficial do Exército e lente das Escolas Politécnicas e Militar, propôs que se
lavrasse uma ata de deposição do Presidente.
Em seguida, o coronel
Carneiro da Fontoura discursou, expondo a situação. Assumiu a presidência da
reunião e convidou Rodrigo Otávio para secretariá-la.
Correra a notícia
alvoroçada de que Deodoro já se havia retirado do Palácio. Ali se achava
Floriano, que assumira o Govêrno.
Foi redigida, ao final,
a ata por Rodrigo Otávio, em papel de carta do “Conselho de Intendência
Municipal do Destrito Federal – Intendência de Obras”, a qual foi assinada
pelos presentes.
“Chegado a Intendência
o sr. Coronel Fontoura, ao meio-dia, declarou que tendo sido chamado pelo cidadão
Presidente da República, Marechal Floriano Peixoto, este lhe encarregra de
tomar a responsabilidade dos negócios municipais e o povo subiu acompanhando o
coronel Fontoura, à sala das sessões da
Municipalidade. Aí o coronel Fontoura quis sentar-se na cadeira aonde, durante
14 meses, defendeu os direitos e os interesses dos municípios e da
municipalidade; o povo, porém, convidou-o a tomar assento na cadeira
presidencial.
“O cidadão Dr.
Cândido Barata tomou a palavra e em
brilhante alocução saudou o Cidadão Presidente da República e o Presidente da
Intendência Coronel Fontoura.
“Por sua vez o coronel
Fontoura declarou qual foi o seu procedimento, pois sabendo que os demais
intendentes tnham abandonado o seu posto, viu cumprir o seu dever engtregando a
Intendência a quem de direito. Foi encarregado de guarda-la e
que a defenderia, a todo transe, fazendo
respeitar os direitos dos munícipes, garantindo a mais severa honestidade que
deve ser a norma de conduta do Presidente da República. Assinados: J. C. Carneiro da Fontoura, Rodrigo Otávio de
Langgaard Menezes, Ant^nio Bendito Alves de Lima, C. Barata, EMÍLIO DE MENEZES,
J. Álvares da Costa, Francisco de Mesquita Crinalovich, Romão Perera dos Santos,
Alexandre Max Kitzinger, Luiz N. S.
Albernaz, Torquato de Araújo, Virgilio José Rodrigues, Manoel Vieira Cardoso,
João Manoel da Silva, filho de um revolucionário do Pôrto, José Leôncio Braga
Junior, José Caetano de Souza e Manoel Pereira da Silva”.
Estava lavrada a
deposição de Deodoro.
Floriano fora alçado ao poder.
Surgiu nova era.
Apud - RAIMUNDO DE MENEZES “Emílio de Menezes o Último
Boêmio” / 2ª Edição Saraiva refundida – 1949 - fls 22 usque 25
Curitiba, 14 agôsto 2.016.
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