domingo, 14 de agosto de 2016

O DELÍRIO DO "ENCILHAMENTO" - POR MARIANO TAGLIANETTI

O DELÍRIO DO “ENCILHAMENTO”
O encilhamento endoidecera meio-mundo.  Em que data precisamente aquilo começou, pouco o sabiam. Entretanto, ninguém ignorava que nascera com o advento, dos homens da República. Foi depois de 15 de Novembro, durante o governo  provisório, que se iniciaram as loucuras da Bolsa. E a epidemia contagiara toda a gente.  O vírus entontecera muita cabeça sensata.
Todos jogavam: desde o homem formado até o humilde  funcionário público, desde o negociante apatacado até o modesto vendedor ambulante. Os zangões e os corretores enxameavam as ruas centrais, principalmente o trecho final da Rua da Alfândega até à “Primeira de Março”, prolongando-se pela Rua da Candelária e enchendo de vozerio as imediações do prédio do Banco do Brasil.
As fortunas fantásticas pululavam, como por milagre, da noite para o dia. Faustosas carruagens estacionavam no Largo de São Francisco de Paula, à espera dos novos milionários do dia, deslizando, depois pela Rua do Lavradio e bairro do Catete, numa luzida ostentação embasbacante de riqueza inesperada, na descrição do Visconde de Taunay.
“Cada cidadão foi um incorporador e diretor de bancos e companhias; quem ontem não tinha capacidade para dirigir uma bodega nas mais limitadas proporções, viu-se de improviso arvorado em diretor de altas finanças; cada cidadão descurou do seu ofício para jogar, e a praça do Rio de Janeiro metamorfoseou-se num abrir e fechar de olhos em um Casino de Monte Carlo, com a diferença, porém, de haver em Mônaco um só príncipe e muito regime no Casino, e aqui serem muitos os príncipes e abundarem as falcatruas”.
Que significa a palavra “encilhamento”? Com este termo, muito usual nos esportes de corridas de cavalos, era conhecido o local onde a última demão se aplicava aos animais, antes de atirá-los à raia da disputa e forçá-los á vitória no páreo, elucida o Visconde de  Taunay.
O vulgo, numa adaptação “sui-generis”, criara o neologismo feliz. Como campeasse uma jogatina desenfreada nas barracas onde, geralmente, se encilhavam os cavalos, no jóquei e as apostas e os palpites chegassem ao auge, assim passou a ser denominada, popularmente, a era das especulações financeiras desenfreadas, que começara em 1890 e prolongara-se até quase 92... O encilhamento!
Iniciara-se depois da assinatura do decreto de 17 de janeiro  de 1890, quando o governo permitira que os bancos nacionais emitissem, a torto e a direito, sobre apólices, isto é, papel garantindo papel, sem qualquer lastro metálico. Abriu-se ainda o precedente de que as sociedades anônimas poderiam ser constituídas com todas as facilidades, isentando as suas diretorias de qualquer responsabilidade perante as assembleias gerais.
“Essa isenção, esclarece o sr. Pedro Calmon, favorecia o abuso, a fraude, até o crime. Pelos negócios fantásticos que burlavam os incautos, de maneira a suceder uma falência escandalosa a uma emissão de má fé, de títulos da Bolsa... A jogatina empolgou a praça, asfixiou o comércio, corrompeu os costumes, iludiu o povo, como se fora o sinal de uma riqueza estável e milagrosa, desequilibrou as finanças do Estado...”
A coisa era muito fácil de compreensão e o povo incrédulo, sem se aperceber, ia, no entanto, absorvido pelo engodo.
Corria qualquer um ao Ministério e obtinha, sem mais aquela, uma “concessão”, como por exemplo  para explorar terras na Amazônia, ou no Araguaia, coisa absolutamente fantástica. A publicidade era feita de boca em boca, ingenuamente. Estavam todos certos de que o futuro financeiro de cada qual estava naquelas colonizações...
No dia seguinte, o concessionário, que apenas gastara a  estampilha do requerimento, vendia o privilégio a uma companhia  incorporada que passava a vender as novas ações. Os detentores desses títulos empurravam-nos para diante com ágio. Os compradores revendiam-nos com vantagens. E assim por diante. A coisa tomava vulto alarmante.
“Os zangões e os corretores de praça imaginavam e arquitetavam as tramas criminosas,  dos planos fantasiosos, em que se envolviam os negocistas.
A Companhia Geral de Estradas de Ferro e o Banco de Crédito Universal foram as maiores e as mais escandalosas negociatas da época do “encilhamento”.
As falências, como um castelo de cartas, desmoronavam-se ruidosamente, envolvendo milionários da véspera.  E de um momento para outro, os que eram ricos ficavam pobres e os que eram pobres acordavam ricos...
Rui Barbosa, então Ministro da Fazenda, chegou a pedir demissão sete vezes...
Os bancos continuavam a emitir por faz e por nefas. Viam-se as mais variadas espécies de cédulas em circulação: “novas, faceiras, coloridas,  com estampas de mulheres bonitas e com símbolos artísticos...”
Começaram as cenas mais ridículas e espetaculares, praticadas por uma sociedade heteróclita de novos ricos, a exibirem, em público, um fausto a que ainda não estavam acostumados e para o qual não se haviam preparado...
As ostentações eram espaventosas. O assunto do dia, nas rodas dos elegantes e dos novos ricos, circulava em torno das amostras de riqueza de cada um. Falava-se nas gorjetas que os nababos distribuíam, displicentemente. O Visconde de Taunay narra episódios curiosíssimos.
De certa dama de um desses aventureiros da Bolsa, contava-se, como coisa embasbacante, que dera de espórtula a um cocheiro, por falta de troco, uma nota de cem mil reis!
De outro “nouveau-riche”, como fato  espantoso, relatava-se a história quixotesca de que mandara escanhoar um dos seus empregados, possuidor de comprida barba, dando-lhe, para tal, a importância de 500$000!
Os objetos dos menores preços, quando comprados por essa fauna de ricaços, centuplicavam de valor.
Qualquer corrida de tilburi, por menor que fosse, custava 5$000!

Aquele estado de coisas não poderia perdurar por muito tempo. Era tudo muito artificial para ter maior duração.
A grita nascera, criara volume e esparramara-se.
Os comentários alargavam-se, escandalosamente. O diz-que-diz de rua era dos mais desconcertantes.
Onde já se vira tanta roubalheira? E logo sob as vistas  complacentes do próprio governo, que animava e incrementava aquele  bacanal de lucros?
O resultado não se fez esperar. O tiro de morte no “encilhamento” estava para muito próximo.
Em novembro de 91, uma bala no zimbório da Candelária resolveria a situação.  Recorramos ao testemunho de Rodrigo Otávio.
Deodoro começara a enfrentar uma onda séria de descontentamento, fomentada pela oposição.
Em 23 de novembro, ao amanhecer, houve um movimento de deposição. A marinha, tendo à frente Custódio de Melo, encabeçou a masorca. Um tiro de canhão alcançou a torre da igreja. O povo, ao meio-dia, afluíra em massa até o Arsenal. Uns armados, outros de mãos abanando. Tomaram de assalto, entre aclamações e vivas, o Paço Municipal, onde seria proclamada a destituição de Deodoro. Estavam todos na sala do Intendente e Emílio de Menezes era visto na frente e mostrava-se dos florianistas mais exaltados.
Lícinio Cardoso, antigo oficial do Exército e lente das Escolas Politécnicas e Militar, propôs que se lavrasse uma ata de deposição do Presidente.
Em seguida, o coronel Carneiro da Fontoura discursou, expondo a situação. Assumiu a presidência da reunião e convidou Rodrigo Otávio para secretariá-la.
Correra a notícia alvoroçada de que Deodoro já se havia retirado do Palácio. Ali se achava Floriano, que assumira o Govêrno.
Foi redigida, ao final, a ata por Rodrigo Otávio, em papel de carta do “Conselho de Intendência Municipal do Destrito Federal – Intendência de Obras”, a qual foi assinada pelos presentes.
“Chegado a Intendência o sr. Coronel Fontoura, ao meio-dia, declarou que tendo sido chamado pelo cidadão Presidente da República, Marechal Floriano Peixoto, este lhe encarregra de tomar a responsabilidade dos negócios municipais e o povo subiu acompanhando o coronel  Fontoura, à sala das sessões da Municipalidade. Aí o coronel Fontoura quis sentar-se na cadeira aonde, durante 14 meses, defendeu os direitos e os interesses dos municípios e da municipalidade; o povo, porém, convidou-o a tomar assento na cadeira presidencial.
“O cidadão Dr. Cândido  Barata tomou a palavra e em brilhante alocução saudou o Cidadão Presidente da República e o Presidente da Intendência Coronel Fontoura.
“Por sua vez o coronel Fontoura declarou qual foi o seu procedimento, pois sabendo que os demais intendentes tnham abandonado o seu posto, viu cumprir o seu dever engtregando a Intendência a quem de direito. Foi encarregado de guarda-la e que a defenderia, a todo  transe, fazendo respeitar os direitos dos munícipes, garantindo a mais severa honestidade que deve ser a norma de conduta do Presidente da República. Assinados: J. C.  Carneiro da Fontoura, Rodrigo Otávio de Langgaard Menezes, Ant^nio Bendito Alves de Lima, C. Barata, EMÍLIO DE MENEZES, J. Álvares da Costa, Francisco de Mesquita Crinalovich, Romão Perera dos Santos, Alexandre  Max Kitzinger, Luiz N. S. Albernaz, Torquato de Araújo, Virgilio José Rodrigues, Manoel Vieira Cardoso, João Manoel da Silva, filho de um revolucionário do Pôrto, José Leôncio Braga Junior, José Caetano de Souza e Manoel Pereira da Silva”.
Estava lavrada a deposição de Deodoro. Floriano fora alçado ao poder.
 Surgiu nova era.

Apud - RAIMUNDO DE MENEZES “Emílio de Menezes o Último Boêmio” / 2ª Edição Saraiva refundida – 1949 - fls 22 usque 25

Curitiba, 14 agôsto 2.016.


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