terça-feira, 22 de agosto de 2017

TRÊS DIAS ANTES DO SUICÍDIO DE GETÚLIO VARGAS - 21 DE AGOSTO DE 1954.

  63 a. da reunião de setenta generais no Ministério da Guerra, às 9 horas do dia 21 de agosto de 1954. Foram convocados pelo Alto Comando do Exército. Ao término do encontro foi expedida uma nota em que se reafirmava o propósito de preservar a Constituição de qualquer modo. Também os almirantes reuniram-se no Clube Naval e declararam-se pela apuração do crime e das defesas constitucionais. Mas o mais preocupante foi a realização de uma grande reunião, à noite, no Clube da Aeronáutica, em que participaram mais de mil oficiais da Aeronáutica, Marinha e Exército. A leitura do relatório pelo MAJOR GUSTAVO BORGES, do que fora até então apurado pelo IPM, principalmente o teor dos documentos apreendidos no arquivo de GREGÓRIO FORTUNATO no CATETE e a participação comprovada no crime de integrantes da guarda pessoal de GETÚLIO VARGAS provocaram indignação e revolta, e oficiais exaltados, como o BRIGADEIRO NETO DOS REIS, pronunciaram-se abertamente pela renúncia do presidente da República. O BRIGADEIRO GUEDES MUNIZ convocou, à revelia do Ministro da Aeronáutica, EPAMINONDAS GOMES DOS SANTOS, para o dia seguinte, uma reunião no próprio Clube da Aeronáutica com todos os brigadeiros presentes no RIO.
Um grave incidente ocorreu a bordo do cruzador “BARROSO”, quando o contra-almirante MUNIZ FREIRE, durante seu discurso na cerimônia de comemoração do 3º aniversário da incorporação do navio à Marinha do BRASIL, fez graves referências à crise política e à atitude do governo. Foi preso pelo vice-almirante NORONHA DE CARVALHO, que se encontrava lá. Toda a oficialidade presente solidarizou-se com ele, sendo que alguns também chegaram a ser presos.
Reunidos os oficiais da Marinha, resolveram marcar para o dia seguinte uma grande manifestação de desagravo ao almirante MUNIZ FREIRE, que teve sua prisão relaxada no mesmo dia pelo almirantado que entendeu “não ter havido prática de indisciplina, mas sim uma exaltação momentânea”.
O líder do governo na Câmara Federal, deputado GUSTAVO CAPANEMA, foi ao encontro do vice-presidente CAFÉ FILHO em seu gabinete, que se localizava no Ministério do Trabalho, na esplanada do CASTELO. Este em tom desalentador comentou a delicada situação em que o país vivia, principalmente, após a divulgação dos documentos do arquivo de GREGÓRIO FORTUNATO.
Às 16 horas, CAFÉ FILHO foi ao Palácio do CATETE para seu encontro com GETÚLIO. Este apreensivo, mas cordial, o recebeu de imediato. O vice foi direto ao motivo de sua visita e transmitiu ao presidente sua proposta. Levou ainda os nomes dos ministros OSVALDO ARANHA e JOSÉ AMÉRICO DE ALMEIDA, dos deputados ALBERTO PASQUALINI e GUSTAVO CAPANEMA, do almirante ÁLVARO ALBERTO (renomado cientista na área da energia nuclear) e do marechal JOÃO BAPTISTA MASCARENHAS DE MORAES, que poderiam ser indicados e eleitos pelo Congresso Nacional nos termos da Constituição para exercer o cargo de presidente da República e completar o período do mandato.
GETÚLIO VARGAS ouviu olhando para o teto do palácio e, numa peculiar reflexão mímica, retrucou com voz de amargura: “Enganam-se os que me acreditam incapaz de renunciar. Estou velho e esgotado. A situação é realmente difícil. Não contesto o quadro que me traçou. Posso largar isto definitivamente e com ironia completou: “Irá buscar-me depois uma patrulha da Aeronáutica”
O vice-presidente assegurou que nada daquilo aconteceria e que, pessoalmente, obteria um compromisso das Forças Armadas. GETÚLIO disse: “Agradeço-lhe a colaboração, compreendo a gravidade do momento. Não tenho apego a isto. Depois de ouvir alguns amigos, dar-lhe-ei uma resposta definitiva”.
O deputado federal AUGUSTO DO AMARAL PEIXOTO, irmão do governador do Estado do RIO, tomou a iniciativa de procurar uma solução para a crise e, depois de consultar o deputado AFONSO ARINOS e outros líderes políticos, foi ao CATETE, a fim de propor a GETÚLIO “uma reorganização do governo, de tal forma que a opinião pública viesse a ter certeza de que todos os crimes cometidos neste e noutros quinqüênios seriam devidamente apurados, de que todos os criminosos seriam punidos...” AUGUSTO não se pode avistar com o presidente, mas ele respondeu à proposta apresentada:
“... aceito qualquer solução que seja a bem do BRASIL. Apenas advirto que na hipótese de não poder manter a ordem pública, eu então entregarei o governo a quem possa manter essa ordem pública, que é o Exército Nacional, na pessoa do seu ministro GENERAL ZENÓBIO DA COSTA”.
À noite, na casa do MARECHAL MASCARENHAS DE MORAES, o deputado AMARAL PEIXOTO, com as presenças dos GENERAIS JUAREZ TÁVORA e FRANCISCO GIL CASTELLO BRANCO, presidente do Superior Tribunal Militar, do BRIGADEIRO LUÍS RAUL NETO DOS REIS, apresentou a resposta de VARGAS, que foi mal recebida por TÁVORA, classificando-a de inconstitucional e declarando que, no caso de passar o governo, caberia assumir o substituto legal, o vice-presidente da República.

Revelam-se novos documentos do arquivo de GREGÓRIO FORTUNATO: listas de bicheiros que incriminavam os delegados BELENS PORTO, HERMES MACHADO e BRANDÃO FILHO, que comprovadamente mantinham ligações com GREGÓRIO FORTUNATO na exploração do jogo do bicho no RIO. Por ordem do chefe de polícia, CORONEL PAULO TORRES, são presos.

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