
64 anos (4 de agosto de 1954) em que a nação brasileira acordava
sobressaltada pela notícia, vinda da então Capital Federal, RIO DE JANEIRO, do
atentado ocorrido no início da madrugada contra o jornalista CARLOS LACERDA, no
qual foi ferido o MAJOR AVIADOR RUBENS FLORENTINO VAZ. CARLOS LACERDA, então
diretor do jornal TRIBUNA DA IMPRENSA, havia participado na noite anterior de
uma conferência no Externato SÃO JOSÉ, localizado na rua BARÃO DE MESQUITA,
164, no bairro da TIJUCA, RIO. A convite da Associação dos Antigos Alunos,
LACERDA foi recebido por mais de mil pessoas, muitas sem lugar para sentar, que
lotavam o teatro do externato, sendo aplaudido de pé, demoradamente. A
conferência começou eram quase 21 horas e o conferencista apresentou o problema
das “tensões” no mundo moderno, falando sobre as lutas entre as classes, a luta
entre a produção e consumo, salário e lucros, planejamento e espontaneidade,
interesses privados e coletivos, democracia e autoridade, sempre em relação ao
BRASIL. Às 23 horas, terminou a conferência e o debate. Passava da meia-noite,
quando CARLOS LACERDA, acompanhado de seu filho SÉRGIO, de 15 anos, do
jornalista da TRIBUNA DA IMPRENSA, AMARAL NETO e do MAJOR VAZ, deixou a rua SÃO
JOSÉ, ainda debaixo de aplausos. No pequeno automóvel do MAJOR VAZ, dirigiram-se
para a zona sul do RIO. Primeiro deixaram na URCA o jornalista AMARAL NETO e
depois rumaram para COPACABANA, onde morava LACERDA. Aos 40 minutos da
madrugada do dia 5 de agosto de 1954, chegaram ao edifício ALBERVÂNIA, situado
na rua TONELERO, 180 (e não TONELEROS, conforme alguns, erroneamente, até hoje,
insistem em escrever). Enquanto LACERDA conversava com VAZ, seu filho foi
chamar o garagista do edifício, cuja porta estava fechada. Quando SÉRGIO
voltou, os dois ainda conversavam e, logo depois de se despedirem do major,
dirigiram-se para a garagem. Ao se voltar para dizer adeus ao major, viu um
homem com chapéu desabado, um mulato, atravessar a rua. Pouco antes, estava
parado do outro lado, andou por trás do carro e ficou a uns três metros. Ele
teria aberto o paletó, sacado sua arma e atirado. Portando um revólver de
calibre pequeno, LACERDA revidou e atirou também, tentando proteger o filho em
um muro existente entre o seu prédio e o vizinho. Mas, assustado, o rapaz
voltou e se agarrou ao pai. Nessa hora, sentiu pesar seu pé esquerdo, uma dor
violenta, olhou e viu um filete de sangue saindo pelo cordão do sapato.
Capengando, conseguiu entrar no prédio pela garagem em busca de socorro e
salvar seu filho SÉRGIO. Saindo pela porta da frente, viu o criminoso a uma
certa distância, na esquina de sua rua com a PAULA FREITAS, e novamente atirou
em direção ao homem. Mas, sem pontaria e com uma arma que não tinha alcance,
pouco pôde fazer. Uma bala acertou a biblioteca do BARÃO DE SAAVEDRA, que
morava na esquina. CARLOS LACERDA, quando olhou para o chão, viu o major RUBENS
FLORENTINO VAZ caído no meio fio, atrás de seu veículo. Tentando ajudá-lo,
gritou por socorro. Ao ouvirem os disparos, três jornalistas do “DIÁRIO
CARIOCA”, DEODATO MAIA, OTÁVIO BONFIM e ARMANDO NOGUEIRA, que conversavam em um
automóvel parado na porta do edifício do último, quase em frente ao prédio de
LACERDA, rumaram em velocidade a um botequim na esquina próxima para avisar a
redação do jornal e a polícia, retornando para socorrer as vítimas. Eram 00:45
hora. RUBENS VAZ foi socorrido por CARLOS LACERDA e transportado para o
Hospital MIGUEL COUTO em um táxi. O major pouco depois expirava no colo de
LACERDA, que ia no banco de trás do veículo. Chegando ao hospital, ficou
constatada sua morte e seu corpo foi transportado para a capela. Ao saber do
ocorrido, o brigadeiro EDUARDO GOMES foi a primeira autoridade a chegar e
inteirar-se do estado do amigo, que estava sendo medicado, descendo depois para
ver o corpo de seu companheiro de arma. Afirmou à imprensa: “A honra da Nação
exige que o crime seja apurado”. O
ministro da Aeronáutica, BRIGADEIRO NERO MOURA, foi acordado ainda de
madrugada, em sua residência, na Base Aérea do GALEÃO, na ILHA DO GOVERNADOR, e
avisado sobre o atentado e a morte de seu subordinado. Foi diretamente à
chefatura de polícia no centro da cidade e, inteirado dos fatos, ligou para seu
colega da Justiça, TANCREDO NEVES, que imediatamente foi ao seu encontro. Às 6
horas, TANCREDO, em nota oficial, informava à Nação que os responsáveis pelo
crime seriam presos e punidos.
Às 9:15 horas da manhã, o
corpo chegou na sede do Clube da Aeronáutica, no centro do RIO, para ser
velado, sendo rezada a missa de corpo presente, na presença de mais de mil
pessoas, na sua maioria militares. Entre os presentes, compareceram o
ex-presidente MARECHAL EURICO GASPAR DUTRA; o presidente do Supremo Tribunal
Federal, ministro JOSÉ LINHARES; o cardeal arcebispo do RIO, dom JAYME DE
BARROS CÂMARA; ministro da Justiça, TANCREDO NEVES; os três ministros militares,
brigadeiro NERO MOURA, da Aeronáutica, general ZENÓBIO DA COSTA, da Guerra,
almirante RENATO GUILLOBEL, da Marinha; representando o presidente GETÚLIO
VARGAS, o chefe da CASA MILITAR, general AGUINALDO CAIADO DE CASTRO; senadores,
deputados, altas patentes das Forças Armadas e a sociedade civil.
Às 16:40 horas, com o
caixão envolto por uma bandeira nacional, saiu o cortejo, acompanhado por
aproximadamente 5 mil pessoas, em direção ao Cemitério de SÃO JOÃO BATISTA, em
BOTAFOGO. Percorrendo a avenida RIO BRANCO, alguns queriam que passasse em
frente ao PALÁCIO DO CATETE, mas o brigadeiro EDUARDO GOMES, usando a sua
autoridade, não permitiu, e o trajeto foi mantido pela avenida BEIRA MAR.
Chegando ao cemitério, às 18:40 horas, dois pelotões da Aeronáutica fizeram as
honras de estilo, em seguida uma banda da corporação tocou a marcha fúnebre.
CARLOS LACERDA compareceu ao sepultamento com o pé engessado, sendo amparado
por dois policiais da Aeronáutica. Já era noite quando o corpo foi encomendado
pelo capelão militar e um corneteiro fez o toque de silêncio.
O MAJOR AVIADOR RUBENS
FLORENTINO VAZ tinha 32 anos e servia nas Rotas Aéreas do Departamento de
Aviação Civil, do Ministério da Aeronáutica. Era casado e tinha quatro filhos.
Desde a agressão física sofrida por LACERDA em 1948, na porta da rádio MAYRINK
VEIGA, vários oficiais da aeronáutica faziam as vezes de seguranças. Naquele 4
de agosto de 1954, era a vez de o major GUSTAVO BORGES acompanhar LACERDA, mas
em virtude da necessidade de realizar um vôo para completar as horas
determinadas aos aviadores, o major VAZ o substituiu naquela noite, fazendo um
favor ao colega.
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