sábado, 30 de março de 2019

38 ANOS DO ASSASSINATO DE ELIANE DE GRAMMONT - 30 DE MARÇO DE 1981

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Eliane Aparecida de Grammont (São Paulo, 10 de agosto de 1955 – São Paulo, 30 de março de 1981), foi uma cantora e compositora brasileira, tornada célebre por ter sido vítima de feminicídio por parte de seu ex-marido Lindomar Castilho, crime este que marcou a história do país como parte da campanha de combate à violência contra a mulher.[1]


    Biografia[editar | editar código-fonte]

    Era filha da compositora Elena de Grammont, e seus irmãos na maioria seguiram a carreira jornalística e no rádio - caso de sua irmã Helena de Grammont, jornalista da rede Globo; seu pai morrera de miocardiopatia, doença que também vitimou dois de seus irmãos.[1]
    Em 1977 Eliane conhecera na gravador RCA o cantor de boleros Lindomar Castilho, que então experimentava um grande sucesso popular, havendo vendido em um de seus LPs mais de 800 mil cópias - número bastante expressivo para a época; após dois anos de namoro se casaram em 1979.[1]
    Sua família foi contra a união, mas ela contrariou os parentes para unir-se ao cantor; também insistiu em que o casamento se desse pela separação de bens, para deixar claro que não estava com ele em razão de seu sucesso e fortuna.[1] O cantor exigiu que ela parasse de cantar.[1]
    Durante o breve relacionamento o casal teve uma filha e, diante do abuso de álcool pelo cantor, dado a crises violentas de ciúme, episódios de agressão, separações e reconciliações, culminou com o desquite após pouco mais de um ano de casamento, em 1980.[1]
    Seis meses depois do casamento ela ainda tentou uma reconciliação, mas Lindomar exigira que ela assinasse um documento contendo dez compromissos, entre os quais pedir perdão à empregada que há anos trabalhava para ele e que fora motivo de brigas do casal.[1]
    Eliane havia descoberto que também era portadora a miocardiopatia que matara seus familiares, e ainda assim tentou retomar a carreira como cantora; foi então que recebeu o convite de Carlos Randall para se apresentar no café "Belle Époque", e com ele passou a ter um romance.[1]

    O crime[editar | editar código-fonte]

    Eliane, que interrompera a carreira com o nascimento da filha, estava há cerca de um ano separada de Castilho e se apresentava num bar da capital paulista quando o cantor a alvejou com vários tiros, atingindo ainda o músico que a acompanhava, o violonista Carlos Roberto da Silva, ferido no abdome.[1] Conhecido com o nome artístico de Carlos Randall, o músico era primo do próprio Lindomar, que o levara para São Paulo em 1974; Lindomar desconfiava do envolvimento amoroso dele com sua ex-mulher, situação que foi agravada quando este também se separou da mulher.[1] Após o crime, Lindomar tentou fugir mas foi detido e espancado por populares, que o amarraram até a chegada da polícia; ferida mortalmente, Eliane chegou a ser levada a um pronto-socorro, mas ali chegou já sem vida.[1]
    No momento em que fora alvejada Eliane cantava a música de Chico Buarque, "João e Maria", justamente no momento dos versos que diziam "Agora era fatal que o faz-de-conta terminasse assim".[2]
    Durante o julgamento a defesa de Lindomar explorou alegações de que a vítima era uma mãe que não cumpria com as suas obrigações, além de ser uma mulher infiel e de conduta reprovável; durante o tempo em que durou, mulheres protestavam diante do tribunal pelo direito à vida, e aos poucos homens foram se juntando para provocá-las, sob o argumento de um "direito" de matar em casos de "defesa da honra" masculina.[1] Através de eufemismos então em voga, seu advogado Waldir Troncoso Perez arguiu que o réu agira tomado por "violenta emoção"; na época tais crimes eram justificados com escusas como passionalidade, perda da paz ou "legítima defesa da honra".[3] Atuou na assistência de acusação o então presidente da OAB, Marcio Thomaz Bastos e cinco dos sete jurados votaram pela condenação.[4]

    Contexto histórico e cultural[editar | editar código-fonte]

    Ainda em liberdade, Castilho respondeu ao júri em 1984 e mulheres se manifestavam diante do fórum; no segundo dia do julgamento muitos homens foram levados até lá (segundo relatos, contratados para tal) e passaram a jogar ovos nas manifestantes e a gritar-lhes palavras como "mulher que bota chifre tem que virar sanduíche"; no contexto social da época a impunidade era gritante, como foi o caso do artista Sérgio Malandro que, junto a outros homens, estuprara uma jovem no Rio de Janeiro e, apesar de confesso, ficou impune graças a amizades influentes, ou à canção de Sidney Magal que pregava "Se te agarro com outro / Eu te mato / Te mando algumas flores / E depois escapo"; mesmo condenado o cantor recorreu livre.[3]
    Na época o adultério era considerado um crime pelo Código Penal Brasileiro vigente, e tramitava ainda no Congresso um projeto que excluía esse tipo delituoso.[4]

    Impacto cultural e defesa da mulher[editar | editar código-fonte]

    O crime, onde Lindomar alegava ter sido traído pela mulher, ganhou grande repercussão no Brasil, não somente por envolver nomes bastante conhecidos da música popular da época, como também por ter a imprensa assumido, então, importante papel na mudança da visão social dos chamados "crimes passionais", recebendo da mídia ampla cobertura.[1]
    Depois de uma missa em sua homenagem celebrada na Igreja da Consolação no dia 4 de abril de 1981, mais de mil mulheres vestidas de preto marcharam em protesto contra a violência masculina, com palavras de ordem como "Quem ama não mata", até o Cemitério do Araçá.[5] Diversas instituições de luta pelos direitos da mulher surgiram em razão dos protestos contra esse feminicídio; uma delas foi o "Grupo masculino de apoio à luta das mulheres", integrado intelectuais diversos e que lançou então um "manifesto contra a barbárie".[6]
    O humorista Henfil, que apresentava um quadro chamado "TV Homem" no programa diário televisivo TV Mulher, publicava uma seção na revista hebdomadária ISTOÉ onde escrevia cartas à sua mãe e comentava fatos da semana; na edição de 8 de abril de 1981, ao comentar o fato de que policiais haviam vestido um assaltante de mulher e o fizeram assim desfilar pelas ruas, como humilhação, escreveu ironicamente: "Por que é que vestir um homem de mulher é humilhar, é desmoralizar? Por que ser mulher é a coisa mais humilhante e desmoralizada que tem? Pior que ser cachorro, pato ou galinha? (...) Pois. É por isso que um (dois, três, mil) Lindomar Castilho tem o legítimo direito de matar a Eliane de Grammont. Ah, ele é apenas misericordioso. Quis livrar a Eliane da humilhação, da desmoralização de ser... uma mulher."[7]
    Em novembro de 1982, respondendo em liberdade pelo crime, Lindomar foi impedido por centenas de mulheres de se apresentar num show em Goiânia, com a distribuição de um panfleto que trazia uma foto dele com a esposa e a filha Liliane e os dizeres: "Eliane Gramont(sic) não vai cantar hoje. Ela está morta".[8]

    Homenagens[editar | editar código-fonte]

    Na capital paulista, no bairro da Barra Funda, foi dado o nome "Eliane Aparecida de Grammont" a uma de suas vias já em dezembro de 1981.[9]
    "Eliane de Grammont" também é nome de rua na cidade Londrina, no Paraná.[10]
    Na capital paulista existe a Casa Eliane de Grammont, instituição estatal destinada a dar apoio psicossocial e jurídico a mulheres em situação de violência de gênero, mantida pela prefeitura de São Paulo. [11]

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