Exaltando VICENTE de CARVALHO...
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Caríssimo Cel. VENTURA, boa tarde !
Fraternal apreço, MT.

A flor e a fonte
VICENTE DE
CARVALHO***
“Deixa-me, fonte”
Dizia
A flor, tonta de
terror.
E a fonte, sonora e
fria,
Cantava, levando a
flor.
“Deixa-me, deixa-me,
fonte!”
Dizia a flor a
chorar:
“Eu fui nascida no monte...
“Não me leves para o
mar”.
E a fonte, rápida e fria,
Com um sussurro zombador,
Por sobre a areia corria,
Corria levando a
flor.
“Ai, balanço dos meus galhos,
“Balanço dos berços meus;
“Ai, claras gotas
de orvalho
“Caídas do azul do céu!...
Chorava a flor e
gemia,
Branca, branca de terror,
E a fonte, sonora e fria,
Rolava, levando a
flor.
“Adeus, sombras
das ramadas,
“Cantiga do rouxinol;
“Ai , festa das
madrugadas,
“Doçuras do por
do sol;
“Carícia das brisas leves
“Que abrem rasgões
de luar...
“Fonte, fonte, não me leves,
“Não me leves para
o mar!...
*
As correntezas da
vida
E os restos do meu
amor
Resvalam numa descida
Como a da fonte e da flor.
*** Esta edição, a 17ª de uma obra poética – acontecimento raríssimo em
nosso país – constitui antes de tudo a
comprovação da gloria de um homem que triunfou em muitos setores do mundo, mas que só fez questão de
um título: o título de poeta. Algumas pessoas maledicentes referiram-se com
ironia “ao orgulho de Vicente de Carvalho”. Contudo, é preciso que se saliente
que esse vitorioso homem proteico nunca manifestou orgulho por ser um
magistrado dos mais brilhantes e íntegros que possuímos – por ser afortunado
homem de negócios, por possuir bens materiais ou qualidades pessoais, e de
todas situações aqui referidas, poderia o poeta do Indaiá jactar-se pois
ninguém lhe poderia negar qualquer um desses privilégios. Curiosamente, Vicente de Carvalho apenas fez
questão de reivindicar para si um título: o título depreciado e geralmente
ridicularizado de poeta. E nesse seu malsinado “orgulho” não encontramos nós mais um sinal da sua grandeza? Não era
esse “orgulho” um modo de ele impor aos filisteus, aos ignaros, o respeito não
exclusivamente pela sua poesia, mas pela poesia em geral, por esse patrimônio, precioso mas ignorado, da Humanidade?
O Sucesso de Vicente de Carvalho não se deve a uns vários poemas,
conforme acontece com alguns poetas nossos. Não é o resultado fortuito do êxito
de uma ou mais produções de sua lavra que se popularizaram. Representa,
de modo patente, a vitória de uma personalidade, e, por consequência, a
oblação de uma existência toda, o desenvolvimento integral de uma carreira. Num
país como o nosso, em que tão pouco a sério é levada a poesia (especialmente
pelos próprios poetas que acreditam muito na inspiração mas evitam a
transpiração), o poeta santista devotou-se com ardor e consciência á profissão
de poeta. Foi Vicente de Carvalho um dos
raros poetas nacionais do passado que se aprofundou no conhecimento de seu
ofício, e que exerceu a autocritica,
motivo pelo qual nos deixou apenas um volume, depurado, sólido, antológico,
esses POEMAS E CANÇÕES que são indubitavelmente uma das mais altas expressões
do lirismo luso-brasileiro. Variada é a sua obra. No entanto, entre o guapo e elegante
renovador dos “velhos temas” que se imortalizaram, e o cantor elegíaco do
“Pequeno Morto”, entre o rapsodo singelo das “Cantigas Praianas” e o fremente
lírico de “Rosa, Rosa de Amor...“ e das “Palavras do Mar”, não há solução de
continuidade. Uma única personalidade,
forte, característica, chama a si a autoria de todos esses poemas. Superando
todas as influências que recebeu – Camões e Garret especialmente – Vicente de
Carvalho se impõe, pessoal, típico, por
seu verso fluente e cantante, por sua linguagem simples e tersa, e por seu
temperamento aristocrático.
Saraiva S. A. – Livreiros-Editores em a satisfação de contar, entre os
autores que edita, a figura valorosa de
Vicente de Carvalho. Rejubila-se especialmente por apresentar os Poemas e Canções,
um dos mais belos livros de poesia que já foram escritos em língua portuguesa e
leitura indispensável para todas as pessoas que desejam conhecer as nossas
letras e a nossa cultura.
***Apud Poemas e Canções - 17ª
Edição 1955 – fls 293.
Curitiba, 31 março 2.019.


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