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a. nasce a atriz DERCY GONÇALVES em SANTA MARIA MADALENA
(RJ) em 23 de junho de 1907; sobreviveu à fuga de casa aos 17 anos, aos
excessos da vida noctívaga, à violência sexual que sofreu no PARANÁ e aos
inimigos e aos amigos. Fez 52 filmes e 55 peças de teatro. Desfilou com os
peitos de fora no sambódromo do RIO, enrubesceu o “patrão” SÍLVIO SANTOS,
esculhambou e avacalhou em praça pública. E tornou-se uma das raras
“highlanders” da cena cultural brasileira, integrando por mérito de um seleto
clube de notáveis nonagenários, como o arquiteto OSCAR NIEMEYER. A comediante
DERCY GONÇALVES subverte qualquer normalidade do curso natural da vida. DERCY
não tem colesterol alto, diabete ou problemas no coração. Sua pressão arterial
é 12x8 e ela anda sozinha, deixando de lado, por vezes, até a ajuda da bengala.
Ágil, senta-se no sofá com os joelhos dobrados encostados ao peito e os pés na
altura da almofada. Cozinha diariamente – aprecia mocotó e rabada – e usa muita
pimenta. Todas as tardes, religiosamente, arruma-se e vai aos bingos. E também
todas as noites, antes de dormir, DERCY diz se perguntar: “Será que vou acordar
amanhã?” Então, apela para as forças divinas: “Com DEUS eu me deito, com DEUS
eu me levanto, com a graça de DEUS e o divino ESPÍRITO SANTO”. Por via das
dúvidas, aciona também alguns deuses tailandeses, dos quais ouviu falar quando
esteve em BANGCOC. Foi
em homenagem a um deles que construiu, em 1991, seu mausoléu na cidade
fluminense de SANTA MARIA MADALENA, a 223 km do RIO DE JANEIRO. Diz DERCY: “Vivi um
vidão. Peguei todas as fases e fiz muita coisa em primeiro lugar. O BRASIL não
tinha nem televisão, nem rádio, nem automóvel. Era carro de boi, bonde”. Ruim
de datas e de nomes, mantém a lógica e a rapidez no raciocínio. Diz que ouvia
falar do kaiser no rádio, e tinha muito medo dele, porque ele afundou dois
navios brasileiros na 2ª Guerra Mundial – embora estivesse se referindo à 1ª
Guerra Mundial. Dona de um apartamento na rua TONELERO, onde CARLOS LACERDA
sofreu o atentado, ela comenta: “Para mim isso foi ontem!” E ainda se espanta
com o telefone celular, “uma grande invenção da humanidade” e com a internet,
embora não seja “de botão”, como as atuais gerações. Diz que o tempo não a
ajuda. “Sou eu quem ajudo o tempo. Eu não abuso das minhas vantagens, porque
quem tem o comando da vida é você e não o tempo. Você tem que se comandar”,
filosofa. Filha de um alfaiate e de uma lavadeira, com oito irmãos, DERCY fugiu
de casa e do pai aos 17 anos para seguir a Companhia Dramática MARIA CASTRO. Um
escândalo na pequena SANTA MARIA MADALENA. Trabalhou na CASA DO CABOCLO, um
espaço teatral dedicado ao folclore que também lançou o compositor HERIVELTO
MARTINS e a cantora DALVA DE OLIVEIRA, além de JARARACA e RATINHO – JARARACA
foi o autor do sucesso MAMÃE EU QUERO – no começo dos anos 1930. Conta que
viveu com três homens na vida, embora só tenha se casado com o jornalista
DANILO BASTOS, com quem ficou por quase vinte anos. Tuberculosa, foi ajudada
pelo pai de sua filha, ADEMAR MARTINS, homem casado, com que “não quis viver
porque queria ser DERCY GONÇALVES, queria a PRAÇA TIRADENTES”. Ela diz que foi
estuprada por um dono de jornal do interior, história já publicada diversas
vezes. E afirma: “Nunca fui prostituta, fui uma caipira”, diz, referindo-se ao
tempo em que atriz de teatro de revista era algo de segunda classe. E ela ainda
filmou chanchadas com OSCARITO e GRANDE OTHELO. Foi com GRANDE OTHELO que, em
1958, gravou o preferido de seus 35 filmes, A GRANDE VEDETE. Nos anos 1960,
estreou na televisão, na extinta EXCELSIOR, depois passou por vários outros
canais, como TUPI, GLOBO, TVS, BANDEIRANTES e SBT. A televisão deu uma virada
em sua carreira, e DERCY ampliou seu público fiel, que lotou, durante anos, as
platéias de espetáculos autobiográficos, como DERCY DE PEITO ABERTO,
apresentado durante 12 semanas no CANECÃO, no RIO. Hoje é funcionária vitalícia
do SBT. Bisavó de MELISSA, 29 anos, e JOÃO, 5 (isso em 2006), a centenária
atriz anda falando em voltar para MADALENA, cidade que se confunde com o seu
nome. Ali, além do mausoléu, MADALENA abriga o MUSEU DERCY GONÇALVES,
inaugurado em 1996, e o PORTAL DA FAMA, com monumento a DERCY, e uma calçada da
fama à HOLLYWOOD, homenagem aos seus 97 anos. Os três são importantes pontos
turísticos da cidade que, segundo o site, tem o terceiro melhor clima do
BRASIL. Em MADALENA, no dia 24 de junho de 2006, DERCY foi homenageada com
exposição de fotos e filmes, sessão solene na Câmara Municipal, missa em Ação
de Graças e bolo de cinco metros de comprimento. No RIO, recebeu uma placa do
prefeito CÉSAR MAIA pelos seus “100 anos” e dezenas de flores e telefonemas: de
JOSÉ BONIFÁCIO DE OLIVEIRA, de FAUSTO SILVA, de SÍLVIO SANTOS. Ela prometeu
estender a comemoração por todo o ano. “Vai ter festa uma vez por mês”,
promete. DERCIMAR, a filha, e BONI, o amigo, garantem que a essência da estrela
não mudou nesses 99 anos. “Ela se agarra à vida, não joga a toalha. Foi assim
que venceu o câncer no estômago, foi assim quando quebrou a bacia”, diz
DERCIMAR. DERCY perdeu dois terços do estômago numa cirurgia em 1991.
Desobediente, costuma comer ovo frito antes de dormir. “Quando diz que está
cansada de viver, é mentira”, alerta a filha. De certa maneira, a história de
DERCY pode ser comparada a um conto de EDGAR ALLAN POE: os habitantes da
pequena cidade de VONDERVOTTEIMITTISS sempre foram muito afeito à ordem das
coisas, estabelecida pelo campanário da Casa Municipal. Tão acostumados eles
eram que o caos se instalou quando um sujeito esquisito fez o sino badalar 13
vezes no lugar de 12. Era o diabo no campanário, que dá nome à história. Não,
não se trata aqui de comparar DERCY ao coisa ruim. Longe disso. Mas que, como
ele, DERCY tem bagunçado o coreto do tempo, isso ninguém pode negar.
Se valer o que diz sua certidão de nascimento,
DERCY GONÇALVES completou cem anos em 23 de junho de 2007. Mas, sempre dando
uma boiada por uma polêmica, nem aqui ela concorda com todas as letras. “Eu
tenho 102 anos, meu pai me registrou quando eu tinha dois anos de idade”,
costuma dizer quando toca no assunto neste ano de 2007. Mas, qualquer que seja
sua idade real, DERCY quer distância de câmeras, cinegrafistas, refletores,
paparazzi e outras muvucas que lhe tirem a paz. Com relação a SANTA MARIA
MADALENA, cidade a 219
quilômetros da capital carioca, na região serrana
fluminense, onde nasceu, em 23 de junho de 1907, segundo os registros oficiais.
“As pessoas lá me tratam muito bem. Construíram um museu e um túmulo oriental
para mim. Tenho até estátua na praça”, elogia a comediante, que pretende estar
de volta à Cidade Maravilhosa somente no dia 24 de junho de 2007. Que ninguém
estranhe se, chegando em casa, ela se aprontar novamente para ir ao seu quase
único passatempo: o bingo. Mas nada que represente uma sangria em suas
finanças. “Ninguém me cobra as cartelas, me dão lanche, cafezinho. Freqüento
vários deles, em BOTAFOGO, no ARPOADOR, no CATETE...Em todos me recebem assim.
O bom é que mesmo não gastando nada, às vezes dou sorte e até bato”.
Mesmo indagada pela milésima vez sobre
o segredo de sua longevidade, ela responde. E sem disparar palavrão. “Não tenho
segredo nenhum não, como de tudo. Mas nunca tomei bebida alcoólica. Quem bebe
álcool é automóvel”, brinca.
A data surge como outra oportunidade
para a veterana atriz lembrar o passado. “Saí de casa aos 14 anos, escondida de
meus pais. Mas não me prostituí. Aliás, só uma vez. Foi com um cara sujo,
fedorento e cheio de chulé. Ele prometeu uns cinco merréis. Mas depois fugiu
sem me dar nada. Eu tinha uns 14 ou 15 anos. Não sabia o era bem ou era mal”.
A celebração pelos cem anos é toda
dela, por tudo o que já fez no cinema, no teatro e na TV. Mas DERCY desdenha de
tanto salamaleque e beija-mão. “Não acho que devia ter festa no meu
aniversário, não. Quando se chega aos 100, se está perto de morrer mesmo. Só
que morro quando eu quiser. Antes não. Gosto da vida, passeio, me enfeito.
Finjo que sou bonita”. DERCY só reclama, mas não muito, por não ter um projeto
profissional em
vista.”Ninguém me chama para nada. Até o SBT me paga para eu
não aparecer por lá. Mas tudo bem, estou cansada de viver e de trabalhar.
Minhas energias estão se acabando. A velhice é uma preparação para se ir
embora. E a morte é o descanso da vida”.
DERCY GONÇALVES morre no dia 19 de
julho de 2008, aos 101 anos, no Hospital SÃO LUCAS, em COPACABANA. A atriz
havia sido internada, no dia 18 de julho, com forte pneumonia. O governador
SÉRGIO CABRAL decretou luto oficial de três dias no Estado do RIO. O prefeito
CÉSAR MAIA informou que pretende dar o nome da atriz a uma rua ou praça, em
local ainda a ser decidido.
A morte da atriz comoveu artistas em
todo o BRASIL. O humorista RENATO ARAGÃO disse que “DEUS deu um passaporte para
DERCY de mais de cem anos”. “Hoje estamos muito tristes, mas tenho certeza que,
com ela, o céu vai ficar muito mais alegre”.
Para FERNANDA MONTENEGRO, a coragem é o
maior legado que a atriz deixa”. “É uma lição para todos nós e, principalmente,
para as mulheres. Ela se antecipou à postura de liberdade e de independência
que as mulheres possuem hoje”.
LIMA DUARTE disse que “ela nunca teve
medo da vida e a enfrentou com grandeza”.
Conhecida por suas frases espirituosas,
DERCY nunca teve papas na língua. Eis alguns de seus dizeres:
“A morte é um descanso da vida. A vida
é que é a luta. Você levanta de manhã, já tem que lavar a cara, lavar a bunda,
fazer café. Só não é uma ventania porque você vai fazendo devagar”.
“Me abasteço com espinafre, chá de
quebra-pedra, rapé, guaraná em pó, tomando no rabo. Tudo o que é preciso, eu
faço”.
“A humanidade é feita de porra, matéria
ordinária, mas feita por Deus”.
“Quem diria, eu que tive carteirinha de
puta, estou sendo homenageada pelo presidente”.
“Se tenho pecados, não lembro. A vida é
um segredo, Num susto, se morre”.
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