
180
a. nasce o escritor ÉMILE ZOLA. Filho único de FRANCESCO ZOLA, um italiano que
vivia em AIX-EM-PROVENCE, onde trabalhava na construção de um canal, e de
ÉMILIE-AURÉLIE AUBERT, nasce em PARIS, em 2 de abril de 1840 (a revista
HISTÓRIA VIVA publica como data de seu nascimento, 10 de abril de 1984, na
edição de número 35, em setembro de 2006. Nessa data, estão anotados em minhas
memórias alguns dados referentes ao escritor). Seu pai tinha 44 anos quando, em
uma de suas viagens a PARIS, conheceu ÉMILIE, que ainda não completara vinte
anos. O menino mal conheceu o pai; em 1847 FRANCESCO faleceu. Sozinha e com
grande sacrifício, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer com
que o filho estudasse. Aos doze anos, no COLLÈGE BOURBON, tornou-se amigo do
futuro grande pintor impressionista PAUL CÉZANNE. Quando o rapaz atingiu a
maioridade, partiu com a mãe para PARIS, onde, graças a um amigo da família,
conseguiu um emprego na alfândega. O salário não era muito bom, porém o mais
penoso era ter de ficar preso no escritório. Além disso havia outro problema
sério: o jovem não conhecia ninguém em PARIS. Assim , sua única distração era escrever,
para os amigos que deixara em AIX, longas queixas sobre a necessidade de ganhar
a vida. Nem a promoção a comissário da alfândega conseguiu entusiasmá-lo. Vivia
sonhando com a natureza, as flores, os pássaros e as mulheres: enfim, a vida
fora do escritório. E, de tanto sonhar, um dia descobriu que não poderia mais
suportar “aquele mundo de comissários estúpidos”. Largou tudo e foi morar em um
sótão, alimentava-se de pão com alho e óleo, à maneira dos boemios da época. Só
não pensava em
deixar PARIS. Sentia que possuía talento literário, estava
disposto a lutar para obter sucesso, e as probalidades de consegui-lo eram
maiores na capital. Em dezembro de 1859 concluía sua primeira obra em prosa, AS
COSTUREIRINHAS DE PROVENÇA. Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele
mesmo costumava dizer: “Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada
engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso”. Enquanto a fama não
vinha, distraia-se de várias maneiras: discutia literatura, escrevia poemas sob
a influência de seus ídolos românticos, sonhava com o futuro e ainda encontrou tempo
para se apaixonar por ALEXANDRINE MÉLEY, com quem se casaria em 1870. Em 1862,
com o objetivo de se aproximar um pouco mais do mundo literário, começou a
trabalhar na EDITORA HACHETTE. Ali seu progresso foi rápido: logo tornou-se
chefe de publicidade. Tinha um bom salário e a oportunidade de tomar contato
com os escritores mais famosos da época. Por outro lado, aos poucos foi
descobrindo que a literatura também era um comércio e que o valor de uma obra,
em si, não bastava para imortalizar um autor sem ajuda de publicidade. Enquanto
trabalhava para vender os livros dos outros, ZOLA escrevia também o seu: CONTOS
PARA NINON. Abandonara a poesia, pois a experiência lhe havia ensinado que os
versos não vendiam bem. Recusado inicialmente por três editores, o manuscrito
foi afinal publicado em 1864, e recebeu boa acolhida da crítica, embora não
despertasse grandes polêmicas. Mas isso não importava. O fundamental era
trabalhar muito para aumentar a renda e fazer-se conhecido. Ás dez horas
diárias não lhe bastavam: ZOLA ainda escrevia artigos para o PETIT JOURNAL e
para o SALUT PUBLIC, de LYON, além de redigir A CONFISSÃO DE CLAUDE, publicado
em 1865. O livro foi bem recebido pela crítica, mas, como o anterior, não
suscitou polêmicas. E ZOLA sabia que as polêmicas eram úteis ao sucesso de um
escritor. Por outro lado, começou a sentir que a HACHETTE lhe roubava um tempo
precioso. Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à
literatura. Trocou o romantismo de seus anos de adolescência pelo realismo. Em
1867 começou a elaborar THÉRÈSE RAQUIN, “um grande estudo fisiológico e
psicológico”. Entretanto, logo teve de interromper o trabalho para atender a
uma encomenda: escrever o romance – folhetim OS MISTÉRIOS DE MARSELHA. Apesar
de não ganhar muito dinheiro com essa obra, com essa publicação ZOLA passou a
ser conhecido em toda a região meridional da FRANÇA. Durante mais de dois anos
ZOLA imaginou o projeto de sua nova obra. Um trabalho de muito fôlego composto
de vários romances ligados entre si. Começou então a elaborar a HISTÓRIA
NATURAL E SOCIAL DE UMA FAMÍLIA SOB O SEGUNDO IMPÉRIO: OS ROUGON-MACQUART. O
ano de 1870 surgia com ilimitada fé na ciência e no progresso, e parecia
propiciar uma tarefa desse tipo. Depois de convencer o editor CHARPENTIER a financiar
o projeto, o romancista afastou-se do mundo. Depois de viver enfiado nas
bibliotecas por mais de um ano, terminou a coleta de dados, foi para casa e
começou a criar. Não teria abandonado a mesa de trabalho não fosse a guerra
franco-prussiana, em 1870, que o obrigou a refugiar-se em BORDEAUX. Quando
terminou o sítio dos inimigos, voltou a PARIS. Mas em março do ano seguinte
estourava a revolta dos operários, a COMUNA. No meio de toda a agitação, míope
e com um caderninho nas mãos, o escritor anotava tudo. Sua atitude despertou
suspeitas, e ele acabou sendo preso pelos revoltosos. “Mas eu sou ÉMILE ZOLA”,
protestou, “antigo republicano. Meus livros foram perseguidos pelo império! Sou
um jornalista!” Seus protestos convenceram os líderes revolucionários, que o
libertaram no dia seguinte. Mal deixou a cela, contudo, foi novamente preso,
dessa vez pelos homens do governo. Soltaram-no graças à intervenção de GUSTAVE
SIMON, filho do estadista JULES SIMON. Ao sair da prisão, declarou: “A única
coisa que me consola é não existir um terceiro governo que me mande prender
amanhã”. Enquanto a revolução continuava lá fora, dentro de casa o escritor
continuava seu trabalho. Apesar de todas as interferências, em 1871 apareceram
os dois primeiros volumes da série: A FORTUNA DOS ROUGON e A PRESA. ZOLA estava
ansioso por conhecer a opinião do público. Ficou preocupado ao notar uma reação
negativa, e indignou-se quando teve notícias de que até cartas de denúncias
estavam sendo enviadas ao procurador da República. Sua indignação, porém, só
serviu para piorar as coisas: a publicação em folhetim A PRESA
foi suspensa, sob acusação de obscenidade. Isso era demais para um autor que se
considerava sério e puro. Sua defesa apareceria algum tempo depois no ensaio DA
MORALIDADE NA LITERATURA. Até 1876 publicou mais quatro volumes: O VENTRE DE
PARIS, A CONQUISTA DE PLASSANS, O CRIME DO ABADE MOURET e SUA EXCELÊNCIA EUGÈNE
ROUGON. Estava com 36 anos e com uma enorme capacidade criadora. A crítica já
acolhia com interesse suas obras. Entretanto, ainda não era um romancista de
sucesso. Em 1876 saiu A TAVERNA em folhetim, transformado em livro no ano
seguinte, em dois volumes. Apesar de todas as críticas, o sucesso foi tão
grande que, em poucas semanas, ÉMILE ZOLA se transformou no mais célebre
escritor francês. O sucesso do romance não ficou apenas em frases elogiosas. O
editor CHARPENTIER reformulou os termos do contrato, para favorecer o escritor.
Os jornais disputaram as obras seguintes de ZOLA, oferecendo fortunas para
publicá-las em folhetim.
Com todo esse dinheiro, o romancista comprou uma casa em
MÉDAN, e, enquanto os leitores ainda discutiam A TABERNA, ZOLA começou a
elaborar um novo livro, em estilo completamente diverso. Mas, como ele mesmo
previra UMA PÁGINA DE AMOR, de 1878, acabou decepcionando um público que cada
vez mais desejava narrativas violentas. O único consolo pelo fracasso foi a
constante presença de um grupo de autores em sua casa. Dessas reuniões surgiu
em 1880 OS SERÕES DE MÉDAN, com um conto de cada escritor; o de ZOLA chamava-se
O ATAQUE DO MOINHO. Nesse mesmo ano pôs-se a preparar um novo romance, NANÁ, em
que descrevia a vida de uma cortesã. O sucesso foi enorme, sobretudo pelo tema
ousado e pela criação realista dos personagens, Entretanto, como o escândalo
havia sido responsável por grande parte desse êxito, os ataques vieram de
maneira redobrada. Os que haviam elogiado A TABERNA, por mostrar as fraquezas
dos meios operários, rejeitaram NANÁ por denunciar os males de outras camadas
sociais. Em 1882 publicou PANELADA, e nos dois anos seguintes mais dois volumes
da série dos ROUGON: À FELICIDADE DAS DAMAS e A ALEGRIA DE VIVER. Este tinha
como tema a luta do grande comércio contra as pequenas lojas. Para escrever
GERMINAL, publicado em 1885, ZOLA não se satisfez com a simples busca de
documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços,
bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo do poço para observar
de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio
onde viviam. Descobriu as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o
problema dos baixos salários, o sacrifício dos mineiros, a gota que cai com uma
regularidade incrível sobre o rosto deles, a dificuldade de empurrar uma
vagoneta por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm
de dar para poderem sobreviver. A obra obteve enorme repercussão. Apesar de
revelar um universo que muita gente não queira ver, GERMINAL é um livro tão
poderoso que consagrou ZOLA como um dos maiores escritores de todos os tempos.
No ano seguinte, 1886, lançou A OBRA e começou a escrever A TERRA, romance
ambientado no campo, no qual pretendia pintar a vida dos camponeses, tal como
fizera com os operários em GERMINAL. Publicado em 1887, A TERRA logo
transformou ZOLA num alvo de críticas violentas. Acusaram-no de indecente e de
haver caluniado os camponeses. Os adversários do naturalismo não lhe davam
folga. Em 1888 o escritor conheceu JEANNE ROZEROT, jovem de vinte anos com quem
teve uma ligação amorosa, que resultou num casal de filhos. Nesse ano publicou
O SONHO, obra em que demonstrou sua enorme facilidade de passar de temas
violentos para assuntos mais amenos. Dois anos depois terminou A BESTA HUMANA.
Cansado da série OS ROUGON-MACQUART, os novos romances foram empobrecendo.
Assim, os três últimos romances, publicados entre 1891 e 1893 – O DINHEIRO, A
DERROCADA e O DOUTOR PASCAL – já não têm a força dos anteriores. Quando
terminou OS ROUGON-MACQUART, ZOLA estava com 53 anos. Havia escrito vinte
romances, em 31 volumes, com 1.200 personagens. Podia dar-se ao luxo de
descansar. Mas ele queria continuar criando. O projeto da próxima obra já
estava pronto: AS TRÊS CIDADES, título que englobaria os romances LOURDES, ROMA
e PARIS, publicados entre 1894 e 1898. Em 1894 o capitão do Estado–Maior do
Exército ALFRED DREYFUS foi condenado à prisão perpétua na ILHA DO DIABO, na
GUIANA FRANCESA, acusado de haver entregue à ALEMANHA documentos referentes à
defesa nacional, um crime que não tinha cometido. As cartas que o capitão
enviava do presídio gritavam por sua inocência com firmeza e convicção. O caso
tornou-se público. Três anos mais tarde ZOLA foi passar o inverno em PARIS e
tomou conhecimento de certos documentos relativos ao processo. Entusiasmou-se.
Era a primeira vez, após trinta anos de literatura, que sentia uma motivação
para agir muito superior à paixão por criar. Era preciso reparar a injustiça
cometida diante de todo um povo. O acaso acabou decidindo a maneira de entrar
em ação: num passeio por PARIS ZOLA encontrou-se com o diretor do jornal LE
FIGARO. Os dois conversaram sobre o caso e chegaram a mesma conclusão: DREYFUS
era inocente. Pouco depois o jornal publicava um artigo do escritor
referindo-se ao anti-semitismo (DREYFUS ERA JUDEU). No dia 14 de dezembro de
1897 ZOLA redigiu CARTA À JUVENTUDE, em que fez um apelo para que os jovens
lutassem pela revisão do processo. ZOLA atacava, os adversários revidavam. Num
artigo do PETIT JOURNAL, chegaram a colocar em dúvida a honra do seu pai. Com
uma tiragem de mais de um milhão de exemplares, o jornal espalhava a mentira e
o ódio nas vilas mais longínquas. Mesmo as pessoas que estavam convencidas da
inocência do CAPITÃO DREYFUS continuavam caladas. ZOLA, entretanto, não se
deixou assustar. Em janeiro de 1898, publicou no AURORE a famosa carta J´ACCUSE
(EU ACUSO), endereçada ao presidente da República. FÉLIX FAURE. Nela denunciava
todas as partes obscuras do processo. A publicação abalou PARIS. O escritor foi
condenado a um ano de prisão e obrigado a pagar fiança. A única solução era
sair da FRANÇA. ZOLA então partiu para a INGLATERRA, onde começou a compor
FECUNDIDADE, o primeiro de seus QUATRO EVANGELHOS. Só retornou a PARIS para
assistir à revisão do processo de DREYFUS. O capitão foi condenado novamente, e
ZOLA, num artigo violentíssimo, fez explodir toda sua indignação. Finalmente,
em 1899, DREYFUS foi libertado. E o romancista, por ter sido um dos grandes
responsáveis por essa vitória, recebeu um convite de editores ingleses para
escrever sobre o caso. No entanto, recusou, pois julgava o fato de interesse
exclusivamente francês. Em 1901 as
associações operárias organizaram um banquete para festejar a publicação de seu
segundo evangelho, TRABALHO, e para homenageá-lo por sua atuação no caso
DREYFUS. Em agosto do ano seguinte terminou a redação de VERDADE, o terceiro
evangelho. No mês seguinte foi a PARIS. O apartamento desabitado havia alguns
meses estava bastante úmido. ZOLA ligou o aquecedor e adormeceu ao lado da
esposa. À noite ALEXANDRINE acordou com o corpo extremamente fatigado,
Cambaleando, sentindo um mal-estar geral, chegou até o banheiro e vomitou.
Quando voltou ao quarto, viu ZOLA já acordado. Contudo, os dois não conseguiam
conversar, pois ele também se sentia mal. Tentou levantar-se, mas perdeu os sentidos.
ALEXANDRINE esforçou-se para ajudá-lo, mas desmaiou também. Somente às nove
horas da manhã do dia 29 de setembro é que os empregados decidiram arrombar a
porta do quarto. ALEXANDRINE foi transportada imediatamente para uma clínica e
se salvou. ZOLA, entretanto, morreu asfixiado pelo gás do aquecedor. Não houve
tempo para que escrevesse o último dos quatro evangelhos: JUSTIÇA. Seu corpo
foi enterrado em 5 de outubro no Cemitério de MONTMARTE, com honras nacionais.
Seus restos mortais foram transferidos para o PANTEÃO em 1908.
Nenhum comentário:
Postar um comentário