
EXTRAÍDO DE MEMÓRIAS DO VENTURA.
181 a. nasce MACHADO DE
ASSIS, no RIO DE JANEIRO em 21 de junho de 1839. Falece em 29 de setembro de
1908, de madrugada, após cinco meses de dores e quatro anos de solidão. Nasceu
no morro do LIVRAMENTO, numa casa pobre, com o nome de JOAQUIM MARIA MACHADO DE
ASSIS (JOAQUIM em homenagem ao seu padrinho; MARIA, por causa da madrinha, dona
da CHÁCARA DO LIVRAMENTO; MACHADO, que é o sobrenome dos avós maternos e ASSIS,
o nome do pai). Os anos correm depressa no MORRO DO LIVRAMENTO. JOAQUIM vai
vivendo um pouco no casarão da madrinha, ouvindo descrições de festas
aristocráticas narradas pelas senhoras que chegam de saias farfalhantes, outro
pouco na casinha dos pais, conversando com FRANCISCO sobre histórias de
almanaque ou escutando a mãe contar-lhe passagens da infância em Portugal.
Depois de nascida a irmã, as conversas com a mãe vão ficando raras. A solidão
ganha um peso maior para aquele menino gago e tímido. Num curto espaço de
tempo, morrem-lhe a mãe e a irmã. A madrinha serve-lhe de esteio. Depois ganha
uma madrasta; MARIA INÊS, mulata meiga e delicada, que sabe ler e cozinha com
perfeição. Transmite ao pequeno todos os seus conhecimentos. Quando esgotados,
sugere ao marido que coloque o menino na escola. Em 1851, morre-lhe o pai.
MARIA INÊS emprega-se como cozinheira no Colégio de São Cristóvão. Nas horas
vagas faz balas, que o menino vende na rua. Um dia ele vai à padaria da senhora
GALLOT. Ela e seu empregado, ambos franceses, gostam do pequeno e lhe ensinam
seu idioma. Mais tarde, valendo-se desse aprendizado, traduziria o ensaio
LITERATURA PERANTE A RESTAURAÇÃO, de LAMARTINE, o romance OS TRABALHADORES DO
MAR, de VICTOR HUGO, e várias outras obras da literatura francesa. Vender doces
na rua não condiz nem com a timidez nem com a fragilidade de JOAQUIM MARIA. A
madrasta encontra-lhe outro emprego, parece que de “sacristão” ou coroinha na
igreja da LAMPADOSA – os biógrafos não conseguiram apurar com segurança. O
certo é que, por volta dos quinze anos, tem um emprego, e, nas horas de folga,
passeia pela cidade, demorando-se no LARGO DO ROSSIO, a espiar as vitrinas de
livros. A livraria e tipografia de FRANCISCO DE PAULA BRITO é o que o atrai de
modo especial, não tanto pelos livros expostos, mas pelas discussões que ali
são travadas. Um dia o dono da loja o vê, hesitante, na soleira, e o anima a
entrar. Dá-lhe um emprego de aprendiz de tipógrafo e a oportunidade de estrear
como poeta, publicando, em seu jornal A MARMOTA, os primeiros versos de amor do
jovem amigo: MEU ANJO. Passado algum tempo, o trabalho na oficina do LARGO DO
ROSSIO não tem mais mistérios; MACHADO quer subir mais um degrau. Em 1856,
deixa PAULA BRITO e emprega-se na IMPRENSA NACIONAL, ainda na condição de
aprendiz de tipógrafo, porém com a esperança de melhor futuro. Essa esperança
fica abalada quando o diretor do jornal, MANOEL ANTÔNIO DE ALMEIDA, o chama
para passar-lhe uma reprimenda. MACHADO fora surpreendido lendo durante o
expediente. Todavia, o sermão não chega a ser rude. ALMEIDA, que garantiria a
imortalidade com o romance MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS, compreende a
sede intelectual do funcionário, percebe-lhe a sensibilidade. Torna-o seu amigo
e, sem o saber, seu discípulo. Baseado nos diálogos literários com MANUEL
ANTÔNIO DE ALMEIDA, nos debates do círculo de A MARMOTA, que ele continua a
freqüentar, e nas aulas de gramática e conhecimentos gerais com o PADRE
SILVEIRA SARMENTO, em 1858 MACHADO publica o ensaio O PASSADO, O PRESENTE E O
FUTURO DA LITERATURA, marco inicial de uma atividade crítica que se prolongaria
até 1879 e se pautaria sempre pelo bom gosto, pela honestidade, pela agudeza da
análise. Ainda em 1858, MACHADO começa a colaborar no PARAÍBA, jornal de
PETRÓPOLIS, e volta à firma PAULA BRITO na função de revisor de provas. Havia
subido um degrau. Em 1859 passa para o CORREIO MERCANTIL, em igual função. Ao
sair pela segunda vez da casa PAULA BRITO, não deixa, porém, o convívio do A
MARMOTA, onde é sempre recebido com estímulo e afeto. Com ELEUTÉRIO DE SOUZA
funda, no mesmo ano, a revista ESPELHO, na qual começa sua brilhante carreira
de cronista, registrada em vários periódicos do RIO. Em 1860 consegue uma vaga
de redator no DIÁRIO DO RIO DE JANEIRO. Escrever em um jornal conceituado,
dirigido a um público exigente, obriga-o a dar um tratamento cuidadoso e
perspicaz aos fatos, força-o a apurar o estilo. Em 1861 apresenta duas peças
medíocres: HOJE AVENTAL, AMANHÃ LUVA e DESENCANTOS. A última representa a
aplicação de uma teoria enunciada no opúsculo QUEDA QUE AS MULHERES TÊM PARA OS
TOLOS, também de 1861, segundo a qual os tolos vencem na vida, enquanto os
talentosos fracassam. Mais tarde, retoma o tema em MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS
CUBAS e desenvolve-o no conto TEORIA DO MEDALHÃO. O teatro machadiano, que
compreende treze peças, na maioria escritas no período de 1861 a 1866, é
encarado como a parte mais fraca de sua produção literária. Assim como a
poesia, constitui uma espécie de exercício, uma busca da forma mais adequada à
expressão de seu pensamento. É desse período a publicação, no Diário do Rio de
Janeiro, da tradução de OS TRABALHADORES DO MAR, de VICTOR HUGO, apresentada
pelo próprio MACHADO com a nota de 15 de março de 1866: “Começamos hoje a
publicação do romance de VICTOR HUGO OS TRABALHADORES DO MAR, há tanto tempo
anunciado na imprensa européia e ansiosamente esperado pelos admiradores do
grande poeta”. Entre a publicação de CRISÁLIDAS, em 1864, e o sucesso da
tradução da obra do mestre francês, em 1866, MACHADO vai levando a vida. No ano
seguinte conhece CAROLINA AUGUSTA XAVIER DE NOVAIS, cuja mãe morrera em
PORTUGAL. CAROLINA viera, junto com os irmãos ADELAIDE e MIGUEL, unir-se a
FAUSTINO, o outro irmão, poeta que vive no RIO. Está longe de ser bela. O rosto
severo ostenta as marcas de 23 anos vazios de amor. Dedicara a vida à família e
à leitura. Conhece bem os clássicos portugueses, é versada em gramática. De
índole afetuosa, recatada e doce, cativa a todos os que a conhecem. Cativa
MACHADO também. Em princípios de 1867, os dois solitários se encontram junto à
cabeceira de FAUSTINO, que luta contra uma enfermidade. Encontram-se e amam-se.
Assessor de diretoria no DIÁRIO OFICIAL, MACHADO, além do ordenado, ganha com as
colaborações para vários periódicos. Tem talento, educação e um belo futuro.
Mesmo assim, ADELAIDE e MIGUEL se opõem: não querem um mulato na família. Mas o
obstáculo é vencido, e eles se casam em 12 de novembro de 1869. “A pobreza foi
o lote dos primeiros tempos de casados”, informa o MEMORIAL DE AIRES (1908). Os
proventos do marido são suficientes apenas para o necessário; nenhum luxo. Os
ataques epilépticos voltam. CAROLINA tenta minorar-lhe o sofrimento. É há um
tempo companheira, enfermeira e secretária. Lê e revisa-lhe os manuscritos,
corrigindo os possíveis deslizes gramaticais, sugerindo modificações. As
primeiras obras revisadas por ela constituem a estréia de MACHADO em dois
gêneros que ele maneja com mestria: o conto e o romance. No ano seguinte ao
casamento, MACHADO publica CONTOS FLUMINENSES, seguidos do romance RESSURREIÇÃO
(1872) e de HISTÓRIAS DA MEIA–NOITE (1873). Juntamente com os romances A MÃO E
A LUVA (1874) HELENA (1876) e IAIÁ GARCIA (1878), esses trabalhos constituem a
chamada “fase inicial” de MACHADO, já revelando seu talento de narrador. Nos
três últimos romances há um forte toque autobiográfico. Todos eles giram
basicamente em torno dos mesmos temas: ambição e orgulho, o drama íntimo de
MACHADO com relação à madrasta.
Em 1860 ele se mudara de SÃO CRISTÓVÃO para o centro, afastando-se cada
vez mais de MARIA INÊS, a ponto de ela ter de recorrer à caridade alheia para
sobreviver. Em 1874 a mulata morre. Ferido na consciência, o enteado procura
desabafar, projetando-se em seus personagens. Em fins de 1878 MACHADO,
acompanhado de CAROLINA, parte para NOVA FRIBURGO, por recomendação médica. A
estada em FRIBURGO o faz rever certos valores e posições e enveredar por novos
caminhos. De volta ao RIO, MACHADO inicia a elaboração de MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE
BRÁS CUBAS, publicado primeiro em folhetim, depois pela GARNIER, em 1881. Em
1882 publica o conto O ALIENISTA, sátira mais feroz que a de BRÁS CUBAS. O
protagonista do conto, ao perceber a falência de seu raciocínio, incapaz de
distinguir entre loucos e sãos, recolhe-se ao hospício e suicida-se
mentalmente. A loucura é um dos temas constantes na obra machadiana, ao lado
dos problemas da dúvida (ISAÚ E JACÓ), do bem e do mal (SINGULAR OCORRÊNCIA),
da ânsia da perfeição (TRIO EM LÁ MENOR, CANTIGA DE ESPONSAIS) da autodefinição
da personalidade (O ESPELHO), do despertar dos instintos na adolescência (MISSA
DO GALO), tratados nos contos e nos romances da maturidade. Escrevendo sobre
adultério, morte, sadismo, alienação, MACHADO não se demora em cenas chocantes.
A sobriedade e a sutileza são características suas, numa época em que os
realistas se desdobram em detalhes grosseiros. Ele prefere sugerir a declarar.
Ao contrário de BRÁS CUBAS, MACHADO conquista a glória e o amor, tem amigos e
discípulos, e só lamenta não ter filhos – porque teme transmitir não “o legado
da nossa miséria”, mas a tragédia de sua doença, que o carinho de CAROLINA
ajuda a suportar. Leva uma vida calma, perturbada apenas pelos ataques
epilépticos. Em abril de 1897 MACHADO conduz a sessão inaugural da ACADEMIA
BRASILEIRA DE LETRAS. Pena que a alegria desse momento seja empanada pela
demissão de MACHADO. O governo decide confiar a direção da Secretaria a um
técnico. O escritor fica inativo por quase um ano, até que, em novembro de 1898,
é reincorporado como secretário do ministro da VIAÇÃO. A volta ao trabalho
restitui-lhe a calma necessária para compor DOM CASMURRO (1900), o mais pessoal
de seus romances. Uma análise profunda do ciúme. CAROLINA ainda revisa o
manuscrito de DOM CASMURRO, mas não pode ler ESAÚ E JACÓ. Está doente. Procura
esconder do marido as dores de estômago, agravadas por uma receita errada
fornecida pelo farmacêutico. Em fins de 1903, não pode continuar ocultando. Ao
começar o ANO-NOVO, o casal parte para NOVA FRIBURGO, na esperança de cura. Ali
ficam um mês , ela esforçando-se por parecer melhor, ele esmerando-se por
parecer confiante. Ambos sabendo que não haveria mais tempo. Em 20 de outubro
de 1904, à beira do 35º aniversário de um casamento tranqüilo, CAROLINA morre.
A maneira que MACHADO tem de falar na mulher sem cansar os amigos nem desvelar
sua intimidade é contar episódios da vida conjugal como se fossem coisas de
ficção. A idéia tarda em criar corpo. Só em 1907, entre estudos de grego e
expedientes no Ministério da VIAÇÃO, onde era diretor geral de contabilidade
desde 1902, ele começa a escrever MEMORIAL DE AIRES. Um relato de ancião, a
passo lento. Quadros da vida de CARMO e AGUIAR (na verdade MACHADO e CAROLINA).
Percalços da aventura amorosa de FIDÉLIA e TRISTÃO. E um final feliz. A vida é
pacata, mas sorri. E o velho MACHADO faz as pazes com ela, um pouco antes de se
despedir. MORRE em 29 de setembro de 1908.
O Diário Oficial da União
publicou no dia 19 de setembro de 2007 a instituição do “ANO NACIONAL MACHADO
DE ASSIS”, pelo presidente da República, LULA, e pelo Ministro da Cultura,
GILBERTO GIL, para 2008. Trata-se do centenário da morte do escritor
brasileiro, considerado o maior expoente da literatura nacional de todos os
tempos. Uma intensa agenda de atividades vem sendo preparada para comemorar a
data, inclusive com eventos internacionais já em 2007, como na 27ª Feira do
Livro de SANTIAGO, no CHILE, que aconteceu de 23 de outubro a 3 de novembro. O
BRASIL foi convidado a participar como país homenageado. De acordo com o
coordenador-geral de LIVRO E LEITURA DO MinC, JÉFERSON ASSUMÇÃO, “MACHADO DE
ASSIS foi um dos principais desafiadores e artistas da intelectualidade
brasileira”. Para ASSUMÇÃO, “o centenário da sua morte é momento para se
revisitar e iluminar um tesouro e, também, para colocarmos perguntas
fundamentais à sociedade brasileira sobre nossa literatura e nossa cultura”. Em
sua opinião, “a programação do ano comemorativo visa, sobretudo, a atualização
do pensamento machadiano.
HÉLIO DE SEIXAS GUIMARÃES,
professor de Literatura Brasileira da USP, se dedica há mais de dez anos
exclusivamente ao estudo de MACHADO DE ASSIS. Durante as suas pesquisas
acadêmicas, notou um encorpado volume de imagens e retratos do fundador da
Academia Brasileira de Letras nunca antes tornado público, muito menos reunido.
Embora incompleto se a intenção fosse montar uma cronologia iconográfica pela
razão já citada, o extenso material encontrado consegue ilustrar o caráter
determinado do escritor a partir de seus 20 anos, a austeridade alcançada aos
40 e um certo olhar melancólico adquirido por volta dos 60. Além disso, é
também notável a ascensão social repentina: de origem modesta, o rapaz mulato
de cabelos revoltos foi fotografado aos 25 anos por JOAQUIM INSLEY PACHECO,
profissional contratado da “Casa Imperial”. A justificativa de GUIMARÃES está
na apresentação da obra que foi lançada no dia 26 de novembro de 2008. A OLHOS
VISTOS – UMA ICONOGRAFIA DE MACHADO DE ASSIS, organizada por ele e pelo
jornalista e produtor cultural VLADIMIR SACCHETTA.
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