domingo, 21 de junho de 2020

181 ANOS DO NASCIMENTO DE MACHADO DE ASSIS, EM 21 DE JUNHO DE 1839.


Biografia e obras de Machado de Assis - Estudo Prático







EXTRAÍDO DE MEMÓRIAS DO VENTURA.




181 a. nasce MACHADO DE ASSIS, no RIO DE JANEIRO em 21 de junho de 1839. Falece em 29 de setembro de 1908, de madrugada, após cinco meses de dores e quatro anos de solidão. Nasceu no morro do LIVRAMENTO, numa casa pobre, com o nome de JOAQUIM MARIA MACHADO DE ASSIS (JOAQUIM em homenagem ao seu padrinho; MARIA, por causa da madrinha, dona da CHÁCARA DO LIVRAMENTO; MACHADO, que é o sobrenome dos avós maternos e ASSIS, o nome do pai). Os anos correm depressa no MORRO DO LIVRAMENTO. JOAQUIM vai vivendo um pouco no casarão da madrinha, ouvindo descrições de festas aristocráticas narradas pelas senhoras que chegam de saias farfalhantes, outro pouco na casinha dos pais, conversando com FRANCISCO sobre histórias de almanaque ou escutando a mãe contar-lhe passagens da infância em Portugal. Depois de nascida a irmã, as conversas com a mãe vão ficando raras. A solidão ganha um peso maior para aquele menino gago e tímido. Num curto espaço de tempo, morrem-lhe a mãe e a irmã. A madrinha serve-lhe de esteio. Depois ganha uma madrasta; MARIA INÊS, mulata meiga e delicada, que sabe ler e cozinha com perfeição. Transmite ao pequeno todos os seus conhecimentos. Quando esgotados, sugere ao marido que coloque o menino na escola. Em 1851, morre-lhe o pai. MARIA INÊS emprega-se como cozinheira no Colégio de São Cristóvão. Nas horas vagas faz balas, que o menino vende na rua. Um dia ele vai à padaria da senhora GALLOT. Ela e seu empregado, ambos franceses, gostam do pequeno e lhe ensinam seu idioma. Mais tarde, valendo-se desse aprendizado, traduziria o ensaio LITERATURA PERANTE A RESTAURAÇÃO, de LAMARTINE, o romance OS TRABALHADORES DO MAR, de VICTOR HUGO, e várias outras obras da literatura francesa. Vender doces na rua não condiz nem com a timidez nem com a fragilidade de JOAQUIM MARIA. A madrasta encontra-lhe outro emprego, parece que de “sacristão” ou coroinha na igreja da LAMPADOSA – os biógrafos não conseguiram apurar com segurança. O certo é que, por volta dos quinze anos, tem um emprego, e, nas horas de folga, passeia pela cidade, demorando-se no LARGO DO ROSSIO, a espiar as vitrinas de livros. A livraria e tipografia de FRANCISCO DE PAULA BRITO é o que o atrai de modo especial, não tanto pelos livros expostos, mas pelas discussões que ali são travadas. Um dia o dono da loja o vê, hesitante, na soleira, e o anima a entrar. Dá-lhe um emprego de aprendiz de tipógrafo e a oportunidade de estrear como poeta, publicando, em seu jornal A MARMOTA, os primeiros versos de amor do jovem amigo: MEU ANJO. Passado algum tempo, o trabalho na oficina do LARGO DO ROSSIO não tem mais mistérios; MACHADO quer subir mais um degrau. Em 1856, deixa PAULA BRITO e emprega-se na IMPRENSA NACIONAL, ainda na condição de aprendiz de tipógrafo, porém com a esperança de melhor futuro. Essa esperança fica abalada quando o diretor do jornal, MANOEL ANTÔNIO DE ALMEIDA, o chama para passar-lhe uma reprimenda. MACHADO fora surpreendido lendo durante o expediente. Todavia, o sermão não chega a ser rude. ALMEIDA, que garantiria a imortalidade com o romance MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS, compreende a sede intelectual do funcionário, percebe-lhe a sensibilidade. Torna-o seu amigo e, sem o saber, seu discípulo. Baseado nos diálogos literários com MANUEL ANTÔNIO DE ALMEIDA, nos debates do círculo de A MARMOTA, que ele continua a freqüentar, e nas aulas de gramática e conhecimentos gerais com o PADRE SILVEIRA SARMENTO, em 1858 MACHADO publica o ensaio O PASSADO, O PRESENTE E O FUTURO DA LITERATURA, marco inicial de uma atividade crítica que se prolongaria até 1879 e se pautaria sempre pelo bom gosto, pela honestidade, pela agudeza da análise. Ainda em 1858, MACHADO começa a colaborar no PARAÍBA, jornal de PETRÓPOLIS, e volta à firma PAULA BRITO na função de revisor de provas. Havia subido um degrau. Em 1859 passa para o CORREIO MERCANTIL, em igual função. Ao sair pela segunda vez da casa PAULA BRITO, não deixa, porém, o convívio do A MARMOTA, onde é sempre recebido com estímulo e afeto. Com ELEUTÉRIO DE SOUZA funda, no mesmo ano, a revista ESPELHO, na qual começa sua brilhante carreira de cronista, registrada em vários periódicos do RIO. Em 1860 consegue uma vaga de redator no DIÁRIO DO RIO DE JANEIRO. Escrever em um jornal conceituado, dirigido a um público exigente, obriga-o a dar um tratamento cuidadoso e perspicaz aos fatos, força-o a apurar o estilo. Em 1861 apresenta duas peças medíocres: HOJE AVENTAL, AMANHÃ LUVA e DESENCANTOS. A última representa a aplicação de uma teoria enunciada no opúsculo QUEDA QUE AS MULHERES TÊM PARA OS TOLOS, também de 1861, segundo a qual os tolos vencem na vida, enquanto os talentosos fracassam. Mais tarde, retoma o tema em MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS e desenvolve-o no conto TEORIA DO MEDALHÃO. O teatro machadiano, que compreende treze peças, na maioria escritas no período de 1861 a 1866, é encarado como a parte mais fraca de sua produção literária. Assim como a poesia, constitui uma espécie de exercício, uma busca da forma mais adequada à expressão de seu pensamento. É desse período a publicação, no Diário do Rio de Janeiro, da tradução de OS TRABALHADORES DO MAR, de VICTOR HUGO, apresentada pelo próprio MACHADO com a nota de 15 de março de 1866: “Começamos hoje a publicação do romance de VICTOR HUGO OS TRABALHADORES DO MAR, há tanto tempo anunciado na imprensa européia e ansiosamente esperado pelos admiradores do grande poeta”. Entre a publicação de CRISÁLIDAS, em 1864, e o sucesso da tradução da obra do mestre francês, em 1866, MACHADO vai levando a vida. No ano seguinte conhece CAROLINA AUGUSTA XAVIER DE NOVAIS, cuja mãe morrera em PORTUGAL. CAROLINA viera, junto com os irmãos ADELAIDE e MIGUEL, unir-se a FAUSTINO, o outro irmão, poeta que vive no RIO. Está longe de ser bela. O rosto severo ostenta as marcas de 23 anos vazios de amor. Dedicara a vida à família e à leitura. Conhece bem os clássicos portugueses, é versada em gramática. De índole afetuosa, recatada e doce, cativa a todos os que a conhecem. Cativa MACHADO também. Em princípios de 1867, os dois solitários se encontram junto à cabeceira de FAUSTINO, que luta contra uma enfermidade. Encontram-se e amam-se. Assessor de diretoria no DIÁRIO OFICIAL, MACHADO, além do ordenado, ganha com as colaborações para vários periódicos. Tem talento, educação e um belo futuro. Mesmo assim, ADELAIDE e MIGUEL se opõem: não querem um mulato na família. Mas o obstáculo é vencido, e eles se casam em 12 de novembro de 1869. “A pobreza foi o lote dos primeiros tempos de casados”, informa o MEMORIAL DE AIRES (1908). Os proventos do marido são suficientes apenas para o necessário; nenhum luxo. Os ataques epilépticos voltam. CAROLINA tenta minorar-lhe o sofrimento. É há um tempo companheira, enfermeira e secretária. Lê e revisa-lhe os manuscritos, corrigindo os possíveis deslizes gramaticais, sugerindo modificações. As primeiras obras revisadas por ela constituem a estréia de MACHADO em dois gêneros que ele maneja com mestria: o conto e o romance. No ano seguinte ao casamento, MACHADO publica CONTOS FLUMINENSES, seguidos do romance RESSURREIÇÃO (1872) e de HISTÓRIAS DA MEIA–NOITE (1873). Juntamente com os romances A MÃO E A LUVA (1874) HELENA (1876) e IAIÁ GARCIA (1878), esses trabalhos constituem a chamada “fase inicial” de MACHADO, já revelando seu talento de narrador. Nos três últimos romances há um forte toque autobiográfico. Todos eles giram basicamente em torno dos mesmos temas: ambição e orgulho, o drama íntimo de MACHADO com relação  à  madrasta.  Em 1860 ele se mudara de SÃO CRISTÓVÃO para o centro, afastando-se cada vez mais de MARIA INÊS, a ponto de ela ter de recorrer à caridade alheia para sobreviver. Em 1874 a mulata morre. Ferido na consciência, o enteado procura desabafar, projetando-se em seus personagens. Em fins de 1878 MACHADO, acompanhado de CAROLINA, parte para NOVA FRIBURGO, por recomendação médica. A estada em FRIBURGO o faz rever certos valores e posições e enveredar por novos caminhos. De volta ao RIO, MACHADO inicia a elaboração de MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS, publicado primeiro em folhetim, depois pela GARNIER, em 1881. Em 1882 publica o conto O ALIENISTA, sátira mais feroz que a de BRÁS CUBAS. O protagonista do conto, ao perceber a falência de seu raciocínio, incapaz de distinguir entre loucos e sãos, recolhe-se ao hospício e suicida-se mentalmente. A loucura é um dos temas constantes na obra machadiana, ao lado dos problemas da dúvida (ISAÚ E JACÓ), do bem e do mal (SINGULAR OCORRÊNCIA), da ânsia da perfeição (TRIO EM LÁ MENOR, CANTIGA DE ESPONSAIS) da autodefinição da personalidade (O ESPELHO), do despertar dos instintos na adolescência (MISSA DO GALO), tratados nos contos e nos romances da maturidade. Escrevendo sobre adultério, morte, sadismo, alienação, MACHADO não se demora em cenas chocantes. A sobriedade e a sutileza são características suas, numa época em que os realistas se desdobram em detalhes grosseiros. Ele prefere sugerir a declarar. Ao contrário de BRÁS CUBAS, MACHADO conquista a glória e o amor, tem amigos e discípulos, e só lamenta não ter filhos – porque teme transmitir não “o legado da nossa miséria”, mas a tragédia de sua doença, que o carinho de CAROLINA ajuda a suportar. Leva uma vida calma, perturbada apenas pelos ataques epilépticos. Em abril de 1897 MACHADO conduz a sessão inaugural da ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Pena que a alegria desse momento seja empanada pela demissão de MACHADO. O governo decide confiar a direção da Secretaria a um técnico. O escritor fica inativo por quase um ano, até que, em novembro de 1898, é reincorporado como secretário do ministro da VIAÇÃO. A volta ao trabalho restitui-lhe a calma necessária para compor DOM CASMURRO (1900), o mais pessoal de seus romances. Uma análise profunda do ciúme. CAROLINA ainda revisa o manuscrito de DOM CASMURRO, mas não pode ler ESAÚ E JACÓ. Está doente. Procura esconder do marido as dores de estômago, agravadas por uma receita errada fornecida pelo farmacêutico. Em fins de 1903, não pode continuar ocultando. Ao começar o ANO-NOVO, o casal parte para NOVA FRIBURGO, na esperança de cura. Ali ficam um mês , ela esforçando-se por parecer melhor, ele esmerando-se por parecer confiante. Ambos sabendo que não haveria mais tempo. Em 20 de outubro de 1904, à beira do 35º aniversário de um casamento tranqüilo, CAROLINA morre. A maneira que MACHADO tem de falar na mulher sem cansar os amigos nem desvelar sua intimidade é contar episódios da vida conjugal como se fossem coisas de ficção. A idéia tarda em criar corpo. Só em 1907, entre estudos de grego e expedientes no Ministério da VIAÇÃO, onde era diretor geral de contabilidade desde 1902, ele começa a escrever MEMORIAL DE AIRES. Um relato de ancião, a passo lento. Quadros da vida de CARMO e AGUIAR (na verdade MACHADO e CAROLINA). Percalços da aventura amorosa de FIDÉLIA e TRISTÃO. E um final feliz. A vida é pacata, mas sorri. E o velho MACHADO faz as pazes com ela, um pouco antes de se despedir. MORRE em 29 de setembro de 1908.
O Diário Oficial da União publicou no dia 19 de setembro de 2007 a instituição do “ANO NACIONAL MACHADO DE ASSIS”, pelo presidente da República, LULA, e pelo Ministro da Cultura, GILBERTO GIL, para 2008. Trata-se do centenário da morte do escritor brasileiro, considerado o maior expoente da literatura nacional de todos os tempos. Uma intensa agenda de atividades vem sendo preparada para comemorar a data, inclusive com eventos internacionais já em 2007, como na 27ª Feira do Livro de SANTIAGO, no CHILE, que aconteceu de 23 de outubro a 3 de novembro. O BRASIL foi convidado a participar como país homenageado. De acordo com o coordenador-geral de LIVRO E LEITURA DO MinC, JÉFERSON ASSUMÇÃO, “MACHADO DE ASSIS foi um dos principais desafiadores e artistas da intelectualidade brasileira”. Para ASSUMÇÃO, “o centenário da sua morte é momento para se revisitar e iluminar um tesouro e, também, para colocarmos perguntas fundamentais à sociedade brasileira sobre nossa literatura e nossa cultura”. Em sua opinião, “a programação do ano comemorativo visa, sobretudo, a atualização do pensamento machadiano.
HÉLIO DE SEIXAS GUIMARÃES, professor de Literatura Brasileira da USP, se dedica há mais de dez anos exclusivamente ao estudo de MACHADO DE ASSIS. Durante as suas pesquisas acadêmicas, notou um encorpado volume de imagens e retratos do fundador da Academia Brasileira de Letras nunca antes tornado público, muito menos reunido. Embora incompleto se a intenção fosse montar uma cronologia iconográfica pela razão já citada, o extenso material encontrado consegue ilustrar o caráter determinado do escritor a partir de seus 20 anos, a austeridade alcançada aos 40 e um certo olhar melancólico adquirido por volta dos 60. Além disso, é também notável a ascensão social repentina: de origem modesta, o rapaz mulato de cabelos revoltos foi fotografado aos 25 anos por JOAQUIM INSLEY PACHECO, profissional contratado da “Casa Imperial”. A justificativa de GUIMARÃES está na apresentação da obra que foi lançada no dia 26 de novembro de 2008. A OLHOS VISTOS – UMA ICONOGRAFIA DE MACHADO DE ASSIS, organizada por ele e pelo jornalista e produtor cultural VLADIMIR SACCHETTA. 

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