terça-feira, 23 de junho de 2020

CARNE LOUCA - TEXTO DO CORONEL PM LUIZ EDUARDO PESCE DE ARRUDA.

CARNE LOUCA
Luiz Eduardo Pesce de Arruda
Quem não se lembra das festas de infância? A pergunta surgiu durante uma aula do curso de graduação modular em Marketing da Universidade Anhembi Morumbi. E as histórias explodiram, espontâneas, por livre associação, igual a uma fonte que jorra da pedra da memória. Como professor e alunos tinham mais ou menos a mesma idade – a graduação modular atraia especialmente jovens executivos em progressão profissional, que precisavam da graduação para ascender à diretoria de suas empresas, as histórias eram surpreendentemente parecidas. Normalmente, as festas eram marcadas para ocorrer no sábado, a partir das 4 da tarde. Éramos convidados na semana anterior e, no dia, a rotina era tomar banho, colocar a melhor roupa e levar um presentinho simples. Depois do sermão da mãe (“ – se comporte, não brigue, não fale palavrão, não me faça passar vergonha, coma antes de ir para não ficar rondando a mesa do bolo como um esfomeado”), caminhávamos tranquilamente para ir e voltar da festa e a mãe não precisava nos levar de carro até a porta do condomínio como acontece hoje,  ligadíssima ao movimento de ladrões.
Na casa do amigo – ou do primo - éramos recebidos festivamente. A decoração era despojada e não temática. Normalmente, feita de bexigas e papel crepom. Mas as comidas.... Tudo feito em casa, com amor e paciência desde quinta-feira. Barquinha de maionese, sanduiche feito com pão Pullman cortado em triângulo e recheado de patê de sardinha, espetinhos de picles, salsinha, queijo prato e azeitona - espetados em um mamão colhido no quintal, coberto de papel alumínio e que, a noite, no fim da festa, a gente esculpia para virar caveira com vela dentro, pra assustar as crianças do vizinho. Tinha brigadeiro confeitado, cocadinha e biriba, que era um tipo de queijadinha assada em forminhas de papel. Como normalmente a biriba grudava no fundo, comíamos o doce com papel e tudo. Não podia faltar o guaraná caçula (quente) e o infalível, saboroso, cheiroso, suculento sanduiche da carne louca.
Enquanto todos pareciam se deleitar com as lembranças, uma sombra de tristeza anuviou o rosto da Solange. Vi que aquilo a incomodou. E eu percebi nitidamente. Aliás, ela já chamara minha atenção. Ainda não completara 30 anos, era bonita e elegante, mas nunca sorria. Evitava participar de discussões em sala e trabalhos em grupo, entrava muda e saia calada e aparentemente não tinha amizade com ninguém na turma. Herdeira de uma vinícola famosa, alguns colegas a julgavam arrogante. Outros a achavam esquisita mesmo.
O assunto da aula voltou e, no intervalo, abordei a moça:
- E aí, Solange, você gosta de carne louca?
Ela sorriu, um sorriso triste e conformado:
- Eu não sei o que é isso, professor. Nunca participei de uma festa assim...
Aquilo foi um murro no meu peito. Como era possível – pensei - alguém nunca ter participado de uma festa infantil, tomado caçula e comigo carne louca, sujando as mãos de molho para disfarçadamente, lamber as pontas dos dedos depois?
- Meus pais se separaram    quando eu tinha seis anos. Fui criada sozinha, em um colégio interno na Suíça. Voltei ao Brasil há dois anos.
Impactado, quando a turma voltou do intervalo, propus:
- A conversa da aula passada me deu fome de infância. Quando terminarmos o semestre, se tudo correr bem, depois da vista de provas e divulgação das notas da turma, proponho fazermos uma festa aqui. Eu trago a carne louca, vocês trazem o pão e o refrigerante.
Como aluno é sempre igual, logo veio a proposta:
- Pode trazer cerveja?
- Não!
Todos riram e o proponente ainda se justificou:
- Eu tentei...
O semestre acabou, uma turma dedicada e generosa, muitos meus amigos até hoje.
Fechadas as notas, fui ao estacionamento e tirei do porta malas do carro o caldeirão fumegante e cheiroso. Quando cheguei à sala de aula, já havia pão quentinho, refrigerante e até brigadeiro.
E eu apresentei:
- Solange, carne louca!
A menina comeu, com gula e com prazer, uns cinco ou seis sanduiches e, ao final, a surpreendi com miolo de pão limpando o molho do caldeirão. Ela deu um sorrisinho meio sem graça, como uma criança surpreendida fazendo arte:
- Isso é bom demais, ela disse.
Puro prazer de infância, a infância que, um dia, lhe fora roubada.
Pobre menina rica, pensei. Mas logo conclui que sempre é tempo de conhecer carne louca, festejar com os amigos, ser criança novamente.  E sorrir. E que, enquanto estivermos caminhando por este mundo, nunca é tarde para ser feliz.
São Paulo, 22/06/2020, 22:00h

Nenhum comentário: