81 a. da TRAGÉDIA DA RUA VITÓRIA. O
que, afinal, acontecia no tranquilo bairro da LUZ? Eram somente nove e meia da
noite de 29 de outubro de 1939. Por que as pessoas corriam, em pânico? Que
tiros eram aqueles? Os guardas de assalto da Guarda Civil seguiam às pressas
para lá. O mesmo fazia a tropa de choque da FORÇA PÚBLICA e da POLÍCIA ESPECIAL
DO EXÉRCITO. Ambulâncias abriam caminho, a toque de sirene. Vários delegados
convergiam à Central de Polícia, para ajudar o colega de plantão. As notícias
não paravam de chegar. Um guarda civil morto da rua dos Protestantes... Um
casal atingido em um carro...
O soldado MANOEL MODESTO FILHO tinha o
registro nº 10.336 do 4º ESQUADRÃO DE CAVALARIA DA FORÇA PÚBLICA. Dizia aos
colegas que fora um dos cabras do bando de LAMPIÃO. Em sua folha de serviço,
constava agressão à faca a um outro soldado. MODESTO tinha uma paixão: uma das
moças da casa de tolerância situada na RUA VITÓRIA, 24. Mas, a rameira, cita o
delegado já falecido GUIDO FONSECA, em seu livro CRIMES, CRIMINOSOS E A
CRIMINALIDADE, gostava de outro soldado. Naquela noite, MODESTO entrou na casa
da Rua VITÓRIA vestindo um capote. Mandou um rapaz, que estava na sala, se
raspar. Disse à dona da casa que chamasse ISAURA. A moça veio a contragosto.
Dois dias antes, “por motivo de somenos importância”, MODESTO “a agredira a
bofetadas”. O soldado tirou de sob o capote um mosquetão MAUSER (escondia
também mais de cem cartuchos). Não protestou, não falou nada. Matou ISAURA com
sete tiros. Depois tirou o capote e saiu à rua. Saiu atirando contra os prédios
que via pela frente. Três pessoas, que surgiram à janela de apartamentos, para
ver o que se passava, foram feridas. MODESTO recarregava a arma e atirava. Um
espanhol, que caminhava pela rua, deu de cara com ele. Não teve tempo para
qualquer reação. Levou um tiro no braço direito. O soldado enlouquecido sobe
pela Rua COUTO DE MAGALHÃES. Na esquina da RUA DOS PROTESTANTES, um
guarda-civil, o sub-inspetor MIGUEL KALININI, tenta detê-lo. Faz o gesto de
puxar seu revólver, mas não o completa. MODESTO acerta-lhe um tiro fatal no
peito. Na RUA MAUÁ, fez vários disparos contra um carro parado num farol. Nele
estava uma jovem russa, LÚCIA SIMONOVITCH, e, ao volante, ABRAHÃO KUNITZA, seu
noivo. A moça levou um tiro no rosto, mas sobreviveu. O noivo, atingido por
dois tiros, não resistiu. MODESTO alcança o pontilhão sobre a ferrovia, entre a
RUA MAUÁ e o JARDIM DA LUZ. Um ônibus da linha BOM RETIRO se aproxima e pára: o
soldado está à sua frente, com a arma. MODESTO autoriza o motorista a
prosseguir, mas, ao mesmo tempo, abre fogo. O próprio motorista, GERALDO
LAURINDO, leva um tiro de raspão no peito. Duas passageiras ficam feridas, uma
delas por estilhaços de vidro. Na RUA PRATES, CHAIM SOUHER VOLMER, quando saía
de sua casa para saber a razão de tanto barulho, é atingido por um tiro.
Conduzido ao Hospital SANTA RITA, ali falecia. Uma radiopatrulha encontra uma
testemunha que se dispõe a ajudar. Ela diz que o soldado voltou em direção da
RUA DOS PROTESTANTES. Sobe no carro policial, para identificar o atirador,
quando o vissem. A radiopatrulha chega à RUA DOS PROTESTANTES e, quando menos
espera, vira alvo. MODESTO atira por trás do carro. Os tiros matam os dois
guardas civis a bordo, ANTÔNIO NOUCHE e MÁRIO MÁGLIO. A testemunha que ia no
banco de trás teve mais sorte. FRANCISCO ALVES DE SOUZA ficou ferido por dois
tiros, mas abaixou-se bem e saiu da mira do atirador. Fez mais, pegou o
revólver de um dos guardas e disparou duas vezes contra MODESTO. Correu para um
antigo prédio do serviço de trânsito, encontrou um sargento e passou-lhe a
arma. Mais tarde, quando tudo terminou, soube-se que um dos tiros disparados
por FRANCISCO havia atingido o soldado no peito. O ferimento não fora grave,
porque o projétil desviou num botão de sua farda.
O delegado de “pernoite” na Central de
Polícia, DELDUQUE GARCIA RIBEIRO, chegou à área aonde MODESTO tinha deixado seu
rastro de mortos e feridos. Vinha com sua equipe e uma turma de reforço. Mas
era tarde. Não havia mais sinal do soldado ensandecido. Pessoas do povo o
informaram de que MODESTO tomara a direção do JARDIM DA LUZ. O delegado se
comunicou com o oficial-de-dia do quartel-general da FORÇA PÚBLICA e solicitou
providências. Os policiais da FORÇA PÚBLICA e da GUARDA-CIVIL e patrulhas do Exército,
intensificaram as buscas. Caçava-se o soldado com o mosquetão por toda a
região. Na madrugada, uma ronda da FORÇA PÚBLICA que vinha pela Rua RODOLFO
MIRANDA foi recebida a tiros. MODESTO atirava de um matagal, onde se escondera.
Dado o alarma, as tropas convergiram para o local. A patrulha recebida a tiros
recuou, espalhando-se os soldados pelas imediações. Responderam aos disparos e
se travou violento tiroteio. Mas MODESTO saltando muros e atravessando
quintais, logrou escapar. Às cinco horas, o soldado BASÍLIO LEME, de sentinela
no HOSPITAL MILITAR da FORÇA PÚBLICA, viu que um homem se aproximava. O
hospital ficava na Rua JOÃO TEODORO, bem perto do JARDIM DA LUZ. A sentinela
contaria depois que o homem lhe disse: “Com nós não há nada. Acabou-se a
munição”. Só então percebeu que o estranho era, na verdade, um colega de farda.
Deixou-o entrar. Logo depois ouviu um tiro. O soldado MODESTO se suicidara,
disparando contra o queixo talvez o último tiro de seu mosquetão.
No necrotério e nos hospitais
contavam-se as vítimas de seus tiros: sete mortos e doze feridos. MODESTO
“tinha um gênio irascível e era useiro e vezeiro em promover desordens em casas
de tolerância”. Quatro meses antes, por motivos fúteis, havia travado “uma luta
de duas horas com um corneteiro da FORÇA PÚBLICA, ambos armados de punhal”.
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