quinta-feira, 29 de outubro de 2020

81 ANOS DA TRAGÉDIA DA RUA VITÓRIA (29 DE OUTUBRO DE 1939)

 

81 a. da TRAGÉDIA DA RUA VITÓRIA. O que, afinal, acontecia no tranquilo bairro da LUZ? Eram somente nove e meia da noite de 29 de outubro de 1939. Por que as pessoas corriam, em pânico? Que tiros eram aqueles? Os guardas de assalto da Guarda Civil seguiam às pressas para lá. O mesmo fazia a tropa de choque da FORÇA PÚBLICA e da POLÍCIA ESPECIAL DO EXÉRCITO. Ambulâncias abriam caminho, a toque de sirene. Vários delegados convergiam à Central de Polícia, para ajudar o colega de plantão. As notícias não paravam de chegar. Um guarda civil morto da rua dos Protestantes... Um casal atingido em um carro...

O soldado MANOEL MODESTO FILHO tinha o registro nº 10.336 do 4º ESQUADRÃO DE CAVALARIA DA FORÇA PÚBLICA. Dizia aos colegas que fora um dos cabras do bando de LAMPIÃO. Em sua folha de serviço, constava agressão à faca a um outro soldado. MODESTO tinha uma paixão: uma das moças da casa de tolerância situada na RUA VITÓRIA, 24. Mas, a rameira, cita o delegado já falecido GUIDO FONSECA, em seu livro CRIMES, CRIMINOSOS E A CRIMINALIDADE, gostava de outro soldado. Naquela noite, MODESTO entrou na casa da Rua VITÓRIA vestindo um capote. Mandou um rapaz, que estava na sala, se raspar. Disse à dona da casa que chamasse ISAURA. A moça veio a contragosto. Dois dias antes, “por motivo de somenos importância”, MODESTO “a agredira a bofetadas”. O soldado tirou de sob o capote um mosquetão MAUSER (escondia também mais de cem cartuchos). Não protestou, não falou nada. Matou ISAURA com sete tiros. Depois tirou o capote e saiu à rua. Saiu atirando contra os prédios que via pela frente. Três pessoas, que surgiram à janela de apartamentos, para ver o que se passava, foram feridas. MODESTO recarregava a arma e atirava. Um espanhol, que caminhava pela rua, deu de cara com ele. Não teve tempo para qualquer reação. Levou um tiro no braço direito. O soldado enlouquecido sobe pela Rua COUTO DE MAGALHÃES. Na esquina da RUA DOS PROTESTANTES, um guarda-civil, o sub-inspetor MIGUEL KALININI, tenta detê-lo. Faz o gesto de puxar seu revólver, mas não o completa. MODESTO acerta-lhe um tiro fatal no peito. Na RUA MAUÁ, fez vários disparos contra um carro parado num farol. Nele estava uma jovem russa, LÚCIA SIMONOVITCH, e, ao volante, ABRAHÃO KUNITZA, seu noivo. A moça levou um tiro no rosto, mas sobreviveu. O noivo, atingido por dois tiros, não resistiu. MODESTO alcança o pontilhão sobre a ferrovia, entre a RUA MAUÁ e o JARDIM DA LUZ. Um ônibus da linha BOM RETIRO se aproxima e pára: o soldado está à sua frente, com a arma. MODESTO autoriza o motorista a prosseguir, mas, ao mesmo tempo, abre fogo. O próprio motorista, GERALDO LAURINDO, leva um tiro de raspão no peito. Duas passageiras ficam feridas, uma delas por estilhaços de vidro. Na RUA PRATES, CHAIM SOUHER VOLMER, quando saía de sua casa para saber a razão de tanto barulho, é atingido por um tiro. Conduzido ao Hospital SANTA RITA, ali falecia. Uma radiopatrulha encontra uma testemunha que se dispõe a ajudar. Ela diz que o soldado voltou em direção da RUA DOS PROTESTANTES. Sobe no carro policial, para identificar o atirador, quando o vissem. A radiopatrulha chega à RUA DOS PROTESTANTES e, quando menos espera, vira alvo. MODESTO atira por trás do carro. Os tiros matam os dois guardas civis a bordo, ANTÔNIO NOUCHE e MÁRIO MÁGLIO. A testemunha que ia no banco de trás teve mais sorte. FRANCISCO ALVES DE SOUZA ficou ferido por dois tiros, mas abaixou-se bem e saiu da mira do atirador. Fez mais, pegou o revólver de um dos guardas e disparou duas vezes contra MODESTO. Correu para um antigo prédio do serviço de trânsito, encontrou um sargento e passou-lhe a arma. Mais tarde, quando tudo terminou, soube-se que um dos tiros disparados por FRANCISCO havia atingido o soldado no peito. O ferimento não fora grave, porque o projétil desviou num botão de sua farda.

O delegado de “pernoite” na Central de Polícia, DELDUQUE GARCIA RIBEIRO, chegou à área aonde MODESTO tinha deixado seu rastro de mortos e feridos. Vinha com sua equipe e uma turma de reforço. Mas era tarde. Não havia mais sinal do soldado ensandecido. Pessoas do povo o informaram de que MODESTO tomara a direção do JARDIM DA LUZ. O delegado se comunicou com o oficial-de-dia do quartel-general da FORÇA PÚBLICA e solicitou providências. Os policiais da FORÇA PÚBLICA e da  GUARDA-CIVIL e patrulhas do Exército, intensificaram as buscas. Caçava-se o soldado com o mosquetão por toda a região. Na madrugada, uma ronda da FORÇA PÚBLICA que vinha pela Rua RODOLFO MIRANDA foi recebida a tiros. MODESTO atirava de um matagal, onde se escondera. Dado o alarma, as tropas convergiram para o local. A patrulha recebida a tiros recuou, espalhando-se os soldados pelas imediações. Responderam aos disparos e se travou violento tiroteio. Mas MODESTO saltando muros e atravessando quintais, logrou escapar. Às cinco horas, o soldado BASÍLIO LEME, de sentinela no HOSPITAL MILITAR da FORÇA PÚBLICA, viu que um homem se aproximava. O hospital ficava na Rua JOÃO TEODORO, bem perto do JARDIM DA LUZ. A sentinela contaria depois que o homem lhe disse: “Com nós não há nada. Acabou-se a munição”. Só então percebeu que o estranho era, na verdade, um colega de farda. Deixou-o entrar. Logo depois ouviu um tiro. O soldado MODESTO se suicidara, disparando contra o queixo talvez o último tiro de seu mosquetão.

No necrotério e nos hospitais contavam-se as vítimas de seus tiros: sete mortos e doze feridos. MODESTO “tinha um gênio irascível e era useiro e vezeiro em promover desordens em casas de tolerância”. Quatro meses antes, por motivos fúteis, havia travado “uma luta de duas horas com um corneteiro da FORÇA PÚBLICA, ambos armados de punhal”.

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