110 a. da REVOLTA
DA CHIBATA, liderada por JOÃO CÂNDIDO, o "ALMIRANTE NEGRO",
homenageado por JOÃO BOSCO e ALDIR BLANC na música "NAVEGANTE NEGRO", nos anos 1970. Em 1931, o poeta
surrealista francês BENJAMIN PÉRET se interessou pela narrativa da revolta dos
marinheiros e escreveu, em sua primeira viagem ao BRASIL, um trabalho sobre o
evento, intitulado “O ALMIRANTE NEGRO”. A revolta contra a chibata seria,
segundo PÉRET, uma versão tupiniquim do episódio ocorrido no encouraçado
POTEMKIM, uma rebelião de marujos russos, em 1905, no quadro da Revolução
Russa. PÉRET foi expulso do BRASIL devido à sua aproximação com o comunismo e
sua obra desapareceu, sendo destruída pela polícia de GETÚLIO VARGAS. Apenas
quatro páginas de “O ALMIRANTE NEGRO” foram encontradas recentemente. No dia 22 de novembro de 1910, um grupo de
marinheiros da Armada brasileira rebelou-se no RIO DE JANEIRO, assumindo o
controle dos principais navios da frota, os encouraçados MINAS GERAIS, SÃO
PAULO e DEODORO, além do cruzador BAHIA. Os canhões foram apontados contra o
palácio do CATETE, na época a sede do poder federal. Esses marinheiros, na maioria
negros, mulatos e migrantes nordestinos, pediam o fim dos castigos físicos,
aplicados pelo uso da chibata, e melhores condições de trabalho na Marinha.
Muitos desses rebeldes ficaram conhecidos pela imprensa em sua época.
Posteriormente, o líder do levante, o marinheiro JOÃO CÂNDIDO, tornou-se uma
figura simbólica até hoje reverenciada por uns, mas pouco conhecida do grande
público e sem reconhecimento em seu universo de origem, a Marinha brasileira. A
revolta, que durou da noite do dia 22 até 26 de novembro de 1910, provocou
pânico, sobretudo na cidade do RIO DE JANEIRO. Os jornais da época mostram que
a população carioca teve o reflexo de fugir do centro da cidade e das regiões
litorâneas, com medo dos canhões dos poderosos navios. Mesmo assim, uma parte
da imprensa manifestou simpatia pelas reivindicações dos marinheiros. O governo
de HERMES DA FONSECA, que havia tomado posse uma semana antes, experimentava
com o evento sua primeira crise política. É importante lembrar que HERMES DA
FONSECA havia disputado as eleições com RUY BARBOSA, durante o ano de 1909 e
início de 1910, quando houve uma mobilização de setores da população em torno
das candidaturas de HERMES DA FONSECA, defendida pelos militaristas, e de RUY
BARBOSA, apoiado pelos civilistas, segundo a terminologia da época. Esse clima
de divisão seria retomado no Congresso com a revolta, havendo desconfiança e
pressão de ambas as partes. Quase mil marinheiros foram excluídos da Marinha no
início de dezembro do mesmo ano. Nesse mesmo mês, eclodiu uma nova rebelião
cujas razões são pouco conhecidas, dessa vez um levante dos fuzileiros navais.
Essa segunda rebelião foi massacrada em poucas horas pelas forças oficiais da
República brasileira. JOÃO CÂNDIDO foi obrigado a viver o pesadelo da solitária
na ILHA DAS COBRAS, sendo um dos únicos sobreviventes. Ao sair da solitária,
foi mandado para tratamento em hospital psiquiátrico. Mais tarde, ele afirmou
que teria sido enviado para esse lugar para não depor nos processos que
aconteciam na época. No fim de sua estadia no hospital psiquiátrico, JOÃO
CANDIDO foi submetido ao CONSELHO DE GUERRA e excluído da Marinha por conclusão
do tempo de serviço. Retomou então à vida civil, sempre perseguido pela
instituição a que servira. Tentou entrar na Marinha Mercante, mas encontrou
muitos obstáculos. Experimentou morar na ARGENTINA e na GRÉCIA. Recebeu também
um convite para viver na INGLATERRA, mas não conseguiu se adaptar fora do
BRASIL. Sem outra alternativa, entrou no mercado da pesca na praça XV, no RIO,
onde permaneceu até os 40 anos. Nessa altura, partiu para o RIO GRANDE DO SUL
para receber uma pensão de seu Estado, garantida pelo governo de LEONEL
BRIZOLA, da qual iria usufruir até o fim da vida. O marinheiro JOÃO CÂNDIDO
nasceu no dia 24 de junho de 1880, em RIO PARDO, no RIO GRANDE DO SUL, hoje
ENCRUZILHADA DO SUL. Ele faleceu em 1969, aos 89 anos, em decorrência de uma
infecção no estômago.

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