89 a. do manifesto da FRENTE ÚNICA GAÚCHA, de
25 de agosto de 1932:
Na hora histórica em que nos alçamos, de armas na mão, para
ajudar o heróico São Paulo, na sua pugna titânica pela restauração da ordem
institucional e da liberdade política do país, ao altivo povo rio-grandense
devemos a nossa primeira palavra cheia de fé e de amor, para dar-lhe a
conhecer, na sua realidade insofismável, os graves imperativos de ordem moral e
cívica que nos compeliram á atitude extrema em que nos encontramos.
De sobejo sabe o Rio Grande do Sul, a partir de março último,
quando alguns de seus filhos mais ilustres se viram na contingência de
abandonar seus postos na administração federal, que os seus grandes e
tradicionais partidos deliberaram abster-se, daí em diante, de qualquer
colaboração com o governo da República. Continuamos, porém, a dar todo o nosso
apoio ao interventor federal no Estado, porque se identificara ele com os
nossos pontos de vista e, sendo sempre “magna pars” em nossas conferências e
decisões coletivas, selara conosco o pacto de acompanhar-nos, em qualquer
emergência, não excluída mesmo a que nos pudesse arrastar ao precipício.
Assumimos assim e sucessivamente compromissos de honra com a Nação,
especialmente com São Paulo, a quem asseguramos solidariedade e apoio material
para suas justas reinvindicações de caráter regional e nacional. Depois de
muito sofrer e tolerar, rebela-se este Estado contra a ominosa ditadura e com
esta trava um prélio homérico em defesa dos mais nobres ideais da Pátria.
Era-nos lícito esperar que, nessa excepcional conjuntura,
assumisse o sr. Flores da Cunha uma atitude benévola senão favorável a São
Paulo, conforme nos autorizavam a crer as suas anteriores manifestações
públicas e o seu perfeito entendimento, até então, com os representantes da
Frente Única rio-grandense. Eis, porém, que s.exa., com surpresa geral, adota o
partido contrário e passa a ser um servidor incondicional da ditadura, contra a
qual chegara antes a armar-se e a não dissimular certas ameaças. É pois a nossa
atitude, antes de mais nada, o protesto moral do Rio Grande republicano e
libertador contra esse golpe de surpresa, que nos obrigou a abandonar á sua
própria sorte, nas primeiras semanas de luta, os nossos heroicos e invencíveis
aliados de São Paulo. POR DOLOROSA IRONIA DO DESTINO É O RIO GRANDE, QUE
PRIMEIRO LEVANTOU O SEU PROTESTO CONTRA OS DELÍRIOS DE UM GOVERNO
OSTENSIVAMENTE DIVORCIADO DA MORAL E DA RAZÃO, QUE ESTÁ SUSTENTANDO ESSE
GOVERNO, ENTRADO EM REPULSIVA AGONIA DE SANGUE. Não fossem as forças com que o
interventor está mandando combater os exércitos constitucionalistas de São
Paulo e por certo não se haveria criado o impasse que está custando milhares de
vida ao Brasil e desorganizando por completo a sua entrosagem econômica. Não
fora o auxílio prestado à ditadura pelo interventor ao preço de nossa humilhação
e já estaria terminada a revolução com a implantação de uma junta governativa
formada de homens probos, capazes de reconduzir o país aos quadros da lei.
Impossível imaginar, na altura a que chegaram os
acontecimentos, que a luta fratricida possa chegar a termo dentro de poucos
meses. A continuar o morticínio nas fronteiras paulistas, será o Brasil dentro
em breve um cenário de ruínas. O vencedor recolherá a vitória sobre os
escombros da Pátria. E tudo isto porque o Rio Grande ainda não cumpriu o seu
dever e está combatendo a sua própria causa – que é a causa da nação
brasileira, cansada de tutelas ineptas e de ridículas ideologias.
Dirigimos daqui o nosso veemente apelo aos nossos concidadãos
e às classes conservadoras, para que não cooperem pela sua inação, na
irremediável desorganização do nosso patrimônio econômico. Calcule-se o que já
estará custando este primeiro mês de julho de luta armada às fortunas públicas
e particulares do país. Dentro em breve o Brasil pagará tantas loucuras e
tamanhos crimes com a sua falência integral. E por que se combate, afinal, no
Brasil? Combate-se porque a Nação se nega o direito de governar-se por si
mesma, sob o pretexto, que seria infame, se não fosse ridículo, de que ela
ainda não está preparada para reingressar no regime da Lei.
Não se iluda o povo rio-grandense. Aqueles que a ditadura
acoima de reacionários outro crime não cometem senão o de dissentir da
indefinida prolongação de um governo discricionário e arbitrário, sem recursos
nem finalidades, a não ser o da própria conservação.
Temos a certeza absoluta de que o Rio Grande está ao nosso
lado. O Rio Grande nunca foi uma terra amorfa à discrição de qualquer governo
só pelo fato de ser governo. Possui o Rio Grande, pelo contrário, e nobre
consciência dos seus direitos e deveres cívicos. No Rio Grande quem não é
republicano é libertador. E tanto um como outro dos nossos partidos está pronto
a condenar hoje, pela ação, o que condenava ontem por palavras. Começa o Rio
Grande, nesta grande hora, a cumprir a sua palavra empenhada em favor da Nação.
Os compromissos morais ainda não são letra morta para o seu povo. O Brasil pode
confiar em nós. Aqui ainda vive uma coletividade de homens e não uma horda de
espectros de homens.
Nossa será a vitória, e tanto vale dizer que a vitória será
do povo brasileiro.
Rio Grande : honra o
compromisso de teus filhos ! Rio Grande : sê digno da tua história ! Rio Grande
: segue a tua legenda imortal !
Em 25 agosto 1.932.
Borges de Medeiros, Raul Pilla, Batista Luzardo, Lindolfo
Collor.

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