quarta-feira, 25 de agosto de 2021

89 ANOS DO MANIFESTO DA FRENTE ÚNICA GAÚCHA, EM 25 DE AGOSTO DE 1932 - MOVIMENTO CONSTITUCIONALISTA DE 1932.

 






  89 a. do manifesto da FRENTE ÚNICA GAÚCHA, de 25 de agosto de 1932:

Na hora histórica em que nos alçamos, de armas na mão, para ajudar o heróico São Paulo, na sua pugna titânica pela restauração da ordem institucional e da liberdade política do país, ao altivo povo rio-grandense devemos a nossa primeira palavra cheia de fé e de amor, para dar-lhe a conhecer, na sua realidade insofismável, os graves imperativos de ordem moral e cívica que nos compeliram á atitude extrema em que nos encontramos.

De sobejo sabe o Rio Grande do Sul, a partir de março último, quando alguns de seus filhos mais ilustres se viram na contingência de abandonar seus postos na administração federal, que os seus grandes e tradicionais partidos deliberaram abster-se, daí em diante, de qualquer colaboração com o governo da República. Continuamos, porém, a dar todo o nosso apoio ao interventor federal no Estado, porque se identificara ele com os nossos pontos de vista e, sendo sempre “magna pars” em nossas conferências e decisões coletivas, selara conosco o pacto de acompanhar-nos, em qualquer emergência, não excluída mesmo a que nos pudesse arrastar ao precipício. Assumimos assim e sucessivamente compromissos de honra com a Nação, especialmente com São Paulo, a quem asseguramos solidariedade e apoio material para suas justas reinvindicações de caráter regional e nacional. Depois de muito sofrer e tolerar, rebela-se este Estado contra a ominosa ditadura e com esta trava um prélio homérico em defesa dos mais nobres ideais da Pátria.

Era-nos lícito esperar que, nessa excepcional conjuntura, assumisse o sr. Flores da Cunha uma atitude benévola senão favorável a São Paulo, conforme nos autorizavam a crer as suas anteriores manifestações públicas e o seu perfeito entendimento, até então, com os representantes da Frente Única rio-grandense. Eis, porém, que s.exa., com surpresa geral, adota o partido contrário e passa a ser um servidor incondicional da ditadura, contra a qual chegara antes a armar-se e a não dissimular certas ameaças. É pois a nossa atitude, antes de mais nada, o protesto moral do Rio Grande republicano e libertador contra esse golpe de surpresa, que nos obrigou a abandonar á sua própria sorte, nas primeiras semanas de luta, os nossos heroicos e invencíveis aliados de São Paulo. POR DOLOROSA IRONIA DO DESTINO É O RIO GRANDE, QUE PRIMEIRO LEVANTOU O SEU PROTESTO CONTRA OS DELÍRIOS DE UM GOVERNO OSTENSIVAMENTE DIVORCIADO DA MORAL E DA RAZÃO, QUE ESTÁ SUSTENTANDO ESSE GOVERNO, ENTRADO EM REPULSIVA AGONIA DE SANGUE. Não fossem as forças com que o interventor está mandando combater os exércitos constitucionalistas de São Paulo e por certo não se haveria criado o impasse que está custando milhares de vida ao Brasil e desorganizando por completo a sua entrosagem econômica. Não fora o auxílio prestado à ditadura pelo interventor ao preço de nossa humilhação e já estaria terminada a revolução com a implantação de uma junta governativa formada de homens probos, capazes de reconduzir o país aos quadros da lei.

Impossível imaginar, na altura a que chegaram os acontecimentos, que a luta fratricida possa chegar a termo dentro de poucos meses. A continuar o morticínio nas fronteiras paulistas, será o Brasil dentro em breve um cenário de ruínas. O vencedor recolherá a vitória sobre os escombros da Pátria. E tudo isto porque o Rio Grande ainda não cumpriu o seu dever e está combatendo a sua própria causa – que é a causa da nação brasileira, cansada de tutelas ineptas e de ridículas ideologias.

Dirigimos daqui o nosso veemente apelo aos nossos concidadãos e às classes conservadoras, para que não cooperem pela sua inação, na irremediável desorganização do nosso patrimônio econômico. Calcule-se o que já estará custando este primeiro mês de julho de luta armada às fortunas públicas e particulares do país. Dentro em breve o Brasil pagará tantas loucuras e tamanhos crimes com a sua falência integral. E por que se combate, afinal, no Brasil? Combate-se porque a Nação se nega o direito de governar-se por si mesma, sob o pretexto, que seria infame, se não fosse ridículo, de que ela ainda não está preparada para reingressar no regime da Lei.

Não se iluda o povo rio-grandense. Aqueles que a ditadura acoima de reacionários outro crime não cometem senão o de dissentir da indefinida prolongação de um governo discricionário e arbitrário, sem recursos nem finalidades, a não ser o da própria conservação.

Temos a certeza absoluta de que o Rio Grande está ao nosso lado. O Rio Grande nunca foi uma terra amorfa à discrição de qualquer governo só pelo fato de ser governo. Possui o Rio Grande, pelo contrário, e nobre consciência dos seus direitos e deveres cívicos. No Rio Grande quem não é republicano é libertador. E tanto um como outro dos nossos partidos está pronto a condenar hoje, pela ação, o que condenava ontem por palavras. Começa o Rio Grande, nesta grande hora, a cumprir a sua palavra empenhada em favor da Nação. Os compromissos morais ainda não são letra morta para o seu povo. O Brasil pode confiar em nós. Aqui ainda vive uma coletividade de homens e não uma horda de espectros de homens.

Nossa será a vitória, e tanto vale dizer que a vitória será do povo brasileiro.

Rio Grande : honra o compromisso de teus filhos ! Rio Grande : sê digno da tua história ! Rio Grande : segue a tua legenda imortal !

Em 25 agosto 1.932.

Borges de Medeiros, Raul Pilla, Batista Luzardo, Lindolfo Collor.

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