92 a. nasce o
ator LIMA DUARTE, o nosso “SINHOZINHO MALTA” da novela “ROQUE SANTEIRO”, em 29
de março de 1930. “Voz de sovaco”, avaliou o diretor artístico da Rádio TUPI,
de São Paulo, quando ouviu o candidato a locutor ARICLENES VENÂNCIO MARTINS.
Era 1946 e o rapaz de 16 anos só não voltou para MINAS GERAIS porque um
comovido técnico de som o convidou para trabalhar como operador. “Eu chegava às
5 horas da manhã para ligar as válvulas e, quando estavam quentes, a emissora
entrava no ar”, diverte-se LIMA DUARTE, o tal candidato que, graças ao
interesse de ODUVALDO VIANA, logo iniciou uma conhecida carreira artística.
O pseudônimo foi sugerido pela mãe, espírita, a partir do
seu guia de luz. Aos 80 anos, completados em 2010, ele se poderá orgulhar das
56 novelas das quais participou como ator ou diretor, além de 32 filmes. “E
tenho outros cinco em produção ou prestes para lançar”, orgulha-se ele que logo
viajará para PORTUGAL, onde vai rodar apenas uma cena de OLHOS VERMELHOS, novo
longa de PAULO ROCHA. “É uma pequena participação, mas será como uma
homenagem.”
De lá, o ator pretende seguir para PARIS, onde poderá
comemorar novamente o aniversário – nesta segunda-feira, dia 29, ficará em seu
sítio, no interior de São Paulo. Apesar de ser mais conhecido por personagens
de novela como SALVIANO LISBOA (PECADO CAPITAL), ZECA DIABO (O BEM-AMADO),
SASSÁ MUTEMA (O SALVADOR DA PÁTRIA) e SINHOZINHO MALTA (ROQUE SANTEIRO), LIMA
acredita que o trabalho mais aprofundado só encontra espaço no cinema. “E nos
filmes que consigo captar o lado mais obscuro de cada personagem.”
Se fosse possível apontar apenas um exemplo, bastaria
SARGENTO GETÚLIO, dirigido por HERMANO PENA em 1978 (e lançado em 1983),
inspirado no texto de JOÃO UBALDO RIBEIRO. LIMA vive o rude sargento da PM do
SERGIPE encarregado, no final dos anos 1940, de acompanhar um preso político
inimigo de seu chefe. Durante a viagem, ele discute com o prisioneiro e, mesmo
que uma mudança na conjuntura política o obrigue a libertá-lo, GETÚLIO decide
cumprir sua missão até o fim, transformando a remoção no principal sentido de
sua existência.
É na tela pequena, porém, que LIMA DUARTE mantém um
contato mais constante – aliás, desde seu nascedouro, em 1950. “A chegada da TV
acabou com nossa quadra de peteca”, diverte-se. “Eu, a HEBE CAMARGO e outros
artistas do rádio costumávamos brincar naquele espaço, no SUMARÉ, quando a
ocuparam para montar o primeiro estúdio de TV do BRASIL.”
Lá, ele participou de sua primeira telenovela, SUA VIDA
ME PERTENCE, em 1951, iniciando uma parceria que parece infinita. “Quando me
lembro desses momentos, me vem uma frase de SANTO AGOSTINHO, que dizia: “A
memória é a morada da alma.”
E, em 2010, aos 80 anos, continuam as descobertas. Como
participar de um filme com história espírita, A VIDA CONTINUA, dirigida pelo
ator PAULO FIGUEIREDO. “São 7 milhões de espíritas no BRASIL, um público muito
atento aos assuntos que lhe interessam.”
O jornal DIÁRIO DE SÃO PAULO, em sua edição de 28 de
abril de 2015, publica a seguinte reportagem: LIMA DUARTE, 85 anos, se orgulha
de ter alma cabocla. Puxada pelos fios da memória, a história de sua vida se
mistura com a da televisão. A linha mágica da criação do ator nasce e morre
nesse "mundo vasto mundo", ao qual apenas ele tem acesso, revelando
prosa e verso de uma essência interiorana, SASSÁ MUTEMA - o protagonista de
"O SALVADOR DA PÁTRIA" (1989) - talvez seja o exemplo que melhor
traduz a raiz de sua arte. Há sete décadas distante do pequeno DESEMBOQUE (MG),
distrito onde nasceu, LIMA recria o boia-fria numa fase ingênua. A maneira com
que narra a saga do personagem deixa claro como ele, um homem tão afeito à
solidão, encontra doces companhias.
"SASSÁ tinha uma ideia original linda. Ele não sabia
amar, conversar, escrever, ler, mas tinha o dom de manipular as flores e
fazê-las vicejar. Durante a novela, aprende mais e mais sobre menos e menos. No
fim, quando se torna senador, as flores não vicejam mais", diz o ator, que
ficou marcado pelo bordão "IEU" (versão caipira de EU°).
A trama de LAURO CÉSAR MUNIZ dava sabor a um contexto
efervescente e delicado. Após mais de 30 anos de ditadura militar, o BRASIL
teria sua primeira eleição direta para presidente. Os planos do autor haviam
sido esboçados, e SASSÁ ocuparia o cargo naquele 12 de agosto, quando o último
capítulo fosse exibido.
Fora da ficção, LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA e FERNANDO
COLLOR DE MELLO polarizavam a disputa. Mas o correr da vida embrulha tudo. O
matuto de LIMA, um homem do povo, foi associado ao candidato do Partido dos Trabalhadores,
o que gerou uma pressão dos dois lados: a esquerda achava o personagem muito
manipulável, e a direita via nele uma propaganda petista.
"Surgiu um grande impasse: SASSÁ não poderia ser
eleito! Fiquei abalado, chocado", recorda LAURO, que mudou a história.
Uma subtrama policial envolvendo narcotráfico ganhou
destaque, e o destino do protagonista, embora também encerrado em BRASÍLIA, foi
alterado. Vinte e seis anos depois, com a barba branca destacada no que antes
era o emblemático bigode preto, LIMA DUARTE acarinha o papel que ajudou a
conceber e dimensiona a insatisfação com o desfecho: "SASSÁ era maior que
LULA. Foi amado e entendido em sua grandeza. Compreenderam aquele chapéu, o
jeito de falar. Ele era profundo. Muito mais do que um papel de novela ou um
político. Era uma metáfora do BRASIL.
No camarim, o rosto de LIMA ganha uma camada de maquiagem
para aproximá-lo do boia-fria de décadas atrás. Diante do espelho, encara o
reflexo e estranha. Brinca: "Depois de tudo, SASSÁ vira uma bicha
velha" (risos).
LIMA se emociona com o que vê no espelho. E elogia, mais
uma vez, o personagem. "Ele era muito sensível. Será que termina assim,
produto acabado da política, melancólico? Acho que não. Talvez fosse
assassinado, após tentar exercer uma liderança", pontua ele, que conclui:
"Os papéis vão morrer comigo, mas não fico pensando neles". Parabéns,
LIMA!
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