28 a. falece o poeta MÁRIO
QUINTANA aos 87 anos, no hospital MOINHOS DE VENTO,
É de
MÁRIO QUINTANA o seguinte trecho:
FELICIDADE
REALISTA
A princípio, bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um
pacote louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos.
Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde,
ser magérrimos, sarados, irresistíveis.
Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida e o
cinema: queremos a piscina olímpica e uma temporada num spa cinco estrelas.
E quanto ao amor? Ah, o amor... não basta termos alguém com quem
podemos conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando. Isso é
pensar pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo. Queremos estar visceralmente apaixonados,
queremos ser surpreendidos por declarações e presentes inesperados, queremos
jantar à luz de velas de segunda a domingo, queremos sexo selvagem e diário,
queremos ser felizes assim e não de outro jeito.
É o que dá ver tanta televisão.
Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais
realista.
Ter um parceiro constante, pode ou não, ser sinônimo de
felicidade. Você pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais,
feliz com um parceiro, feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo,
principalmente quando se trata de amor-próprio.
Dinheiro é uma benção. Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo, usufruí-lo.
Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o suficiente para se
sentir seguro, mas não aprisionado E se a gente tem pouco, é com este pouco que
vai tentar segurar a onda, buscando coisas que saiam de graça, como um pouco de
humor, um pouco de fé e um pouco de criatividade.
Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o
improvável.
Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato,
amar sem almejar o eterno. Olhe para o relógio: hora de acordar. É importante
pensar-se ao extremo, buscar lá dentro o que nos mobiliza, instiga e conduz mas
sem exigir-se desumanamente.
A vida não é um jogo onde só quem testa seus limites é que leva o
prêmio.
Não sejamos vítimas ingênuas desta tal competitividade. Se a meta
está alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras,
demita-se.
Invente seu próprio jogo. Faça o que for necessário para ser
feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode
encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. Ela
transmite paz e não sentimentos fortes, que nos atormenta e provoca inquietude
no nosso coração. Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não
felicidade.
(Mário Quintana)
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